quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Boas Festas

[Clique na imagem para ver o postal]


Aproveite bem o Algarve nestes dias festivos. Voltamos em 2011 com mais histórias e muitos segredos algarvios...

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

O gato sortudo

Por Corina Justo
[Técnica de Turismo - São Brás de Alportel]

Encontrei há pouco uma fotografia que me fez recuar até ao ano de 1997, quando o posto de turismo de São Brás de Alportel ainda funcionava no desactivado posto da polícia e brigada de trânsito, um modelo de edifício utilizado durante o Estado Novo e que apesar do seu espaço exíguo, era bastante funcional.

Nessa fotografia aparece uma turista de que me lembro bem. Era dinamarquesa e segurava um gatinho de raça aparentemente siamesa.
A senhora tinha encontrado o gatinho errando na estrada e muito preocupada, dirigiu-se ao posto de turismo para solicitar o contacto do veterinário mais próximo a fim de tratar dos documentos necessários para levá-lo consigo para a Dinamarca. O assunto foi resolvido e a senhora voltou ao posto antes de partir para se despedir e mostrar o gatinho já devidamente tratado.

Muitos dos turistas estrangeiros que nos visitam preocupam-se com o bem-estar animal e alguns deles nem hesitam em recolher animais abandonados, que para muita gente ainda parecem ser um problema. Foi o caso desta senhora que recordo com simpatia.


terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O Tio Galinho


Por Ilídia Sério
[Empresária - Restaurante Casa Algarvia, Faro]

Nasci e vivi até à adolescência, na Rua Dr. Rodrigues Davim, uma das ruas adjacentes ao bairro do Alto Rodes. Lembro-me que a rua não era asfaltada e quando chovia - e se chovia naquele tempo - a água que escorria pela rua, abria grandes sulcos no chão, que dificultavam a passagem.
Costumo dizer que era uma rua abençoada porque ficava exactamente entre a adega do Abel Pereira da Fonseca e a adega do João Pires.
Era uma daquelas ruas típicas em que todos os moradores se conheciam, eram como família, ajudavam-se uns aos outros e principalmente, conviviam.
Desse convívio fazia parte o juntarmo-nos na rua, sentados cada um à sua porta, após o jantar, a apanhar o fresquinho da noite. E, como é óbvio, contavam-se estórias.
Lembro-me de todos os meus vizinhos, dos nomes, das fisionomias, de algumas características - as mais evidentes claro - pois era ainda muito nova para esmiuçar o feitio de cada um.
Desses vizinhos destaco o Tio Galinho, um pescador baixinho que à noite juntava à sua volta todos os miúdos da rua. Contava que uma vez estava a dormir dentro do barco e que tinha vindo uma bruxa que o levara pelo ar, até à Índia. Sim, ele tinha ido à Índia e voltara nessa noite e contava o que vira por lá. E nós, crianças, ouvíamos crédulas, deliciadas e de boca aberta, esta e outras aventuras narradas pelo bom contador de estórias que era o Tio Galinho.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O Algarve está com a selecção

Por Pedro Bartilotti
[Programador Allgarve - Faro]

Esta história remonta ao Europeu de Futebol 2004 realizado em Portugal.

Tudo começou com o meu desencanto ao perceber que as iniciativas que estavam a ser realizadas em torno deste evento não continham os ingredientes à altura. Faltava festa, alegria, descontracção, cor… Perante este cenário, lembrei-me então de criar uma personagem baseada num artista que eu na altura representava: o Beto Kalulú.

O primeiro desafio que lhe fiz teve como base a sua imagem de marca. Estou a falar da sua farta cabeleira. Expliquei-lhe a ideia que tinha em mente e perguntei-lhe se tinha algum problema em pintar essa mesma cabeleira com a bandeira de Portugal, ao que ele respondeu sem hesitar que estava 100% disponível.

Seguidamente fui ressuscitar uma música que ele tinha gravado em Londres (estilo remix) e adaptei-a, com uma letra simples e patriótica, ao tema em questão.

Tinha de dar um nome à personagem. Betuga foi o nome que escolhi, uma mistura de Beto com Tuga. O cenário estava a criar forma.

O passo seguinte foi conseguir o apoio de um cabeleireiro e fazer a experiência da pintura da cabeleira. O Cabeleireiro Saint Karl situado no Fórum Algarve foi o escolhido.



Depois de encontrada a personagem, a música e o cabeleireiro, restava arranjar uma forma de dar a conhecer este projecto. Telefonei na altura para a SIC e esta acedeu prontamente a registar todo o processo de transformação do Betuga. A reportagem, com cerca de quatro minutos, passou em horário nobre no jornal da noite e a partir daí foram dois meses sem parar. Televisões, rádios, jornais, etc.

Recordo-me de um dia, quando ao regressarmos de uma ida a Lisboa acompanhados pelas “nossas” cabeleireiras, a dado momento, o Betuga resolve descalçar as suas sapatilhas e colocar os pés no tablier do carro. Até aí tudo bem, não fosse passado poucos segundos começar a sentir-se um odor nada agradável dentro da viatura. Pensei então no que haveria de fazer. Ganhei coragem e disse:
“ Desculpa Beto, mas calça por favor as sapatilhas…”, ao que ele respondeu:
“ O quê? Não pode ser. É impossível… Eu nunca cheirei mal dos pés…”.
Eu disse novamente:
“ Desculpa lá, mas assim que tiraste as sapatilhas sentiu-se logo o cheiro…”.
Betuga aproximou os pés do seu nariz e continuou a afirmar que os seus pés não cheiravam mal. Foi então que abrimos as janelas e realmente o homem tinha razão. Afinal o cheiro vinha da fábrica de celulose… Foi uma risota para todos, incluindo as cabeleireiras que viajavam connosco. Afinal as coincidências acontecem quando menos esperamos e neste caso deu para a boa disposição e alegria.

Teria dezenas de histórias passadas com esta personagem para contar. Talvez as escreva, um dia. Entretanto, fiquem com estas fotos e imaginem o que quiserem…

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O meu Natal

Por Angela Reis
[Técnica de Comunicação e Imagem no Turismo do Algarve]

Eu adoro o Natal. Não pelas prendas, não pelos doces, que também adoro, nem propriamente só pela noite da Consoada, mas por toda a preparação e envolvente que antecede os dias 24 e 25 de Dezembro.
Desde miúda que a minha mãe sempre me incutiu este gosto. Tudo começava no dia 8 de Dezembro, não sei porque razão mas, na minha casa, a árvore de Natal só se montava no dia 8 e retirava-se a 8 de Janeiro. Já tinha lugar cativo na sala, mesmo ao lado do presépio que também era feito por nós, em família. Eu fazia os caminhos em cartolina e colocava sinais de trânsito. Na minha inocência, sem perceber muito bem porque razão não havia carros naquela altura, colocava os sinais para as vaquinhas e para as ovelhas, colocava a estrelinha que guiava os Reis magos e punha areia em volta. Só não havia musgo, porque morávamos na cidade.
Nunca participei nas compras de Natal, nem me chamava a atenção - até hoje é uma das partes que mais me aborrece - mas adorava ver a minha mãe chegar a casa com aqueles embrulhos todos e colocá-los debaixo da árvore, sem nomes, para me baralhar, e levava os serões de volta da árvore a pegar nos presentes e a perguntar:
“É este que é para mim, mãe?”
A resposta, sempre negativa, era como uma facada no meu pequeno coração…
“As prendas dos meninos, são entregues pelo Pai Natal, que só vêm no dia 24 porque até lá está à espreita para ver quem se porta bem e merece o presente, essas que estão na nossa árvore são para os adultos”.
E eu acreditava, até porque nas histórias que via na TV, o Pai Natal só levava prendas para as crianças. E então lá ficava, com aquela ansiedade, a ver a árvore a aumentar e a suspirar para saber se o Pai Natal achava que eu me tinha portado bem…



Chegava então o dia 24. Logo pela manhã, lembro-me de acordar em êxtase para ajudar (ou atrapalhar) a minha mãe na cozinha. O meu pai tratava da comida (isso não me interessava) e a minha mãe tratava dos doces (essa sim, era a parte que me entusiasmava) – as rabanadas, os sonhos, as filhós, o tronco! Eram horas que me enchiam a alma de alegria. Depois começava a chegar a família, sempre sem crianças - eu era a única até aos nove anos, altura em que nasceu a minha irmã - e os adultos começavam com aquelas conversetas de “gente grande” que me aborreciam. Então eu ia ver os filmes de Natal até que me deixava dormir. Raramente ficava acordada até à meia-noite. Às vezes os meus pais acordavam-me, outras nem por isso e a alegria de abrir os presentes durava um pequeno instante do dia seguinte, até porque não recebíamos nem um terço do que os miúdos recebem hoje em dia, mas dávamos muito mais valor ao que recebíamos.
O dia de Natal era passado na casa da minha avó paterna e era como reviver tudo outra vez, mas com outras caras. Boa! Mais presentes, mais doces, mais alegria. E na casa da minha avó era sempre eu quem distribuía os presentes que o Pai Natal tinha lá deixado na noite anterior. Que grande honra!
Depois do almoço e durante muitos anos, o ritual era sempre o mesmo: quer chovesse ou fizesse sol íamos ver o Presépio dos Bombeiros Municipais de Faro e deitávamos uma moedinha para dar sorte para o novo ano e ajudar os mais carenciados. E eu adorava ver as figurinhas e pensar como seria viver ali. Só não percebia porque razão não tinham sinais de trânsito.
Hoje, e já adulta, tento não perder o verdadeiro espírito do Natal e tento que o consumismo não se apodere de mim, pois afinal o que importa é a comemoração desta época tão especial!

Adivinhas - as respostas

Aqui ficam as respostas às adivinhas que publicámos ontem. Quem tentou a sua sorte na caixa de comentários do post anterior apenas acertou em algumas delas.

1 - O qu’é aquilo…Redondo como um capacho, fundo com’um baraço?
Um poço2 - O qu’é aquilo que tem asas e boca maj nã avoa?
Um cântaro
3 - O qu’é aquilo … tava pra passar, mas nã passou; se nã passasse quem passou, passava; mas com’passou quem passou, nã passou?
Um cacho de uvas; um figo - que são colhidos e comidos4 - O qu’é aquilo que corre serros e barrancos com um pedaço de carne na bôca e nã o come?
Um sapato, uma bota5 - Cal é, Cal é … quem nã ad’vinha, besta é?
A cal

Fonte:
LOURO, Estanco - O livro de Alportel. 3ªed. S. Brás de Alportel : Câmara Municipal , 1996. 470 p.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Adivinhas

Por Turismo do Algarve
Hoje propomos aqui algumas adivinhas. São transcritas tal como o autor da sua recolha as grafou, até porque estamos num blogue algarvio…
Quem quiser pode tentar responder na caixa de comentários. Amanhã indicaremos a fonte destes textos e também as devidas respostas.

1 - O qu’é aquilo…Redondo como um capacho, fundo com’um baraço?


2 - O qu’é aquilo que tem asas e boca maj nã avoa?


3 - O qu’é aquilo … tava pra passar, mas nã passou; se nã passasse quem passou, passava; mas com’passou quem passou, nã passou?


4 - O qu’é aquilo que corre serros e barrancos com um pedaço de carne na bôca e nã o come?


5 - Cal é, Cal é … quem nã ad’vinha, besta é?


quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Suite das Descobertas

Por Armando Mota
[Maestro e Compositor - Algarve]

Ao longo da minha carreira como maestro e pianista tive vários desafios importantes, mas nenhum se compara com aquele que me foi feito pelo Paulo Neves e pelo Presidente Júlio Barroso. Escrevo música desde os oito anos, tendo feito de tudo, desde música para filmes até óperas para crianças, mas no entanto, uma obra desta dimensão causou-me alguma preocupação e de certeza que faria o mesmo aos mais experientes e consagrados.

Costumo dizer que não se pode escolher o pai ou a mãe, nem o sítio onde se nasce ou morre, mas pode-se escolher o sítio onde se quer viver. Depois de onze anos em Viena e dez em Berlim, e mais uns quantos por essa Europa, decidi fixar-me no Algarve. Embora esta região não apresente uma dinâmica cultural semelhante a Viena ou a Berlim, permite uma vida com qualidade, e sinto que devo colocar a minha experiência profissional e pessoal ao serviço do seu desenvolvimento. É que a minha relação com o Algarve já vem de longe e começou aos oito anos quando vim de férias para Sagres pela primeira vez. Hoje a minha relação com a região é profunda, quase como se aqui tivesse nascido e acresce que eu adoro o mar! Sem poder vê-lo falta-me qualquer coisa que nada deste mundo pode substituir.



A grande dificuldade que senti ao escrever esta obra foi conseguir não a tornar demasiado complexa, fugir ao intelectual e inovador, ao pretensioso e sobranceiro. Nos nossos dias não escrever atonal é quase uma ofensa e corre-se o risco de sermos apodados de conservadores, plagiadores, etc. Pois bem, é com muito orgulho que anuncio que nesta obra grandes mestres da música me ajudaram. De Rachmaninof a Ravel, de Beethoven a Prokoffief. Todos eles me influenciaram. Que me perdoem os meus colegas modernos da música electrónica, os seguidores de Emmanuel Nunes, e tantos outros grandes nomes da música moderna. Tenho o maior respeito pelo trabalho que desenvolvem, mas, depois de passar horas infinitas em Sagres a ouvir o barulho do silêncio e a música do mar, não consigo associar as correntes modernas da música a essa atmosfera única. Quis de alguma forma fazer um “Filme” sonoro em que os ouvintes se pudessem transportar para a epopeia dos portugueses. Tentei fazer uma “sonoplastia” dos sons que os marinheiros poderiam ter ouvido e que se adequasse ao nosso imaginário do século XXI.

Esta foi uma obra feita a olhar o mar, da varanda da minha casa em S. Rafael, a passear em Sagres, e em muitas, muitas horas ao piano. Foi uma honra enorme e um prazer inesquecível ter feito este trabalho. É também para mim a melhor forma de ficar ligado à região e a todos vós.

Sagres

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Gente real ao vivo e a cores


Por Maria João Santos
[Técnica Superior - Direcção Regional de Economia do Algarve]

Era uma vez uma escola secundária cheia de alunos felizes que não usavam computadores, nem tinham dinheiro para comprar roupas de marca e iam a pé, ou à boleia, para a praia de Faro, quando o bom tempo o permitia.
Eram rapazes e raparigas que viviam amizades reais, juntavam-se sem pedir para ser adicionados, surgiam naturalmente e naturalmente iam ficando nas vidas uns dos outros. Tinham em comum a vontade e a alegria de viver. Eu pertenci a esse mundo colorido em que ser igual ou diferente não nos preocupava. Na época, os alunos dessa escola não eram totalmente livres, mas como não se apercebiam dessa situação, brincavam, namoravam e conviviam de forma saudável e feliz. Não… não era o paraíso na terra, nem nós éramos tolos ou santos, mas ninguém naquela idade e principalmente naquele meio, tinha perfeita noção da aparente liberdade.

Perto dessa escola havia a Alameda João de Deus, onde vivi um episódio que sempre recordarei com uma sonora gargalhada. Teria os meus doze ou treze anos e, sempre que não havia aulas, lá estava eu a andar de patins de rodinhas, a jogar minigolfe ou a brincar às escondidas (nessa época a malta brincava até tarde…aliás eu ainda brinco). Em Faro, a Alameda, mesmo em frente à PSP, era o local ideal para tudo isso, incluindo estudar e namorar.

Uma tarde, em que a professora de uma aula de duas horas faltou, a Alameda rodeada por grades verdes serviu mais uma vez para descomprimir. Assim, durante um jogo de escondidas com colegas da minha turma, escolhi o local perfeito para me esconder: o famoso caracol. Era uma zona tranquila, muito bem adornada por árvores e arbustos altos, em que se ouvia o som harmonioso de água a correr e uns bancos de pedra em forma de troncos, quase sempre ocupados por jovens namorados entretidos nos seus afazeres, decoravam o espaço. Escondi-me tão bem que os meus colegas nunca mais me encontravam…e eu fui ficando, ficando…até que chegou um casal de namorados de tal modo entusiasmado que, sem me ver, foi dando asas ao amor …e que asas. Indecisa sobre o que fazer, calei-me muito bem caladinha na esperança que eles se fossem embora e eu pudesse discretamente abandonar o meu esconderijo. O tempo nunca mais passava. Nem eles nem eu, por motivos diferentes, renunciámos ao caracol. Nisto, uma bola, vinda não sei de onde, bateu-me violentamente no rosto e eu, sem querer, gritei de dor. De imediato fui descoberta. O casal interrompeu o beijo que já durava havia largos minutos e, ao afastar os arbustos, deparou-se comigo. Olharam para mim estupefactos e, sem me ajudarem, censuraram o facto de eu estar a espreitar, embora eu não estivesse a espreitar, eu só me tinha escondido dos meus colegas. Bem expliquei, mas o casal já crescido, aí nos seus 18 anos, não foi na minha conversa. Tive que desaparecer a correr, envergonhada e furiosa comigo, com eles e principalmente com os desgraçados dos meus colegas que não me tinham conseguido achar. Ainda por cima levei uma “falta” por ter chegado atrasada à aula seguinte. Amarrei a cara e durante dias não contei nada à malta da turma.
Depois não resisti. Rimos todos à gargalhada!

Algumas semanas após aquele incidente, num domingo, fui levar o meu irmão mais novo à catequese. A aula era numa pequena sala que ficava nos jardins traseiros da igreja da Sé. Qual não foi o meu espanto quando reparei que a catequista era a tal jovem que estava naquele dia, na Alameda João de Deus, toda enrolada com o namorado. Ela reconheceu-me mas não deu parte de fraca, nem eu… Só que nunca mais fui levar o meu irmão à catequese.

Voltei à minha rotina da escola, mas evitei esconder-me no caracol da Alameda. Mais tarde começámos a frequentar a Gardy, na Rua de Santo António, ponto de encontro para amizades mais coloridas e longas conversas divertidas, ao vivo e a cores, com apenas uma bica na mesa do café. Uns anos depois, tal como a catequista, também eu passei a ver o caracol da Alameda com outros olhos…

Jardim da Alameda João de Deus - Faro

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O presépio


Por Luisa Correia
[Documentalista - Turismo do Algarve ]

Por estes dias armam-se os presépios. Lá em casa já tratei do assunto. De uma forma simples, apenas expondo as figuras sob a árvore de Natal, que este ano resolvi fazer a partir de um tronco seco de oliveira. Mas, de repente, deu-me a saudade do entusiasmo com que assistia ao armar do presépio na minha infância. Lembro-me, sobretudo, do presépio que as minhas primas mais velhas armavam na “casa de fora”, que era como se chamava então à sala de entrada da casa, a partir da qual se acedia aos quartos e à cozinha.
Primeiro havia que recolher pedras, areia e musgo. E também murta e pitas. Transportavam-se esses materiais em alcofas de empreita e depois de escolhido o canto da sala para os dispor, começava-se a construção do cenário que havia de acolher as figuras da sagrada família, mas também uma série de outros personagens associados à representação da cena da natividade. Os Reis magos, claro, os pastores e as suas ovelhas, o burro e a vaca no estábulo. Depois, o cenário havia de acolher também os ícones que faziam parte da vida do povo: a igreja, o moinho e o moleiro, a ribeira e a ponte para a atravessar… À verdura colhida no campo, juntavam-se as searinhas que haviam germinado a partir dos grãos de trigo colocados em água, em pequenos recipientes, algumas semanas antes do Natal. Aos poucos era criado aquele maravilhoso quadro naïf que ficaríamos a observar ao longo da quadra.

Assim era o presépio da minha infância. Mas também havia um presépio mais simples, em que apenas se utilizava a figura do Menino Jesus. É um Menino de pé sobre uma peanha, que se coloca num trono armado em pirâmide com caixas de diversos tamanhos, cobertas de panos rendados. Nos vários andares do trono são colocadas searinhas e laranjas. Este é o presépio tradicional algarvio que se fazia no interior da região com os meninos esculpidos em madeira por artistas populares do século XIX, conhecidos como “pinta-santos”.

Decidi que, por estes dias, hei-de visitar os presépios que, pelo Algarve fora, em museus, associações culturais e outras instituições públicas, muitas mãos replicadoras de tradições colocam à disposição do nosso olhar.



Postal de Boas Festas do Turismo do Algarve, a partir de um presépio tradicional algarvio do Museu do Trajo de S.Brás de Alportel - Anos 90.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Amor na Ria Formosa


Por Moema Silva
[Jornalista - Lisboa]

A história que aqui se relata tem direitos de autor reservados e é fielmente inspirada em emoções verdadeiras. Sei que parece mesmo um guião de telenovela, mas isso é porque a vida imita a arte e vice-versa. Fala de um parzinho romântico que se conheceu durante umas férias de Verão no Algarve. Eram ainda uns miúdos, mas já haviam entrado naquela fase da adolescência em que as hormonas gritam. Ela ficava sem ar de cada vez que via aquele rapaz bronzeado, de cabelo loiro comprido e olhos azuis, a mergulhar no mar. Ele estava encantado com a doçura e a ousadia daquela menina que nadava como uma sereia. O resto ficou por conta do belo cenário da Ria Formosa, dos dias preguiçosos passados sob o sol, das carícias trocadas por entre as dunas, na areia. Nas noites de céu estrelado, passeios e cantorias ao luar, afastavam-se do grupo de amigos para saborear os primeiros beijos. Descobriram o gosto da pele um do outro e sonharam ficar juntos para sempre. Foi um romance conturbado por castigos e proibições, tipo Romeu e Julieta. (Quase um clássico drama algarvio!). Ela morava em Lisboa e pertencia a uma “família de doutores”, como se dizia na época. Ele havia nascido e crescido ali mesmo, entre os pescadores da Ilha do Farol. Para ela, estudar, viajar e ter muitas aventuras, era dado garantido. Para ele, isso representaria uma luta de sobrevivência no futuro.
Findas as férias, despediam-se em lágrimas, prometendo trocar cartas e poemas. Até que o mundo os afastou. Guardaram uma recordação intensa dessa estreia no maravilhoso e imprevisível universo do amor. Seguiram rumos diferentes, tiveram experiências diversas. Nunca mais se viram. E, três décadas depois, ela recebeu uma mensagem via internet… Era ele, dizendo que a procurara por todo o lado e nunca a havia esquecido. O reencontro foi inevitável. Que mulher resiste a um homem que abre o coração e confessa ter sido ela a grande paixão da sua vida? Seguiu-se a redescoberta dos sentimentos antigos. Depois, veio o desejo. Corpo e alma unidos numa comunhão até então inédita entre ambos. Tomados pelo arrebatamento da juventude, chegou a ansiedade madura de recuperar o tempo perdido. O que fazer com esta segunda oportunidade que lhes foi reservada pelo destino?
A resposta está nos próximos episódios desta novela da vida real. O final feliz vem já a caminho! Esperam pelo próximo Verão para regressar à sua ilha, envoltos num eterno abraço com cheiro a maresia.


Ilha do Farol

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Na linha do tesouro


Por Sofia Figueiredo
[Investigadora em Biologia de Sistemas – Berlim]

Linha de Tunes. Saio do comboio no cruzamento das linhas e poderia sair de olhos cegos e ouvidos surdos, saberia que estou no Reino do Algarve. Há um odor no ar que é só deste céu, deste sol e desta gente, habitantes no Algarve e na minha alma. É um odor a alfarrobeiras, a figos a secar nas açoteias e a amêndoas no chão acabadas de varejar, escondidas nas cardas que já não picam as mãos sapientes e calejadas de quem trata a terra. É tudo isto misturado com a maresia que faz este ar tão fácil de respirar…E tudo isto trouxe eu, ontem, ao Reino da Prússia, ao cozinhar um pão doce que me levou à confluência das linhas do Algarve com a tríade Alfarroba – Figo -Amêndoa.

Numa manhã solarenga de Sábado, a minha filha arrastou-me da cama e eu, ao avistar um céu tão azul lá fora, arrastei-a para a cozinha. De uma receita básica de pão, fizemos um pão doce de alfarroba, amêndoa e figos secos. Em 125 ml de água morna, desfiz 12 g de fermento fresco de padeiro e 2 colheres de sopa de mel. A mistura das farinhas ficou a cargo da minha filha: 50 g de farinha de alfarroba, 200 g de farinha de espelta, 125 g de farinha de trigo com uma colher de chá de sal.
Juntei a água com o fermento às farinhas, com 100 g de amêndoa moída e cerca de 6 figos secos picados em bocadinhos pequenos. Raspei um limão e trouxe um aroma a canela a este pão. Mexemos até a massa se separar das bordas da taça. Cerca de uma hora depois, fizemos bolinhas da massa e pusemos no forno. O perfume deste Algarve espalhou-se pela casa e misturou-se com o Sol que inundou toda a sala e nos inundou a nós enquanto esperávamos que o pão saísse do forno. Comi os pãezinhos simples, comi-os com o doce de tomate da minha avó, comi com queijo de cabra fresco e polvilhado com ervas provençais e voltei a comê-lo só, só por gulodice, só para o meu comboio parar mais uma vez naquela confluência de linhas a Sul.

E o meu comboio continua a sua viagem, por estradas de terra e alcatrão, por estradas de gelo e pó, de sol e lua, na senda de um tesouro que eu sei onde está, mas não sei quando está. Avista-se no infinito das linhas de comboio que rasgam em latitude o meu Reino a Sul.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Um Algarve para crianças


Por Fátima Catarina
[Adjunta do Gabinete da Direcção do Turismo do Algarve]

No Reino dos Mares, algures na costa do Algarve, vive a senhora Água com três filhas muito irrequietas: a Maré, a Corrente e a Onda.

A Maré com a ajuda da Lua gosta de brincar ao sobe e desce num movimento lento e num vaivém constante. Ela diverte-se a levar a areia das praias e a voltar a depositá-la...

A Corrente é uma viajante que adora passear pela costa do Algarve, desde Sagres até Espanha... Gosta muito da costa alta e rochosa do Barlavento! Leva consigo areia que arranca das falésias e deposita na costa baixa do Sotavento, num local lindíssimo que está a criar e que chamou de Ria Formosa... Ali tem construído ilhéus, canais, sapais… Ali vivem cavalos marinhos, búzios, amêijoas e outras criaturas lindas!

A Onda é muito irrequieta…adora acariciar os meninos que brincam à beira-mar. Leva areia, traz areia…

São umas irmãs muito unidas. Juntas têm feito da Ria Formosa um território muito especial…


Ilustração de Patrícia Oliveira (Inspirada em Madalena Matoso)

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Os albricoques


Por Armando Correia
[Inspector da Polícia Judiciária - Faro]

Sou polícia e desembarquei no Algarve em 1992, na sequência de uma imposição do Estado aos seus jovens trabalhadores.
Fazia o meu primeiro serviço de Piquete de 24 horas. Atendia telefonemas, recebia pessoas com os mais variados problemas, muitas delas a precisar unicamente de uma palavra amiga, de compreensão ou carinho. Respondia como podia e como me ensinaram. Sentia-me entre a figura do “pastor” e a do “psicólogo”; uma espécie de “pastólogo”.
Queria acabar aquele serviço com a consciência de tudo ter feito para responder ao que me era pedido. Iniciara às 8H00 e até às 21H00, tudo fora assim.
À entrada da Polícia, surge um pequeno vulto projectado no piso mármore de cor clara. Atrás do vulto, um passo arrastado nuns sapatos pretos, um pouco sujos de lama, collants negros, camisa e casaco de malha igualmente escuro, cabelo ralo e comprido e uma face intensamente rugosa com um esgar pesado. Devia ter uns 65 anos, pensei – este é um “jogo” pessoal, o de adivinhar a idade dos queixosos, que depois exibem o bilhete de identidade e confirmo ou desminto a minha ideia, servindo de escape aos pequenos dramas com que lido.
Disse para se sentar, delicadamente. Mais delicadamente que o normal porque senti que algo dramático a atormentava e o respeito pela idade é um imperativo pessoal.
Sentou-se; suspirou; olhou para mim e vi-lhe no olhar a desconfiança. Primeiro pensei ter a ver com o seu drama. Depois percebi ter a ver com a minha idade. Aos seus olhos, um jovem polícia seria a pessoa menos indicada para resolver os problemas de uma velha mulher.
Lancei-lhe um olhar o mais “maduro” possível, fiz um ar altamente profissional e ao estilo de operador da “OK Teleseguro”, disse-lhe:
"Boa-noite minha senhora, diga; em que lhe posso ser útil? "
"Roubaram-me os albricoques!" – Disse com sotaque cantado, ar zangado, seco e convicto.
Bom, o meu primeiro problema sério. Roubos eram comigo, agora albricoques é que eu não fazia ideia do que se tratava.
Fiz-lhe várias perguntas, na tentativa de entender o que era. Mas ela não me facilitava a vida:

"A que horas foi isso?"
" Se eu soubesse estava lá para os apanhar."
"Em que sítio estavam? "
"Onde é que haviam de estar… "
"Como é que os levaram?"
" Só lá chegam com a mão…"

Desisti de perguntas. Levantei-me. Fingi que ia consultar um código penal e discretamente perguntei a um colega que raio eram "albricoques”.
A resposta foi pronta e lá me explicou com ar de gozo:
“São alperces”.
Percebi o quanto ignorava a cultura algarvia e a relação indirecta que existe entre o conhecimento académico e o popular.
Humildemente, compreendi o seu drama, soube quanto tempo levava o fruto a amadurecer, o quão doces eram os seus albricoques, o quanto ela contava com eles para comer, dar e vender e o quanto eu não lhe podia ser útil.
Saiu da mesma forma decidida. Desconfiada da polícia. De mim. E da minha ignorância.
Eu, acabei o serviço, fui comprar albricoques, comi-os e fiquei a saber a que sabe a ignorância.

Alperces secos

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Las Palomitas


Por Ilídia Sério
[Empresária - Restaurante Casa Algarvia, Faro]

Decorriam os loucos anos sessenta… Faro, a capital do Algarve, não passava de uma pacata cidade de província ainda sem Universidade, mas já com uma notável vida estudantil, dado que só aqui havia Liceu e os jovens de quase todo o Algarve e Baixo Alentejo vinham completar os estudos, antes de alguns seguirem para Lisboa ou Coimbra onde iriam frequentar as universidades.

Entre outras figuras típicas, vivia em Faro um artista pintor chamado Sidónio Almeida, qual personagem saída de um romance qualquer.
Sidónio era um artista. Sem dúvida alguma, quem conhece a sua obra pode atestá-lo. Muita gente ainda se deve lembrar das suas estórias, algumas incontáveis. Eu conheço esta que me foi contada por um amigo:

Quatro ou cinco amigos, também amigos da boa disposição, juntaram-se em casa do Sidónio para mais uma paródia. Conversa, puxa conversa, a tertúlia decidiu que o Sidónio deveria pintar um quadro, no qual estaria um deles, sentado num cadeirão, todo nu, com dois pombos que viviam em casa do Sidónio, pousados nos ombros. Resta acrescentar que o “modelo” escolhido para posar tinha um corpo pouco vulgar, completamente coberto de pelos. A obra iria chamar-se “Las Palomitas”.

Não consta que o quadro tenha sido alguma vez pintado. Sabe-se é que os pobres pombos acabaram, nessa noite, dentro da única e velha panela que existia no meio de toda aquela grande confusão que era a casa do pintor Sidónio Almeida.


Óleo sobre tela - Sidónio

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O Luis Kadó

Por Corina Justo
[Técnica de turismo - São Brás de Alportel]

Figura bem conhecida dos São-brasenses, o Luís Kadó, já falecido, costumava deambular pelas ruas de S. Brás não passando despercebido por causa da tosse característica que o afligia, devido ao tabaco. Era uma presença assídua em qualquer evento mais ou menos importante, fosse no cinema, nas noites de verão no jardim da Verbena, nos jogos de futebol disputados entre os clubes locais, nas palestras na biblioteca, nos bailaricos, na missa e o posto de turismo não era excepção. Às vezes entrava só para me cumprimentar:

“Bom dia Corina! Amanhã faço anos. 47. Não pareço, pois não? Diz lá Corina se não sou bonito? Não sou parecido com o Alain Delon?”
Eu respondia:
“Sim, Luís és lindo”.
Ele insistia que fazia anos no dia seguinte perguntando-me o que eu lhe iria oferecer.
E eu tentava saber se ele gostaria de alguma coisa em particular. Então ele enumerava o que os amigos já lhe tinham dado:
“A D. Cidália (Directora da Santa Casa da Misericórdia, em S. Brás) ofereceu-me um pulôver; o meu amigo Leonel (ex-piloto da TAP e actual piloto da Royal Air Maroc) trouxe-me de Marrocos um belo casaco de cabedal…Tinha uma televisão mas está avariada!”

A dica tinha ficado no ar. O Luís ganhou um televisor que já não era usado lá em casa mas que funcionava perfeitamente. E eu fiquei com direito a uma fatia de bolo que ele fez questão de trazer embrulhado numa folha de papel de alumínio.

Noutra ocasião, desta vez pelo Natal, também queria receber uma prenda. Olhava para a vitrina do posto dando a entender que poderia ser o que eu quisesse dar-lhe.
Voltou no dia seguinte e lembro-me de lhe ter oferecido um chapéu de palha.

Um dia entrou de rompante no posto de turismo, muito aflito, para averiguar se eu não teria uma fotografia dele tirada num Domingo de Páscoa, porque queria aparecer na revista Algarve Mais.
E eu tinha, de facto, essa fotografia das Tochas Floridas que a Câmara Municipal me tinha reencaminhado. Mostrei-lha e ele ficou encantado revendo-se no Alain Delon em pessoa.

E assim ficou o Luís Kadó imortalizado.


terça-feira, 30 de novembro de 2010

Património geológico do Algarve

Por Luis Nadkarni
[Monitor de desporto]

No final da década de 70 do século passado foram realizadas com sucesso as primeiras descidas ao Algar da Maxila no Cerro da Cabeça, em Moncarapacho, no Algarve.
Tive o privilégio de integrar uma dessas equipas, com o João Humberto e o Nelson de Moncarapacho e o Luis Rocha Cruz de Faro. Lembro-me dessa aventura como se fosse hoje.

Começámos por descer um poço através de corda fixa, que deu acesso a uma pequena plataforma onde tinha sido previamente montada uma escada em aço com a respectiva corda de segurança. A partir desse local, iniciámos a descida de um poço aéreo com cerca de 20 metros, que deu acesso a outra plataforma, um pouco maior, onde está incrustado o fóssil de uma maxila de animal que veio a dar o nome ao Algar.

Empreendemos então a descida de mais um poço em forma de tubo vertical, com cerca de 30 metros de profundidade, utilizando escada metálica e corda de segurança. Descemos os quatro e quando alcançámos a base estávamos a aproximadamente 60 metros de profundidade. O objectivo desta expedição era desobstruir uma passagem que daria acesso a outro poço nunca antes explorado. O João Humberto preparou a dinamite e após duas detonações conseguiu-se desobstruir a passagem. O João e o Luís Rocha iniciaram a descida desse novo poço, sendo os primeiros seres humanos a vislumbrar a continuidade do Algar da Maxila. O Nelson e eu ficámos nos 60 metros a garantir segurança.

Na subida do Algar tudo se complicou. Estávamos no inverno e tinha estado a chover torrencialmente todo o dia pelo que apanhámos com uma enxurrada de água que vinha da superfície. Avariaram-se os gasómetros e as pilhas eléctricas e foi com muito sacrifício, espírito de equipa e alguma sorte, que conseguimos acender uma pequena vela que nos permitiu ver a primeira escada pendurada sobre o abismo, conseguindo subir até à superfície.

Ainda hoje esta descida aos noventa metros da Maxila constitui o recorde de profundidade atingido em grutas algarvias.

Uma aventura que jamais esquecerei.
À memória do João Humberto.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ai, a geografia


Por Filomena Serol
[Técnica de turismo - Armação de Pêra]

Em Portugal, lamentamo-nos muitas vezes quando os norte-americanos confundem o nosso país com uma província de Espanha. Esta falta de conhecimentos geográficos cai-nos mal… Mas quem diz norte-americanos, diz também canadianos – nacionalidade da protagonista da historieta que agora vos conto.

Há uns tempos atrás, uma senhora canadiana (cá está ela) dos seus 70 anos resolveu passar férias em Armação de Pêra. E quase todos os dias rumava em procissão até ao Posto de Turismo para levar uma planta de localidade, uma sugestão de passeio, uma informação sobre os transportes ou qualquer outra coisa que lhe surgisse na ideia.

Ora numa dessas visitas irrompeu posto adentro de braço dado com uma amiga dizendo que queria muito visitar Sintra.

"Sintra?! Sintra fica ao pé de Lisboa… "– respondi eu. E ela insistiu:

"Sim… E então… Lisboa não é a capital de Espanha?"

Expliquei-lhe que Lisboa era capital, sim, mas de Portugal, país em que ela se encontrava. A senhora ficou franzida e fitou-me duvidosa pela informação que eu acabara de lhe dar. Mas em todo o caso – e entre fintas e «ais» na geografia – ela sabia pelo menos o nome da nossa capital… espanhola. Sempre fica 1 a 1 no marcador…


Praia de Armação de Pêra

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Carta do marítimo olhanense à namorada


Por Turismo do Algarve


No campo humorístico é muito conhecida, no Algarve, a carta do marítimo olhanense à namorada.

De acordo com a APOS - Associação de Valorização do Património Cultural e Ambiental de Olhão, a mesma terá sido uma carta de Carnaval escrita por uma rapariga a uma amiga, chamada Francisca, fazendo-se passar por um jovem marítimo, de pouca instrução, que se teria apaixonado por ela.

Trata-se de um texto por diversas vezes encenado na região e, hoje, o Turismo do Algarve decidiu partilhar aqui uma das suas versões.


"Farcízeca!

À díaze, do mar dâze Berlengâze, em sete bráçaze e mêa de profundeza, se m’embrazarem-se âze grózêraze, cande vêi de lá o cabrã do té pai e me dezeu assim: “Ah Fi’de put’hóme!!!Tu êz’ um montanhêre hóme, tu fázez’ um grande salcrefice em vir ó mar, hóme!!!”
- “O qu’é que Vocemessê me dize, hóme?...”
- “Digue-t’izete...e na cázaze ca’nha filha!!!”
- “Móç’ Farcízeca! Ê cá qu’ria maize qu’êl me désse um atragasse da cara qu’êl me dezésse aquil que tá ali à vizeta da gente.
Vínhameze p’á terra e a campanha do barque nam falava dôtra côza, cande vêi de lá o Mane Zé Xabeca e me dezeu:
- “Cala-t’aí, móce!!! Nam te zângueze, móce, se tu na casáreze ca filha dêl cásaze ca minha, hóme!!!”
- “É p’ra que vêjaze, Farcíseca, qu’ê ‘inda tenhe preteêndêntaze...” Cô uma viaje qu’ê faç’à Larache, ganhe denhêre àze braçádaze...compr’um chapé de côque e uma vengala, únaze bótaze de rangedêra com tapadôiraze, passe a Baralvente da tu’ porta e arrázete úze péize com’ um gale; tu vêze-me e fálaze-me, mai ê cá vêize-te e nam te fale!!!
- “mai s’ê sentir cá alguma coisa do mê querpinhe...uái’ nha mãe!!! Digue logue, fôrém vocêaze que me prantárem má’ olháde! E na quér que vócêaze andem a falar mal de mim p’ r’ êsses tâinquezes e rebêrezes!!!”
- “É só quer’ que tu t’alêmbreze duze mêze dôze brenhóleze, qu’ ê t’empresté, daquêle báilho...o báilinhe do ping’ ó lête!!!”
- “É cá na sê se tu pênsaze cu té pai é o Prince Dom Cárleze e a tó mãe a Rainha Dona Amelga e úze téz’ érmãoze únz’ élefantezinheze, mai ê quer’ que tu t’énforqueze, cu té pai é mai brúte qu’à mãe dúze penhêreze do mane Jan Luice.”
- “Ólha que só da ‘nh’ àvó herdi déze moédaze e o strafêgue tôde da canoa e na m’arrale; ê bem sê que tu tênze uma boa máineca de questura, mai na sê s’êze tan profêtinhaze de mãoze, côme dizeze...”
- “Digue-t’ ízete e na m’émpórte do pórque du té pai, na me perdôe a arçã.

Do té muite dedicáde

Embróize "

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O Teatro Lethes

Por Leitor devidamente identificado

Se é de Faro, se reside nesta cidade ou se simplesmente a visitou, certamente conhece ou ouviu falar do Teatro Lethes. Contudo, é possível que não conheça a sua história ou pelo menos, que não conheça as estórias que deram origem ao que é hoje o Teatro Lethes.

Vamos viajar no tempo...

Estamos em 1599. São restauradas em Faro umas casas antigas, que vão servir para instalar um Colégio e uma Igreja da Companhia de Jesus. Esta ordem religiosa vai permanecer neste local até 1773, ano em que é extinta.
A partir de 1779 serve de habitação aos Padres Marianos ou Carmelitas Descalços que ocupam o edifício até 1834. Nesse ano, são extintas as ordens religiosas em Portugal e os seus bens arrolados, pelo que o edifício passa para as mãos do Estado.

Voltemos, no entanto, um pouco atrás, quando por volta de 1804, numa terrível noite de tempestade, naufraga ao largo da costa algarvia um navio veneziano que transportava Lázaro Doglioni, jovem médico de Veneza, que se deslocava a Inglaterra para aprofundar os seus estudos.

Os náufragos vêm para Faro e são entregues ao cuidado do Cônsul de Veneza nesta cidade.

Durante a sua convalescença, o jovem Lázaro Doglioni torna-se amigo dos mais ilustres habitantes da cidade, entre eles Guilherme de Barr Crispin, por cuja filha, Maria, se terá interessado, tanto mais que esta jovem era herdeira de uma das maiores fortunas do Reino…
Apesar da discordância da família da noiva, e, depois de várias peripécias, o casamento foi consentido.

De um momento para o outro, Lázaro Doglioni passa a dispor desta enorme fortuna, o que lhe permite dedicar-se ao fomento das artes.
Amante de música e de ópera, decide criar em Faro um teatro destinado principalmente a esse fim, de modo a poder rodear-se do ambiente boémio da sua Veneza natal.

Assim, em 1843 adquire, em hasta pública, o Colégio e Igreja da Companhia de Jesus. De imediato começam as obras de transformação e restauro destes edifícios, que duram até 1845, ano em que é inaugurado o Teatro Lethes.


Interior do Teatro Lethes


Tendo como modelos o Scala em Milão e o São Carlos em Lisboa, a capela passa a sala de espectáculos, para estranheza da população local que não esperaria tal transformação, algo sacrílega.

No entanto, o resultado final é encantador e Faro ganhou um teatro com um palco e uma plateia delicadamente trabalhados, com capacidade para quinhentos espectadores e com duas ordens de camarotes.

O seu promotor quis ainda deixar à vista de todos a máxima latina Monet Oblectando – Instruir Divertindo, que mandou inscrever no frontão exterior do edifício.

Teatro Lethes - Faro

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O gato poliglota

Por Luis Francisco
[Consultor]

Uma família de Lisboa vem passar férias ao Algarve e traz o seu cão. Este, assim que pode, "desenfia-se" e decide passear nas redondezas. Vê um gato e pensa: “Olha o que ali está...”
Aproxima-se e ladra forte para o gato. Este olha-o e, com um sorriso, ladra-lhe de volta. O cão interroga-se: “Mas ele ladra?... hum... um gato?”
Torna a ladrar forte para o gato. Este olha-o de novo e, com um sorriso, ladra-lhe de volta: “Mau!... és um gato ou um cão?”
"Móce debo… Um gato, nã se vê?”
“Mas ladras?” pergunta-lhe o cão com espanto.

Com ar de um longo saber adquirido, o gato vira-se para o cão e remata: “Ó mê amigue, no Algarve quem nã falar pelo menos duas línguas... nã se safa!”

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Xerém

Por Ilídia Sério
[Empresária - Restaurante Casa Algarvia, Faro]

S. Brás de Alportel, em plena segunda guerra mundial, era uma terrinha do interior algarvio onde a falta de produtos para consumo alimentar, não se sentia com tanta intensidade quanto numa grande cidade. Cada família tinha um cantinho onde semear o necessário para a sua sobrevivência e onde criar alguns animais para o seu alimento, mas….havia coisas que não chegavam a uma vila quase no meio da serra, como por exemplo, carne de vaca. Só os lavradores mais abastados tinham possibilidade de a adquirir.

Nesse tempo, o prato mais habitual naquelas bandas, eram as famosas papas de milho, hoje pomposamente chamadas de xerém, confeccionadas sem os requintes que actualmente lhes conferem tão alto gabarito. Eram, pura e simplesmente papas de milho, que escorriam pela goela, sem se deterem na dentadura de quem as saboreava.

Neste cenário a moça casadoura, brejeira, atrevida, contracena com o rapaz altivo e muito vaidoso, filho de gente humilde, sem grandes recursos, mas trabalhador.
Um dia ele sai de casa, a seguir ao almoço e como de costume, caminha, altivo e hirto, com um palito na boca - talvez um pauzinho afiado, porque naquele tempo não devia haver ainda palitos como hoje - que vai manuseando entre os dentes.
A moça, à janela, como de costume, curiosa e brincalhona, pergunta:
“Ó Zé, vais a palitar os dentes? O que comeste hoje?”
Ele, sem se deter responde:
“Bife! O que querias que fosse?”
E ela, marota, logo retorquiu:
“Bife de papas?”

De coisas simples e brejeiras se vivia numa vila - ou seria aldeia nesse tempo - do interior algarvio, nos anos 40 do século XX.


Mexendo as papas de milho

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Um Sábado na praça


Por Sónia Tomás
[Directora Executiva - Associação Sotavento Algarvio]

Sábado de manhã. O despertador não toca mas os velhos hábitos despertam-me. São 09h00 e o sol já espreita através das nuvens outonais. O ar fresco que entra pela fresta da janela encaminha-me rapidamente para o roupeiro dos casacos. É assim, vivo no Algarve e esqueço-me que cá, por vezes, também faz frio.
A viagem é breve. Pelo caminho apanho a minha mãe e esboço mentalmente a minha lista de compras. Nada de diferente dos outros sábados. Peixe, legumes e fruta. Simples!
Antes de entrarmos, paramos na pastelaria habitual para a bica da manhã. As conversas fluem entre o tom apressado de quem tem pouco tempo para estar no café e o tom indiscreto de quem não se esquiva a dois ou três dedos de amena tagarelice alheia.
Mais à frente, no snack-bar da esquina, o inconfundível cheiro das bifanas quentinhas no papo-seco, à mesa dos homens. São dez da manhã mas o dia para eles já começou há muito. Um jarrinho de vinho da casa do “bom”, ou umas minis acompanham-nos no pequeno-almoço reforçado da manhã. À entrada da praça, o pedaço de cartão manuscrito com letras toscas anuncia todas as peças a cinco euros. O estendal é variado mas não convence a clientela. “É a crise v’zinha”, diz a vendedora de etnia cigana. Mais à frente, o Sr. António dos cestos tem cara de quem está a pensar a mesma coisa. Sentado num banquinho, vai vendo quem passa e vai-se entretendo entre dois dedos de conversa. Na banca da frente, a Dona Maria descasca uma clementina enquanto vai dizendo aos clientes que já estão “docinhas como o mel”. Estende-lhes uns gomos e coloca na balança um saquinho delas.


Prosseguimos em direcção às bancas do peixe. É a primeira compra que fazemos sempre. “Há sardinhas e carapaus para a grelha, pargo para o forno, bife de atum fresquinho, pescada para cozer…”, avança-nos logo o Luís assim que nos vê chegar. “Ah! E tenho ali uma anchova que está uma categoria!” Imagino-a logo acomodada no tacho, entre camadas de tomate, cebola, pimento verde, salsa e batatas às rodelas. Olho de relance para os bifes de atum e preparo-lhes logo uma cama de cebolada, paus de orégãos secos e folha de louro, bem regados com vinho branco. E rapidamente me distraio com um remexer constante mesmo à minha frente. Enguias! Bem fritinhas e borrifadas com sumo de limão. Está decidido! “Luís, levo uma anchova, dois bifes de atum e meio quilo de enguias”. Mais à frente ainda compro um quilo de lulas fresquinhas para rechear e um molhinho de lingueirão que terá como destino certo um arroz malandro ou uma feijoada.
Ao longe, já vejo a Dona Isabel de cabeça concentrada nas contas, que faz há anos em pequenos pedaços de papel. Há laranjas, tangerinas, maçãs, bananas, peras, dióspiros, marmelos, castanhas. Dirijo-me às hortaliças. Brócolos, uma couve-flor, um molhinho de grelos, uma alface e umas batatinhas novas a que não resisto. Cozidas com pele fazem a combinação perfeita para os bifes de atum. A minha mãe agarra um molho de beldroegas viçosas para aquela sopa que ela tão bem sabe fazer. Coloco ainda no saco umas batatas-doces para preparar o recheio das empanadilhas que tradicionalmente nos acompanham na quadra Natalícia. “É tudo minhas meninas?”, pergunta a Dona Isabel. Assentimos, pagamos e ainda recebemos cumprimentos para a avó, que foi por muitos anos companheira de praça, numa banca vizinha, ainda no mercado antigo.



A caminho da saída rendo-me aos figos secos e às amêndoas da banca do Sr. Jerónimo. Bem moídos e adicionados a uma calda de açúcar com canela, erva-doce e chocolate em pó, dão uns bombons de figo irresistíveis. Agarro um saquinho de cada. “Já agora levo também meio litro de azeitonas britadas, se faz favor”. Por hoje está tudo. Dividimos os sacos pelas quatro mãos e encaminhamo-nos para a saída. O burburinho das conversas de quem se encontra todos os Sábados por ali, o tilintar dos trocos nas bancas, os pesos de ferro que caem nas balanças de pratos, o pregão dos vendedores, as pancadas secas das facas dos talhantes, o correr da água que lava o peixe depois de arranjado, os sons ocos dos caixotes de madeira vazios que se vão amontoando, tornam únicas as manhãs de Sábado na praça. O aroma dos legumes frescos saídos da terra e as cores vivas dos frutos acabados de apanhar são inigualáveis. E a tudo isto, soma-se a genuinidade destas gentes de alma algarvia que os cultivam com a experiência de uma vida e que nos recebem com aquele sorriso aberto de sempre.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A gaivota e o gato preto


Por Raul Carrajola Araújo
[Assistente Director de Vendas - Hotéis Real]

Na praia de Santa Eulália há um gatinho preto e uma gaivota. Nasceram ambos na Aldeia dos Pingalhetes. Brincam juntos desde que nasceram. Acompanham os pescadores ao mar e esperam juntos o seu regresso. Dão-se muito bem. São amigos. É espantoso perceber que falam a mesma língua. Não existem diferenças. É lindo ver como se entendem. O gato pia como a gaivota e ela voa rasando o Atlântico e mia alegremente como um gato. Falam a mesma língua, entendem-se. Deixam o homem, que se encontra sozinho na varanda a fumar o seu cigarro e a beber o seu café, a pensar: “Estarei louco? Estarei eu só? Os meus amigos não me entendem? Não me escutam?”

Aqui, na praia de Santa Eulália, existe um gato preto de olhos verdes que tem uma amiga gaivota.
Ninguém sabe, ninguém vê, ninguém ouve, mas eu sei que se amam!


Praia de Santa Eulália - Albufeira
[Créditos fotográficos: Hélio Ramos]