sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Vidas retalhadas


Por Lina Vedes
[Escritora algarvia]

Tinha uma colega, Alexandra, que morava na Rua da Misericórdia, que andava comigo na explicação da D. Gracinda, empregada nos Correios. A porta do quintal desta amiga servia várias casas, era o nº 13 e ficava na Rua Manuel Belmarço. Todas as casas que faziam canto com a Rua da Misericórdia tinham quintais ao fundo que se conjugavam e todos os moradores os partilhavam como um bem comum.
A Alexandra tinha uma particularidade que me espantava. Assumia diferentes personalidades sendo uma colega como as outras, conversando normalmente, ou parecendo viver longe da normalidade.
Quando eu ia para a explicação passava pelo quintal dela, chamava-a e se não respondesse ia à porta da rua. Normalmente estava em casa ou no quintal, tinha uma vida solitária, nunca senti a presença de um pai, e a mãe levava os dias na igreja, rezando, esquecida da filha.
Abria-me a porta, punha o indicador direito junto dos lábios, a pedir silêncio, com a mão esquerda puxava-me para dentro de casa e com voz surda, confidenciava-me:
"Anda comigo, vamos pelo quintal, devagarinho, eles estão à nossa espera. Vem atrás de mim e faz o que eu faço. Não tenhas medo, são demónios bons e amigos".
Eu entrava no jogo, era diferente e divertido.
Ela avançava e eu seguia-a, mais parecíamos um gato perseguindo a presa, olhando à esquerda e à direita, agachadas ou levantadas até atingirmos a porta para sair. Pegava nos livros que tinha escondido num muro e íamos, tranquilamente, para a explicação que ficava numa casa encostada à parede da muralha, no Largo de S. Francisco. Eram 3 ou 4 casas, à entrada e à direita, que haviam sido construídas aproveitando a parede do castelo e que hoje já não existem. A da explicadora ficava na do meio.

Acontecia estarmos a trabalhar e ouvirmos a porta da rua bater e, o marido da D. Gracinda, com aspecto de grande felicidade estampada no rosto entrar na casa de jantar, onde nos encontrávamos.
A explicadora tinha uma cara encarniçada, com muitas “espinhas”, mais parecendo uma adolescente, uma pele bastante oleosa e a boca sempre pintada de vermelho vivo. Quando falava com as pessoas, gesticulava, batia, empurrava, e quando a conversa a entusiasmava, abusava de tal maneira, que uma vez espalmou a minha mãe contra a parede.
Ao encarar o marido, nessas ocasiões, ficava branca, transbordava de raiva e começava a descarregá-la esmurrando-o no peito, nos braços, na barriga volumosa e blasfemando:
"Continuas na mesma. Trabalhar não é contigo. Chegas às tantas da madrugada, dormes toda a manhã, almoças e desapareces. Não arrumas a louça que sujas nem a cama onde dormes. Farto-me de trabalhar para te sustentar, grande malandro. Tenho de dar explicações para pagar as tuas dívidas. Isto tem de ter um fim. Ou trabalhas, ou rua…."
Ia batendo num desabafo de revolta contida, enquanto ele, agarrado à cadeira de braços que em parte o protegia dos arremessos, continuava com a expressão de felicidade, olhando-a com olhos de “carneiro mal morto”…
Cansada de tantas palavras e gestos, a D. Gracinda começava a ceder e a amansar com o olhar que ele lhe “jogava”, um olhar que era um pedido, utilizando um código gestual que para nós era indecifrável.
Aos poucos, ela suavizava, ele pegava-lhe na mão, puxava-a suavemente, todo ternura. Ela ainda, num último estertor, clamava:
"Não!"
Ele não desistia, insistia, os olhos brilhantes, a boca com um sorriso “sacana”, a mão a avançar pelo braço, a chegar-lhe à cintura, a puxá-la, com uma insistência sábia…
" Meninas vão brincar para o Largo de S. Francisco que eu já as chamo."

Saíamos felizes e contentes, correndo em direcção ao apeadeiro, pisando a terra, as pedras, as covas. Atravessávamos a linha do caminho-de-ferro e ficávamos donas das salinas!
Aqui, a Alexandra não queria silêncio. Era um cavaleiro andante que corria pelo labirinto de caminhos que ladeavam os tanques de água salgada. Esses caminhos eram estreitos e altos com comportas de madeira maciça e grossa que serviam para conter as águas. A água em baixo fazia remoinhos bastante fortes, tornando o local perigoso mas nós, qual cavaleiros corajosos galgávamos todos os obstáculos, brincando no nosso mundo de “faz de conta”.
Já não existem essas salinas!
Voltávamos para o trabalho, para a explicação da D. Gracinda e verificávamos que o clima, entre o casal, tinha mudado.
O senhor marido sentado na cadeira de braços da explicadora, rodeado de almofadas, com uma mesa pequena na frente, coberta com uma toalha, dava a sensação que havia acabado de saborear um bom petisco, daqueles que os homens gostam, com bastante gordura e um bom vinhito a acompanhar…
Estava saciado a digerir prazer!!!!!
A D. Gracinda olha para o nosso trabalho, passa-nos outro e diz:
"Já volto."
Volta com um prato cheio de comida fumegante, coloca-o na mesinha, na frente do marido.
"Come, meu amor!"
Olhámos uma para a outra, espantadas, sem perceber nada…
Ainda tem fome??!!

Faro
(créditos fotográficos: Antonio Sacchetti)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O mistério das lulas desaparecidas


Por Francisco Freire
[Técnico de Turismo - Faro]

O Algarve é actualmente o principal solar do cão de água português, uma raça que bem recentemente andou nas bocas do mundo por ter sido a escolha do Presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, para animal de companhia das suas filhas. O cão de água português foi durante muitos séculos usado como auxiliar na faina da pesca.

Nadador, mergulhador exímio e resistente é inseparável companheiro do pescador a quem presta inúmeros serviços, tanto na pesca como na guarda e defesa do seu barco e propriedade. Durante a faina da pesca, atira-se voluntariamente ao mar para apanhar e trazer o peixe escapado das redes, mergulhando se for necessário, e procedendo da mesma forma se alguma rede se parte ou algum cabo se solta.

Há mais de vinte anos quando se verificava um reduzido número de exemplares da raça, o Guiness Book of Records chegou a considerar o cão de água português como o mais raro do mundo, chamando a atenção de muita gente para esta raça extraordinária de cães pescadores, corajosos e dóceis, inteligentes e combativos, afectuosos e alegres.

Pessoalmente tenho em casa o vivo testemunho de todos estes atributos. Se há cão inteligente é sem dúvida o meu cão de água, o Marujo.

Há dois ou três anos atrás a minha mãe foi fazer umas compras ao mercado e quando regressou a casa, entre outras coisas trazia um saco de lulas que colocou na bancada da cozinha. Passados alguns minutos deu pela falta do saco e pensou logo que teria sido o Marujo que sorrateiramente as teria roubado. Procurámos por toda a casa algum vestígio das lulas e perguntámos ao Marujo para onde as teria levado. Ele abanava muito o rabo e dirigia-se para a cozinha. À vista não estavam.
A minha mãe insistia que as tinha deixado em cima da bancada e que elas não estavam lá. O Marujo insistia em abanar o rabo e em apontar caminho para a cozinha.

Depois de várias e inúteis voltas pela casa, lembrei-me de repente de abrir a arca congeladora existente na cozinha e lá estava o saco das lulas.
Confronto a minha mãe com a situação que teima que as deixou em cima da bancada.

Fantasmas?

Amnésia?

Querem ver que foi o Marujo que as guardou na arca?

É que o Marujo, de verdade, costuma acender e apagar as luzes de casa e até abre e fecha portas.
O certo é que a minha mãe nunca reconheceu ter sido eventualmente ela a colocar as lulas na arca congeladora e o Marujo, até hoje, não confirma nem desmente qualquer proeza que pudesse ter feito.
Marujo (cão de água português)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Mais uma história de Olhão


Por António Pina
[Ex-Governador Civil de Faro, ex-Presidente do Turismo do Algarve, cidadão algarvio]

Como em qualquer boa terra de pescadores que se preze, contam-se em Olhão um número infindável de histórias e de dizeres. Quase todas revelam alguma ingenuidade, aliada a um certo sentido de humor a que o próprio sotaque da terra, muitas vezes incompreensível para os que não labutam no mar, dá um carácter próprio.

Ora bem… em tempos que já lá vão, vivia em Olhão um pescador, de seu nome Balé, que além da pesca gostava de uma boa pinga. O bom do Balé assim que abria os olhos, agarrava-se à sua inseparável garrafinha de bagaço, que só largava quando, ao fim do dia, já de rastos se atirava para a cama.

Uma manhã, acorda o Balé pelo lusco-fusco, toma o seu pequeno-almoço de bagaço e ainda em fraqueza repete mais um copo e outro ainda, porque um homem tem que estar bem alimentado antes de ir pró mar…

E lá vai ele a caminho do barco… Um grande bom dia à Nossa Senhora do Rosário da Igreja Matriz: “Bom dia, Patroa…a bênçaa” . Mais meia dúzia de vénias à Nossa Senhora da Soledade: “A bênçaa…amiga…” E continuando por ali fora, cantarolando, chega ao cais onde na véspera tinha ancorado um iate inglês.

Pois por essa hora o dono do iate estava justamente nas suas lides e ao ouvi-lo cantarolar põe a cabeça por fora da vigia, a fim de ver o que se passava.

Espanto total do Balé ao ver a cabeça do inglês vigia fora, mas sem perder a compostura, porque os homens são para as ocasiões, logo lhe diz: “Moçe…mane englêse antão tense o barque ao pescôçe?”

Porto de recreio - Olhão

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A caixa de moedas romanas


Por Luís Pinto
[Ex-Vogal da Comissão Executiva do Turismo do Algarve]

Passados dez anos, esta é hoje uma história que me faz rir, mas vontade de rir foi o que menos tive quando tudo aconteceu.

Na qualidade de vogal da então Comissão Executiva da Região de Turismo do Algarve e responsável pela área da promoção turística desloquei-me à Islândia para participar na cerimónia de assinatura de um acordo de voos charters que passariam a operar entre Reiquiavique e Faro. Da comitiva algarvia faziam igualmente parte o meu colega de Executivo, Fernando Rocha, o presidente da AHETA Elidérico Viegas e Fernando Hipólito em representação da Agência de Viagens Presidente, que hoje já não existe.

Naquela época uma das peças de prestígio que o Turismo do Algarve tinha para oferecer, em ocasiões especiais como esta, era uma bonita caixa de madeira com uma colecção de moedas romanas. Eram reproduções realizadas em estanho, a partir do original em chumbo, daquelas que foram cunhadas no Algarve, no século I antes de Cristo, atestando a importância desta região durante a ocupação do sudoeste da Península Ibérica pelo Império Romano.

Dias antes da partida, pedi aos serviços do Turismo do Algarve que preparassem cinco destas caixas de moedas, fazendo-lhes o respectivo embrulho com um magnífico papel de presente e laço de fita a condizer.

Fomos então para Reiquiavique e no dia da cerimónia oficial lá nos encontrámos todos com o Ministro de Turismo da Islândia, os operadores turísticos locais, as televisões islandesas e restante imprensa do país.

Chegado o momento de fazer as nossas ofertas comecei por entregar a primeira ao Ministro que, ao abri-la para mostrar publicamente o seu conteúdo, apresenta uma linda caixa forrada a veludo vermelho mas sem nada lá dentro. Vermelho fiquei eu, pedindo de imediato uma segunda caixa e explicando que teria havido um lapso dos meus serviços. A segunda caixa apresentou-se da mesma forma: vazia. Cheio de calor e mais vermelho ainda, pedi a terceira caixa. E claro, o resultado foi o mesmo. E assim, até à quinta, fui oferecendo caixas vazias perante uma delegação portuguesa estupefacta e uma audiência islandesa que, graças a Deus, revelou assinalável sentido de humor e se ria às bandeiras despregadas.


Caixa de moedas romanas (give-away do Turismo do Algarve)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O Santo Sacrifício


Por Ilídia Sério
[Empresária - Restaurante Casa Algarvia, Faro]

Ao domingo íamos à missa. Fazia parte das nossas obrigações. Vestíamos a melhor roupa, a que só se usava aos domingos ou em dias de festa, calçávamos os sapatos que não podíamos levar para a escola durante a semana e íamos à missa a S. Pedro.
Havia a missa das nove e meia, aquela a que as mães mais gostavam de ir, mas nós, as raparigas, preferíamos ir à missa do meio-dia.
Essa sim era a missa que nos enchia de alegria e entusiasmo, mas não pelo fervor religioso…
E lá íamos nós, chilreando como passarinhos, saltitando pelo caminho. Atravessávamos o Largo do Carmo, que nesse tempo não tinha sequer um automóvel estacionado, e entrávamos na Igreja de S. Pedro.
Percorríamos a nave central e sentávamo-nos no lado direito, o mais atrás possível (quando as mães deixavam), para podermos dar uma espreitadela, pelo canto do olho e por cima do ombro, aos rapazes que se encostavam à porta da igreja, de pé, para poderem ver todas as raparigas lá à frente.
E o fim da missa era o momento mais esperado…
Os rapazes eram os primeiros a sair e colocavam-se estrategicamente do lado de fora, para verem “de camarote” todas as raparigas a sair da igreja.
Era o Santo Sacrifício da Saída.

Igreja de São Pedro - Faro

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Curiosidade satisfeita


Por Dina Sacramento
[Técnica de turismo - Loulé]

Há relativamente pouco tempo, apareceu um senhor, à porta do Posto de Turismo de Loulé, de aparência absolutamente anódina que, um bocadinho receoso, se assomou e foi perguntando:

“Desculpe minha senhora mas pode-me dizer qual é mesmo o «promenor» disto aqui?”

Eu, sem me desmanchar, respondi-lhe:

“Então o «pormenor» disto aqui é essencialmente dar informações aos turistas. Temos também alguns produtos regionais para venda”.

“Ah!!! Pensei que fosse uma farmácia - respondeu o senhor - mas ao mesmo tempo estava-me a fazer espécie ver tanta gente estrangeira entrar e sair daqui com um papelinho na mão, assim já percebo. Obrigado e tenha uma boa tarde.”

Claro que desejei uma boa tarde ao senhor também, e com uma amiga, que aqui estava por coincidência a visitar-me, rimo-nos achando graça à maneira peculiar como o senhor satisfez a sua curiosidade.

Largo de São Francisco - Loulé

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A Medalha do Investidor


Por Jorge Felner da Costa
[Ex-Director de Centros de Turismo de Portugal em Londres, Paris, Nova-Iorque, entre outros.]

Nos anos 80 em Londres, no mandato do Secretário de Estado do Turismo, Nandim de Carvalho, em plena campanha de relançamento do Algarve como destino turístico ideal para desportistas, ressurgia o interesse dos investidores em projectos parados devido às consequências do 25 de Abril, nomeadamente nos grandes resorts como Vilamoura, Vale do Lobo e Quinta do Lago.

Um deles, um tal John Beri, apresentou um plano para um projecto de grande qualidade, no valor de 1 milhão de libras e destinado a uma classe alta do mercado britânico.
Apoiado pelas autoridades portuguesas, o projecto foi divulgado com grande publicidade tanto no nosso país como no Reino Unido.
A fim de o apresentar às melhores classes deste sofisticado mercado, foi organizada uma recepção para a qual foram convidados de honra os Duques de Kent e o Secretário de Estado Nandim de Carvalho, que para o efeito se deslocou a Londres.

Na véspera da cerimónia, nos excelentes escritórios do Centro de Turismo de Portugal, em plena New Bond St, no coração de Mayfair, no mesmo local onde se encontra hoje a elegante loja Ralph Lauren, o Secretário de Estado do Turismo constatou a inexistência de qualquer peça que possibilitasse a realização de uma homenagem especial ou reconhecimento aos investidores e decidiu criar ali mesmo um “Diploma de Honra” e uma “Medalha de Mérito do Investidor”, a fim de os poder entregar durante a cerimónia do dia seguinte.

De imediato foi incumbido o nosso colaborador Jorge de Paiva Raposo, responsável pela campanha publicitária do Sportugal, de criar um diploma apropriado e vistoso, sendo-me pedido a mim que inventasse ou descobrisse uma medalha para entregar ao John Beri.
Na ausência de qualquer alternativa e por falta de tempo para solicitar alguma ajuda a Lisboa, entreguei uma bonita e antiga medalha do extinto SNI -Secretariado Nacional de Informação, onde se mandou gravar as palavras “Mérito do Investidor”.
E lá partimos com os diploma e medalha forjados, satisfeitos por conseguir uma solução para impressionar o próprio John Beri, assim como a assistência e a imprensa presentes.

Claro que a bela medalha de mérito foi o único exemplar desta “trapalhada”, mas a satisfação do SET em poder representar a encenação foi justificação suficiente para que o assunto ficasse devidamente “congelado”, como prometido, durante 30 anos.
Mas que foi verdade, isso garanto que foi.
Quinta do Lago

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A feira de Outubro


Por Luisa Correia
[Documentalista - Turismo do Algarve]

O Outono é tempo de feiras no Algarve. Desde o final de Setembro até ao fim de Novembro, o ciclo de feiras do Algarve anima a região fazendo reviver uma ancestral tradição socioeconómica, apesar das claras diferenças que o progresso instituiu.

Em tempos idos o dia da feira era uma verdadeira festa. Quando o comércio não tinha a dimensão e as facilidades dos dias de hoje, a feira era a grande ocasião do ano para se efectuar as principais compras. Para além da venda das produções agrícolas com destaque para os frutos secos como o figo, a alfarroba e a amêndoa, mas também os frescos como maçãs e ameixas, a feira representava a oportunidade de adquirir os utensílios necessários à lida da casa, roupa, calçado e brinquedos para as crianças. Era até costume “dar-se as feiras”, presente em dinheiro que pais e padrinhos tinham por obrigação de dar aos seus filhos e afilhados para comprar algo na feira.

Hoje as feiras deixaram de ter essa importância vital na economia da região, mas ainda servem propósitos comerciais alternativos e representam também momentos de diversão alimentados pela presença de carrosséis, pistas de carrinhos de choque e de outros equipamentos destinados a alimentar emoções.

Era pois, nas feiras que as criancinhas faziam as suas birras, tal como hoje as fazem nos supermercados. E por poucos recursos que as famílias tivessem, alguma guloseima havia de alegrar aqueles passeios anuais.

Em casa da minha mãe eram sete irmãos. Numa família humilde e a viver do produto da terra, não havia margem para grandes gastos. Na década de 50 do século passado, quando chegava o dia da feira de Outubro, em Boliqueime, lá iam tentar “enfeirar” alguma coisa. E as manas mais velhas tomavam conta da mais nova. Eram elas, que mais interessadas nos encontros que a feira também lhes proporcionava, tinham que aturar as birras da moça pequena. Então lá andava a miúda choramingando por uma qualquer boneca que tinha visto numa tenda e as manas a explicar-lhe que não podia ser.

Das guloseimas disponíveis nas feiras de outros tempos não me consta que houvesse, por exemplo, gomas coloridas. Os doces eram outros. Talvez uns figos secos ou uns amendoins torrados. Ora a pequena, quando via que de bonecas não levava nada, alterava o seu pranto e desatava a gritar entre soluços: “Se não me compram uma boneca, quero cagoitas!”

Que é como quem diz alcagoitas, que no falar algarvio são os amendoins.


I'm nuts about Algarve (give-away do Turismo do Algarve -anos 90)

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Correr em casa


Por Miguel Praia
[Piloto oficial da Parkalgar-Honda]

O desfecho da corrida de Portimão não foi nada como estávamos à espera. Aliás, pior seria difícil, pois como sabem, nem eu nem o Eugene terminámos a corrida. Contrariando o meu mau perder, desta vez falarei abertamente do sucedido, pois é também a minha obrigação dar a minha perspectiva pessoal a todos os que gostam de corridas e nos apoiam.

O fim-de-semana começou com a azáfama do costume. Muitas acções, entrevistas e compromissos. O tempo de antena desta prova é essencial para os nossos patrocinadores, daí a importância de toda a nossa disponibilidade.

O Eugene foi o primeiro a chegar a Portugal. Tive assim a oportunidade de o levar a almoçar um belo peixe, na Praia da Oura. Aproveitei para trocar impressões acerca das suas expectativas e estratégias para o fim-de-semana de competição. O melhor veio depois, quando recomendado por mim, ele aceitou comer uma dourada. Confesso que me fartei de rir com a cara dele, quando ele viu o peixe com a cabeça e espinhas. Eles apenas comem o filete do peixe e não estão habituados a comer o peixe assim. Espero não ter a paga quando o visitar na Irlanda.
Na quarta-feira foi dia de rumar ao circuito e planear todo o fim-de-semana. Os pneus, os acertos, os treinos, a electrónica… havia muito trabalho a fazer. Infelizmente o tempo não recebeu a caravana com o habitual sol. No entanto, nos dias de competição a meteorologia colaborou sempre.As sessões decorreram como o previsto e estive sempre a lutar pela 2ª linha da grelha. Na verdade, no final do primeiro dia estava consciente que poderia atacar a 1ª linha, mas acabei por sentir mais problemas na afinação da Honda CBR do que esperava. A variação de temperatura, aliada com o vento forte, fez com que tivesse muitas dificuldades em encontrar o “grip” necessário para rodar mais rápido. No entanto, o objectivo dos treinos foi alcançado, garantido a 2ª linha para a corrida.
O momento da grelha é sempre especial. Mas desta vez tudo estava bem planeado: a música, a concentração e ponto de travagem, tudo bem estudado. Ainda assim, o nervosismo apodera-se de nós e “inspiramos” todo o apoio que “anda no ar”. O arranque foi fantástico, de longe o melhor que alguma vez fiz no Mundial. Cheguei à 1ª curva na 5ª posição! A 1ª volta foi de loucos, com o Chaz, Foret, Rea e Harms a arriscarem tudo. Levei bastantes toques mas dei mais do que levei, ficando na memória a entrada na direita depois da Torre Vip, onde quem vinha ao meu lado teimava em não fechar o punho, ‘carenagem’ contra ‘carenagem’. Claro está, íamos caindo os dois. Mas ele teve de alargar, perdendo preciosos segundos. O Robbie Harms, com toda a sua experiência, aproveitou esta luta. Contudo, rapidamente o pus no lugar, ultrapassando-o no meu local favorito, depois da curva “Craig Jones”. De trás veio o Fabien Foret, que foi uma boa ajuda para irmos no encalço de Fujiwara. Tive de dar tudo para não largar as rápidas Kawasaki e esperar que errassem, pois nessa fase o pneu da frente acusava um excesso de desgaste preocupante. Decidi então esperar um pouco para atacar nas últimas duas voltas. Só que, a 4 voltas do fim, como sabem o motor da CBR perdeu drasticamente potência e pressão do óleo, obrigando-me a entrar nas boxes. Nem queria acreditar no que me estava a suceder, pois com a queda do Eugene, poderia ambicionar um fantástico 5º lugar.

Os rostos no final espelhavam bem o nosso estado de espírito, mas sabemos que faz parte do jogo. É frustrante abandonar à frente de todos os que nos apoiam. Mas Valência fica bem perto e talvez haja “paella” no final da corrida.

O meu profundo agradecimento ao apoio incondicional. Foi fantástico sentir o carinho dos Portugueses.


Autódromo Internacional do Algarve

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Arroz de pato


Por Ana Araújo
[Técnica de turismo - Faro]

Esta história é mais uma das que pretendem provar aquilo que a maioria dos colegas dos Postos de Informação Turística afirma e que provavelmente muitos dos nossos turistas pensam: “que somos uma fonte de informação turística e que temos obrigação de saber de tudo um pouco”. Quem nos procura julga que podemos resolver todas as situações que nos são apresentadas.

Há muitos anos atrás no Posto de Turismo do Aeroporto de Faro, perto da hora do almoço, já eu pensava no que seria o meu belo repasto, surgiu uma senhora de nacionalidade inglesa que me pediu auxilio: “Está um pato na minha piscina e não sei o que fazer. Pode ajudar-me?”

A minha cara deve ter sido de extrema surpresa pois não esperava um pedido desta natureza e interroguei-me se teria percebido bem a questão da senhora: “Um pato?!”

A senhora confirmou ser mesmo um pato…e para que não restassem dúvidas desatou a imitar o animal: “quack… quac… quack…” o que gerou olhares curiosos dos outros utentes do Posto de Turismo e até mesmo fortes gargalhadas.

Com a proximidade da hora do almoço, o meu primeiro pensamento foi: “ai que belo arrozinho de pato!" Mas, como não ficaria de certo muito bem na minha folha de serviço e não fosse a senhora pertencer a uma qualquer associação de defesa dos animais, limitei-me a dizer: “enxote o pato”, ao que ela me responde que já o havia feito mas o mal fadado animal acabava sempre por regressar…

Então, a atitude mais profissional que consegui ter foi dar-lhe o contacto da Câmara Municipal local e tentar saber se havia um serviço que tratasse do assunto.

Ela lá agradeceu e disse que iria seguir a minha sugestão.

O facto é que nesse dia fiquei mesmo a salivar por um arrozinho de pato! Seria da fome?!


Posto de Turismo no Aeroporto de Faro

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Mudam-se os tempos... mudam-se os costumes...


Por Leitor devidamente identificado

Existem chavões que se agarram aos nomes das terras, sem que a maioria das pessoas, ou mesmo os seus habitantes conheçam as razões que levaram ao seu aparecimento. Por exemplo quando nos lembramos da cidade de Olhão imediatamente se associa o chavão: “Em Olhão, porta sim, porta não…”.

Se perguntarmos a alguém o porquê deste chavão, logo nos aparece uma explicação atabalhoada, que tem a ver com um grande número de casas de prostituição. Ora isso não tem nada a ver com a situação actual, mas sim com certa época, em meados do século passado.

Essas “casas de meninas” como na altura se chamavam, surgem exactamente, quando Olhão vive no seu apogeu económico, com a instalação na então Vila, de dezenas de fábricas de conservas de peixe e de centenas de barcos de pesca.

Começa então uma deslocação maciça de trabalhadores de outras zonas do país para Olhão, à procura de trabalho e de melhores condições de vida. Esses homens quase sempre solteiros, precisavam de companhias femininas que os ajudassem a suportar as agruras da faina da pesca e assim surgem as famosas casas de meninas que deram origem ao chavão que todos conhecemos.

Contam-nos os mais antigos, que a mais famosa casa era a da Rosa Eulautéria, mulher de fartas carnes e abundantes seios, que rapidamente se tornou conhecida em Olhão e cidades vizinhas, de tal modo que o seu “negócio” prosperou a ponto de ter que mandar vir companheiras que a ajudassem no atendimento dos clientes.

Na Rua da Rosa Eulautéria o corrupio era tamanho e as filas tão longas que os vizinhos começaram a reclamar a ponto de se ter que instituir alguma ordem. Decidiu então a Rosa Eulautéria colocar à entrada da rua dois cães de porcelana com a seguinte codificação. Se os cães estivessem voltados um para o outro, os clientes poderiam avançar e chegar-se à porta. Se os animais estivessem colocados de costas voltadas, pois que esquecessem isso…


Olhão


quinta-feira, 14 de outubro de 2010

O turista americano


Por Mário Martins
[Técnico de Turismo - Tavira]

O Algarve é, como se sabe, um destino turístico muito diversificado, tão diversificado quanto o são os turistas que o procuram. Quem trabalha num posto de turismo tem que estar preparado para essa diversidade, conhecer bem a região que promove e possuir preparação psicológica suficiente para ajudar a resolver os problemas mais inimagináveis que possam surgir. É que, para além de bem informar, também é preciso bem atender a qualquer reclamação que possa ser apresentada, por mais estranha que à partida possa parecer.

Pois bem, um belo dia no Posto de Turismo de Tavira, entra um turista americano que, muito aborrecido, se queixava, num tom alto e irritado, que as máquinas de multibanco de Tavira não funcionavam: "As caixas ATM desta cidade não funcionam. Vou ter que me ir embora daqui e procurar outro local para poder levantar dinheiro!”

Tentámos perceber qual era o problema. Para isso, fomos seguindo passo a passo cada operação que o turista americano levava a cabo após introduzir o seu cartão na caixa multibanco.

Depressa descobrimos onde residia o problema...
É que quando se chegava à opção “escolher idioma”, surgiam as bandeiras dos países para simbolizar a respectiva língua. E, pasme-se… só lá estava a bandeira inglesa e nada de bandeira americana. Percebe-se assim o desespero do nosso amigo por não encontrar a opção, para ele, mais adequada.
Cabecinha pensadora…


Tavira

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Coincidências


Por Antónia Farinha
[Técnica de Turismo - Loulé]

Há três anos atrás fui requisitada para prestar serviço no Posto de Turismo de Quarteira. Dirigiram-se a mim dois casais ingleses em busca de sugestões de locais interessantes e típicos para visitar no Algarve. Sugeri que visitassem Loulé pelo seu artesanato, pelo tipicismo, pelo seu castelo, enfim por tudo o que achei interessante e ofereci-lhes ainda uma brochura da cidade.

No dia seguinte estava eu já de volta ao Posto de Turismo de Loulé, quando me entram pelo Posto adentro os dois casais, que fiéis á minha sugestão, visitavam Loulé. Logo me reconheceram e em tom de brincadeira disseram: “Ah!!!, por isso nos mandou para Loulé… mas já agora diga-nos um local piscatório que possamos também visitar.” Sugeri-lhes Olhão e ofereci um desdobrável da cidade.

Por ironia do destino, nessa mesma noite e por volta das 21h30 a minha coordenadora telefonou-me, perguntando-me se no dia seguinte poderia assegurar o serviço no Posto de Turismo de Olhão, ao que eu respondi afirmativamente.

No outro dia, já em Olhão, eis que surgem novamente os mesmos dois casais que, sempre fiéis ás minhas sugestões, procuravam de novo os nossos serviços informativos. Olharam para mim muito espantados. Gerou-se ali um momento de silêncio e incrédulos perguntaram-me: “Você é gémea da colega de Loulé?”

Respondi-lhes: “Não…eu sou a funcionária de Loulé, que vos atendeu no Posto de Turismo de Quarteira, mas que está de serviço aqui, apenas hoje…”

Seguiram-se sonoras gargalhadas e mais uma pergunta: “Você é sempre a mesma em todo o Algarve? Já agora gostaríamos de visitar Lagos e Sagres. Poderá dar-nos informações ou quando lá chegarmos também vai lá estar para nos receber?”

Claro que esta situação não se repetiu nas outras localidades, mas foi interessante e permitiu-me perceber que todas as informações que damos nos Postos de Turismo são importantes e seguidas à risca pelos turistas, que confiam nas nossas sugestões e valorizam o nosso serviço.


Barcos de pesca - Algarve
Créditos: Antonio Sacchetti

terça-feira, 12 de outubro de 2010

Aventura na Ria Formosa


Por Luis Nadkarni
[Monitor de desporto]

Estávamos em pleno Inverno, no ano de 1977.

Era Domingo e os velejadores do Naval de Faro, e do Faro e Benfica, realizavam mais uma "saída" para a Ria Formosa. Nessa altura, a Ria enchia-se regularmente de velas brancas que davam cor e beleza a este verdadeiro paraíso natural. Saímos da Doca de Faro "à pagaia", passámos a ponte do comboio e aparelhámos os barcos junto ao cais das Portas do Mar. Nessa manhã fazia-se sentir uma leve brisa de sudoeste e de velas ao vento iniciámos a navegação. Pelos canais da Ria Formosa, rumámos à Ilha dos Tesos e, quando mais à frente passámos pelo cais comercial, reparámos no aumento progressivo da intensidade do vento, que continuaria a aumentar até à Ilha do Farol, onde atracámos junto ao cais de embarque dos barcos da carreira. Nesse dia navegavam pela Ria cerca de duas dezenas de embarcações, comandadas por jovens velejadores com idades compreendidas entre os 16 e 20 anos. Eu era dos mais novos.
Almoçámos no Farol, visitámos a ilha e quando começámos a aparelhar os barcos levantou-se uma tormenta de Oeste bastante violenta. Já a navegar de regresso a Faro, na Praça Larga, deparámo-nos com uma situação verdadeiramente dantesca. As águas estavam completamente alteradas com ondas de cerca de um metro, ou mais, e com vento a soprar fortíssimo. Alguns velejadores da classe snipe desistiram imediatamente do regresso a Faro, e arriando a vela grande, apenas com o estai, rumaram a Olhão, percurso mais favorável e seguro. Eu, no cadete, mais dois snipes, empreendemos o percurso até Faro, à bolina, bordejando pelo canal da Ria Formosa e enfrentando a tormenta. Perto do cais comercial, mesmo à minha frente, assisto estupefacto à quebra violenta do mastro de um dos snipes que tem que encostar à margem, manobra que consegue realizar em relativa segurança, ficando a aguardar por auxílio.
Nesse dia só chegaram a Faro dois barcos, um snipe e o cadete onde eu velejava.
Quando entrámos na Doca de Faro verificámos uma situação algo alarmante. Os Bombeiros e Marinha saíam para a Ria Formosa tentando localizar e rebocar as embarcações que estavam espalhadas um pouco por todo o lado, incapazes de regressar em segurança. Como é normal, os pais dos velejadores estavam muito preocupados. Era já noite cerrada quando todos regressaram sãos e salvos.
Foi uma das maiores aventuras que vivi na Ria Formosa, onde, em tempos que já lá vão, saíamos velejando, sem qualquer barco de apoio, contando apenas connosco próprios e com os colegas, mas nessa altura, provavelmente, a Ria tinha mais beleza.



Ilha do Farol

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Era uma vez em Olhão...


Por António Pina
[Ex-Governador Civil de Faro, ex-Presidente do Turismo do Algarve, cidadão algarvio]

Em tempos que já lá vão… a Vila de Olhão da Restauração era uma das principais terras algarvias e a faina da pesca aliada à indústria conserveira era um dos grandes sustentos económicos da população.

Viviam-se anos de grande prosperidade… de todo o país chegavam homens para trabalharem no mar. Chegavam também famílias inteiras italianas, principalmente sicilianas, que por uma razão ou por outra, se viam obrigadas a deixar as suas terras e investiam em Olhão dinheiro ou conhecimentos, na edificação de fábricas. Também nessa época chegaram os chineses e os marroquinos, que de casa em casa vendiam os seus produtos exóticos, que encantavam as mulheres locais, recentemente enriquecidas. Chegaram os ourives, que abriam ourivesarias atrás de ourivesarias na procura do dinheiro dos pescadores que compravam ouro no Verão em tempos de abundância e que o vendiam de Inverno, quando o mar já não dava o suficiente para o seu sustento. E chegaram as mulheres da vida, que numa terra de muitos homens solteiros ou com famílias longe, precisavam do conforto dum colo, após um longo dia no mar. Com a chegada das mulheres da vida os costumes mudaram.

Eram tempos mais libertinos.

Conta-se que certa mulher, casada com um pescador, morria de amores pelo seu vizinho. Todas as noites, assim que o marido abalava para a faina, abria a porta da sua casa e a sua cama ao seu amor clandestino. Numa noite de aparente calmaria, acabou por surgir uma grande tempestade no mar que obrigou os barcos a regressarem mais cedo a terra. O bom do pescador ao retornar a casa dá de caras com o vizinho ocupando o seu lugar no leito conjugal. Vai daí, antecipa-se logo a mulher que, não o deixando sequer abrir a boca, lhe lança:

“Vês? Tás a ver? Tou na cama com o vizinhe sim… Agora vai contar a toda a gente sê langareiro!!!”

Olhão

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Iscas com elas


Por Ilídia Sério
[Empresária - Restaurante Casa Algarvia, Faro]

Eram os anos áureos do turismo, no nosso Algarve, anos 70 ou 80, não consigo recordar exactamente. O Aeroporto de Faro ainda funcionava nas antigas instalações, um barracão, pomposamente apelidado de Aeroporto Internacional, sem condições quase nenhumas para se poder trabalhar e receber condignamente os turistas, nessa altura maioritariamente ingleses.
A maior parte das empresas de carros de aluguer sem condutor e até das agências de viagens, não tinham balcão próprio no edifício do aeroporto, e como tal, os respectivos funcionários tinham que trabalhar em cima do joelho. E nas longas esperas impostas pelos atrasos dos voos tudo se fazia, tudo se conversava. Contávamos anedotas, falávamos dos amigos, das tricas, enfim, tentávamos ocupar o tempo da melhor maneira….
Desse grupo dos “sem abrigo” do aeroporto faziam parte alguns rapazes e raparigas ingleses que tinham vindo para Portugal trabalhar, na maior parte representantes das empresas que transportavam os turistas para o Algarve.
Inevitavelmente, não falavam português. E um dos maiores divertimentos que nós tínhamos era “ensiná-los” a falar a nossa língua, trocando as palavras certas, por outras, não muito recomendáveis…
Mas o episódio mais engraçado a que eu assisti foi passado com uma inglesinha loirinha, a June. Um dia fomos almoçar todos juntos e ela, ao tentar decifrar o menu, esbarrou com um prato chamado ISCAS. Lá lhe explicámos que "iscas" era "fígado", e ela ficou muito feliz por ter aprendido mais uma palavra em Português.
Passados dias, a boa da June, depois de uma noite bem regada com o nosso bom vinho, andava pelo aeroporto, agarrada à barriga, a queixar-se que estava com uma crise de “iscas”.
Bons velhos tempos!!!
Aeroporto de Faro, anos 60

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O lobisomem da Franqueada


Por Dina Sacramento
[Tecnica de Turismo - Loulé]


Contava um tio-avô meu que quando ia namorar, às quartas-feiras e aos sábados, únicos dias autorizados naquela época (anos 20), acontecia-lhe quase sempre coisas esquisitas ao passar por uma encruzilhada sita na Franqueada, onde hoje há uma ponte sobre a ribeira de Carcavai, na velha estrada para Quarteira. Desculpem-me os detalhes mas, como pessoalmente gosto sempre de poder identificar locais e pessoas, penso que poderá interessar a outros também.

Então passando à estória: contava ele, muito convencido e sem qualquer lugar a dúvidas, que certa noite, passando por esse sítio, encontrou um cordeirinho que ao vê-lo se pôs a balir. Estranhando por não ver a mãe por perto e ser tão tarde para o animal estar naquele lugar, agarrou nele pondo-o às cavalitas. Mal o tinha posto sobre os ombros ouviu uma voz sussurrar: “quando me puseres no chão põe-me devagarinho”.
"Ai caramba… agarrei no bicho e espetei com ele no valado!" Eram essas as palavras do tio Blé Anica, pois assim se chamava esse meu tio-avô.

Nos dias seguintes andou intrigado, mas não contou nada a ninguém. Só observava para ver se conseguia saber quem era o lobisomem, até que por fim encontrou alguém seu conhecido com um grande galo na testa e um braço pendurado ao pescoço… perguntou-lhe imediatamente o que lhe tinha acontecido, ao que o outro respondeu: “porque perguntas? Não sabes o que foi?"

Claro que eu com 5, 6, ou 7 anos acreditava em cada uma destas palavras, ainda por cima vindas de alguém tão respeitoso como era aquele senhor … Passado algum tempo comecei a questionar-me sobre a veracidade desta e de outras estórias que ouvi na minha infância.
Não consigo acreditar que há bruxas “mas que as há, há...”


Castelo de Loulé

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Sportugal



Por Jorge Felner da Costa
[Ex-Director de Centros de Turismo de Portugal em Londres, Paris, Nova-Iorque, entre outros.]


Na sequência e em resultado da agitação provocada pelo golpe do 25 de Abril 1974, foi vertiginosa a quebra sentida na procura turística para os nossos destinos, de todos os mercados tradicionais, sendo notório nomeadamente no Algarve um cenário de penúria, pelo estado de abandono dos novos e velhos projectos turísticos, sem o movimento turístico habitual, mesmo em pleno Verão.
Urgia fazer qualquer coisa para relançar a confiança nos turistas, preocupados com as notícias que inundavam a imprensa internacional e as imagens de manifestações com bandeiras vermelhas visíveis nos noticiários televisivos dos seus respectivos países.
No Centro de Turismo de Portugal em Londres, no decurso de 1979, analisavam-se várias soluções acompanhando as compreensíveis preocupações dos responsáveis das regiões turísticas e finalmente foi decidido optar por um sector apolítico, que mostrasse um potencial para férias em Portugal, em qualquer altura do ano, e abstraísse dos inconvenientes da agitação que se vivia no País.
Foi decidido lançar o DESPORTO como alternativa para atrair os turistas provenientes do norte da Europa e fazer uma experiência forte no Algarve.
Foi contactada a nossa agência de publicidade para apresentar um slogan que fosse simultâneamente curto, forte e incisivo, com impacto suficiente para chamar a atenção dos potenciais turistas, num mundo carregado de ofertas de viagens.
A proposta que nos foi entregue, em telefonema feito num domingo tal a excitação da descoberta, foi aceite de imediato.
Disseram-nos que escrevêssemos a palavra Portugal num papel… e que lhe acrescentássemos a letra S no seu início: SPORTUGAL.
Pareceu-nos um ovo de Colombo, uma marca inimitável já que não podia ser utilizada por nenhum outro concorrente, incluindo as 5 letras duma palavra forte - SPORT, sem deixar qualquer dúvida sobre o objectivo e o sentido do nome: Desporto em Portugal.
No dia seguinte, em reunião com o director da nossa agência de publicidade, avançámos com o desenvolvimento de um slogan e foram aprovados dois:

Sportugal, for every sport under the Sun
Sportugal, the sportsman’s paradise

Desenhou-se uma proposta de folheto, um A4 dobrado em 3, que apresentava na capa um desportista equipado com uma série de apetrechos desportivos: 1 raquete de ténis, 1 saco de golfe, calçado com uma bota de cavaleiro e uma palma de nadador, 1 cana de pesca, espingarda e uma prancha de surf ao lado, etc.
Marcada uma viagem a Lisboa, fomos rapidamente apresentar o projecto à sede da Direcção Geral de Turismo, que mereceu o apoio imediato da direcção da Promoção Turística, nessa altura chefiada por José Carrasco e sua excelente equipa, que deu luz verde para que se desenvolvesse a ideia e nos assegurou verbas, pela Secretaria de Estado do Turismo, para a divulgar e promover.
Foram idealizados materiais com aquela marca e diversos anúncios para a imprensa especializada e generalizada, preparando-se ainda uma campanha publicitária, nesse primeiro ano, apenas no Reino Unido.
No entanto, o problema consistia em que, na realidade, Portugal não estava nessa altura equipado para ser um destino para desportistas devido à escassez de equipamentos e de variedade de actividades. No Algarve havia apenas 5 campos de golfe, e poucos cortes de ténis. O surf estava pouco e mal desenvolvido ou explorado e apenas em Vilamoura se começava a pensar em fazer mais investimento no sector.
Entrou-se no eterno ciclo vicioso. Os investidores nacionais não se interessariam no desporto por falta desse tipo de procura e os operadores estrangeiros não vendiam pacotes turísticos especializados por inexistência de facilidades desportivas no nosso destino.
Correu-se o risco, com total aprovação superior e a total colaboração da Região de Turismo do Algarve, de sacrificar os primeiros viajantes na busca da nova Meca desportiva para que finalmente os investidores compreendessem o potencial da procura, os projectos arrancassem… e arrancaram mesmo e em força.
Para maior e mais rápida divulgação, combinou-se com a RTA e outros Centros de Turismo, que de imediato aderiram à nossa sugestão, organizar uma série de viagens educacionais, separadas para agentes de viagens e jornalistas, com um formato inédito.
Convidavam-se grupos em número par de cada mercado, para formarem equipas de 2, e num briefing à chegada ao Algarve, entregava-se um carro de aluguer a cada uma, e as instruções para um género de “rally paper”.
Nestas visitas de estudo, tínhamos como objectivo mostrar o que havia de melhor em novas facilidades para a prática de desportos, como golfe, natação, ténis, equitação, surf e tiro aos pratos, mas também os novos desenvolvimentos e complexos turísticos, só que em vez de os levar de autocarro, como habitualmente, cada equipa iria procurar os locais seleccionados para recolha de um objecto ou tomar parte numa prova desportiva entre si.
A animação era enorme. As refeições de convívio eram palco para troca de experiências e episódios de cada prova ou percurso. Realizavam-se mini-torneios de 4 a 6 buracos de golfe, rod robins de ténis, pequenos concursos hípicos, iniciação ao surf em piscinas ou no mar, provas de tiro aos pratos, utilizando vários percursos e equipamentos em hotéis, complexos e sobretudo nas áreas de Alvor, Vilamoura e Vale do Lobo.
Os resultados surpreenderam pela positiva. O facto de muitos jornalistas terem a possibilidade de se iniciarem em modalidades que nunca tinham experimentado antes, os divertidos episódios e a comicidade de situações criadas, a confraternização e sã competitividade e finalmente a distribuição de prémios a todos num jantar de encerramento, deram azo a inúmeros artigos favoráveis nas revistas de turismo e de público aderentes a esta iniciativa.
Nos anos seguintes, as viagens educacionais SPORTUGAL reuniram participantes também de França, Espanha, Suíça, Bélgica, Holanda, Alemanha, Itália e Escandinávia, e muitos directores de CTP’s passaram a acompanhar os seus melhores jornalistas de turismo ou operadores/agentes de viagem, contribuindo empenhadamente para a internacionalização e o sucesso deste projecto.
Após a experiência de vários anos com excelentes resultados no Algarve, foi a vez de subirmos até à Costa do Estoril, que aderiu com grande entusiasmo e onde se realizaram algumas viagens educacionais idênticas, quer para a imprensa quer para os agentes, durante dois a três anos.
Produziram-se inúmeras peças desportivas, merchandising de apoio promocional como sacos, chapéus, palas, t-shirts, sweat shirts, capas para raquetes de ténis e squash, todos com fundo branco e com a marca SPORTUGAL, marca esta que foi mais tarde abandonada por ser considerada uma ideia “passada” e nunca mais os responsáveis do Turismo se interessaram em retomar a ideia que proporcionou tantos e bons resultados.Na altura merecera um louvor do Secretário de Estado do Turismo, Nandim de Carvalho e uma homenagem pela RTA.
Foi pena.

Nota do Turismo do Algarve:

Em complemento ao que nos conta o Jorge Felner da Costa, permitimo-nos lembrar que, embora de forma esporádica, o Turismo do Algarve, retomou em algumas ocasiões a ideia do SPORTUGAL. Abaixo publicamos uma fotografia de uma das últimas edições, em 2000.