terça-feira, 12 de outubro de 2010

Aventura na Ria Formosa


Por Luis Nadkarni
[Monitor de desporto]

Estávamos em pleno Inverno, no ano de 1977.

Era Domingo e os velejadores do Naval de Faro, e do Faro e Benfica, realizavam mais uma "saída" para a Ria Formosa. Nessa altura, a Ria enchia-se regularmente de velas brancas que davam cor e beleza a este verdadeiro paraíso natural. Saímos da Doca de Faro "à pagaia", passámos a ponte do comboio e aparelhámos os barcos junto ao cais das Portas do Mar. Nessa manhã fazia-se sentir uma leve brisa de sudoeste e de velas ao vento iniciámos a navegação. Pelos canais da Ria Formosa, rumámos à Ilha dos Tesos e, quando mais à frente passámos pelo cais comercial, reparámos no aumento progressivo da intensidade do vento, que continuaria a aumentar até à Ilha do Farol, onde atracámos junto ao cais de embarque dos barcos da carreira. Nesse dia navegavam pela Ria cerca de duas dezenas de embarcações, comandadas por jovens velejadores com idades compreendidas entre os 16 e 20 anos. Eu era dos mais novos.
Almoçámos no Farol, visitámos a ilha e quando começámos a aparelhar os barcos levantou-se uma tormenta de Oeste bastante violenta. Já a navegar de regresso a Faro, na Praça Larga, deparámo-nos com uma situação verdadeiramente dantesca. As águas estavam completamente alteradas com ondas de cerca de um metro, ou mais, e com vento a soprar fortíssimo. Alguns velejadores da classe snipe desistiram imediatamente do regresso a Faro, e arriando a vela grande, apenas com o estai, rumaram a Olhão, percurso mais favorável e seguro. Eu, no cadete, mais dois snipes, empreendemos o percurso até Faro, à bolina, bordejando pelo canal da Ria Formosa e enfrentando a tormenta. Perto do cais comercial, mesmo à minha frente, assisto estupefacto à quebra violenta do mastro de um dos snipes que tem que encostar à margem, manobra que consegue realizar em relativa segurança, ficando a aguardar por auxílio.
Nesse dia só chegaram a Faro dois barcos, um snipe e o cadete onde eu velejava.
Quando entrámos na Doca de Faro verificámos uma situação algo alarmante. Os Bombeiros e Marinha saíam para a Ria Formosa tentando localizar e rebocar as embarcações que estavam espalhadas um pouco por todo o lado, incapazes de regressar em segurança. Como é normal, os pais dos velejadores estavam muito preocupados. Era já noite cerrada quando todos regressaram sãos e salvos.
Foi uma das maiores aventuras que vivi na Ria Formosa, onde, em tempos que já lá vão, saíamos velejando, sem qualquer barco de apoio, contando apenas connosco próprios e com os colegas, mas nessa altura, provavelmente, a Ria tinha mais beleza.



Ilha do Farol

Sem comentários:

Enviar um comentário