terça-feira, 19 de outubro de 2010

Correr em casa


Por Miguel Praia
[Piloto oficial da Parkalgar-Honda]

O desfecho da corrida de Portimão não foi nada como estávamos à espera. Aliás, pior seria difícil, pois como sabem, nem eu nem o Eugene terminámos a corrida. Contrariando o meu mau perder, desta vez falarei abertamente do sucedido, pois é também a minha obrigação dar a minha perspectiva pessoal a todos os que gostam de corridas e nos apoiam.

O fim-de-semana começou com a azáfama do costume. Muitas acções, entrevistas e compromissos. O tempo de antena desta prova é essencial para os nossos patrocinadores, daí a importância de toda a nossa disponibilidade.

O Eugene foi o primeiro a chegar a Portugal. Tive assim a oportunidade de o levar a almoçar um belo peixe, na Praia da Oura. Aproveitei para trocar impressões acerca das suas expectativas e estratégias para o fim-de-semana de competição. O melhor veio depois, quando recomendado por mim, ele aceitou comer uma dourada. Confesso que me fartei de rir com a cara dele, quando ele viu o peixe com a cabeça e espinhas. Eles apenas comem o filete do peixe e não estão habituados a comer o peixe assim. Espero não ter a paga quando o visitar na Irlanda.
Na quarta-feira foi dia de rumar ao circuito e planear todo o fim-de-semana. Os pneus, os acertos, os treinos, a electrónica… havia muito trabalho a fazer. Infelizmente o tempo não recebeu a caravana com o habitual sol. No entanto, nos dias de competição a meteorologia colaborou sempre.As sessões decorreram como o previsto e estive sempre a lutar pela 2ª linha da grelha. Na verdade, no final do primeiro dia estava consciente que poderia atacar a 1ª linha, mas acabei por sentir mais problemas na afinação da Honda CBR do que esperava. A variação de temperatura, aliada com o vento forte, fez com que tivesse muitas dificuldades em encontrar o “grip” necessário para rodar mais rápido. No entanto, o objectivo dos treinos foi alcançado, garantido a 2ª linha para a corrida.
O momento da grelha é sempre especial. Mas desta vez tudo estava bem planeado: a música, a concentração e ponto de travagem, tudo bem estudado. Ainda assim, o nervosismo apodera-se de nós e “inspiramos” todo o apoio que “anda no ar”. O arranque foi fantástico, de longe o melhor que alguma vez fiz no Mundial. Cheguei à 1ª curva na 5ª posição! A 1ª volta foi de loucos, com o Chaz, Foret, Rea e Harms a arriscarem tudo. Levei bastantes toques mas dei mais do que levei, ficando na memória a entrada na direita depois da Torre Vip, onde quem vinha ao meu lado teimava em não fechar o punho, ‘carenagem’ contra ‘carenagem’. Claro está, íamos caindo os dois. Mas ele teve de alargar, perdendo preciosos segundos. O Robbie Harms, com toda a sua experiência, aproveitou esta luta. Contudo, rapidamente o pus no lugar, ultrapassando-o no meu local favorito, depois da curva “Craig Jones”. De trás veio o Fabien Foret, que foi uma boa ajuda para irmos no encalço de Fujiwara. Tive de dar tudo para não largar as rápidas Kawasaki e esperar que errassem, pois nessa fase o pneu da frente acusava um excesso de desgaste preocupante. Decidi então esperar um pouco para atacar nas últimas duas voltas. Só que, a 4 voltas do fim, como sabem o motor da CBR perdeu drasticamente potência e pressão do óleo, obrigando-me a entrar nas boxes. Nem queria acreditar no que me estava a suceder, pois com a queda do Eugene, poderia ambicionar um fantástico 5º lugar.

Os rostos no final espelhavam bem o nosso estado de espírito, mas sabemos que faz parte do jogo. É frustrante abandonar à frente de todos os que nos apoiam. Mas Valência fica bem perto e talvez haja “paella” no final da corrida.

O meu profundo agradecimento ao apoio incondicional. Foi fantástico sentir o carinho dos Portugueses.


Autódromo Internacional do Algarve

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