quarta-feira, 20 de outubro de 2010

A feira de Outubro


Por Luisa Correia
[Documentalista - Turismo do Algarve]

O Outono é tempo de feiras no Algarve. Desde o final de Setembro até ao fim de Novembro, o ciclo de feiras do Algarve anima a região fazendo reviver uma ancestral tradição socioeconómica, apesar das claras diferenças que o progresso instituiu.

Em tempos idos o dia da feira era uma verdadeira festa. Quando o comércio não tinha a dimensão e as facilidades dos dias de hoje, a feira era a grande ocasião do ano para se efectuar as principais compras. Para além da venda das produções agrícolas com destaque para os frutos secos como o figo, a alfarroba e a amêndoa, mas também os frescos como maçãs e ameixas, a feira representava a oportunidade de adquirir os utensílios necessários à lida da casa, roupa, calçado e brinquedos para as crianças. Era até costume “dar-se as feiras”, presente em dinheiro que pais e padrinhos tinham por obrigação de dar aos seus filhos e afilhados para comprar algo na feira.

Hoje as feiras deixaram de ter essa importância vital na economia da região, mas ainda servem propósitos comerciais alternativos e representam também momentos de diversão alimentados pela presença de carrosséis, pistas de carrinhos de choque e de outros equipamentos destinados a alimentar emoções.

Era pois, nas feiras que as criancinhas faziam as suas birras, tal como hoje as fazem nos supermercados. E por poucos recursos que as famílias tivessem, alguma guloseima havia de alegrar aqueles passeios anuais.

Em casa da minha mãe eram sete irmãos. Numa família humilde e a viver do produto da terra, não havia margem para grandes gastos. Na década de 50 do século passado, quando chegava o dia da feira de Outubro, em Boliqueime, lá iam tentar “enfeirar” alguma coisa. E as manas mais velhas tomavam conta da mais nova. Eram elas, que mais interessadas nos encontros que a feira também lhes proporcionava, tinham que aturar as birras da moça pequena. Então lá andava a miúda choramingando por uma qualquer boneca que tinha visto numa tenda e as manas a explicar-lhe que não podia ser.

Das guloseimas disponíveis nas feiras de outros tempos não me consta que houvesse, por exemplo, gomas coloridas. Os doces eram outros. Talvez uns figos secos ou uns amendoins torrados. Ora a pequena, quando via que de bonecas não levava nada, alterava o seu pranto e desatava a gritar entre soluços: “Se não me compram uma boneca, quero cagoitas!”

Que é como quem diz alcagoitas, que no falar algarvio são os amendoins.


I'm nuts about Algarve (give-away do Turismo do Algarve -anos 90)

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