quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Sportugal



Por Jorge Felner da Costa
[Ex-Director de Centros de Turismo de Portugal em Londres, Paris, Nova-Iorque, entre outros.]


Na sequência e em resultado da agitação provocada pelo golpe do 25 de Abril 1974, foi vertiginosa a quebra sentida na procura turística para os nossos destinos, de todos os mercados tradicionais, sendo notório nomeadamente no Algarve um cenário de penúria, pelo estado de abandono dos novos e velhos projectos turísticos, sem o movimento turístico habitual, mesmo em pleno Verão.
Urgia fazer qualquer coisa para relançar a confiança nos turistas, preocupados com as notícias que inundavam a imprensa internacional e as imagens de manifestações com bandeiras vermelhas visíveis nos noticiários televisivos dos seus respectivos países.
No Centro de Turismo de Portugal em Londres, no decurso de 1979, analisavam-se várias soluções acompanhando as compreensíveis preocupações dos responsáveis das regiões turísticas e finalmente foi decidido optar por um sector apolítico, que mostrasse um potencial para férias em Portugal, em qualquer altura do ano, e abstraísse dos inconvenientes da agitação que se vivia no País.
Foi decidido lançar o DESPORTO como alternativa para atrair os turistas provenientes do norte da Europa e fazer uma experiência forte no Algarve.
Foi contactada a nossa agência de publicidade para apresentar um slogan que fosse simultâneamente curto, forte e incisivo, com impacto suficiente para chamar a atenção dos potenciais turistas, num mundo carregado de ofertas de viagens.
A proposta que nos foi entregue, em telefonema feito num domingo tal a excitação da descoberta, foi aceite de imediato.
Disseram-nos que escrevêssemos a palavra Portugal num papel… e que lhe acrescentássemos a letra S no seu início: SPORTUGAL.
Pareceu-nos um ovo de Colombo, uma marca inimitável já que não podia ser utilizada por nenhum outro concorrente, incluindo as 5 letras duma palavra forte - SPORT, sem deixar qualquer dúvida sobre o objectivo e o sentido do nome: Desporto em Portugal.
No dia seguinte, em reunião com o director da nossa agência de publicidade, avançámos com o desenvolvimento de um slogan e foram aprovados dois:

Sportugal, for every sport under the Sun
Sportugal, the sportsman’s paradise

Desenhou-se uma proposta de folheto, um A4 dobrado em 3, que apresentava na capa um desportista equipado com uma série de apetrechos desportivos: 1 raquete de ténis, 1 saco de golfe, calçado com uma bota de cavaleiro e uma palma de nadador, 1 cana de pesca, espingarda e uma prancha de surf ao lado, etc.
Marcada uma viagem a Lisboa, fomos rapidamente apresentar o projecto à sede da Direcção Geral de Turismo, que mereceu o apoio imediato da direcção da Promoção Turística, nessa altura chefiada por José Carrasco e sua excelente equipa, que deu luz verde para que se desenvolvesse a ideia e nos assegurou verbas, pela Secretaria de Estado do Turismo, para a divulgar e promover.
Foram idealizados materiais com aquela marca e diversos anúncios para a imprensa especializada e generalizada, preparando-se ainda uma campanha publicitária, nesse primeiro ano, apenas no Reino Unido.
No entanto, o problema consistia em que, na realidade, Portugal não estava nessa altura equipado para ser um destino para desportistas devido à escassez de equipamentos e de variedade de actividades. No Algarve havia apenas 5 campos de golfe, e poucos cortes de ténis. O surf estava pouco e mal desenvolvido ou explorado e apenas em Vilamoura se começava a pensar em fazer mais investimento no sector.
Entrou-se no eterno ciclo vicioso. Os investidores nacionais não se interessariam no desporto por falta desse tipo de procura e os operadores estrangeiros não vendiam pacotes turísticos especializados por inexistência de facilidades desportivas no nosso destino.
Correu-se o risco, com total aprovação superior e a total colaboração da Região de Turismo do Algarve, de sacrificar os primeiros viajantes na busca da nova Meca desportiva para que finalmente os investidores compreendessem o potencial da procura, os projectos arrancassem… e arrancaram mesmo e em força.
Para maior e mais rápida divulgação, combinou-se com a RTA e outros Centros de Turismo, que de imediato aderiram à nossa sugestão, organizar uma série de viagens educacionais, separadas para agentes de viagens e jornalistas, com um formato inédito.
Convidavam-se grupos em número par de cada mercado, para formarem equipas de 2, e num briefing à chegada ao Algarve, entregava-se um carro de aluguer a cada uma, e as instruções para um género de “rally paper”.
Nestas visitas de estudo, tínhamos como objectivo mostrar o que havia de melhor em novas facilidades para a prática de desportos, como golfe, natação, ténis, equitação, surf e tiro aos pratos, mas também os novos desenvolvimentos e complexos turísticos, só que em vez de os levar de autocarro, como habitualmente, cada equipa iria procurar os locais seleccionados para recolha de um objecto ou tomar parte numa prova desportiva entre si.
A animação era enorme. As refeições de convívio eram palco para troca de experiências e episódios de cada prova ou percurso. Realizavam-se mini-torneios de 4 a 6 buracos de golfe, rod robins de ténis, pequenos concursos hípicos, iniciação ao surf em piscinas ou no mar, provas de tiro aos pratos, utilizando vários percursos e equipamentos em hotéis, complexos e sobretudo nas áreas de Alvor, Vilamoura e Vale do Lobo.
Os resultados surpreenderam pela positiva. O facto de muitos jornalistas terem a possibilidade de se iniciarem em modalidades que nunca tinham experimentado antes, os divertidos episódios e a comicidade de situações criadas, a confraternização e sã competitividade e finalmente a distribuição de prémios a todos num jantar de encerramento, deram azo a inúmeros artigos favoráveis nas revistas de turismo e de público aderentes a esta iniciativa.
Nos anos seguintes, as viagens educacionais SPORTUGAL reuniram participantes também de França, Espanha, Suíça, Bélgica, Holanda, Alemanha, Itália e Escandinávia, e muitos directores de CTP’s passaram a acompanhar os seus melhores jornalistas de turismo ou operadores/agentes de viagem, contribuindo empenhadamente para a internacionalização e o sucesso deste projecto.
Após a experiência de vários anos com excelentes resultados no Algarve, foi a vez de subirmos até à Costa do Estoril, que aderiu com grande entusiasmo e onde se realizaram algumas viagens educacionais idênticas, quer para a imprensa quer para os agentes, durante dois a três anos.
Produziram-se inúmeras peças desportivas, merchandising de apoio promocional como sacos, chapéus, palas, t-shirts, sweat shirts, capas para raquetes de ténis e squash, todos com fundo branco e com a marca SPORTUGAL, marca esta que foi mais tarde abandonada por ser considerada uma ideia “passada” e nunca mais os responsáveis do Turismo se interessaram em retomar a ideia que proporcionou tantos e bons resultados.Na altura merecera um louvor do Secretário de Estado do Turismo, Nandim de Carvalho e uma homenagem pela RTA.
Foi pena.

Nota do Turismo do Algarve:

Em complemento ao que nos conta o Jorge Felner da Costa, permitimo-nos lembrar que, embora de forma esporádica, o Turismo do Algarve, retomou em algumas ocasiões a ideia do SPORTUGAL. Abaixo publicamos uma fotografia de uma das últimas edições, em 2000.

Sem comentários:

Enviar um comentário