terça-feira, 30 de novembro de 2010

Património geológico do Algarve

Por Luis Nadkarni
[Monitor de desporto]

No final da década de 70 do século passado foram realizadas com sucesso as primeiras descidas ao Algar da Maxila no Cerro da Cabeça, em Moncarapacho, no Algarve.
Tive o privilégio de integrar uma dessas equipas, com o João Humberto e o Nelson de Moncarapacho e o Luis Rocha Cruz de Faro. Lembro-me dessa aventura como se fosse hoje.

Começámos por descer um poço através de corda fixa, que deu acesso a uma pequena plataforma onde tinha sido previamente montada uma escada em aço com a respectiva corda de segurança. A partir desse local, iniciámos a descida de um poço aéreo com cerca de 20 metros, que deu acesso a outra plataforma, um pouco maior, onde está incrustado o fóssil de uma maxila de animal que veio a dar o nome ao Algar.

Empreendemos então a descida de mais um poço em forma de tubo vertical, com cerca de 30 metros de profundidade, utilizando escada metálica e corda de segurança. Descemos os quatro e quando alcançámos a base estávamos a aproximadamente 60 metros de profundidade. O objectivo desta expedição era desobstruir uma passagem que daria acesso a outro poço nunca antes explorado. O João Humberto preparou a dinamite e após duas detonações conseguiu-se desobstruir a passagem. O João e o Luís Rocha iniciaram a descida desse novo poço, sendo os primeiros seres humanos a vislumbrar a continuidade do Algar da Maxila. O Nelson e eu ficámos nos 60 metros a garantir segurança.

Na subida do Algar tudo se complicou. Estávamos no inverno e tinha estado a chover torrencialmente todo o dia pelo que apanhámos com uma enxurrada de água que vinha da superfície. Avariaram-se os gasómetros e as pilhas eléctricas e foi com muito sacrifício, espírito de equipa e alguma sorte, que conseguimos acender uma pequena vela que nos permitiu ver a primeira escada pendurada sobre o abismo, conseguindo subir até à superfície.

Ainda hoje esta descida aos noventa metros da Maxila constitui o recorde de profundidade atingido em grutas algarvias.

Uma aventura que jamais esquecerei.
À memória do João Humberto.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Ai, a geografia


Por Filomena Serol
[Técnica de turismo - Armação de Pêra]

Em Portugal, lamentamo-nos muitas vezes quando os norte-americanos confundem o nosso país com uma província de Espanha. Esta falta de conhecimentos geográficos cai-nos mal… Mas quem diz norte-americanos, diz também canadianos – nacionalidade da protagonista da historieta que agora vos conto.

Há uns tempos atrás, uma senhora canadiana (cá está ela) dos seus 70 anos resolveu passar férias em Armação de Pêra. E quase todos os dias rumava em procissão até ao Posto de Turismo para levar uma planta de localidade, uma sugestão de passeio, uma informação sobre os transportes ou qualquer outra coisa que lhe surgisse na ideia.

Ora numa dessas visitas irrompeu posto adentro de braço dado com uma amiga dizendo que queria muito visitar Sintra.

"Sintra?! Sintra fica ao pé de Lisboa… "– respondi eu. E ela insistiu:

"Sim… E então… Lisboa não é a capital de Espanha?"

Expliquei-lhe que Lisboa era capital, sim, mas de Portugal, país em que ela se encontrava. A senhora ficou franzida e fitou-me duvidosa pela informação que eu acabara de lhe dar. Mas em todo o caso – e entre fintas e «ais» na geografia – ela sabia pelo menos o nome da nossa capital… espanhola. Sempre fica 1 a 1 no marcador…


Praia de Armação de Pêra

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Carta do marítimo olhanense à namorada


Por Turismo do Algarve


No campo humorístico é muito conhecida, no Algarve, a carta do marítimo olhanense à namorada.

De acordo com a APOS - Associação de Valorização do Património Cultural e Ambiental de Olhão, a mesma terá sido uma carta de Carnaval escrita por uma rapariga a uma amiga, chamada Francisca, fazendo-se passar por um jovem marítimo, de pouca instrução, que se teria apaixonado por ela.

Trata-se de um texto por diversas vezes encenado na região e, hoje, o Turismo do Algarve decidiu partilhar aqui uma das suas versões.


"Farcízeca!

À díaze, do mar dâze Berlengâze, em sete bráçaze e mêa de profundeza, se m’embrazarem-se âze grózêraze, cande vêi de lá o cabrã do té pai e me dezeu assim: “Ah Fi’de put’hóme!!!Tu êz’ um montanhêre hóme, tu fázez’ um grande salcrefice em vir ó mar, hóme!!!”
- “O qu’é que Vocemessê me dize, hóme?...”
- “Digue-t’izete...e na cázaze ca’nha filha!!!”
- “Móç’ Farcízeca! Ê cá qu’ria maize qu’êl me désse um atragasse da cara qu’êl me dezésse aquil que tá ali à vizeta da gente.
Vínhameze p’á terra e a campanha do barque nam falava dôtra côza, cande vêi de lá o Mane Zé Xabeca e me dezeu:
- “Cala-t’aí, móce!!! Nam te zângueze, móce, se tu na casáreze ca filha dêl cásaze ca minha, hóme!!!”
- “É p’ra que vêjaze, Farcíseca, qu’ê ‘inda tenhe preteêndêntaze...” Cô uma viaje qu’ê faç’à Larache, ganhe denhêre àze braçádaze...compr’um chapé de côque e uma vengala, únaze bótaze de rangedêra com tapadôiraze, passe a Baralvente da tu’ porta e arrázete úze péize com’ um gale; tu vêze-me e fálaze-me, mai ê cá vêize-te e nam te fale!!!
- “mai s’ê sentir cá alguma coisa do mê querpinhe...uái’ nha mãe!!! Digue logue, fôrém vocêaze que me prantárem má’ olháde! E na quér que vócêaze andem a falar mal de mim p’ r’ êsses tâinquezes e rebêrezes!!!”
- “É só quer’ que tu t’alêmbreze duze mêze dôze brenhóleze, qu’ ê t’empresté, daquêle báilho...o báilinhe do ping’ ó lête!!!”
- “É cá na sê se tu pênsaze cu té pai é o Prince Dom Cárleze e a tó mãe a Rainha Dona Amelga e úze téz’ érmãoze únz’ élefantezinheze, mai ê quer’ que tu t’énforqueze, cu té pai é mai brúte qu’à mãe dúze penhêreze do mane Jan Luice.”
- “Ólha que só da ‘nh’ àvó herdi déze moédaze e o strafêgue tôde da canoa e na m’arrale; ê bem sê que tu tênze uma boa máineca de questura, mai na sê s’êze tan profêtinhaze de mãoze, côme dizeze...”
- “Digue-t’ ízete e na m’émpórte do pórque du té pai, na me perdôe a arçã.

Do té muite dedicáde

Embróize "

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O Teatro Lethes

Por Leitor devidamente identificado

Se é de Faro, se reside nesta cidade ou se simplesmente a visitou, certamente conhece ou ouviu falar do Teatro Lethes. Contudo, é possível que não conheça a sua história ou pelo menos, que não conheça as estórias que deram origem ao que é hoje o Teatro Lethes.

Vamos viajar no tempo...

Estamos em 1599. São restauradas em Faro umas casas antigas, que vão servir para instalar um Colégio e uma Igreja da Companhia de Jesus. Esta ordem religiosa vai permanecer neste local até 1773, ano em que é extinta.
A partir de 1779 serve de habitação aos Padres Marianos ou Carmelitas Descalços que ocupam o edifício até 1834. Nesse ano, são extintas as ordens religiosas em Portugal e os seus bens arrolados, pelo que o edifício passa para as mãos do Estado.

Voltemos, no entanto, um pouco atrás, quando por volta de 1804, numa terrível noite de tempestade, naufraga ao largo da costa algarvia um navio veneziano que transportava Lázaro Doglioni, jovem médico de Veneza, que se deslocava a Inglaterra para aprofundar os seus estudos.

Os náufragos vêm para Faro e são entregues ao cuidado do Cônsul de Veneza nesta cidade.

Durante a sua convalescença, o jovem Lázaro Doglioni torna-se amigo dos mais ilustres habitantes da cidade, entre eles Guilherme de Barr Crispin, por cuja filha, Maria, se terá interessado, tanto mais que esta jovem era herdeira de uma das maiores fortunas do Reino…
Apesar da discordância da família da noiva, e, depois de várias peripécias, o casamento foi consentido.

De um momento para o outro, Lázaro Doglioni passa a dispor desta enorme fortuna, o que lhe permite dedicar-se ao fomento das artes.
Amante de música e de ópera, decide criar em Faro um teatro destinado principalmente a esse fim, de modo a poder rodear-se do ambiente boémio da sua Veneza natal.

Assim, em 1843 adquire, em hasta pública, o Colégio e Igreja da Companhia de Jesus. De imediato começam as obras de transformação e restauro destes edifícios, que duram até 1845, ano em que é inaugurado o Teatro Lethes.


Interior do Teatro Lethes


Tendo como modelos o Scala em Milão e o São Carlos em Lisboa, a capela passa a sala de espectáculos, para estranheza da população local que não esperaria tal transformação, algo sacrílega.

No entanto, o resultado final é encantador e Faro ganhou um teatro com um palco e uma plateia delicadamente trabalhados, com capacidade para quinhentos espectadores e com duas ordens de camarotes.

O seu promotor quis ainda deixar à vista de todos a máxima latina Monet Oblectando – Instruir Divertindo, que mandou inscrever no frontão exterior do edifício.

Teatro Lethes - Faro

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O gato poliglota

Por Luis Francisco
[Consultor]

Uma família de Lisboa vem passar férias ao Algarve e traz o seu cão. Este, assim que pode, "desenfia-se" e decide passear nas redondezas. Vê um gato e pensa: “Olha o que ali está...”
Aproxima-se e ladra forte para o gato. Este olha-o e, com um sorriso, ladra-lhe de volta. O cão interroga-se: “Mas ele ladra?... hum... um gato?”
Torna a ladrar forte para o gato. Este olha-o de novo e, com um sorriso, ladra-lhe de volta: “Mau!... és um gato ou um cão?”
"Móce debo… Um gato, nã se vê?”
“Mas ladras?” pergunta-lhe o cão com espanto.

Com ar de um longo saber adquirido, o gato vira-se para o cão e remata: “Ó mê amigue, no Algarve quem nã falar pelo menos duas línguas... nã se safa!”

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Xerém

Por Ilídia Sério
[Empresária - Restaurante Casa Algarvia, Faro]

S. Brás de Alportel, em plena segunda guerra mundial, era uma terrinha do interior algarvio onde a falta de produtos para consumo alimentar, não se sentia com tanta intensidade quanto numa grande cidade. Cada família tinha um cantinho onde semear o necessário para a sua sobrevivência e onde criar alguns animais para o seu alimento, mas….havia coisas que não chegavam a uma vila quase no meio da serra, como por exemplo, carne de vaca. Só os lavradores mais abastados tinham possibilidade de a adquirir.

Nesse tempo, o prato mais habitual naquelas bandas, eram as famosas papas de milho, hoje pomposamente chamadas de xerém, confeccionadas sem os requintes que actualmente lhes conferem tão alto gabarito. Eram, pura e simplesmente papas de milho, que escorriam pela goela, sem se deterem na dentadura de quem as saboreava.

Neste cenário a moça casadoura, brejeira, atrevida, contracena com o rapaz altivo e muito vaidoso, filho de gente humilde, sem grandes recursos, mas trabalhador.
Um dia ele sai de casa, a seguir ao almoço e como de costume, caminha, altivo e hirto, com um palito na boca - talvez um pauzinho afiado, porque naquele tempo não devia haver ainda palitos como hoje - que vai manuseando entre os dentes.
A moça, à janela, como de costume, curiosa e brincalhona, pergunta:
“Ó Zé, vais a palitar os dentes? O que comeste hoje?”
Ele, sem se deter responde:
“Bife! O que querias que fosse?”
E ela, marota, logo retorquiu:
“Bife de papas?”

De coisas simples e brejeiras se vivia numa vila - ou seria aldeia nesse tempo - do interior algarvio, nos anos 40 do século XX.


Mexendo as papas de milho

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Um Sábado na praça


Por Sónia Tomás
[Directora Executiva - Associação Sotavento Algarvio]

Sábado de manhã. O despertador não toca mas os velhos hábitos despertam-me. São 09h00 e o sol já espreita através das nuvens outonais. O ar fresco que entra pela fresta da janela encaminha-me rapidamente para o roupeiro dos casacos. É assim, vivo no Algarve e esqueço-me que cá, por vezes, também faz frio.
A viagem é breve. Pelo caminho apanho a minha mãe e esboço mentalmente a minha lista de compras. Nada de diferente dos outros sábados. Peixe, legumes e fruta. Simples!
Antes de entrarmos, paramos na pastelaria habitual para a bica da manhã. As conversas fluem entre o tom apressado de quem tem pouco tempo para estar no café e o tom indiscreto de quem não se esquiva a dois ou três dedos de amena tagarelice alheia.
Mais à frente, no snack-bar da esquina, o inconfundível cheiro das bifanas quentinhas no papo-seco, à mesa dos homens. São dez da manhã mas o dia para eles já começou há muito. Um jarrinho de vinho da casa do “bom”, ou umas minis acompanham-nos no pequeno-almoço reforçado da manhã. À entrada da praça, o pedaço de cartão manuscrito com letras toscas anuncia todas as peças a cinco euros. O estendal é variado mas não convence a clientela. “É a crise v’zinha”, diz a vendedora de etnia cigana. Mais à frente, o Sr. António dos cestos tem cara de quem está a pensar a mesma coisa. Sentado num banquinho, vai vendo quem passa e vai-se entretendo entre dois dedos de conversa. Na banca da frente, a Dona Maria descasca uma clementina enquanto vai dizendo aos clientes que já estão “docinhas como o mel”. Estende-lhes uns gomos e coloca na balança um saquinho delas.


Prosseguimos em direcção às bancas do peixe. É a primeira compra que fazemos sempre. “Há sardinhas e carapaus para a grelha, pargo para o forno, bife de atum fresquinho, pescada para cozer…”, avança-nos logo o Luís assim que nos vê chegar. “Ah! E tenho ali uma anchova que está uma categoria!” Imagino-a logo acomodada no tacho, entre camadas de tomate, cebola, pimento verde, salsa e batatas às rodelas. Olho de relance para os bifes de atum e preparo-lhes logo uma cama de cebolada, paus de orégãos secos e folha de louro, bem regados com vinho branco. E rapidamente me distraio com um remexer constante mesmo à minha frente. Enguias! Bem fritinhas e borrifadas com sumo de limão. Está decidido! “Luís, levo uma anchova, dois bifes de atum e meio quilo de enguias”. Mais à frente ainda compro um quilo de lulas fresquinhas para rechear e um molhinho de lingueirão que terá como destino certo um arroz malandro ou uma feijoada.
Ao longe, já vejo a Dona Isabel de cabeça concentrada nas contas, que faz há anos em pequenos pedaços de papel. Há laranjas, tangerinas, maçãs, bananas, peras, dióspiros, marmelos, castanhas. Dirijo-me às hortaliças. Brócolos, uma couve-flor, um molhinho de grelos, uma alface e umas batatinhas novas a que não resisto. Cozidas com pele fazem a combinação perfeita para os bifes de atum. A minha mãe agarra um molho de beldroegas viçosas para aquela sopa que ela tão bem sabe fazer. Coloco ainda no saco umas batatas-doces para preparar o recheio das empanadilhas que tradicionalmente nos acompanham na quadra Natalícia. “É tudo minhas meninas?”, pergunta a Dona Isabel. Assentimos, pagamos e ainda recebemos cumprimentos para a avó, que foi por muitos anos companheira de praça, numa banca vizinha, ainda no mercado antigo.



A caminho da saída rendo-me aos figos secos e às amêndoas da banca do Sr. Jerónimo. Bem moídos e adicionados a uma calda de açúcar com canela, erva-doce e chocolate em pó, dão uns bombons de figo irresistíveis. Agarro um saquinho de cada. “Já agora levo também meio litro de azeitonas britadas, se faz favor”. Por hoje está tudo. Dividimos os sacos pelas quatro mãos e encaminhamo-nos para a saída. O burburinho das conversas de quem se encontra todos os Sábados por ali, o tilintar dos trocos nas bancas, os pesos de ferro que caem nas balanças de pratos, o pregão dos vendedores, as pancadas secas das facas dos talhantes, o correr da água que lava o peixe depois de arranjado, os sons ocos dos caixotes de madeira vazios que se vão amontoando, tornam únicas as manhãs de Sábado na praça. O aroma dos legumes frescos saídos da terra e as cores vivas dos frutos acabados de apanhar são inigualáveis. E a tudo isto, soma-se a genuinidade destas gentes de alma algarvia que os cultivam com a experiência de uma vida e que nos recebem com aquele sorriso aberto de sempre.

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

A gaivota e o gato preto


Por Raul Carrajola Araújo
[Assistente Director de Vendas - Hotéis Real]

Na praia de Santa Eulália há um gatinho preto e uma gaivota. Nasceram ambos na Aldeia dos Pingalhetes. Brincam juntos desde que nasceram. Acompanham os pescadores ao mar e esperam juntos o seu regresso. Dão-se muito bem. São amigos. É espantoso perceber que falam a mesma língua. Não existem diferenças. É lindo ver como se entendem. O gato pia como a gaivota e ela voa rasando o Atlântico e mia alegremente como um gato. Falam a mesma língua, entendem-se. Deixam o homem, que se encontra sozinho na varanda a fumar o seu cigarro e a beber o seu café, a pensar: “Estarei louco? Estarei eu só? Os meus amigos não me entendem? Não me escutam?”

Aqui, na praia de Santa Eulália, existe um gato preto de olhos verdes que tem uma amiga gaivota.
Ninguém sabe, ninguém vê, ninguém ouve, mas eu sei que se amam!


Praia de Santa Eulália - Albufeira
[Créditos fotográficos: Hélio Ramos]

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Insólitos turísticos


Por Antónia Farinha
[Técnica de Turismo - Loulé]

Há cerca de oito anos, ainda o Posto de Turismo de Loulé funcionava no interior do Castelo, onde actualmente está localizado o Museu Municipal, chegou ao local um casal americano com três filhos tendo a mais nova cerca de três ou quatro anos e sendo transportada numa cadeirinha de bebé empurrada pela mãe. O senhor dirigiu-se a mim solicitando informações sobre a cidade.

Até aqui tudo normal …

Ora bem, estava eu concentrada prestando informações sobre a cidade, quando começo a sentir um cheiro menos agradável, que se foi acentuando e que provocou a saída repentina dos outros dois filhos do casal e de outros turistas que esperavam a sua vez de ser atendidos.

“Será que alguém se descuidou?”, pensei.
E para meu espanto, vejo que no meio da sala se encontrava a criancinha mais nova, sentada a fazer as suas necessidades… A nossa pequena turista resolveu transformar o P.T. em W.C.
E se o cheiro já era insuportável, imaginem depois da menina se ter levantado… quando se pôs em posição da mãe lhe fazer a higiene, tal e qual como quando a “Alemanha perdeu a guerra”- na expressão dos antigos. Em seguida, a mãe deu um nó no saco de plástico transparente que continha o “presente” e a toalhita Dodot, enrolou-o no braço do carrinho com outro nó, desmontou o suporte do penico e saiu dali como se nada se tivesse passado….

Entretanto, o pai, que eu acabara de atender, agradeceu-me e abandonou o Posto de Turismo com votos de um bom dia de trabalho.

E eu ali fiquei, sozinha, incrédula, inerte, sem palavras, respirando aquele ar e pensando na descontracção necessária para ter semelhante atitude.

É caso para dizer: “E esta hein?”

Muralhas do Castelo de Loulé

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Ninhos de cegonhas


Por Fernanda Alegria
[Guia-intérprete, empresária - Recortes d' Alegria, Tavira]

Em 1994, eu estava a acompanhar um grupo de austríacos seniores em férias no Algarve, estando prevista a realização de várias excursões no país.
Os membros do grupo já se conheciam bem uns aos outros e também já me iam conhecendo quando se realizou um passeio a Faro.

Chegámos à cidade e depois de cumprida uma apresentação geral da capital algarvia, dirigimo-nos até ao Arco da Vila, onde lhes chamei a atenção para os ninhos das cegonhas no cimo da torre sineira. Um elemento do grupo interrompeu-me argumentando que aquilo só podia ser uma fantasia de guias turísticos.
“Como?”, inquiri, perfeitamente indignada.
“Sim, aquilo só pode ser uma trapalhice vossa para enrolar os turistas. Seguramente é feito de barro”.
“Claro que não”, retorqui. “Repare que uma das cegonhas até mudou agora de posição”.
“Ah ah...tretas… Aquilo não é mais do que um mecanismo que vai alternando a posição”.
Eu nem queria acreditar no que ouvia e alguns elementos do grupo até vieram em meu auxílio, dizendo-me que não ligasse porque aquele senhor era muito céptico e fazia sempre reparos daquele género.
Continuámos a visita até à Sé e regressámos de novo ao Arco da Vila. Ainda referi um pouco a medo:
“Olhe, agora já lá está outra cegonha. Vê como são reais?”
“Ah ah...pff...outra treta. É apenas um automatismo que faz uma e outra andar para cima e para baixo e levantar ou baixar a pata.”
Imaginem a minha cara ao ouvir aquilo. Mais uma vez alguns elementos do grupo me consolaram:
“Não faça caso ele é mesmo assim...”
No dia seguinte, o passeio era até Lisboa. Quando passámos pela zona de Alcácer do Sal, ainda pela estrada antiga, havia dúzias de ninhos de cegonhas perto dos arrozais. Voltei a referi-los. Nem me deixaram terminar a descrição. Vários elementos do grupo começaram logo a elogiar as capacidades artísticas dos portugueses... que criavam aquelas belas aves em barro e em posições tão variadas... e mesmo até em voo…
E animadamente brincavam entre si, perguntando-se como é que os portugueses fariam aquilo. Por longos minutos continuaram gozando com o tal senhor de tal modo que, no regresso, já ninguém lhe ouviu a voz.

Penso que para ele terá sido um grande sacrifício. Acreditou finalmente que nós tínhamos mesmo cegonhas vivas e não estatuetas de barro para enganar os turistas!
Ermida de Nossa Senhora do Pé da Cruz - Faro

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Andar a pé sem comer, não!


Por Elisabete Rodrigues
[Jornalista, membro do Núcleo do Algarve da Liga Para a Proteção da Natureza]

Há mais de 20 anos que o Núcleo do Algarve da Liga para a Proteção da Natureza promove, todos os meses, passeios a pé, à descoberta dos tesouros naturais da nossa região.
Ao longo destas mais de duas décadas, já se têm passado situações estranhas.

Os passeios, embora não seja essa a sua principal faceta, acabam por ter uma vertente turística, até porque a LPN Algarve foi a primeira instituição a promover, na região, percursos de Natureza de forma organizada e regular. Mas, tendo em conta que somos uma Organização Não-Governamental de Ambiente, o enfoque nos nossos passeios é sempre nas questões ambientais, de conservação da Natureza e de educação ambiental. Os guias são, por isso, pessoas que gostam de andar a pé, que percebem (muito ou só um bocadinho) sobre as questões ambientais em causa num determinado percurso. Não são guias turísticos, nem a LPN Algarve tem vocação para o turismo!

No entanto, gostamos sempre de dar a conhecer, além do património natural, outras riquezas do local onde vamos passear a pé. Nomeadamente o seu artesanato ou a sua gastronomia. É que a LPN Algarve considera que o Turismo de Natureza é muito mais do que ir passear para um local e não deixar lá nada. Devemos contribuir sempre para a economia local, nem que seja apenas aconselhando ao grupo os restaurantes da terra.
E foi precisamente numa desta situações que sucedeu um dos casos mais estranhos em duas décadas de passeios.

Aqui há uns 10 anos, organizámos um passeio na zona de Querença, que terminava com um almoço no saudoso Moinho do Ti Casinhas, da D. Maria de Jesus. Como o restaurante era pequeno, limitámos as inscrições para o almoço às primeiras 12 pessoas. E avisámos os restantes inscritos que teriam que procurar outro restaurante na zona ou que levar merenda. Claro que as inscrições para o passeio mais almoço se esgotaram rapidamente.
No sábado em causa, lá fomos nós fazer o percurso, confiantes de que, depois de andarmos uns quilómetrozitos a pé, teríamos um excelente repasto à nossa espera no Moinho do Ti Casinhas.
Eu, que era a guia daquele passeio, estranhei que aí por volta do meio dia e meia alguns dos participantes tivessem resolvido voltar para trás. Na altura, não percebi porquê…

Quando a esfomeada dúzia de inscritos no passeio mais almoço chegou ao Moinho do Ti Casinhas, foi a surpresa total: é que, nas mesas que haviam de ser nossas e a comer a comida que tinha sido preparada para nós, já lá estavam as tais pessoas que tinham deixado o passeio a meio…
É que esse grupinho, que se tinha inscrito mais tarde e por isso já não tinha podido ficar no rol de felizes comensais, tinha simplesmente resolvido passar-nos à frente.

A D. Jesus, a quem o grupinho tinha dito que pertencia ao passeio da LPN Algarve, ficou atrapalhada com a situação, embora a culpa não fosse, de forma alguma, dela.
E nós, a tal dúzia de esfomeados caminhantes, tivemos que nos contentar com uns queijos e chouriços…divinais. Não ficámos nada mal servidos, mas não foi o almoço que estávamos à espera e que tínhamos marcado…

Resultado: aquele grupinho nunca mais foi aceite nos passeios da LPN Algarve.

E A LPN nunca mais se responsabilizou por marcar almoços para os passeios! Sugerimos restaurantes e depois logo se vê!

É que isto de andar muito a pé e no fim não ter o que comer não é agradável!
Fonte da Benémola - Querença

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Um Algarve sentido


Por José Zambujal
[Jornalista, agente artístico - Faro]

Há uns tempos o João Lima convidou-me para escrever um texto para o Blogue do Turismo do Algarve. Única "obrigação": a histórinha teria, naturalmente, que estar relacionada com o Algarve.
Está bom, pensei eu, vivo cá, nasci cá, há-de sair alguma coisa... O tempo foi passando e nada. Não saía nada. É que não me ocorria nada que pudesse dar uma história, zero, népia... Que raio, tantos anos de praia e nada?! Achei então que o erro era estar a pensar no Algarve como sol, areia e mar. Quero dizer... erro, não sei, afinal é um pensamento comum e partilhado durante anos a fio - gerações, talvez - por quem tem a responsabilidade de gerir o destino desta terra à beira mar plantada. À beira-mar, lá está... Mas não, o Algarve não pode resumir-se a mar, areia e sol. Há mais. Tem que haver mais. Claro! Há, agora, o Allgarve! Há animação, há espectáculos, há um "tudo" numa terra só. Ganhámos visibilidade nacional e internacional... e ganhámos mais um "l"! Fantástico! Pois...mas quando daqui a uns anitos os turistas falarem do "Allgarve" com dois "l" como falam do "Oporto" com "o", não vou achar graça nenhuma. Não, também não era aqui que me apetecia encontrar uma histórinha. E lá fui parar outra vez à praia, às memórias de praia. Memórias "escritas" em línguas estrangeiras, memórias, enfim, partilhadas com mocitas altas e loiras vindas de terras mais frias e com costumes bem mais quentes que os nossos naquela época... Também não. Também não são histórias que interessem a ninguém - acho que já nem às protagonistas ! - e sobretudo não são coisas para um blogue que se quer sério.

Tinha que descobrir coisas mais sérias e ligadas ao Algarve... As portagens na Via do Infante, a tal que nunca teria portagens? Fraco. Uma história banal, parte do dia a dia deste País. Os pinos "plantados" na avenida onde moro, em Faro, limitando drasticamente o estacionamento sem escutar ninguém nem dar alternativas válidas a quem aqui vive? Fraquito, nada que dê história, daqui a uns tempos já ninguém se lembra nem dos pinos nem de quem os plantou... As decisões prepotentes e absurdas que todos os dias nos afectam? Cá vamos seguindo em frente e baixando as orelhitas... O despedimento dos 336 trabalhadores da Groundforce no Aeroporto de Faro, de uma forma miserável e sem o mínimo respeito pelas pessoas? Não... não é propriamente algo que se passe só no Algarve, é diário e acontece no País inteiro. Ok. Estava visto que com a mentira, a incompetência e a corrupção de quem nos governa, por muito que afectasse o meu Algarve, não me governava eu...
Mas onde é que raio havia eu de ir buscar uma história minha, ligada ao Algarve?! Respirei fundo, despejei mais um bocadinho de Jack Daniels - devia ser medronho, para ser mais algarvio, mas não vou mentir a bem da história ... - e disse de mim para mim: organiza-te, pá! Vamos lá por partes: nasci aqui, fui-me embora para Lisboa com 19 anos, fiquei por lá uns vinte e tal e voltei ao Algarve há 11 anos. Voltei porquê? Voltei porque descobri que afinal a lenda da Moura Encantada era verdadeira. Encontrei uma moura farense, que me encantou e me fez deixar a cidade grande sem olhar para trás. Com ela redescobri o Algarve. Vi que aqui se pode ter paz, se pode ter alegria, se pode ter uma qualidade de vida que nenhum slogan é capaz de promover com justiça. Percebi que a Barrinha ao fim da tarde é mais bela que a mais bela praia das Caraíbas, que uma tarde de temporal vivida na Ilha do Farol é fascinante, que olhar o horizonte lá de cima, do alto da Serra, é um espectáculo de cortar a respiração. Comi ostras em Cacela, ouvi música do mundo em Loulé, ganhei amigos que dizem "mósse débe" e são para a vida.
No Algarve amei e fui amado. Um dia a moura encantada que se chamava Lena partiu, para sempre. Deixou-me a história deste Algarve que agora vos conto e a esperança de que aqui as amendoeiras hão-de sempre dar flor e o mar há-de continuar a ter brisa. É uma história feita muito mais de sentimentos do que de palavras, talvez por isso, João, sem interesse para o blogue. Mas é, podes crer, a história mais bonita que tenho do Algarve.

Lena

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Os cavalos-marinhos da Ria Formosa


Por Fátima Catarina
[Adjunta do Gabinete da Direcção do Turismo do Algarve]

Os cavalos-marinhos estiveram sempre presentes nos meus sonhos de infância, exercendo sobre mim uma grande curiosidade e atracção. A sua beleza fazia-me sonhar e imaginar histórias lindas…

Os cavalos-marinhos são de facto uns animais fantásticos! Mudam de cor e movimentam os olhos independentemente um do outro. Reproduzem-se na primavera através de ovos postos pela fêmea, os quais são fertilizados pelo macho que os guarda, durante cerca de dois meses, numa bolsa que tem na base da sua cauda. Para expelir os filhos dessa bolsa, o macho efectua enérgicos movimentos. Os recém-nascidos são minúsculos e transparentes…

Fiquei encantada quando soube que a Ria Formosa já albergou uma das maiores comunidades de cavalos-marinhos do mundo! Apesar dessa população ter diminuído, há indícios de que está, de novo em crescimento.

Devemos ter orgulho do nosso mar do Algarve alimentar tão lindas criaturas… Por isso, temos o dever de as proteger!

É lindo o nosso Algarve… até no seu fundo marinho!

Cavalo-marinho - Ria Formosa
[Créditos fotográficos: Miguel Correia – CCMAR/Project Seahorse ]

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A sentença da costureira


Por Corina Justo
[Técnica de turismo - São Brás de Alportel]

No interior algarvio, as populações mais envelhecidas são muito supersticiosas e não faltam histórias de agoiros e de almas penadas, que passam de geração em geração.

Muitas pessoas nascidas em S.Brás de Alportel conhecem certamente “a sentença da costureira”. A minha avó materna era ainda solteira e já tinha ouvido esta história, que, por sua vez, não se cansava de contar.

Consta que uma costureira tinha prometido confeccionar um vestido bordado a ouro para a Nossa Senhora de Fátima, se esta curasse a sua filha da doença muito grave de que padecia.
Concedida a cura, a costureira não pôde, no entanto, cumprir a promessa, pois era muito pobre.
Diz o povo que a costureira depois de falecer começou a vaguear pelo mundo e, ainda hoje, anda de casa em casa, continuando a costurar. Em São Brás de Alportel, muitas pessoas dizem ouvir uma máquina de costura em funcionamento, com o seu ruído característico, o abrandamento do pedal quando está prestes a parar e o pousar das tesouras no tampo.

São inúmeros os testemunhos e são relatados por muitas gerações.

Conta-se que a assombração também aconteceu na casa da nora do Tio Marcelino, condutor reformado de carros de praça. Ele, não acreditando em histórias de almas penadas, pensou que o antigo relógio de corda, que estava na sala, era o causador daquele barulho estranho. Retirou o relógio da parede para não suscitar mais dúvidas. Passado pouco tempo, ouviu novamente o barulho da máquina de costura, tal e qual como se estivesse ali perto dela.

Superstição ou realidade?

Os que contam ter vivido a mesma experiência não têm quaisquer dúvidas: “Quem promete, em dívida se mete”.

Calçadinha Romana - São Brás de Alportel

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Que grande imbróglio...


Por Luis Nadkarni
[Monitor de desporto ]

Quando criança, no ano de 1968 acompanhei os meus pais numa viagem a Fátima por altura das celebrações do 13 de Maio. Na comitiva de peregrinos algarvios destacava-se o Bispo do Algarve, entre outros sacerdotes e leigos.
Assisti às cerimónias e, no Domingo de manhã, durante a Eucaristia, resolvi deambular pelas arcadas do Santuário. Quando dei por mim estava no meio de um grupo de espanhóis que, vendo ali uma criança sozinha, ficaram naturalmente preocupados e um deles perguntou-me onde estava o meu “padre". Apontei imediatamente para o Bispo do Algarve e disse: "o meu padre está ali!"

Paço Episcopal - Faro
Os espanhóis repetiram várias vezes a pergunta à qual eu respondia, com uma tremenda convicção, apontando na direcção do Bispo. Não sei o que terá passado pela cabeça dos espanhóis mas provavelmente questionaram o celibato de tão ilustre personagem...
Entretanto, chegaram os meus pais que andavam, havia já largos minutos, à minha procura e tudo ficou finalmente esclarecido. “Padre" em espanhol é “pai" em português.

O imbróglio tinha terminado.

Paço Episcopal - Faro

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Raul, o sacristão


Por Filomena Serol
[Técnica de turismo - Armação de Pêra]

As gentes de Alvor e arredores conhecem provavelmente muitas histórias do Raul, uma figura típica da terra nos anos 30/40 do século passado. Eu própria, não sendo de Alvor, ouvi muitas vezes o meu avô contar histórias deste pescador que, além disso, também era sacristão.

Raul era um daqueles homens inofensivos e simplórios que, pela sua inocência, despertava muitas vezes as traquinices dos jovens, sempre prontos a pregar-lhe partidas e a desafiá-lo para que perdesse as estribeiras.

Numa ocasião em que na terra se celebrava a festa de Nosso Senhor dos Passos, Raul, o sacristão, ia na frente da procissão segurando a cruz de Cristo. A rapaziada ia desafiando o Raul com palavras e pequenos toques. Tanto o picaram que, quase ao recolher da procissão, o Raul perdeu a paciência e desatou numa corrida atrás deles. Na fúria da perseguição, nem deu pelo crucifixo ter caído do seu suporte e acabou por regressar à igreja já sem o Cristo no topo.

O pároco, ao aperceber-se da situação, questiona o Raul, que de imediato exclama:

“Ah mãe… Sô Prior! Atão na querem ver qu’o amaldçoade foi correndo atrás dos môces!”


Igreja Matriz de Alvor

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Algarve para viver


Por João Juma
[Estudante de Economia na Universidade do Algarve]

Quando decidi colocar Universidade do Algarve – Curso de Economia na ficha ENES, nunca poderia imaginar que o meu destino passasse por caminhos tão paralelos ao que pensei ser o “ideal”.
Sendo de Lisboa, sempre olhei para o Algarve como um local impecável, para férias, tal como muitas outras pessoas o fazem.

Em três anos de vivência entre Faro, Albufeira e Tavira, apaixonei-me pelas pessoas, pelos locais, pelo clima e pela qualidade de vida.
Conhecendo um pouco o mundo empresarial e integrando-me na realidade local, fiquei triste com alguns aspectos que penso que poderiam ser alterados se houvesse vontade para tal…

Em primeiro lugar e começando pelo ensino há que referir as excelentes infra-estruturas da Universidade do Algarve. Na linda região em que vivemos, podemos cativar os melhores professores, políticos e empresários de modo a partilharem a sua experiência com os alunos, contribuindo para o desenvolvimento do nosso pequeno paraíso. Quem não quer trabalhar a cinco minutos da praia e sem hora de ponta? Porque não apostar na atracção de profissionais que elevem o nome da instituição para que através da formação prestada se vejam frutos a médio e longo prazo?
Infelizmente os alunos que a Universidade integra são, na sua maioria, guiados pelo canudo e não pelo desejo de aprendizagem, o que causa uma reacção desfavorável em qualquer entidade empregadora em Portugal. A maior parte dos alunos olha para o número de cadeiras com o tédio de ter que as passar em vez da excitação de poder aprender. Mentalidade algarvia ou falta de formação?

Em segundo lugar o que nós apelidamos Inverno, que na verdade é apenas uma “brisa” agradável, causa-nos sempre uma agonia indevida designada por sazonalidade, mas que é perfeitamente evitável.
Arrepia-me andar nas cidades do Algarve durante as noites de Inverno, não devido à temperatura mas à solidão. Sendo um dos locais mais quentes na Europa durante todo o ano, não se vê no entanto vivalma senão na estação alta.

Faltam pessoas no Algarve durante o Inverno…

Quantos lares de luxo para idosos existem no Algarve? Se eu não fosse um miúdo com 22 anos garanto-vos que realizava um investimento desse género e tinha retorno financeiro garantido para não falar da felicidade na cara das pessoas que tivessem o privilégio de lá ficarem. O Algarve é bom para as merecidas “férias” finais de qualquer vida.

Outro ponto que me ocorre refere-se às empresas de e-business. São empresas que, pela sua natureza online, podem estar sediadas em qualquer parte do mundo. Já temos algumas no Algarve, que curiosamente tiveram bastantes dificuldades em instalar-se. Um dos obstáculos que tiveram foi, por exemplo, dizerem-lhes que não queriam empresas que não tivessem interesse em recrutar Portugueses. Poderão não ter esse interesse mas terão outros para quererem instalar-se na região. Há que perceber essas razões e promover a sua fixação no Algarve, demonstrando-lhes todas as vantagens que por cá existem para viver.

Temos uma região turística que deveria também ser promovida e projectada como um local para se viver e para se trabalhar.

Hoje estou a estudar na Republica Checa e já contagiei estudantes para continuarem o seu percurso académico no nosso paraíso. Não foi necessário mais do que o vídeo promocional da nossa região e palavras sentidas.

Cabe-nos a nós decidir o que queremos fazer, de que forma e com que dedicação.
Temos todos a ganhar, temos todos o dever de partilhar.

Algarve

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O Palácio das Lágrimas


Por Leitor devidamente identificado

Nos meus tempos de infância os passeios com a Avó Gertrudes faziam parte dos rituais da manhã. Pela mão dela fui descobrindo as ruas da cidade, as praças, as casas, os palácios e fui descobrindo as histórias ligadas a cada rua, a cada casa, a cada palácio.

Ficaram-me para sempre na memória as estórias que ela me contava…

Lembro-me de passar na Praça Alexandre Herculano e de ela me dizer:
“Não olhes para o Palácio das Lágrimas, filho, é uma casa triste…”
Na altura, limitei-me a olhar por cima do ombro, fazendo de contas que não olhava.

Anos mais tarde, já mais “crescidito”, quando de noite nos sentávamos na sala, ela bordando ou fazendo renda e eu entretido com os meus livros dos “Cinco” ou dos “Sete”, cheios de mistérios e de aventuras, todas aquelas estórias que antes me contara voltavam à memória e era rara a noite em que não lhe pedia que me explicasse bem.

Foi assim que fui descobrindo os segredos da cidade.

Uma das histórias mais curiosas, a meu ver, é a do Palácio das Lágrimas, casa senhorial que foi mandada construir no século XIX e onde nasceu o Deputado e Par do Reino José Bento Ferreira de Almeida. Este edifício, designado por Palacete Ferreira de Almeida, foi também lar de um musicólogo e compositor, de seu nome Militão Coelho, que, como qualquer artista que se preze, tanto tinha de génio como de louco ou de boémio. Por vezes ficava dias sem sair à rua, outras vezes saía e só aparecia passados largos meses. Para além desses “atributos” não era dado a quaisquer compromissos e muito menos matrimoniais….

No entanto, por obrigação da família ficou noivo de uma senhora de Faro, com a qual casou.
Logo o casamento se revelou um enorme fracasso, para desespero de todos e particularmente da recém-casada, que para sempre ficou conhecida como a “eterna noiva” pelo facto do casamento nunca se ter consumado.

Um dia o musicólogo Militão Coelho saiu de casa e nunca mais voltou. Segundo dizem, terá ido para Lisboa à procura de algo que o fizesse feliz…

Numa cidade de província o escândalo foi enorme… tanto mais que a “eterna noiva” passava as noites à janela, por detrás das cortinas, chorando a sua solidão…

Por causa disto ou talvez não, este belíssimo palácio ficou para sempre conhecido do povo como o Palácio das Lágrimas.


Palacete Ferreira de Almeida - Praça Alexandre Herculano, Faro

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Os "cornos" do Infante


Por Eduarda Madeira
[Técnica de Turismo aposentada - Faro]

O Infante D. Henrique, figura maior da História dos Descobrimentos, ficou intimamente ligado ao Algarve, onde viveu durante largas temporadas e de onde promoveu diversas expedições marítimas. Apelidado de Infante de Sagres, localidade onde edificou uma vila e onde viria a morrer em 1460, a figura deste grande senhor da Idade Média encontra-se representada também em Faro, com um busto colocado no alto da cidade, frente à Escola Secundária João de Deus.

Para além de desfrutar do sol e da praia, os turistas também procuram por cá a história e a cultura do país e querem-na levar consigo fixando imagens para mais tarde recordar.

Pois nas minhas recordações profissionais ficará para sempre a história de um casal de turistas ingleses que, num Domingo de Julho, nos idos anos 80, esperava de manhã pela abertura do Posto de Turismo de Faro, com um problema para resolver.

Ainda eu mal tinha passado a porta do Posto e já eles me abordavam:
“Minha Senhora, estivemos a passar férias em Albufeira e estamos desde ontem em Faro. Ontem à tarde, passeando pela Rua de Santo António, acabámos por prosseguir ao longo da Avenida 5 de Outubro e chegámos a uma grande escola que tem em frente uma estátua do Infante D. Henrique. Quisemos tirar uma fotografia, mas o Infante tem uns cornos na cabeça! Já lá fomos hoje e continua na mesma.”
Eu não queria acreditar no que ouvia. Eles falavam inglês mas, para se assegurarem de que eu os entendia, até tinham ido ver ao dicionário como se dizia em português. E então, falavam alto e bom som que o Infante tinha “uns cornos”.

Ocorreu-me que talvez se tratasse de alguma diabrura dos estudantes do Liceu, em tempo de final de aulas.

Lá sosseguei os meus turistas telefonando aos Bombeiros para que tentassem resolver o caso. Pouco depois passavam eles apitando e rindo da tarefa que os esperava e que cumpriram devidamente, permitindo que o casal de ingleses fizesse a desejada fotografia do Infante para levar de volta para Inglaterra.

Na Segunda-feira de manhã foi a risota geral para o pessoal da Câmara Municipal de Faro, quando os Bombeiros Municipais apresentaram o relatório da ocorrência do dia anterior, no qual constava, preto no branco, o serviço prestado pelas 9 horas da manhã de Domingo, a pedido da funcionária do Posto de Turismo: “Tirar os cornos do Infante”.

Praceta do Infante - Faro

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Férias no Algarve


Por Raul Carrajola Araújo
[Assistente Director de Vendas - Hotéis Real]

Este ano, vou de férias para o Algarve! Até aqui nada de novo.
Mas este ano apetece-me ter um espírito de aventura e de descoberta, apetece-me algo diferente, encontrar-me com o meu espírito simples e descobrir o que a natureza tem para nos dar!

Comecei por olhar para o mapa do Algarve, olhei para as zonas verdes demarcadas no mapa, parques naturais… Parque Natural da Ria Formosa hummmm… não conheço… ilhas? Deserta?

É isso. Quero ir à descoberta deste parque com uma extensão de cerca de 60 quilómetros. Vou mas é já à internet fazer uma pesquisa.

Na mala que este ano vou levar de férias para o Algarve também quero coisas diferentes, quero levar coisas simples, umas havaianas, uns calções para ir andar de barco, umas t-shirts, uns binóculos e claro não me vou esquecer da máquina fotográfica. Afinal quero registar tudo o que vir de novo e quero partilhá-lo com os meus amigos no Facebook! Quero sentir-me saudável, quero fazer passeios a pé e de bicicleta. Vou fazer todos os passeios de barco disponíveis na Ria Formosa.
Na minha mala para além dos fatos de banho, levo também o meu Moleskine para registar algumas ideias, rabiscar e escrever os endereços dos novos amigos que vou fazer este ano.
Quero subir ao Farol do Cabo de Santa Maria e ver coisas que nunca vi. Quero ver o Algarve cá do alto e sentir-me pequenino como o coração de uma criança cheia de alegria.

“Raul! Raul! Acorda… olha as horas!”

“O quê? Ai que maravilha… vivo no Algarve e mesmo assim sonho em passar cá as férias. E não é uma boa ideia?”

Porphyrio porphyrio ou galinha sultana - Ria Formosa

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Môce má linde


Por Célia Arménio
[Chefe de Gabinete no Turismo do Algarve, algarvia de coração]

Desde miúda que vinha todos os anos passar as férias grandes ao Algarve e os anos 70 não foram excepção. Ficávamos na casa da avó Laura, que tinha um monte onde havia galinhas, patos e gatos, alfarrobeiras, amendoeiras e um pinheiro manso secular e espectacular. Existia também uma “ardoiça” – baloiço em algarvio – que fazia parte do “circo”, onde tudo era possível. Para mim, aquele era um mundo à parte, tão diferente de Lisboa onde nasci e vivi até já ser adulta e rumei então ao Algarve de armas e bagagens.

Os Verões eram passados entre o monte e a praia, sendo a Ilha da Armona o nosso local favorito. Adorava a travessia de barco, o roncar do motor, o cheiro a gasóleo e o facto de ir pendurada na balaustrada do navio, com o vento a bater-me na cara, enrolada na toalha, porque as manhãs eram sempre fresquinhas.

Na praia era uma alegria. A “moçanhada” - grupo de jovens em algarvio - agrupava-se junto ao velho restaurante Tolinhas. Só mais tarde vim a descobrir que o paraíso ficava na costa, no outro lado da ilha. Armávamos uma espécie de acampamento feito de toalhas e mochilas. Nada de chapéu-de-sol ou protector solar. O creme Nívea, passo a publicidade, era só para depois do banho. Nós gostávamos mesmo de ficar bronzeados, de tal forma que até usávamos uma mistela inventada por alguém pouco fiável, feita com óleo de coco e tintura de iodo… aquilo fazia um bem… ui!

Ao que parece, o pessoal de Lisboa devia ter um ar diferente da malta da terra, pois os “môces” de Olhão, não se cansavam de rondar o acampamento exibindo o corpinho bem feito e lançando olhares lancinantes, facto que para nós era alvo de galhofa. As nossas risadas incentivavam ou excitavam de tal maneira os rapazes, que eles faziam tudo o que aprendemos no National Geografic sobre os rituais de acasalamento e os esforços que o macho faz para chamar a atenção da fêmea.

Não havia nada que não fizessem desde poses alegadamente sensuais ao sacudir do cabelo molhado, qual “modelito” do anúncio da Sunsilk. O ponto alto dos ditos “rituais de acasalamento” chegava com os saltos encarpados, que eles faziam a partir da ponte e do cais de atracagem do barco da carreira.

O certo, é que realmente os saltos eram impressionantes, dignos de qualquer campeão olímpico da modalidade. Aqueles “mecinhos podiem ter future”!

Mas certo dia, em que a maré está vaza, um dos galãs do grupo de pseudo-admiradores das miúdas da capital, depois de uma breve exibição do seu corpo atlético e do lançar do mais perfeito dos sorrisos, tipo Pepsodent, dirige-se confiante para a ponta do cais, abre os braços como que dando sinal ao júri, e lança-se sobre as águas cristalinas da Ria Formosa. Por azar embate com um banco de areia e sai da água cambaleando, com um ninho de areia na cabeça, e um ar um pouco assarapantado. E nós, longe de perceber então o real perigo e as possíveis consequências do seu pressuposto feito glorioso, rimo-nos que nem umas tontas.

O “môce má linde” naquele dia podia ter ficado paraplégico ou tetraplégico, como a personagem do memorável filme “Mar Adentro”. Mas a partir desse dia nunca mais tentou impressionar-nos daquele modo, e foi muito mais bem acolhido quando nos convidou para beber um Spurcola, refrigerante que já não existe.

Hoje somos amigos.


Ilha da Armona