terça-feira, 2 de novembro de 2010

Môce má linde


Por Célia Arménio
[Chefe de Gabinete no Turismo do Algarve, algarvia de coração]

Desde miúda que vinha todos os anos passar as férias grandes ao Algarve e os anos 70 não foram excepção. Ficávamos na casa da avó Laura, que tinha um monte onde havia galinhas, patos e gatos, alfarrobeiras, amendoeiras e um pinheiro manso secular e espectacular. Existia também uma “ardoiça” – baloiço em algarvio – que fazia parte do “circo”, onde tudo era possível. Para mim, aquele era um mundo à parte, tão diferente de Lisboa onde nasci e vivi até já ser adulta e rumei então ao Algarve de armas e bagagens.

Os Verões eram passados entre o monte e a praia, sendo a Ilha da Armona o nosso local favorito. Adorava a travessia de barco, o roncar do motor, o cheiro a gasóleo e o facto de ir pendurada na balaustrada do navio, com o vento a bater-me na cara, enrolada na toalha, porque as manhãs eram sempre fresquinhas.

Na praia era uma alegria. A “moçanhada” - grupo de jovens em algarvio - agrupava-se junto ao velho restaurante Tolinhas. Só mais tarde vim a descobrir que o paraíso ficava na costa, no outro lado da ilha. Armávamos uma espécie de acampamento feito de toalhas e mochilas. Nada de chapéu-de-sol ou protector solar. O creme Nívea, passo a publicidade, era só para depois do banho. Nós gostávamos mesmo de ficar bronzeados, de tal forma que até usávamos uma mistela inventada por alguém pouco fiável, feita com óleo de coco e tintura de iodo… aquilo fazia um bem… ui!

Ao que parece, o pessoal de Lisboa devia ter um ar diferente da malta da terra, pois os “môces” de Olhão, não se cansavam de rondar o acampamento exibindo o corpinho bem feito e lançando olhares lancinantes, facto que para nós era alvo de galhofa. As nossas risadas incentivavam ou excitavam de tal maneira os rapazes, que eles faziam tudo o que aprendemos no National Geografic sobre os rituais de acasalamento e os esforços que o macho faz para chamar a atenção da fêmea.

Não havia nada que não fizessem desde poses alegadamente sensuais ao sacudir do cabelo molhado, qual “modelito” do anúncio da Sunsilk. O ponto alto dos ditos “rituais de acasalamento” chegava com os saltos encarpados, que eles faziam a partir da ponte e do cais de atracagem do barco da carreira.

O certo, é que realmente os saltos eram impressionantes, dignos de qualquer campeão olímpico da modalidade. Aqueles “mecinhos podiem ter future”!

Mas certo dia, em que a maré está vaza, um dos galãs do grupo de pseudo-admiradores das miúdas da capital, depois de uma breve exibição do seu corpo atlético e do lançar do mais perfeito dos sorrisos, tipo Pepsodent, dirige-se confiante para a ponta do cais, abre os braços como que dando sinal ao júri, e lança-se sobre as águas cristalinas da Ria Formosa. Por azar embate com um banco de areia e sai da água cambaleando, com um ninho de areia na cabeça, e um ar um pouco assarapantado. E nós, longe de perceber então o real perigo e as possíveis consequências do seu pressuposto feito glorioso, rimo-nos que nem umas tontas.

O “môce má linde” naquele dia podia ter ficado paraplégico ou tetraplégico, como a personagem do memorável filme “Mar Adentro”. Mas a partir desse dia nunca mais tentou impressionar-nos daquele modo, e foi muito mais bem acolhido quando nos convidou para beber um Spurcola, refrigerante que já não existe.

Hoje somos amigos.


Ilha da Armona

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