quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Ninhos de cegonhas


Por Fernanda Alegria
[Guia-intérprete, empresária - Recortes d' Alegria, Tavira]

Em 1994, eu estava a acompanhar um grupo de austríacos seniores em férias no Algarve, estando prevista a realização de várias excursões no país.
Os membros do grupo já se conheciam bem uns aos outros e também já me iam conhecendo quando se realizou um passeio a Faro.

Chegámos à cidade e depois de cumprida uma apresentação geral da capital algarvia, dirigimo-nos até ao Arco da Vila, onde lhes chamei a atenção para os ninhos das cegonhas no cimo da torre sineira. Um elemento do grupo interrompeu-me argumentando que aquilo só podia ser uma fantasia de guias turísticos.
“Como?”, inquiri, perfeitamente indignada.
“Sim, aquilo só pode ser uma trapalhice vossa para enrolar os turistas. Seguramente é feito de barro”.
“Claro que não”, retorqui. “Repare que uma das cegonhas até mudou agora de posição”.
“Ah ah...tretas… Aquilo não é mais do que um mecanismo que vai alternando a posição”.
Eu nem queria acreditar no que ouvia e alguns elementos do grupo até vieram em meu auxílio, dizendo-me que não ligasse porque aquele senhor era muito céptico e fazia sempre reparos daquele género.
Continuámos a visita até à Sé e regressámos de novo ao Arco da Vila. Ainda referi um pouco a medo:
“Olhe, agora já lá está outra cegonha. Vê como são reais?”
“Ah ah...pff...outra treta. É apenas um automatismo que faz uma e outra andar para cima e para baixo e levantar ou baixar a pata.”
Imaginem a minha cara ao ouvir aquilo. Mais uma vez alguns elementos do grupo me consolaram:
“Não faça caso ele é mesmo assim...”
No dia seguinte, o passeio era até Lisboa. Quando passámos pela zona de Alcácer do Sal, ainda pela estrada antiga, havia dúzias de ninhos de cegonhas perto dos arrozais. Voltei a referi-los. Nem me deixaram terminar a descrição. Vários elementos do grupo começaram logo a elogiar as capacidades artísticas dos portugueses... que criavam aquelas belas aves em barro e em posições tão variadas... e mesmo até em voo…
E animadamente brincavam entre si, perguntando-se como é que os portugueses fariam aquilo. Por longos minutos continuaram gozando com o tal senhor de tal modo que, no regresso, já ninguém lhe ouviu a voz.

Penso que para ele terá sido um grande sacrifício. Acreditou finalmente que nós tínhamos mesmo cegonhas vivas e não estatuetas de barro para enganar os turistas!
Ermida de Nossa Senhora do Pé da Cruz - Faro

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