sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O Palácio das Lágrimas


Por Leitor devidamente identificado

Nos meus tempos de infância os passeios com a Avó Gertrudes faziam parte dos rituais da manhã. Pela mão dela fui descobrindo as ruas da cidade, as praças, as casas, os palácios e fui descobrindo as histórias ligadas a cada rua, a cada casa, a cada palácio.

Ficaram-me para sempre na memória as estórias que ela me contava…

Lembro-me de passar na Praça Alexandre Herculano e de ela me dizer:
“Não olhes para o Palácio das Lágrimas, filho, é uma casa triste…”
Na altura, limitei-me a olhar por cima do ombro, fazendo de contas que não olhava.

Anos mais tarde, já mais “crescidito”, quando de noite nos sentávamos na sala, ela bordando ou fazendo renda e eu entretido com os meus livros dos “Cinco” ou dos “Sete”, cheios de mistérios e de aventuras, todas aquelas estórias que antes me contara voltavam à memória e era rara a noite em que não lhe pedia que me explicasse bem.

Foi assim que fui descobrindo os segredos da cidade.

Uma das histórias mais curiosas, a meu ver, é a do Palácio das Lágrimas, casa senhorial que foi mandada construir no século XIX e onde nasceu o Deputado e Par do Reino José Bento Ferreira de Almeida. Este edifício, designado por Palacete Ferreira de Almeida, foi também lar de um musicólogo e compositor, de seu nome Militão Coelho, que, como qualquer artista que se preze, tanto tinha de génio como de louco ou de boémio. Por vezes ficava dias sem sair à rua, outras vezes saía e só aparecia passados largos meses. Para além desses “atributos” não era dado a quaisquer compromissos e muito menos matrimoniais….

No entanto, por obrigação da família ficou noivo de uma senhora de Faro, com a qual casou.
Logo o casamento se revelou um enorme fracasso, para desespero de todos e particularmente da recém-casada, que para sempre ficou conhecida como a “eterna noiva” pelo facto do casamento nunca se ter consumado.

Um dia o musicólogo Militão Coelho saiu de casa e nunca mais voltou. Segundo dizem, terá ido para Lisboa à procura de algo que o fizesse feliz…

Numa cidade de província o escândalo foi enorme… tanto mais que a “eterna noiva” passava as noites à janela, por detrás das cortinas, chorando a sua solidão…

Por causa disto ou talvez não, este belíssimo palácio ficou para sempre conhecido do povo como o Palácio das Lágrimas.


Palacete Ferreira de Almeida - Praça Alexandre Herculano, Faro

2 comentários:

  1. A história tem tanto de bonita como de triste... E não, não sabia que esta casa, pela qual passo tantas vezes, se chamava Palácio das Lágrimas...com certeza passarei a vê-lo com outros olhos :)
    Obrigada pela partilha!

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  2. Tenho uma duvida, o Ferreira de Almeida não é onde está a Burda e a Farmácia Alexandre?

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