segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Um Algarve sentido


Por José Zambujal
[Jornalista, agente artístico - Faro]

Há uns tempos o João Lima convidou-me para escrever um texto para o Blogue do Turismo do Algarve. Única "obrigação": a histórinha teria, naturalmente, que estar relacionada com o Algarve.
Está bom, pensei eu, vivo cá, nasci cá, há-de sair alguma coisa... O tempo foi passando e nada. Não saía nada. É que não me ocorria nada que pudesse dar uma história, zero, népia... Que raio, tantos anos de praia e nada?! Achei então que o erro era estar a pensar no Algarve como sol, areia e mar. Quero dizer... erro, não sei, afinal é um pensamento comum e partilhado durante anos a fio - gerações, talvez - por quem tem a responsabilidade de gerir o destino desta terra à beira mar plantada. À beira-mar, lá está... Mas não, o Algarve não pode resumir-se a mar, areia e sol. Há mais. Tem que haver mais. Claro! Há, agora, o Allgarve! Há animação, há espectáculos, há um "tudo" numa terra só. Ganhámos visibilidade nacional e internacional... e ganhámos mais um "l"! Fantástico! Pois...mas quando daqui a uns anitos os turistas falarem do "Allgarve" com dois "l" como falam do "Oporto" com "o", não vou achar graça nenhuma. Não, também não era aqui que me apetecia encontrar uma histórinha. E lá fui parar outra vez à praia, às memórias de praia. Memórias "escritas" em línguas estrangeiras, memórias, enfim, partilhadas com mocitas altas e loiras vindas de terras mais frias e com costumes bem mais quentes que os nossos naquela época... Também não. Também não são histórias que interessem a ninguém - acho que já nem às protagonistas ! - e sobretudo não são coisas para um blogue que se quer sério.

Tinha que descobrir coisas mais sérias e ligadas ao Algarve... As portagens na Via do Infante, a tal que nunca teria portagens? Fraco. Uma história banal, parte do dia a dia deste País. Os pinos "plantados" na avenida onde moro, em Faro, limitando drasticamente o estacionamento sem escutar ninguém nem dar alternativas válidas a quem aqui vive? Fraquito, nada que dê história, daqui a uns tempos já ninguém se lembra nem dos pinos nem de quem os plantou... As decisões prepotentes e absurdas que todos os dias nos afectam? Cá vamos seguindo em frente e baixando as orelhitas... O despedimento dos 336 trabalhadores da Groundforce no Aeroporto de Faro, de uma forma miserável e sem o mínimo respeito pelas pessoas? Não... não é propriamente algo que se passe só no Algarve, é diário e acontece no País inteiro. Ok. Estava visto que com a mentira, a incompetência e a corrupção de quem nos governa, por muito que afectasse o meu Algarve, não me governava eu...
Mas onde é que raio havia eu de ir buscar uma história minha, ligada ao Algarve?! Respirei fundo, despejei mais um bocadinho de Jack Daniels - devia ser medronho, para ser mais algarvio, mas não vou mentir a bem da história ... - e disse de mim para mim: organiza-te, pá! Vamos lá por partes: nasci aqui, fui-me embora para Lisboa com 19 anos, fiquei por lá uns vinte e tal e voltei ao Algarve há 11 anos. Voltei porquê? Voltei porque descobri que afinal a lenda da Moura Encantada era verdadeira. Encontrei uma moura farense, que me encantou e me fez deixar a cidade grande sem olhar para trás. Com ela redescobri o Algarve. Vi que aqui se pode ter paz, se pode ter alegria, se pode ter uma qualidade de vida que nenhum slogan é capaz de promover com justiça. Percebi que a Barrinha ao fim da tarde é mais bela que a mais bela praia das Caraíbas, que uma tarde de temporal vivida na Ilha do Farol é fascinante, que olhar o horizonte lá de cima, do alto da Serra, é um espectáculo de cortar a respiração. Comi ostras em Cacela, ouvi música do mundo em Loulé, ganhei amigos que dizem "mósse débe" e são para a vida.
No Algarve amei e fui amado. Um dia a moura encantada que se chamava Lena partiu, para sempre. Deixou-me a história deste Algarve que agora vos conto e a esperança de que aqui as amendoeiras hão-de sempre dar flor e o mar há-de continuar a ter brisa. É uma história feita muito mais de sentimentos do que de palavras, talvez por isso, João, sem interesse para o blogue. Mas é, podes crer, a história mais bonita que tenho do Algarve.

Lena

18 comentários:

  1. Um abraço para o Zé Zambujal. É dos que não enganam. É dos bons.

    Augusto Miranda
    Coordenador Allgarve'10, um Programa no Algarve

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  2. Obrigada Zé.É de facto uma história do Algarve e um lado que será só teu,partilhado mas nunca inteiramente,porque há segredos que sempre o serão...e ainda bem ;).
    Abração e beijoca.

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  3. Linda história!!!Com interesse?Sem dúvida!Que belo relato do "nosso" Algarve e que magnífica história de amor!!!
    A si,pelo que escreveu e como o sentiu...a ela por ser a protagonista,a "causa" desse sentimento e paixão e porque, inevitavelmente, ficaria comovida com tão bela "LOVE STORY"!

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  4. Lindo!Que saudades que tenho da Lena!Parabens Zé
    Zambujal.

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  5. Acho que mais honesto não poderias ter sido. E sim, é uma boa história mesmo para turista ler e interpretar. Fiquei com vontade de ir até aí e morar nesse Algarve de um só "l"e penso que a intenção do turismo é essa...
    Como sempre gosto de te ler.
    Bjins

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  6. É sem duvida a mais bonita história do Algarve.
    Parabêns Zé, és unico ! penso que todos queremos mais...e mais histórias sobre as tuas viagens.
    Beijinhos grandes

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  7. cunhadíssimo,
    além de teres essa maravilhosa característica de escreveres bem (muito bem!)falas do é verdadeiramente importante: o amor
    obrigada por provocares tantas emoções a quem te lê

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  8. Lindo,obrigada Zé. BEIJO GRANDE CONTINUA.

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  9. Amei a sua descrição sobre o Algarve e a linda história da sua moura encantada. Parabéns e continue a escrever.

    Rosa Maria Barriga Vieira

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  10. Há já alguns meses que sigo o vosso Blog. Primeiro deixei-me seduzir pelas fotografias de um Algarve que desconhecia, que muitas vezes me deixou melancólico, outras divertido, outras abismado, mas sempre surpreendido. E dei graças ao Turismo do Algarve por nos ter feito descobrir este Algarve diferente. Na altura pensei escrever a felicitar pela iniciativa, mas o tempo passou e ficou apenas a intenção.
    A seguir vieram as histórias, algumas bem divertidas, outra menos, mas todas singulares. Tornou-se um hábito vir aqui, diariamente, ler uma história para poder contar no círculo de amigos.
    Mas hoje, esta história fez-me chorar, chorar pela beleza do amor, chorar por mágoa de nunca ter amado assim ou nunca ter sido amado assim.
    Parabens ao José Zambujal e obrigado por partilhar o seu amor.
    Luís Santos

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  11. Parabéns Zé! Que história linda de Amor no Algarve!
    Faz-nos um favor: ESCREVE! e mostra-nos, claro!

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  12. Não tenho palavras...estou comovida.só te posso dizer que , para quem acredita, ela está lá, muito feliz por ter sido assim, tão amada e ter amado tanto, à tua espera...

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  13. Se existe alguém nesse Algarve encantado, dos Mouros e não só, que consegue escrever tudo aquilo que lhe vai na alma e dar um toque tão especial, é o Zé Zambujal! Obrigada Zé pelos teus textos sempre tão maravilhosos.

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  14. Tudo o que relatamos com amor e com sentimento torna uma história lindíssima cheia de emoção .

    Fiquei pregada a ler esta maravilhosa história de vida, de amor e do Algarve.

    A sua escrita e as expressões que utiliza são tão fantásticas que até lhe agradeço ter escrito a sua história que me preoporcinou vivê-la...

    MUITOS PARABÈNS

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  15. Zé, não restam dúvidas que o jeito para as letras corre no sangue da familia, parabéns pelo excelente texto.
    Quanto ao Algarve cabe-nos a nós todos perceber e lutar para que não seja nem um Allgarve nem um Wallgarve mas simplesmente o nosso Algarve sentido.

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  16. José Zambujal16/11/10, 17:17

    Bem, não ficará muito bem um comentário meu ao meu próprio texto, mas não é exactamente isso... Tenho, simplesmente, que fazer uma pequena rectificação : lê-se aqui, simpáticamente, que sou "jornalista e agente artístico". Bom, jornalista fui mas já não sou, já não tenho Carteira Profissional e há mtos anos que saí das Redacções. Ás vezes tenho saudades, é certo... Agente...enfim, se aparecer alguma coisa pode ser que volte a ser. Assim esclareço que o que deveria em bom rigôr estar aqui escrito era, simplesmente, DESEMPREGADO. Assim mesmo. Essa é a verdade, a realidade dos últimos 2 anos. Mas, apesar de já ser pelo menos um DMD (desempregado de média duração) e os meus 51 anitos serem um bom começo para me tornar DLD (desempregado de longa duração) não posso legalmente sê-lo, porque era empresário individual. Não conto, por isso, para as estatísticas dessa mancha negra que alastra por todo o País. Aliás, cada vez mais me apetece deixar de contar neste País... Abraços, fica a correcção e desculpem o desabafo ;))

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  17. A beleza das palavras com os sentimentos acabaram por contar uma bela história, não com um final feliz, mas demonstrou que deu a volta por cima e continua encantado não pela moura, mas pelo algarve.
    Abraço e continuação de boa escrita.
    Sairaf

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