segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Um Sábado na praça


Por Sónia Tomás
[Directora Executiva - Associação Sotavento Algarvio]

Sábado de manhã. O despertador não toca mas os velhos hábitos despertam-me. São 09h00 e o sol já espreita através das nuvens outonais. O ar fresco que entra pela fresta da janela encaminha-me rapidamente para o roupeiro dos casacos. É assim, vivo no Algarve e esqueço-me que cá, por vezes, também faz frio.
A viagem é breve. Pelo caminho apanho a minha mãe e esboço mentalmente a minha lista de compras. Nada de diferente dos outros sábados. Peixe, legumes e fruta. Simples!
Antes de entrarmos, paramos na pastelaria habitual para a bica da manhã. As conversas fluem entre o tom apressado de quem tem pouco tempo para estar no café e o tom indiscreto de quem não se esquiva a dois ou três dedos de amena tagarelice alheia.
Mais à frente, no snack-bar da esquina, o inconfundível cheiro das bifanas quentinhas no papo-seco, à mesa dos homens. São dez da manhã mas o dia para eles já começou há muito. Um jarrinho de vinho da casa do “bom”, ou umas minis acompanham-nos no pequeno-almoço reforçado da manhã. À entrada da praça, o pedaço de cartão manuscrito com letras toscas anuncia todas as peças a cinco euros. O estendal é variado mas não convence a clientela. “É a crise v’zinha”, diz a vendedora de etnia cigana. Mais à frente, o Sr. António dos cestos tem cara de quem está a pensar a mesma coisa. Sentado num banquinho, vai vendo quem passa e vai-se entretendo entre dois dedos de conversa. Na banca da frente, a Dona Maria descasca uma clementina enquanto vai dizendo aos clientes que já estão “docinhas como o mel”. Estende-lhes uns gomos e coloca na balança um saquinho delas.


Prosseguimos em direcção às bancas do peixe. É a primeira compra que fazemos sempre. “Há sardinhas e carapaus para a grelha, pargo para o forno, bife de atum fresquinho, pescada para cozer…”, avança-nos logo o Luís assim que nos vê chegar. “Ah! E tenho ali uma anchova que está uma categoria!” Imagino-a logo acomodada no tacho, entre camadas de tomate, cebola, pimento verde, salsa e batatas às rodelas. Olho de relance para os bifes de atum e preparo-lhes logo uma cama de cebolada, paus de orégãos secos e folha de louro, bem regados com vinho branco. E rapidamente me distraio com um remexer constante mesmo à minha frente. Enguias! Bem fritinhas e borrifadas com sumo de limão. Está decidido! “Luís, levo uma anchova, dois bifes de atum e meio quilo de enguias”. Mais à frente ainda compro um quilo de lulas fresquinhas para rechear e um molhinho de lingueirão que terá como destino certo um arroz malandro ou uma feijoada.
Ao longe, já vejo a Dona Isabel de cabeça concentrada nas contas, que faz há anos em pequenos pedaços de papel. Há laranjas, tangerinas, maçãs, bananas, peras, dióspiros, marmelos, castanhas. Dirijo-me às hortaliças. Brócolos, uma couve-flor, um molhinho de grelos, uma alface e umas batatinhas novas a que não resisto. Cozidas com pele fazem a combinação perfeita para os bifes de atum. A minha mãe agarra um molho de beldroegas viçosas para aquela sopa que ela tão bem sabe fazer. Coloco ainda no saco umas batatas-doces para preparar o recheio das empanadilhas que tradicionalmente nos acompanham na quadra Natalícia. “É tudo minhas meninas?”, pergunta a Dona Isabel. Assentimos, pagamos e ainda recebemos cumprimentos para a avó, que foi por muitos anos companheira de praça, numa banca vizinha, ainda no mercado antigo.



A caminho da saída rendo-me aos figos secos e às amêndoas da banca do Sr. Jerónimo. Bem moídos e adicionados a uma calda de açúcar com canela, erva-doce e chocolate em pó, dão uns bombons de figo irresistíveis. Agarro um saquinho de cada. “Já agora levo também meio litro de azeitonas britadas, se faz favor”. Por hoje está tudo. Dividimos os sacos pelas quatro mãos e encaminhamo-nos para a saída. O burburinho das conversas de quem se encontra todos os Sábados por ali, o tilintar dos trocos nas bancas, os pesos de ferro que caem nas balanças de pratos, o pregão dos vendedores, as pancadas secas das facas dos talhantes, o correr da água que lava o peixe depois de arranjado, os sons ocos dos caixotes de madeira vazios que se vão amontoando, tornam únicas as manhãs de Sábado na praça. O aroma dos legumes frescos saídos da terra e as cores vivas dos frutos acabados de apanhar são inigualáveis. E a tudo isto, soma-se a genuinidade destas gentes de alma algarvia que os cultivam com a experiência de uma vida e que nos recebem com aquele sorriso aberto de sempre.

7 comentários:

  1. Lindo!
    Mais do que um hábito do presente... são também assim as minhas memórias de infância. Ir à praça de Loulé fazia parte do ritual de sábado de manhã... ainda hoje cumprido pela minha mãe.
    Certamente com os mesmos sabores, aromas e paleta de cores dos produtos da terra e do mar da Praça de Tavira...
    Estes cenários e sentimentos foram tão bem descritos pela minha querida amiga Sónia, que me fizeram viajar no tempo.
    Susana

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  2. Carolina Santos22/11/10, 13:24

    Muito Bom. Senti-me junto Às duas no passeio! Nem outra coisa seria de esperar da autora ;)

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  3. magnífico manter nossas tradições. só é pena que no meio do tradicional apareçam bancas de produtos tradicionais com o nome da banca em inglês!!! estraga muito a paisagem e não deveria ser autorizado.

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  4. A descrição fez-me apetecer comer um figuinho com amendoas...

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  5. Isto é na praça de Tavira?
    O melhor de tudo é a genuinidade e frescura dos produtos.
    Eu quando estou em Lagos, também vou com a minha mãe à praça... é parecido. Fez-me lembrar...
    Tenho um colega aqui em Lisboa, que todos os fins de semana em que a sexta-feira acaba cedo, vai a correr para a sua casa perto de Tavira. E já me descreveu o prazer do ritual das compras na praça de Tavira. Os vendedores já conhecidos que lhe aconselham o melhor peixe... Giro!

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  6. Ao ler estas palavras, apeteceu-me sair de casa, mesmo com chuva, e ir até aí ao mercado! :)

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