terça-feira, 23 de novembro de 2010

Xerém

Por Ilídia Sério
[Empresária - Restaurante Casa Algarvia, Faro]

S. Brás de Alportel, em plena segunda guerra mundial, era uma terrinha do interior algarvio onde a falta de produtos para consumo alimentar, não se sentia com tanta intensidade quanto numa grande cidade. Cada família tinha um cantinho onde semear o necessário para a sua sobrevivência e onde criar alguns animais para o seu alimento, mas….havia coisas que não chegavam a uma vila quase no meio da serra, como por exemplo, carne de vaca. Só os lavradores mais abastados tinham possibilidade de a adquirir.

Nesse tempo, o prato mais habitual naquelas bandas, eram as famosas papas de milho, hoje pomposamente chamadas de xerém, confeccionadas sem os requintes que actualmente lhes conferem tão alto gabarito. Eram, pura e simplesmente papas de milho, que escorriam pela goela, sem se deterem na dentadura de quem as saboreava.

Neste cenário a moça casadoura, brejeira, atrevida, contracena com o rapaz altivo e muito vaidoso, filho de gente humilde, sem grandes recursos, mas trabalhador.
Um dia ele sai de casa, a seguir ao almoço e como de costume, caminha, altivo e hirto, com um palito na boca - talvez um pauzinho afiado, porque naquele tempo não devia haver ainda palitos como hoje - que vai manuseando entre os dentes.
A moça, à janela, como de costume, curiosa e brincalhona, pergunta:
“Ó Zé, vais a palitar os dentes? O que comeste hoje?”
Ele, sem se deter responde:
“Bife! O que querias que fosse?”
E ela, marota, logo retorquiu:
“Bife de papas?”

De coisas simples e brejeiras se vivia numa vila - ou seria aldeia nesse tempo - do interior algarvio, nos anos 40 do século XX.


Mexendo as papas de milho

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