terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Gente real ao vivo e a cores


Por Maria João Santos
[Técnica Superior - Direcção Regional de Economia do Algarve]

Era uma vez uma escola secundária cheia de alunos felizes que não usavam computadores, nem tinham dinheiro para comprar roupas de marca e iam a pé, ou à boleia, para a praia de Faro, quando o bom tempo o permitia.
Eram rapazes e raparigas que viviam amizades reais, juntavam-se sem pedir para ser adicionados, surgiam naturalmente e naturalmente iam ficando nas vidas uns dos outros. Tinham em comum a vontade e a alegria de viver. Eu pertenci a esse mundo colorido em que ser igual ou diferente não nos preocupava. Na época, os alunos dessa escola não eram totalmente livres, mas como não se apercebiam dessa situação, brincavam, namoravam e conviviam de forma saudável e feliz. Não… não era o paraíso na terra, nem nós éramos tolos ou santos, mas ninguém naquela idade e principalmente naquele meio, tinha perfeita noção da aparente liberdade.

Perto dessa escola havia a Alameda João de Deus, onde vivi um episódio que sempre recordarei com uma sonora gargalhada. Teria os meus doze ou treze anos e, sempre que não havia aulas, lá estava eu a andar de patins de rodinhas, a jogar minigolfe ou a brincar às escondidas (nessa época a malta brincava até tarde…aliás eu ainda brinco). Em Faro, a Alameda, mesmo em frente à PSP, era o local ideal para tudo isso, incluindo estudar e namorar.

Uma tarde, em que a professora de uma aula de duas horas faltou, a Alameda rodeada por grades verdes serviu mais uma vez para descomprimir. Assim, durante um jogo de escondidas com colegas da minha turma, escolhi o local perfeito para me esconder: o famoso caracol. Era uma zona tranquila, muito bem adornada por árvores e arbustos altos, em que se ouvia o som harmonioso de água a correr e uns bancos de pedra em forma de troncos, quase sempre ocupados por jovens namorados entretidos nos seus afazeres, decoravam o espaço. Escondi-me tão bem que os meus colegas nunca mais me encontravam…e eu fui ficando, ficando…até que chegou um casal de namorados de tal modo entusiasmado que, sem me ver, foi dando asas ao amor …e que asas. Indecisa sobre o que fazer, calei-me muito bem caladinha na esperança que eles se fossem embora e eu pudesse discretamente abandonar o meu esconderijo. O tempo nunca mais passava. Nem eles nem eu, por motivos diferentes, renunciámos ao caracol. Nisto, uma bola, vinda não sei de onde, bateu-me violentamente no rosto e eu, sem querer, gritei de dor. De imediato fui descoberta. O casal interrompeu o beijo que já durava havia largos minutos e, ao afastar os arbustos, deparou-se comigo. Olharam para mim estupefactos e, sem me ajudarem, censuraram o facto de eu estar a espreitar, embora eu não estivesse a espreitar, eu só me tinha escondido dos meus colegas. Bem expliquei, mas o casal já crescido, aí nos seus 18 anos, não foi na minha conversa. Tive que desaparecer a correr, envergonhada e furiosa comigo, com eles e principalmente com os desgraçados dos meus colegas que não me tinham conseguido achar. Ainda por cima levei uma “falta” por ter chegado atrasada à aula seguinte. Amarrei a cara e durante dias não contei nada à malta da turma.
Depois não resisti. Rimos todos à gargalhada!

Algumas semanas após aquele incidente, num domingo, fui levar o meu irmão mais novo à catequese. A aula era numa pequena sala que ficava nos jardins traseiros da igreja da Sé. Qual não foi o meu espanto quando reparei que a catequista era a tal jovem que estava naquele dia, na Alameda João de Deus, toda enrolada com o namorado. Ela reconheceu-me mas não deu parte de fraca, nem eu… Só que nunca mais fui levar o meu irmão à catequese.

Voltei à minha rotina da escola, mas evitei esconder-me no caracol da Alameda. Mais tarde começámos a frequentar a Gardy, na Rua de Santo António, ponto de encontro para amizades mais coloridas e longas conversas divertidas, ao vivo e a cores, com apenas uma bica na mesa do café. Uns anos depois, tal como a catequista, também eu passei a ver o caracol da Alameda com outros olhos…

Jardim da Alameda João de Deus - Faro

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