terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O Tio Galinho


Por Ilídia Sério
[Empresária - Restaurante Casa Algarvia, Faro]

Nasci e vivi até à adolescência, na Rua Dr. Rodrigues Davim, uma das ruas adjacentes ao bairro do Alto Rodes. Lembro-me que a rua não era asfaltada e quando chovia - e se chovia naquele tempo - a água que escorria pela rua, abria grandes sulcos no chão, que dificultavam a passagem.
Costumo dizer que era uma rua abençoada porque ficava exactamente entre a adega do Abel Pereira da Fonseca e a adega do João Pires.
Era uma daquelas ruas típicas em que todos os moradores se conheciam, eram como família, ajudavam-se uns aos outros e principalmente, conviviam.
Desse convívio fazia parte o juntarmo-nos na rua, sentados cada um à sua porta, após o jantar, a apanhar o fresquinho da noite. E, como é óbvio, contavam-se estórias.
Lembro-me de todos os meus vizinhos, dos nomes, das fisionomias, de algumas características - as mais evidentes claro - pois era ainda muito nova para esmiuçar o feitio de cada um.
Desses vizinhos destaco o Tio Galinho, um pescador baixinho que à noite juntava à sua volta todos os miúdos da rua. Contava que uma vez estava a dormir dentro do barco e que tinha vindo uma bruxa que o levara pelo ar, até à Índia. Sim, ele tinha ido à Índia e voltara nessa noite e contava o que vira por lá. E nós, crianças, ouvíamos crédulas, deliciadas e de boca aberta, esta e outras aventuras narradas pelo bom contador de estórias que era o Tio Galinho.

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