segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Os albricoques


Por Armando Correia
[Inspector da Polícia Judiciária - Faro]

Sou polícia e desembarquei no Algarve em 1992, na sequência de uma imposição do Estado aos seus jovens trabalhadores.
Fazia o meu primeiro serviço de Piquete de 24 horas. Atendia telefonemas, recebia pessoas com os mais variados problemas, muitas delas a precisar unicamente de uma palavra amiga, de compreensão ou carinho. Respondia como podia e como me ensinaram. Sentia-me entre a figura do “pastor” e a do “psicólogo”; uma espécie de “pastólogo”.
Queria acabar aquele serviço com a consciência de tudo ter feito para responder ao que me era pedido. Iniciara às 8H00 e até às 21H00, tudo fora assim.
À entrada da Polícia, surge um pequeno vulto projectado no piso mármore de cor clara. Atrás do vulto, um passo arrastado nuns sapatos pretos, um pouco sujos de lama, collants negros, camisa e casaco de malha igualmente escuro, cabelo ralo e comprido e uma face intensamente rugosa com um esgar pesado. Devia ter uns 65 anos, pensei – este é um “jogo” pessoal, o de adivinhar a idade dos queixosos, que depois exibem o bilhete de identidade e confirmo ou desminto a minha ideia, servindo de escape aos pequenos dramas com que lido.
Disse para se sentar, delicadamente. Mais delicadamente que o normal porque senti que algo dramático a atormentava e o respeito pela idade é um imperativo pessoal.
Sentou-se; suspirou; olhou para mim e vi-lhe no olhar a desconfiança. Primeiro pensei ter a ver com o seu drama. Depois percebi ter a ver com a minha idade. Aos seus olhos, um jovem polícia seria a pessoa menos indicada para resolver os problemas de uma velha mulher.
Lancei-lhe um olhar o mais “maduro” possível, fiz um ar altamente profissional e ao estilo de operador da “OK Teleseguro”, disse-lhe:
"Boa-noite minha senhora, diga; em que lhe posso ser útil? "
"Roubaram-me os albricoques!" – Disse com sotaque cantado, ar zangado, seco e convicto.
Bom, o meu primeiro problema sério. Roubos eram comigo, agora albricoques é que eu não fazia ideia do que se tratava.
Fiz-lhe várias perguntas, na tentativa de entender o que era. Mas ela não me facilitava a vida:

"A que horas foi isso?"
" Se eu soubesse estava lá para os apanhar."
"Em que sítio estavam? "
"Onde é que haviam de estar… "
"Como é que os levaram?"
" Só lá chegam com a mão…"

Desisti de perguntas. Levantei-me. Fingi que ia consultar um código penal e discretamente perguntei a um colega que raio eram "albricoques”.
A resposta foi pronta e lá me explicou com ar de gozo:
“São alperces”.
Percebi o quanto ignorava a cultura algarvia e a relação indirecta que existe entre o conhecimento académico e o popular.
Humildemente, compreendi o seu drama, soube quanto tempo levava o fruto a amadurecer, o quão doces eram os seus albricoques, o quanto ela contava com eles para comer, dar e vender e o quanto eu não lhe podia ser útil.
Saiu da mesma forma decidida. Desconfiada da polícia. De mim. E da minha ignorância.
Eu, acabei o serviço, fui comprar albricoques, comi-os e fiquei a saber a que sabe a ignorância.

Alperces secos

4 comentários:

  1. Já vinham secos e tudo! Hummmmmmmm!

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  2. Pedro Bartilotti13/12/10, 14:55

    Bela história, faz-me lembrar aquela que também ouvi pela 1ª vez quando cheguei ao Algarve do "...vou dar banho.."

    Pedro Bartilotti

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  3. Linda!
    Adorei esta estória!
    MCS

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