quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Suite das Descobertas

Por Armando Mota
[Maestro e Compositor - Algarve]

Ao longo da minha carreira como maestro e pianista tive vários desafios importantes, mas nenhum se compara com aquele que me foi feito pelo Paulo Neves e pelo Presidente Júlio Barroso. Escrevo música desde os oito anos, tendo feito de tudo, desde música para filmes até óperas para crianças, mas no entanto, uma obra desta dimensão causou-me alguma preocupação e de certeza que faria o mesmo aos mais experientes e consagrados.

Costumo dizer que não se pode escolher o pai ou a mãe, nem o sítio onde se nasce ou morre, mas pode-se escolher o sítio onde se quer viver. Depois de onze anos em Viena e dez em Berlim, e mais uns quantos por essa Europa, decidi fixar-me no Algarve. Embora esta região não apresente uma dinâmica cultural semelhante a Viena ou a Berlim, permite uma vida com qualidade, e sinto que devo colocar a minha experiência profissional e pessoal ao serviço do seu desenvolvimento. É que a minha relação com o Algarve já vem de longe e começou aos oito anos quando vim de férias para Sagres pela primeira vez. Hoje a minha relação com a região é profunda, quase como se aqui tivesse nascido e acresce que eu adoro o mar! Sem poder vê-lo falta-me qualquer coisa que nada deste mundo pode substituir.



A grande dificuldade que senti ao escrever esta obra foi conseguir não a tornar demasiado complexa, fugir ao intelectual e inovador, ao pretensioso e sobranceiro. Nos nossos dias não escrever atonal é quase uma ofensa e corre-se o risco de sermos apodados de conservadores, plagiadores, etc. Pois bem, é com muito orgulho que anuncio que nesta obra grandes mestres da música me ajudaram. De Rachmaninof a Ravel, de Beethoven a Prokoffief. Todos eles me influenciaram. Que me perdoem os meus colegas modernos da música electrónica, os seguidores de Emmanuel Nunes, e tantos outros grandes nomes da música moderna. Tenho o maior respeito pelo trabalho que desenvolvem, mas, depois de passar horas infinitas em Sagres a ouvir o barulho do silêncio e a música do mar, não consigo associar as correntes modernas da música a essa atmosfera única. Quis de alguma forma fazer um “Filme” sonoro em que os ouvintes se pudessem transportar para a epopeia dos portugueses. Tentei fazer uma “sonoplastia” dos sons que os marinheiros poderiam ter ouvido e que se adequasse ao nosso imaginário do século XXI.

Esta foi uma obra feita a olhar o mar, da varanda da minha casa em S. Rafael, a passear em Sagres, e em muitas, muitas horas ao piano. Foi uma honra enorme e um prazer inesquecível ter feito este trabalho. É também para mim a melhor forma de ficar ligado à região e a todos vós.

Sagres

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