segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Com os canteiros da Bordeira

Por Nuno Ferreira
[Jornalista, autor do blog Portugal A Pé - Costa da Caparica]


Em Março de 2008 entrei de mochila às costas na Junta de Freguesia de Santa Bárbara de Nexe a pedir informações sobre um conhecido acordeonista da região. O secretário da autarquia, depois de ter confessado que nunca tinha sido abordado por um jornalista de mochila às costas, levou-me a casa do músico veterano e lenda da região, mas ele não estava. Foi quando se virou para mim e disse: “Ouça, você não entrevista o acordeonista mas vai entrevistar os nossos canteiros”. Foi assim que tomei contacto com a história memorável dos canteiros da Bordeira. Encontrei José das Neves Moleiro, então com 68 anos, na Casa de Pasto Rústica, à beira da estrada, em companhia de outro grande canteiro, João Desidério.
José e João foram dois dos muitos canteiros da localidade da Bordeira que rumaram para França no tempo da ditadura e das vacas magras e acabaram a protagonizar o restauro de monumentos famosos no mundo inteiro.
Começaram ali, em crianças, mais precisamente nas pedreiras do lugar de Funchais, Bordeira, andaram por Cascais, alguns, e depois fizeram-se à vida e trabalharam no que sempre moldaram e os moldou a eles.
“A malta nova não tinha outra saída nesse tempo. Aqui, só havia uma oficina de carpintaria. Íamos para as pedreiras, ao todo éramos mais de 100 canteiros. Era vida de escravo, naqueles buracos marafados, o “bicho” queria se endireitar e não podia...”, contou-me José. Nos anos 60, quase tudo emigrou. “Quase tudo abalou, primeiro para Cascais e depois para França. A gente não queria nada com a guerra colonial. Eu atravessei o Guadiana a salto no dia 29 de Janeiro de 1962”.


José das Neves Moleiros e João Desidério


José acabou por viver 38 anos em Paris. “A princípio, o mais difícil foi adaptar-me à língua. Depois, fui arranjando trabalho no “boca à boca”. Comecei a trabalhar no mais fácil mas nunca imaginei vir a restaurar os monumentos que restaurei”.
A destruição da Iª Guerra Mundial, a poluição, a erosão provocada pelo clima, tudo foi deixando marcas na pedra das obras de arte francesas. “A pedra deles é mais macia, absorve mais a água...”
Os dedos da mão de José das Neves Moleiros não chegavam para contar o número de monumentos que a sua arte de canteiro algarvio e “made in” Bordeira ajudou a restaurar: “Em Versailles, logo à entrada, junto às grades, está trabalho cá do velho. Nas cocheiras do palácio também. E se for à Catedral de Nôtre Dame, procure bem uma «estatuazinha» pequena na parte de trás do jardim. Fui eu que a restaurei”.
O olhar de José brilhava de orgulho. Por perto, mais reservado, o mestre João Desidério escutava a conversa como se não fosse nada com ele. Foi José a ajudá-lo a soltar a modéstia. “Tu João, tu também restauraste muita coisa”. Só em Paris, João trabalhou no restauro da Assembleia Nacional, do Louvre, dos Invalides e do Sacré Coeur. Da grande basílica de Montmartre lembram-se os dois bem, não haveriam de se lembrar. “A pedra do Sacré Coeur era pedra marafada, rija de um raio, mais duro que um ferro...”

Deixei a Bordeira e os canteiros entregues à conversa sobre os futuros museus da cantaria e monumento aos canteiros e fiz-me à imprevisibilidade da estrada. Parti bem mais rico do que quando ali parei, à porta da Junta de Freguesia e na mente ecoavam ainda as palavras de José das Neves Moleiro: “Eles em papel eram mais fortes mas depois na prática a gente éramos os reis”.


Santa Bárbara de Nexe

[O autor também publica crónicas semanais no Café Portugal]

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Voltar às origens

Por Ana Serafim
[Jornalista - Lisboa]

Entre um e outro solavanco, o jipe debate-se com a estrada de terra batida. Baixo Guadiana. Para trás, ficaram Vila Real de Santo António e Castro Marim. Pela frente, em curva e contra-curva, a serra do sotavento algarvio.
Oliveiras de azeitona verde e pinheiros começam por compor o cenário. À sua passagem o veículo põe um pó fininho e avermelhado a dançar no ar. Não se anda muito até surgir a primeira paragem no safari.

Estendendo o braço pela janela, o condutor e guia, o Sr. Merca, apanha um ramo de esteva. É típica do Algarve e muito usada pelas famílias serranas para atear o lume dos fornos de pão. Na palma da mão, exibe as minúsculas sementes, castanhas escuras que podem ser levadas pelo vento e arruinar plantações mais sensíveis.

Mais à frente, apresenta o cacto Agave, outra das plantas características da serra. «Serve para fazer tequila no México. Aqui, usa-se em corda e sisal das redes de pesca», conta.
E ainda uma amendoeira de amêndoa dura, um dos três tipos existentes na região algarvia. «A amendoeira é a neve do Algarve», brinca, explicando que as suas flores só ficam na árvore cerca de 12 dias. Quando caem, pintam o chão de branco.
Agora, o tom é outro. Na paisagem, predomina o castanho, o verde-escuro, a vegetação rasteira. Sente-se a secura da terra ainda que, ao longe, se veja o Guadiana. «Quando está clarinho, pode avistar-se até Huelva, em Espanha», garante o guia, enquanto serpenteia por caminhos já trilhados pelos árabes.
Nova paragem. Há que conhecer o figo de pita, um cacto verde-claro que pode ter várias utilizações. Serve, por exemplo, para reciclar água porque absorve a sujidade. «Diz-se, na brincadeira, que era usado pelas senhoras como batôn. Às vezes, quando estou em passeios com turistas, tiro a tinta e pinto os lábios. Ficam muito vermelhos», confidencia o Sr. Merca.


Seguimos, até chegar a Cerro do Enho. Mais uma pausa. Esta, imposta. Um rebanho de cabras algarvias, salpicadas de branco e castanho, ocupou a estrada. Têm chifres impressionantes, pelo que o melhor é mesmo ceder-lhes passagem. O olhar espraia-se pelo lugarejo, com as suas casas típicas, brancas, com uma barra azul a dar-lhes cor, a cozinha separada das divisões principais, o forno de pão, os currais, as cisternas que substituem a água canalizada. Por cima de uma ainda há vestígios dos figos que, no pino do Verão, ali caramelizaram ao sol.
Além do pastor, ainda não se viu vivalma. «Aqui, só há um autocarro por semana, se houver. No Verão, nem deve haver nenhum. No Inverno vem buscar as crianças para a escola», descreve o condutor, algarvio de gema. E explica que são as carrinhas que andam pela serra vendendo roupa ou alimentos, que abastecem os habitantes.
Ainda que na época estival a população da região aumente, por causa das férias, na maioria dos casos, as famílias serranas e os mais jovens, partem para trabalhar nas cidades e só voltam anos depois, para reconstruir as casas herdadas. Ou quando a reforma lhes reserva tempo para o descanso.
Com o sol a bater no pescoço – por aqui as temperaturas podem chegar aos 50ºC no Verão, devido à proximidade do norte de África -, o safari serrano continua. Ora em alcatrão, ora em terra, o jipe guina para a direita, numa descida acentuada, que faz contrair a barriga. Sacode os passageiros. «Que tal a massagem?», galhofa o Sr. Merca.
De cima, por entre montes e vales, começa a vislumbrar a cama de água da Barragem de Beliche. Romanzeiras, pereiras, amoras silvestres, laranjeiras de laranja amarga acompanham o caminho. Depois de atravessar um pequeno ribeiro, paragem para esticar as pernas. O sr. Merca dá a cheirar raminhos de poejo e menta.

De regresso à estrada, chegamos a Murteira de Baixo, onde a grande estrela é o Sr. António. Faz cestos decorativos. Mantém a tradição da cestaria, que esmoreceu com a utilização do plástico. Dona Idalina, a esposa, sugere a prova de mel de alecrim. E mostra as suas rendas de bilros. «É como escrever à máquina», diz sobre a sua arte. «Gosto muito de estar aqui porque foi aqui que nasci. Logo, o meu filho vem cá jantar. Passa cá o dia de amanhã e depois vai embora», continua. Reformada, intercala estadias na serra com temporadas em Faro, para cuidar do filho mais novo.
Cumpridas as despedidas, percorremos mais um quilómetro até chegar a Murteira de Cima. Aqui, há um forno e um poço comunitários. O telefone também é partilhado: está numa pequena casa, cuja chave está sempre na porta. Atende quem estiver mais perto.
Já calcorreámos cerca de 20 quilómetros. Agora, o alto da serra, de onde se vê Monte Gordo, Vila Real, Ayamonte e a barragem de Odeleite.
«Em Odeleite, os mortos vivem por cima dos vivos. Deve ser o único lugar em que isso acontece», graceja o Sr. Merca, ao chegar ao amontoado de casinhas instalado no fundo de cerro. O cemitério está no ponto mais alto. A igreja, no mais baixo.
«Mas é das zonas mais bonitas do Algarve», assegura, porém, enquanto justifica a opinião. Desculpa-se-lhe a franqueza quando revela que esta é a menina dos seus olhos, a sua terra. É aqui que a sua família ainda vive e é aqui que há-de vir passar a velhice. «Um dia também eu hei-de voltar», promete.


[Adaptação da autora, de texto publicado na Revista Essencial, do Semanário Sol]

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Turistas citadinos na serra do Cachopo

Por Elisabete Rodrigues
[Jornalista, membro do Núcleo do Algarve da Liga Para a Proteção da Natureza]

A minha passagem de ano de 2000 para 2001 foi feita na zona do Cachopo, integrando um grupo organizado pela associação Almargem, que dedicou três dias a calcorrear os trilhos serranos daquela zona do interior do concelho de Tavira.
Ficámos alojados numa pensão da aldeia, por cima do café-restaurante onde também jantávamos (e muito bem).
Verdadeiro Turismo de Natureza, deixando lucro localmente.
Como o nosso objetivo era andar a pé, o guarda-roupa era composto por botas de caminhada, roupa para andar ao frio e à chuva, ou seja, nada elegante.

Imagem de C.M.Tavira

Na noite da passagem de ano, o meu grupo de amigos resolveu indagar onde haveria uma festa à maneira para irmos dançar um bocadinho e beber um copo. A senhora do café do Cachopo lá nos indicou um baile numa aldeia que ficaria, em linha reta, aí a uns cinco quilómetros dali, mas que, pelas estradas da serra, ficava bem mais longe.
Limpámos as botas carregadas de lama, sacudimos as calças de caminhada para lhes dar um ar mais decente, colocámos uma camisola lavada e lá fomos nós, por montes e vales, até ao dito baile.
Quando entrámos no salão, já depois de sermos olhados meio de lado à porta, fez-se quase um silêncio, enquanto os locais nos observavam.
É que, na festa de passagem de ano daquela aldeia, pelos vistos muito famosa nas redondezas serranas porque estava a abarrotar de gente, todos se vestiam com as suas melhores roupas: elas de cabelos arranjados, maquilhagem, saias compridas e blusas brilhantes, eles de fato, colete e gravata (que iam tirando conforme o calor ou as cervejas bebidas).
E o nosso grupo de quatro pessoas ali estava no meio, com ar de quem tinha acabado de chegar da serra – e tinha! - e alguma lama agarrada às grossas botas de caminhada…
Mas, como as pessoas do campo são generosas, depressa deixaram de olhar para aquele grupo de quase marcianos citadinos e toda a gente continuou a dançar animadamente, ao som da vocalista-organista de serviço, de seu nome Sandrine.
Nós fartámo-nos também de dançar, inclusivamente com algumas das outras pessoas do baile (apesar de as botas não serem propriamente o calçado mais apropriado para danças…). No fim, até fomos pedir autógrafos à vocalista-organista (esclareça-se que, nesta altura, já tínhamos bebido uma boa quantidade de minis…).
O mais difícil da noite acabou mesmo por ser o regresso a Cachopo. É que eu, que era a motorista de serviço, me esqueci do caminho (terá sido das cervejas?...ou da dança?) e resolvi seguir a direito pela serra fora. Isto às 2h30 da manhã daquele dia 1 de janeiro de 2001, sem se ver vivalma nos trilhos serranos… Não dei parte de fraca e fui sempre conduzindo como se soubesse perfeitamente qual era o caminho. Ao fim de hora e meia de subidas e descidas em estradas que não faço a mínima ideia onde ficavam, acabámos milagrosamente por ir dar à estrada alcatroada, a um quilómetro do Cachopo e regressámos à civilização.
Ainda hoje guardo o cartão com o autógrafo da vocalista-organista Sandrine!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A Preguiça

Por Maria de Sousa Martins
[Aposentada - Benfarras]

Ora, queres tu que eu te conte histórias de quando eu era moça nova… Eu tenho lá histórias para contar. A minha vida foi sempre a trabalhar. Trabalho. Só trabalho. Bem sabes que o meu pai – o teu avô – era rendeiro nas terras do Morgado de Quarteira. Tínhamos à nossa conta a Preguiça. Assim se chamava o bocado de terra que semeávamos.

[E o que é que lá semeavam, tia?]

Semeávamos trigo, cevada, milho, batata doce…íamos daqui de manhã cedinho, levávamos as vacas que por lá ficavam a pastar e só voltávamos à noite. Eram dias inteiros a regar. Às vezes até noite dentro. Mas, olha, tínhamos pão para comer o ano inteiro. Lembro-me de um ano em que o teu avô semeou um alqueire de trigo e acabou por arranjar 16 alqueires. Naquele tempo, nos anos 40, quando havia racionamento, nunca chegámos a ir para a bicha do pão que se vendia na casa da Ti Teresa Ramexida.

Mas trabalhi muito. Isso é que trabalhi. E não me hei-de esquecer de uma noite em que fiqui lá sozinha, com as vacas. Já era tarde e tínhamos que voltar no dia seguinte. A tua mãe e as outras manas regressaram a casa, mas para fazer o caminho com as vacas era mais demorado. Fiqui eu. Era por ocasião da feira de Quarteira, fins de Outubro. Olha, choveu tanto, mas tanto que repassou todo o abrigo que eu tinha debaixo do carro de mula. Molhou tudo, subiu a água na vala grande. Ai que dilúvio, menina.

[Oh tia, mas a que zona de Vilamoura é que corresponde hoje essa antiga terra da Preguiça?]

Shiiii, já nem deve dar para se reconhecer. Acho que já não existe lá a nora grande, mas parece que ainda lá está a carreira de oliveiras junto às quais passávamos à chegada à Preguiça. Diz a tua prima que é um pouco antes de chegar ao Posto da GNR. Eu cá não sei. Nunca mais para lá fui. Dizem que hoje é só casas para turistas. Às vezes penso por que raio é que se havia de chamar Preguiça a um sítio em que trabalhávamos tanto…Se calhar já lhe adivinhávamos o futuro, que hoje sim, só para lá se vai ao descanso.


Vilamoura

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Dar banho à linha

Por Patrick Guerreiro
[Auditor de Segurança - Faro]


Desde muito pequeno que me lembro dos verões passados na Ilha do Farol. O meu avô, pescador nato, tinha uma pequena casa nessa ilha e eu ia para lá passar as férias grandes da escola (na altura eram quase três meses) com ele e com a minha avó.

Lembro-me como se fosse hoje das brincadeiras, dos namoricos, das traquinices, da sensação de ser livre! Mas daquilo que me lembro melhor, e que até hoje me acompanha, é a minha enorme paixão pela pesca.

Com os meus sete anos, via os pescadores com as suas grandes canas e material de primeira e perguntava ao meu avô se me podia comprar... Ele, após muita insistência minha, lá acabou por ceder e deu-me uma cana, um carreto e chumbinhos para pôr na ponta do fio. Parecia que me tinha dado o mundo!

Certo dia, bem cedo (como qualquer pescador que se preze), peguei no meu material e fui para a beira de água e com toda a força atirei o fio para longe e esperei. Esperei… Esperei horas a fio. De vez em quando lá puxava a linha na esperança de que tivesse apanhado o almoço e... nada!

Triste mas não menos honrado pensei: “O problema é do sítio, os pescadores pescam no molhe e eu estou a tentar na ria!”

Ora bem, descoberto o problema e sem avisar a minha avó dirigi-me com toda a coragem para o molhe do farol e uma vez lá instalado lancei a minha cana e... nada! Todos os outros pescadores apanhavam peixe e eu não. Nisto passou-se um dia inteiro e nem me lembrei de comer. O vício era tão grande que lá fiquei até ser noite.

Quando me apercebi que as horas tinham passado, voltei para casa muito triste e desiludido: afinal de contas o peixe não gostava de mim.

Ao chegar ao início da praia já conseguia ouvir os gritos de desespero da minha avó que durante um dia inteirinho não soubera de mim. E eu nem sequer um peixe lhe trazia para apaziguar a situação…

Ao perceber a aflição da minha avó, e antes que ela me avistasse, decidi esconder-me no quintal do vizinho a chorar. Ele lá me viu:

“Rapaz, a tua avó busca-te como se não houvesse amanhã. Vais levá-las com o cinto!”
“Ajude-me Ti Felipe!
- pedi eu - Fui pescar para o molhe mas a minha avó ainda estava a dormir e eu não a avisei, e ainda por cima não apanhei nada e ela agora vai-me bater”.

O Ti Felipe desatou a rir.

“Mas acha que isto tem graça?!” - perguntei eu muito ofendido.
“Claro que tem! Atão tu querias pescar sem anzol e sem isco?”

Resultado: o meu avô, conhecendo a peste que eu era, não me deu anzóis nem me ensinou a iscar para que não me magoasse ou magoasse alguém. E eu tinha andado aquele tempo todo literalmente “a dar banho à linha” e a servir de diversão para os pescadores da Ilha do Farol.
Resolvido o mistério, o Ti Felipe foi comigo a casa da minha avó.

“Vitória, encontrei este filhe de Fare a tentar pescar na praia ma nã derem anzol nem isco ao moço...”
“Ai moço dum cabreste quê mate-te, fizeste-me andar com o coração nas mãos todo o dia, desorientada à tua precura e tavas na praia!! Anda cá que eu já te canto.”

E assim foi, levei uns valentes açoites para aprender a dizer sempre onde ia, mas principalmente aprendi que para apanhar peixe, para além de uma cana e de um carreto, é preciso anzol e isco! Esta paixão acompanha-me até hoje.


Créditos: Restaurante O Estaminé

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Estátua a uma mulher conserveira

Por Custódio Arménio
[Aposentado - Olhão]

Passo um milhão de vezes pela doca antiga onde há anos a prata viva, em forma de peixe, foi manipulada, descarregada e estivada por gerações de olhanenses, que fizeram do mar a sua vida e do molhe a sua casa.
Devagar, andando, misturo o som surdo do meus passos com o ténue murmúrio da Ria Formosa e, andando, passo pelo porto onde estão os barcos da carreira, quando o sol vai caindo pesaroso no anil do horizonte. Ao largo já se vê a luz do farol da Ilha. Sigo andando, sentindo o cheiro da maré, pensando no dia que já passou, no bulício provocado pela chegada da pescaria dos poucos barcos ainda resistentes neste lugar de pescadores que vivem da sua salgada mercadoria…



Fecho os olhos e imagino toda a azáfama entre caixas de peixe, gritos e alguns eternos protestos pelo preço do pescado “tive tode o dia no mar pá agora ganhar treseuro por caixa. Uns trabalham pa que os ôtres encham o cu”.
Deixo a pescaria e a sua memorável cantilena e sigo pensando que estes homens mereciam um monumento à sua grandeza, tantas vezes ignorada. Também as mulheres deste povo do mar mereciam uma estátua. Uma estátua de uma mulher magra, de mãos calejadas, sentada num banquinho, com sardinhas entre as suas mãos. Seria um símbolo de grandes obreiras.
A minha mente voa até um passado longínquo feito de grande azáfama, de um cais onde entravam e saíam barcos atrás de barcos e as sirenes das fábricas enchiam o ar com o seu apito. Imagino aqueles escravos do mar que eram os pobres marinheiros. E as filas de mulheres entrando nas fábricas. Tudo bulia, tudo era movimento de caixas, de montanhas de peixe, de filas de banquinhos povoados de mulheres, fêmeas pobres cuja única forma de levar um bocado de pão aos seus filhos era trabalhar, horas a fio, nas fábricas de conserva.
Fábricas que eram templos dos senhores que mandavam na pesca, que eram donos dos barcos, das redes, e algumas vezes, senhores do triste destino daquelas pobres mulheres, que à custa de suor e dores nas costas iam enchendo latas de mar.
Senhores que em nada se importavam com seguros ou benefícios sociais que nunca tiveram a bondade de assegurar a nenhum empregado. Muito menos a uma mulher… “era só o que faltava, dar direitos a essa cambada, que nem sabe ler”.
Senhores que à custa de costas doídas, quase quebradas, iam fazendo fortuna, comprando mais e mais casas na vila e na serra, pelos bons ares, e em Lisboa como gente da sociedade. Senhores que compravam propriedades para caçar, fazendo disso desporto, como os nobres.
Penso pois que essa gente humilde e verdadeiramente nobre merecia uma estátua, um monumento. Quantos homens não tiveram de se rebaixar para alimentar a avareza daqueles “senhores feudais”? Quantas casas ficaram sem filhos e quantas mulheres ficaram viúvas, para que os flamantes apelidos dessa classe duvidosa seguissem passando de geração em geração?
Uma escultura seria uma homenagem em forma de monumento, um pedido de perdão pelos pais que deixaram tantos meninos órfãos e sem a mínima ajuda dos armadores desses barcos que os levaram para o fundo do mar sem fim.
Deveria edificar-se uma estátua de uma mulher, sentada num banquinho, voltada de costas para as fábricas, com os olhos postos no horizonte a ver o esplendor do sol mergulhar nas águas da Ria Formosa, por onde correram sangue e lágrimas de tantas e tantas mulheres, que foram por ali secando a saúde, em busca de pão.

Olhão - vista aérea

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Lição de mariscar

Por João Amâncio
[spdh Tap Groundforce - Faro e proprietário Alambres Bar - Ilha do Farol]

Existia na ilha da Culatra um enorme barracão que outrora fora a casa do I.S.N. -Instituto de Socorros a Náufragos ou, simplesmente, Salva-Vidas e que foi aproveitado para escola primária. Foi aí que muitos homens e mulheres das ilhas da Ria Formosa aprenderam a ler.

Nós, os que vínhamos do Farol, levantávamo-nos bem cedo e íamos a pé até aos Hangares, onde nos juntávamos a outras crianças e seguíamos para a escola. Pelo caminho cabia aos mais velhos cuidar dos mais novos. Quando a maré estava vazia, um deles costumava ir apanhando amêijoas, que depois entregava numa venda na Culatra. Em troca, o dono dava-lhe um ou dois “pirolitos” (garrafas de refrigerante com um berlinde). Eram repartidos em golos por todos nós.
Mas como aquilo só dava um golito a cada um, eu resolvi também aprender a arte de apanhar as tais amêijoas e assim ter direito ao meu “pirolito”. Um inteiro, só para mim. Dito e feito, pedi ajuda ao meu irmão mais velho, que com muita paciência, lá me foi ensinando a perceber os sinais do marisco sob a areia.

Passados alguns dias, levei para a Culatra um punhado de amêijoas, que pus com grande vaidade em cima do velho balcão de madeira. Esperei ansioso pelo prémio… Quando o homem da venda mo deu, nem sei bem explicar o que senti. Corri para a rua e com as duas mãos bebi, bebi, sofregamente, quase engolindo a garrafa!
Estava eu a banquetear-me com tão saboroso troféu quando um colega de minha idade se aproximou e me pediu um golo. Olhei para ele e concluí que ele também podia ir apanhar amêijoas para ganhar o seu “pirolito”. Como neguei, o rapaz jurou ali mesmo que iria contar à minha mãe.

No final do dia, já em casa, ao ajudar-me a tirar o bibe, a minha mãe reparou que eu tinha os dois bolsos sujos de terra. Zangada, questionou -me. Disse lhe a verdade. Levei uma terrível reprimenda e uns puxões de orelha.
Deixei de mariscar, mas a dor de só ter direito a um golinho do tão precioso néctar arrasava-me completamente. Até que se fez luz na minha cabeça: arranjei uma latinha que cabia no bolso, punha lá as amêijoas e já não me sujava. Assim resolvi o problema sem a minha mãe saber.
No dia seguinte, quando íamos para a escola e a maré estava vazia tirei a lata da mala coloquei no bolso e comecei a minha faina. Cheguei à venda, troquei as amêijoas pelo pirolito. Estava a saboreá-lo, todo contente, quando chega outra vez o chato do meu colega a pedir um golito. Olhei para ele e para a garrafa e disse: não! Novamente ele ameaçou fazer queixa à minha mãe. Mas como o tempo foi passando e eu não levava o bibe sujo para casa, nada acontecia. Pensei que o assunto estava esquecido.

Certa manhã, o meu pai foi ter comigo à cama, dizendo que ia mariscar e que queria que o acompanhasse. Nesse dia, quando chegámos ao local certo (mar santo), disse-me que sabia de toda a história e que me queria ver a apanhar amêijoas tal como eu fazia a caminho da escola. Comecei logo a mostrar do que era capaz e ele levou a manhã a ensinar-me todos os truques para melhor capturar o precioso marisco. Deu-me uma verdadeira lição. Mais tarde, já no barco, pediu-me que não mais apanhasse amêijoas no trajecto da escola, acrescentando que o podia fazer sempre fora desse período.

Ainda hoje, passados tantos anos, eu não resisto. Sempre que estou na praia, espalho a vista pela areia, pronto a olhar nos olhos das amêijoas. E a apanhá-las. Um gosto que ficou da infância, com sabor a “pirolito”.
Onde queres que estejas, obrigado querido pai.


quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Claro Inverno

Por Luisa Correia
[Documentalista - Turismo do Algarve]

A manhã abriu-se clara, daquela claridade que só o céu algarvio pode proporcionar. Só o céu, não. O céu e o sol algarvios que se combinam para nos inundar de luz e de leveza.

E, com o céu e o sol algarvios por únicos guias, fiz-me ao caminho diário do trabalho. Neste percurso habitual, mas sempre cambiante ao sabor dos matizes do tempo, surpreenderam-me algumas amendoeiras já em flor. Juntaram a sua luz à luz do sol e, de repente, fiquei com os olhos de Gilda.

Então, qual princesa nórdica de memorável lenda, senti renascer em mim todo o alento, toda a força da vida que renasce. É o Inverno algarvio, como se fantasiado de Primavera.


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Histórias com mais sabor


Por aqui se vão contando histórias algarvias com cunho pessoal. Trazem memórias, sentimentos, humor, cores e cheiros que ajudam a conhecer melhor a nossa região.

Até 28 de Fevereiro continuaremos a publicar as vossas e nossas histórias, em total liberdade temática.

A partir de 1 de Março lançamos um novo desafio.

Queremos convocar para este espaço os sabores do Algarve.

Queremos degustar convosco esta região.

Comecem já a procurar nos vossos livros de receitas o prato algarvio a que ninguém resiste. Preparem-se para nos contar que alimentos vos tiram do sério. Pensem comida. Pensem bebida.

Em breve começamos a pôr a mesa.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Tavira, história e natureza de mãos dadas

Por Miguel Peres dos Santos
[Historiador e Gestor Cultural - Tavira]

Desde cedo me apaixonei pelo estudo da História e pelas Artes. Penso que essa grande paixão se deveu a ter nascido e por viver na bela e monumental cidade de Tavira, cidade onde em cada recanto e em cada rua há uma história para contar, um segredo para revelar.

Quem chega a Tavira, vindo de norte pela A22, pode ver, no horizonte, o azul do mar, os areais das ilhas barreira que formam a maravilha natural que é a Ria Formosa, sempre acompanhado pelas torres sineiras das inúmeras igrejas que compõem o património religioso desta cidade. Este é sem dúvida o lugar por excelência onde a História e a Natureza andam de mãos dadas…

Lembro-me de diversas lendas que se contavam em torno da ocupação islâmica da cidade, que se relatavam no ensino primário e preparatório e que nos acompanhavam nas visitas de estudo pelas ruas estreitas do centro histórico. Falavam do amor entre cristãos e mouras, e levavam-nos a viajar no tempo. Eram histórias da época áurea da cidade, onde mercadores e navegadores se encontravam nas margens do Rio Gilão. Ou mesmo histórias da vida monástica em alguns templos, que ainda hoje resistem para contar um tempo passado. Ou então histórias da nobreza que aqui se fixou devido à beleza da paisagem e do espaço envolvente, que podemos contemplar no habitat natural e único que é a Ria Formosa, onde existem uma fauna e flora diversas, em ambiente protegido.

Estas histórias de encantar deixaram de fazer sentido quando me formei em Património Cultural, na Universidade do Algarve. As teses históricas contradizem as lendas que me fizeram apaixonar pela História e pelas Artes, apesar das lendas terem sempre um fundo de verdade que devemos ter em conta. Nunca deixei de me encantar pela procura do passado, pela busca de novos factos, pela busca de uma nova tese… mas principalmente nunca deixei de estar apaixonado, pelos encantos da minha Tavira.


Castelo de Tavira

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Armação de Pêra

Por Torquato da Luz
[Poeta e jornalista - Lisboa]


Tirem-me tudo: os dedos, os anéis,
a reserva de sonho e de quimera,
mas não sejam cruéis,
não me tirem Armação de Pêra.

Não me tirem o resto da infância
que sei ter deixado aqui
nem esta luz que à distância
me segue desde que parti.

Não me tirem o verde-azul do mar
nem os barquinhos balançando à espera
dos turistas que hão-de ir visitar
as furnas de Armação de Pêra.

Mas sobretudo não me tirem este sol
e a caldeirada do Serol.

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Fado tinto

Por Odete Cordeiro
[Aposentada - Olhão]

Em meados dos anos 60, um grupo de 25 artistas, fadistas e respectivos acompanhantes à guitarra e à viola, veio actuar ao Clube Os Olhanenses. Do grupo fazia parte o meu pai, Joaquim Cordeiro, também fadista, a estreante Lenita Gentil, o Fernando Farinha, que foi padrinho de casamento da minha irmã mais nova, e o Luís Piçarra. Todos ainda muito jovens e parodiantes.




Joaquim Cordeiro - fadista olhanense

Durante a estadia em Olhão, a minha mãe, a conhecida Ti Laura Murta, ofereceu uma sardinhada à boa moda algarvia, à porta de casa, debaixo do pinheiro centenário que dava sombra e pinhões deliciosos.

Preparados os dois fogareiros, porque naquele tempo não havia barbecues, as sardinhas foram postas a assar. Saladinha, pão caseiro e um bom vinho tinto para acompanhar. Nada mais, nada menos do que cinco garrafões de cinco litros.

Comendo, bebendo e rindo, a comitiva às duas por três estava grogue. O Luis Piçarra, já com “grãozinho na asa”, decorou o pullover com tintol e como não havia outro para trocar, eu, muito prestável, lavei-o à mão no velho tanque da horta, junto à nora.

Mas ele não foi o único a dar sinal de tinto a mais, pois do outro lado da animada mesa, onde já se cantava o fado à desgarrada, eis senão quando a jovem Lenita Gentil, recém estreada nas lides do espectáculo, não se equilibrou na cadeira e tombou redonda no chão.

Foi levada em braços para a linda cama de ferro pintado de branco, que naquele tempo fazia parte da decoração das casas de campo. Nauseada e desnorteada, por culpa de um copito a mais da conta, a pobre deitou para fora tudo o que tinha entrado. A belíssima colcha de seda branca bordada, que fazia parte do enxoval das moças casadoiras de Olhão, como eu tinha sido, ficou marcada para sempre.

Foi um dia divertido apesar das peripécias. Tudo acabou em bem, tendo o espectáculo sido um sucesso, aclamado de pé, no velho Clube Os Olhanenses, na antiga Rua da Litografia.

Tempos que já não voltam.



Joaquim Cordeiro com Amália Rodrigues - 1965

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Queremos ir al Algarbe!

Por Assis Coelho
[Relações Públicas - Turismo do Algarve]

Todos os anos é assim: para além das férias de Verão, as pontes e os feriados são períodos férteis em visitantes espanhóis em todo o Sul de Portugal, concorrendo em número com os turistas portugueses e de outras nacionalidades.
Mesmo em pequenos grupos, nuestros hermanos facilmente se fazem ouvir – mais ainda em pequenos espaços, como um posto de turismo.
Lembrei-me de uma Páscoa passada a trabalhar, há década e meia, então no Turismo de Tavira. Era hora de almoço, os espanhóis davam luta e não desmobilizavam, estava eu a ficar sem fôlego...
Entravam em bando, não podia evitar de atender este jovem casal e mais aquela família bem-disposta, com avós, filhos e netos impecavelmente vestidos. Afinal, era Dia Santo!

Mal entravam, o pedido era certo: “Queremos ir al Algarbe!” Sim, estavam em Tavira mas todos queriam era ir ao Algarve… Enfim, revelada a boa nova, lá diziam ao que vinham: estava um tempo óptimo, era Abril e a praia exercia já um grande poder de atracção sobre os turistas, espanhóis e não só. Queriam praia!

Não admira que tenha passado o Domingo de Páscoa, a festa mais importante para os cristãos – mais ainda do que o Natal – a dar as boas-vindas ao Algarve e explicações sobre como chegar à praia, na Ilha de Tavira.

Um atrás do outro, atrás do outro, a todos a mesma lengalenga e o estômago que reclamava pelo cabrito prometido pela melhor cozinheira de todas – a minha mãe! Mas nesse ano, os sabores de Páscoa tiveram de esperar pelo jantar…


Telhados de Tavira

Histórias até Fevereiro

Já nos enviou uma história? Pense noutra.
Ainda não o fez? Faça-o.
Até 28 de Fevereiro continuaremos a publicar as vossas e as nossas estórias algarvias, divulgando o Algarve de cada um de nós, as suas lendas, o seu humor, as suas cores.

Participe já, mas prepare-se também para participar numa nova iniciativa que arranca em Março.

Mistério….

quarta-feira, 12 de janeiro de 2011

Ai que ricas uvas!

Por Odete Coelho
[Aposentada - Quarteira]

Há mais de 50 anos, um senhor abastado, meu vizinho nos arredores de Loulé, detentor de enormes propriedades, levava as moças da terra para o ajudar nas vindimas.
Também a mim coube tal importante tarefa…
Bem cedinho, pela madrugada, lá fomos nós até à Ribeira de Algibre apanhar as uvas, que depois iriam ser pisadas pelos pés bem lavados (?) dos homens da terra. Era assim que se fazia o vinho!
E lá andámos nós ao calor, petiscando discretamente um e outro bago de uvas que ajudava a saciar a gulodice das nossas papilas gustativas…
Ansiávamos por chegar ao final das vindimas e ser compensadas com a oferta de deliciosos cachos de uvas de bago miúdo, de uma doçura infinita…
Julgávamos mal…
Ao final do dia, o avarento proprietário sentou-nos à sua mesa na qual dispôs duas bandejas de uvas: uma delas (pequena) com cachos meio pisados e de má qualidade e outra (grande) lindíssima que nos saciava só de olhar… Sim, era mesmo só com o olhar!
O avarento proprietário antes de sair da sala cuspiu em cima da bandeja das lindas uvas dizendo: comam à vontade que eu já volto…



terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Boca do Rio

Por Moema Silva
[Jornalista - Lisboa]

Durante anos seguidos, no final do Verão, mantive o hábito de passar uma semana de férias sozinha no Algarve, com o meu cão. Ia sempre para uma hospedaria entre Lagos e Sagres, onde podíamos andar à vontade, nós dois. Um local familiar, em que os animais de estimação são acolhidos de boa vontade. Quarto particular com terraço e acesso directo ao jardim, ou seja, liberdade e segurança para os donos e para os bichos.

A Hospedaria Belo Horizonte, em Almádena, era a nossa base para explorarmos todas as praias da região. De preferência, sem vigilância. Quanto mais selvagens, melhor! Vestido solto com padrão colorido, sandálias havaianas nos pés, um saco grande com um livro, a garrafa de água, os óculos de sol… Tudo o mais simples e confortável possível na bagagem desses memoráveis passeios. Ao meu lado, no carro, o adorável cocker spaniel dourado portava-se como um miúdo a caminho do parque de diversões. Ele já conhecia o trajecto para a nossa “prainha” favorita. A Boca do Rio, situada num vale entre Budens e Salema, nunca era a mesma de um ano para o outro. As marés deixavam-na umas vezes maior, outras vezes mais pequena. Com mais ou menos pedras, conchas, algas. Cheguei a ver vacas a pastar nas margens do rio, que tanto pode desaguar em cheio no mar como virar uma plácida lagoa, com pequenos córregos a sulcar a areia. Cumpria o destino da erosão provocada pela natureza. Mas o meu cão pressentia-a pelo cheiro, quilómetros antes de lá chegarmos.

Quando estacionávamos, saltava, ansioso, porta fora, sem trela, correndo direito ao mar… Que delícia! Nada de veraneantes incomodados com os salpicos, nada de polícia marítima a fazer a ronda… Éramos nós e os turistas estrangeiros, com crianças a brincar nuas, misturadas com outros cães, de raças e tamanhos variados. De porte perfeito, pêlo cuidado e olhos meigos, o meu “menino” fazia sucesso. Muito ciumento, alinhava nos pulos e correrias com os companheiros de ocasião, mas não deixava que nenhum deles se aproximasse de mim. Nem mesmo o simpático pastor alemão negro que, ano após ano, íamos reencontrando com o dono por ali. Um hippie veterano, super bronzeado, que se instalava no local com uma caravana, gozando os longos dias de sol na maior das tranquilidades. Ao cair da tarde, era certo e sabido: ele assobiava a chamar o cão e iam os dois tomar um belo banho, nadando juntos mar adentro. Espectáculo! Nunca troquei com esse senhor mais do que alguns cumprimentos de circunstância, embora nos víssemos todos os anos. “It’s very hot today. Give him a lot of water”- recomendava, acariciando as longas orelhas do meu companheiro. Que, confesso, eu amava como a um filho. No ano em que o perdi, não houve Verão. Eu tinha o coração congelado pela saudade e pela dor.



Mas no ano seguinte, voltei à Boca do Rio com a minha nova “filhota”. Uma westie branca e atrevida. De temperamento independente, mal chegámos, desapareceu da minha vista, obrigando-me a gritar em eco o seu nome: “Vidaaaaaaaaaaaa!”.

Reapareceu, toda contente a saltitar pela areia, trazendo atrás de si o tal pastor alemão negro. E atrás dele, o dono. Ao reconhecer-me, pela primeira vez, o homem aproximou-se como se visse uma velha amiga. E, para meu espanto, abraçou-me, dizendo:
“I’m very sorry”.
Atrapalhada pela emoção, tentei explicar em inglês que o meu cão, tão lindo, tão querido, tinha morrido nos meus braços, num Inverno que custou a passar. Segurando-me na mão, o “gringo” apontou a minha cadelinha e disse apenas:
“She is so lovely! Lucky you!”.
Depois, afastou-se com o cão dele, despedindo-se:
“Welcome to our place”.

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Harmonia

Por Lídia Jorge
[Escritora - Boliqueime]

Em Boliqueime o mundo era perfeito. Os pombos voavam pelos telhados e tinham medo dos gatos. Os gatos dormiam pelos poiais e tinham medo do cão. As galinhas tinham medo dos perús com aquele leque. As mulas tinham medo do cavalo que as escoiceava. Essas relações de força eram muito importantes porque os grandes venciam os pequenos e tudo era claro.
Por vezes, porém, as regras eram outras. Assim, o ouriço era mais pequeno do que o cão mas defendia-se, espetando todas aquelas armas. Os gatos eram corpulentos mas fugiam quando em Junho aparecia a cobra. Até o porco redondo e sujo subia pelas paredes quando ela se lhe enrolava na pia. Mas essa era venenosa. Por isso o medo provinha não só do peso do grande mas também do pequeno e venenoso.
Aliás, também entre as pessoas a harmonia era absoluta. A bisavó, que não via, andava devagarinho pela casa e esperava o dia inteiro pela hora em que lhe dessem a pelar os legumes. O marido dela ainda via e mandava nela, fazendo-a calar. Ela obedecia e tinha medo dele. A mãe e as tias tinham medo do pai e dos tios. Todos eles andavam apressados pela casa, muito mais do que os avós, pois esses, a meio da tarde, ficavam pensativos. Assim sendo, era a bisavó que tinha medo de todos, inclusive do cão, da cobra e do peru, e até mesmo do gato quando o abraçávamos e espremíamos. Sentada, imóvel, ela tinha medo de nós mesmos.


Certo dia, porém, essa relação mudou, pois o pai ofereceu à mãe uma toalha de plástico. Esse ainda era um tecido desconhecido. Não tinha fio, não amarrotava e limpava-se com um pano, embora derretesse com o fogo. Foi estendida para que todos pudessem admirar o tecido novo. A toalha era branca e em cada canto tinha um cacho de uvas vermelhas e umas parras enormes cor de prata. Um bem tão particular deveria ser usufruído por todos. A toalha deveria ficar exposta num local privilegiado da casa. Ora no corredor havia uma mesa onde ela brilhava e fosforescia. As pontas da toalha quase rojavam o chão. O cão, vagueando pela casa, logo aí encontrou um abrigo. Fui atrás do cão e para meu espanto, aquele era o recinto há tanto procurado. O tampo da mesa constituía um tecto, e cada uma das abas da toalha era uma parede. O quarto de dormir das minhas bonecas, a partir daquele instante, tinha pois quatro paredes. Abri-lhe as camas, coloquei-lhes as mesas sob a mesa do corredor. Era pena que nenhuma das paredes tivesse janela. Só que dentro da caixa da costura havia uma tesoura e com ela se abria uma verdadeira janela numa das paredes. A janela ficou larga e o tecido retirado era a medida da toalha que tapava a mesa das bonecas posta sob a mesa. Alguém podia imaginar maior perfeição? Brincando debaixo da mesa, com um buraco na toalha, via-se as pessoas passarem como se fosse uma verdadeira janela.


Mas alguém, de repente, estacou em frente da pequena janela. A mãe começou aos gritos, o cão saiu ladrando como se alguém arrombasse a casa, quem estava em casa apareceu num instante com água e panos. Um dos tios não tinha mas era como se tivesse pegado na caçadeira. Aquele iria ser o meu último instante. Alguém me iria matar, eu não teria mais salvação. Também a bisavó avançava devagarinho perguntando que é, que é. E o que é, que é, era eu que havia feito uma horrível imperfeição. Não chorava a mãe, sentada na cadeira? Não a abraçava a tia? O meu castigo iria ser grande, tão grande como aquele que a cobra infligia ao rato. Por isso mesmo só a bisavó, que tinha medo de todos, me levava pela mão. O que iria ser de mim, protegida apenas pela mão da bisavó que não via? Ah! Mas ela ajeitou a minha cabeça no seu colo, protegeu-me dos puxões da minha tia, das invectivas da minha mãe. Ela não me largou enquanto não chegou a noite, e mesmo assim, ela levou-me consigo e deitou-me ao seu lado, e a força da sua protecção foi tão forte que eu percebi que ela era mais forte do que o pai, o avô que era seu filho, os tios todos juntos, a cobra, o cavalo, o cão e o peru. Próximo da sua cabeça que não via, o próprio dia desapareceu sem receio da noite e as suas mãos mostraram um poder desconhecido. Foi, pois, assim. Uma força fez estremecer a harmonia do mundo em Boliqueime, mas uma outra, feita de outra força, aparecia. Para sempre aparecia.

[Texto do desdobrável da exposição "O Dia dos Prodígios. Lídia Jorge. 30 anos de Escrita Publicada", patente no Convento de Santo António em Loulé, até 31 de Março 2011]

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

A lavadeira


Por Ilídia Sério
[Empresária - Restaurante Casa Algarvia, Faro]

Graças à Internet e principalmente ao Facebook, tenho reencontrado velhos amigos que não via (alguns) desde o tempo do Liceu Nacional de Faro e, para cimentar essas velhas amizades, organizamos de vez em quando um almoço ou jantar onde convivemos alegremente e recordamos velhas estórias do tempo em que, jovens, frequentávamos a mesma escola.
Alguns desses, agora bons e grandes amigos, nem sequer os conhecia nessa altura, mas o nosso elo, o Liceu Nacional de Faro, é tão forte e presente que é como se tivéssemos sido amigos de sempre e nunca nos tivéssemos desencontrado na vida.
Num desses divertidos almoços, reencontraram-se duas amigas que, para além do Liceu, tinham partilhado, na juventude, uma lavadeira. Era costume nesses velhos tempos, nas famílias com uma vida um pouco mais desafogada, ter uma lavadeira que ia a casa lavar a roupa da semana, o que fazia em várias casas, conforme os dias da semana.
E claro que se aproveitava para uns dedos de conversa.
Um dia, a lavadeira, em casa da Manuela, levou a novidade, contada em tom a pender para o trágico:
“Sabe, minha Senhora, o namorado da Milocas foi p’rá tropa, tadinho!”
“Sim? Então e foi para onde?” perguntou a senhora.
“Ê cá nã me lembro muito bem… mas a senhora sabe como se chamava o primeiro homem que houve?”
“Sim, foi o Adão.”
“Atão, e a mulher dele, como é que se chamava?”
“A mulher era a Eva.”
“É isso, minha senhora, ele foi p’ra Évara, tadinho!!!”
Lavadeiras - Algarve, anos 60

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Faro de Leste a Oeste

Por Luis Nadkarni
[Monitor de Desporto - Faro]

Na minha perspectiva as aventuras não são grandes nem pequenas, são aventuras.
Este episódio que se passou comigo no ano de 1964 foi, para mim, uma verdadeira aventura.A minha família tinha-se mudado recentemente para a Avenida 5 de Outubro, deixando a casa onde habitávamos anteriormente, que era propriedade dos meus avós e onde estes continuaram a residir. Essa casa ainda hoje existe em Faro, fazendo gaveto entre a Rua Brito Cabreira e a Rua do Alportel.
Nessa altura os meus pais ofereceram-me um pequeno triciclo que me proporcionou momentos de grande satisfação e possibilitou a descoberta de novas emoções. Certo dia, resolvi ir visitar a minha avó que vivia no outro lado da cidade e, acompanhado pelo meu amigo José Guerreiro da Palma – o Zeca, iniciei esta pequena grande odisseia utilizando como meio de transporte, é claro, o meu triciclo de estimação.

Desci a Avenida 5 de Outubro e junto ao Palácio do Lã virei à direita, entrando na Rua Dr. Cândido Guerreiro. Recordo-me de ter passado por uma oficina de cromagem, ultrapassando posteriormente o perigoso cruzamento da Estrada de Olhão e lá fui pedalando no meu triciclo. Quando me sentia cansado tinha a colaboração do Zeca, miúdo da minha idade, que me acompanhava a pé e que de vez em vez me empurrava. Assim passei o Mercado Municipal, a Serração e, junto à Sapataria Limpinho, virei à esquerda, tendo, um pouco mais à frente, entrado na Rua Brito Cabreira. Até à casa dos meus avós ainda tive de pedalar bastante. Quando lá cheguei foi grande o espanto da minha avó que provavelmente se perguntava sobre como tinham aparecido ali aqueles dois "pára-quedistas".
Recordo esta aventura com satisfação, convicto de que a mesma foi muito possivelmente o que despertou em mim a curiosidade e vontade de experimentar novas situações, o que felizmente tenho vindo a concretizar ao longo da minha vida.

Palácio do Lã - Faro (anos 60)

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Tradições dos Reis


Por Turismo do Algarve

Em véspera do Dia de Reis, partilhamos aqui algumas tradições que muitos poderão desconhecer. Para isso socorremo-nos da obra “Natal no Algarve - raízes medievais”, da autoria do Padre José da Cunha Duarte.

“O Dia de Reis (6 de Janeiro) era dia santificado. Ainda hoje alguns países celebram neste dia a festa mais importante do Natal.
Muitas famílias algarvias, da zona marítima e urbana, davam nesta noite as prendas de Natal aos filhos. Como não havia o costume de oferecer brinquedos, as crianças recebiam uma laranja, bolotas veladas, uma libra de chocolate ou castanhas.
A ceia era semelhante à do Natal. Entre as iguarias natalícias encontram-se trutas ou empanadilhas, filhós, bolinhóis, fatias douradas com açúcar e canela.
(…)
No Barrocal (…), era costume deitar três bagos de romã ao fogo para que este se mantivesse aceso durante o ano; três bagos de romã na bolsa do dinheiro para que ele nunca faltasse; três bagos de romã dentro da bolsa do pão ou no saco da farinha, para que nunca faltasse o pão ao longo do ano.”

Na tradição do Reis, esta é a noite dos cantares das Janeiras, com grupos que iam de porta em porta desejando um bom ano. Se já poucos o fazem desta forma, há porém um renovar destas tradições com os encontros de Charolas, em espectáculos que se realizam um pouco por toda a região algarvia nestes primeiros dias do ano.


terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Ano Novo, Novas Estórias


Vamos retomar aqui a publicação de histórias algarvias, continuando o trabalho de partilha de emoções com todos os que vivem e amam o Algarve.
Vamos tentar despertar sentimentos de afinidade com o principal destino turístico de Portugal.
Vamos valorizar a nossa região.
Continuamos a contar com a vossa participação, antigos e novos leitores, que aí desse lado têm com certeza estórias para partilhar, sejam vossas, sejam dos vossos primos, sejam dos vossos tios, sejam dos vossos vizinhos...

Não importa. Só importa que sejam estórias do nosso Algarve.

Votos de um Bom Ano 2011.