terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Boca do Rio

Por Moema Silva
[Jornalista - Lisboa]

Durante anos seguidos, no final do Verão, mantive o hábito de passar uma semana de férias sozinha no Algarve, com o meu cão. Ia sempre para uma hospedaria entre Lagos e Sagres, onde podíamos andar à vontade, nós dois. Um local familiar, em que os animais de estimação são acolhidos de boa vontade. Quarto particular com terraço e acesso directo ao jardim, ou seja, liberdade e segurança para os donos e para os bichos.

A Hospedaria Belo Horizonte, em Almádena, era a nossa base para explorarmos todas as praias da região. De preferência, sem vigilância. Quanto mais selvagens, melhor! Vestido solto com padrão colorido, sandálias havaianas nos pés, um saco grande com um livro, a garrafa de água, os óculos de sol… Tudo o mais simples e confortável possível na bagagem desses memoráveis passeios. Ao meu lado, no carro, o adorável cocker spaniel dourado portava-se como um miúdo a caminho do parque de diversões. Ele já conhecia o trajecto para a nossa “prainha” favorita. A Boca do Rio, situada num vale entre Budens e Salema, nunca era a mesma de um ano para o outro. As marés deixavam-na umas vezes maior, outras vezes mais pequena. Com mais ou menos pedras, conchas, algas. Cheguei a ver vacas a pastar nas margens do rio, que tanto pode desaguar em cheio no mar como virar uma plácida lagoa, com pequenos córregos a sulcar a areia. Cumpria o destino da erosão provocada pela natureza. Mas o meu cão pressentia-a pelo cheiro, quilómetros antes de lá chegarmos.

Quando estacionávamos, saltava, ansioso, porta fora, sem trela, correndo direito ao mar… Que delícia! Nada de veraneantes incomodados com os salpicos, nada de polícia marítima a fazer a ronda… Éramos nós e os turistas estrangeiros, com crianças a brincar nuas, misturadas com outros cães, de raças e tamanhos variados. De porte perfeito, pêlo cuidado e olhos meigos, o meu “menino” fazia sucesso. Muito ciumento, alinhava nos pulos e correrias com os companheiros de ocasião, mas não deixava que nenhum deles se aproximasse de mim. Nem mesmo o simpático pastor alemão negro que, ano após ano, íamos reencontrando com o dono por ali. Um hippie veterano, super bronzeado, que se instalava no local com uma caravana, gozando os longos dias de sol na maior das tranquilidades. Ao cair da tarde, era certo e sabido: ele assobiava a chamar o cão e iam os dois tomar um belo banho, nadando juntos mar adentro. Espectáculo! Nunca troquei com esse senhor mais do que alguns cumprimentos de circunstância, embora nos víssemos todos os anos. “It’s very hot today. Give him a lot of water”- recomendava, acariciando as longas orelhas do meu companheiro. Que, confesso, eu amava como a um filho. No ano em que o perdi, não houve Verão. Eu tinha o coração congelado pela saudade e pela dor.



Mas no ano seguinte, voltei à Boca do Rio com a minha nova “filhota”. Uma westie branca e atrevida. De temperamento independente, mal chegámos, desapareceu da minha vista, obrigando-me a gritar em eco o seu nome: “Vidaaaaaaaaaaaa!”.

Reapareceu, toda contente a saltitar pela areia, trazendo atrás de si o tal pastor alemão negro. E atrás dele, o dono. Ao reconhecer-me, pela primeira vez, o homem aproximou-se como se visse uma velha amiga. E, para meu espanto, abraçou-me, dizendo:
“I’m very sorry”.
Atrapalhada pela emoção, tentei explicar em inglês que o meu cão, tão lindo, tão querido, tinha morrido nos meus braços, num Inverno que custou a passar. Segurando-me na mão, o “gringo” apontou a minha cadelinha e disse apenas:
“She is so lovely! Lucky you!”.
Depois, afastou-se com o cão dele, despedindo-se:
“Welcome to our place”.

1 comentário:

  1. MARIA JOSÉ MANCILHA20/01/13, 18:56

    ESTIVE HÁ UNS ANOS NUM QUARTO CONTIGU-O AO SEU, NA HOSPEDARIA BELO HORIZONTE PARA ONDE VOU Á MAIS DE 12 ANOS, LEMBRO-ME DE A D.EMILIA ME TER DITO QUE ERA JORNALISTA,TAMBÉM ME LEMBRO DO SEU CÃO EU TAMBÉM TINHA O MEU COKER SPANIEL...TENHO PENA QUE TENHA FICADO SEM O SEU CÃO,ESPERO QUE SEJA IGUALMENTE FELIZ COM ESTE..REALMENTE É ESPETACULAR A MANEIRA COMO SOMOS RECEBIDOS E ACARINHADOS NESTA HOSPEDARIA,PENSO QUE CADA CLIENTE SE TORNA UMA EXTENÇÃO DA FAMILIA,E DEPOIS A QUANTIDADE DE PRAIAS ALGUMAS VIRGENS QUE NINGUÉM CONHECE,COMO A PRAIA DA FIGUEIRA ONDE PODEMOS FAZER NUDISMO,ONDE SOMOS SÓ NÓS ..O MAR...AREIA E,O CÉU.TODA ESTA PRIVACIDADE SE DÁ PORQUE NÃO É POSSIVEL LEVAR OS CARROS ATÉ LÁ,AINDA É MAIS DE 1 KM A PÉ POR CAMINHO DE CABRAS...MAS É TÃO SAUDÁVEL.E DEPOIS CHEGAMOS Á RESIDENCIAL E TEMOS SEMPRE A D.EMILIA AMIGA E FAMILIAR,A PERGUNTAR COMO FOI O NOSSO DIA.ESPERO VOLTAR LÁ ESTE ANO ,NÃO TROCO AQUELE ACONCHEGO,POR NENHUM 5 ESTRELAS.

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