segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Estátua a uma mulher conserveira

Por Custódio Arménio
[Aposentado - Olhão]

Passo um milhão de vezes pela doca antiga onde há anos a prata viva, em forma de peixe, foi manipulada, descarregada e estivada por gerações de olhanenses, que fizeram do mar a sua vida e do molhe a sua casa.
Devagar, andando, misturo o som surdo do meus passos com o ténue murmúrio da Ria Formosa e, andando, passo pelo porto onde estão os barcos da carreira, quando o sol vai caindo pesaroso no anil do horizonte. Ao largo já se vê a luz do farol da Ilha. Sigo andando, sentindo o cheiro da maré, pensando no dia que já passou, no bulício provocado pela chegada da pescaria dos poucos barcos ainda resistentes neste lugar de pescadores que vivem da sua salgada mercadoria…



Fecho os olhos e imagino toda a azáfama entre caixas de peixe, gritos e alguns eternos protestos pelo preço do pescado “tive tode o dia no mar pá agora ganhar treseuro por caixa. Uns trabalham pa que os ôtres encham o cu”.
Deixo a pescaria e a sua memorável cantilena e sigo pensando que estes homens mereciam um monumento à sua grandeza, tantas vezes ignorada. Também as mulheres deste povo do mar mereciam uma estátua. Uma estátua de uma mulher magra, de mãos calejadas, sentada num banquinho, com sardinhas entre as suas mãos. Seria um símbolo de grandes obreiras.
A minha mente voa até um passado longínquo feito de grande azáfama, de um cais onde entravam e saíam barcos atrás de barcos e as sirenes das fábricas enchiam o ar com o seu apito. Imagino aqueles escravos do mar que eram os pobres marinheiros. E as filas de mulheres entrando nas fábricas. Tudo bulia, tudo era movimento de caixas, de montanhas de peixe, de filas de banquinhos povoados de mulheres, fêmeas pobres cuja única forma de levar um bocado de pão aos seus filhos era trabalhar, horas a fio, nas fábricas de conserva.
Fábricas que eram templos dos senhores que mandavam na pesca, que eram donos dos barcos, das redes, e algumas vezes, senhores do triste destino daquelas pobres mulheres, que à custa de suor e dores nas costas iam enchendo latas de mar.
Senhores que em nada se importavam com seguros ou benefícios sociais que nunca tiveram a bondade de assegurar a nenhum empregado. Muito menos a uma mulher… “era só o que faltava, dar direitos a essa cambada, que nem sabe ler”.
Senhores que à custa de costas doídas, quase quebradas, iam fazendo fortuna, comprando mais e mais casas na vila e na serra, pelos bons ares, e em Lisboa como gente da sociedade. Senhores que compravam propriedades para caçar, fazendo disso desporto, como os nobres.
Penso pois que essa gente humilde e verdadeiramente nobre merecia uma estátua, um monumento. Quantos homens não tiveram de se rebaixar para alimentar a avareza daqueles “senhores feudais”? Quantas casas ficaram sem filhos e quantas mulheres ficaram viúvas, para que os flamantes apelidos dessa classe duvidosa seguissem passando de geração em geração?
Uma escultura seria uma homenagem em forma de monumento, um pedido de perdão pelos pais que deixaram tantos meninos órfãos e sem a mínima ajuda dos armadores desses barcos que os levaram para o fundo do mar sem fim.
Deveria edificar-se uma estátua de uma mulher, sentada num banquinho, voltada de costas para as fábricas, com os olhos postos no horizonte a ver o esplendor do sol mergulhar nas águas da Ria Formosa, por onde correram sangue e lágrimas de tantas e tantas mulheres, que foram por ali secando a saúde, em busca de pão.

Olhão - vista aérea

1 comentário:

  1. A estátua da mulher conserveira já foi proposta à Câmara Municipal de Olhão no passado.
    Mas hoje mais do que nunca faz sentido. A rotunda junto à entrada do porto de Olhão é o local ideal. Mas mais do que a mulher de um pescador esta mulher conserveira é o simbolo das milhares de mulheres que ao longo de décadas, turno após turno ajudaram e ainda ajudam a criar uma das iguarias mais características da nossa terra, as conservas de peixe.
    É um monumento mais que merecido, a homenagem que falta fazer.

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