sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Fado tinto

Por Odete Cordeiro
[Aposentada - Olhão]

Em meados dos anos 60, um grupo de 25 artistas, fadistas e respectivos acompanhantes à guitarra e à viola, veio actuar ao Clube Os Olhanenses. Do grupo fazia parte o meu pai, Joaquim Cordeiro, também fadista, a estreante Lenita Gentil, o Fernando Farinha, que foi padrinho de casamento da minha irmã mais nova, e o Luís Piçarra. Todos ainda muito jovens e parodiantes.




Joaquim Cordeiro - fadista olhanense

Durante a estadia em Olhão, a minha mãe, a conhecida Ti Laura Murta, ofereceu uma sardinhada à boa moda algarvia, à porta de casa, debaixo do pinheiro centenário que dava sombra e pinhões deliciosos.

Preparados os dois fogareiros, porque naquele tempo não havia barbecues, as sardinhas foram postas a assar. Saladinha, pão caseiro e um bom vinho tinto para acompanhar. Nada mais, nada menos do que cinco garrafões de cinco litros.

Comendo, bebendo e rindo, a comitiva às duas por três estava grogue. O Luis Piçarra, já com “grãozinho na asa”, decorou o pullover com tintol e como não havia outro para trocar, eu, muito prestável, lavei-o à mão no velho tanque da horta, junto à nora.

Mas ele não foi o único a dar sinal de tinto a mais, pois do outro lado da animada mesa, onde já se cantava o fado à desgarrada, eis senão quando a jovem Lenita Gentil, recém estreada nas lides do espectáculo, não se equilibrou na cadeira e tombou redonda no chão.

Foi levada em braços para a linda cama de ferro pintado de branco, que naquele tempo fazia parte da decoração das casas de campo. Nauseada e desnorteada, por culpa de um copito a mais da conta, a pobre deitou para fora tudo o que tinha entrado. A belíssima colcha de seda branca bordada, que fazia parte do enxoval das moças casadoiras de Olhão, como eu tinha sido, ficou marcada para sempre.

Foi um dia divertido apesar das peripécias. Tudo acabou em bem, tendo o espectáculo sido um sucesso, aclamado de pé, no velho Clube Os Olhanenses, na antiga Rua da Litografia.

Tempos que já não voltam.



Joaquim Cordeiro com Amália Rodrigues - 1965

1 comentário:

  1. Que bonita historia,agora ja nao a nada disto,neste pobre pais perdeu-se tudo.

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