segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Harmonia

Por Lídia Jorge
[Escritora - Boliqueime]

Em Boliqueime o mundo era perfeito. Os pombos voavam pelos telhados e tinham medo dos gatos. Os gatos dormiam pelos poiais e tinham medo do cão. As galinhas tinham medo dos perús com aquele leque. As mulas tinham medo do cavalo que as escoiceava. Essas relações de força eram muito importantes porque os grandes venciam os pequenos e tudo era claro.
Por vezes, porém, as regras eram outras. Assim, o ouriço era mais pequeno do que o cão mas defendia-se, espetando todas aquelas armas. Os gatos eram corpulentos mas fugiam quando em Junho aparecia a cobra. Até o porco redondo e sujo subia pelas paredes quando ela se lhe enrolava na pia. Mas essa era venenosa. Por isso o medo provinha não só do peso do grande mas também do pequeno e venenoso.
Aliás, também entre as pessoas a harmonia era absoluta. A bisavó, que não via, andava devagarinho pela casa e esperava o dia inteiro pela hora em que lhe dessem a pelar os legumes. O marido dela ainda via e mandava nela, fazendo-a calar. Ela obedecia e tinha medo dele. A mãe e as tias tinham medo do pai e dos tios. Todos eles andavam apressados pela casa, muito mais do que os avós, pois esses, a meio da tarde, ficavam pensativos. Assim sendo, era a bisavó que tinha medo de todos, inclusive do cão, da cobra e do peru, e até mesmo do gato quando o abraçávamos e espremíamos. Sentada, imóvel, ela tinha medo de nós mesmos.


Certo dia, porém, essa relação mudou, pois o pai ofereceu à mãe uma toalha de plástico. Esse ainda era um tecido desconhecido. Não tinha fio, não amarrotava e limpava-se com um pano, embora derretesse com o fogo. Foi estendida para que todos pudessem admirar o tecido novo. A toalha era branca e em cada canto tinha um cacho de uvas vermelhas e umas parras enormes cor de prata. Um bem tão particular deveria ser usufruído por todos. A toalha deveria ficar exposta num local privilegiado da casa. Ora no corredor havia uma mesa onde ela brilhava e fosforescia. As pontas da toalha quase rojavam o chão. O cão, vagueando pela casa, logo aí encontrou um abrigo. Fui atrás do cão e para meu espanto, aquele era o recinto há tanto procurado. O tampo da mesa constituía um tecto, e cada uma das abas da toalha era uma parede. O quarto de dormir das minhas bonecas, a partir daquele instante, tinha pois quatro paredes. Abri-lhe as camas, coloquei-lhes as mesas sob a mesa do corredor. Era pena que nenhuma das paredes tivesse janela. Só que dentro da caixa da costura havia uma tesoura e com ela se abria uma verdadeira janela numa das paredes. A janela ficou larga e o tecido retirado era a medida da toalha que tapava a mesa das bonecas posta sob a mesa. Alguém podia imaginar maior perfeição? Brincando debaixo da mesa, com um buraco na toalha, via-se as pessoas passarem como se fosse uma verdadeira janela.


Mas alguém, de repente, estacou em frente da pequena janela. A mãe começou aos gritos, o cão saiu ladrando como se alguém arrombasse a casa, quem estava em casa apareceu num instante com água e panos. Um dos tios não tinha mas era como se tivesse pegado na caçadeira. Aquele iria ser o meu último instante. Alguém me iria matar, eu não teria mais salvação. Também a bisavó avançava devagarinho perguntando que é, que é. E o que é, que é, era eu que havia feito uma horrível imperfeição. Não chorava a mãe, sentada na cadeira? Não a abraçava a tia? O meu castigo iria ser grande, tão grande como aquele que a cobra infligia ao rato. Por isso mesmo só a bisavó, que tinha medo de todos, me levava pela mão. O que iria ser de mim, protegida apenas pela mão da bisavó que não via? Ah! Mas ela ajeitou a minha cabeça no seu colo, protegeu-me dos puxões da minha tia, das invectivas da minha mãe. Ela não me largou enquanto não chegou a noite, e mesmo assim, ela levou-me consigo e deitou-me ao seu lado, e a força da sua protecção foi tão forte que eu percebi que ela era mais forte do que o pai, o avô que era seu filho, os tios todos juntos, a cobra, o cavalo, o cão e o peru. Próximo da sua cabeça que não via, o próprio dia desapareceu sem receio da noite e as suas mãos mostraram um poder desconhecido. Foi, pois, assim. Uma força fez estremecer a harmonia do mundo em Boliqueime, mas uma outra, feita de outra força, aparecia. Para sempre aparecia.

[Texto do desdobrável da exposição "O Dia dos Prodígios. Lídia Jorge. 30 anos de Escrita Publicada", patente no Convento de Santo António em Loulé, até 31 de Março 2011]

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