sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Lição de mariscar

Por João Amâncio
[spdh Tap Groundforce - Faro e proprietário Alambres Bar - Ilha do Farol]

Existia na ilha da Culatra um enorme barracão que outrora fora a casa do I.S.N. -Instituto de Socorros a Náufragos ou, simplesmente, Salva-Vidas e que foi aproveitado para escola primária. Foi aí que muitos homens e mulheres das ilhas da Ria Formosa aprenderam a ler.

Nós, os que vínhamos do Farol, levantávamo-nos bem cedo e íamos a pé até aos Hangares, onde nos juntávamos a outras crianças e seguíamos para a escola. Pelo caminho cabia aos mais velhos cuidar dos mais novos. Quando a maré estava vazia, um deles costumava ir apanhando amêijoas, que depois entregava numa venda na Culatra. Em troca, o dono dava-lhe um ou dois “pirolitos” (garrafas de refrigerante com um berlinde). Eram repartidos em golos por todos nós.
Mas como aquilo só dava um golito a cada um, eu resolvi também aprender a arte de apanhar as tais amêijoas e assim ter direito ao meu “pirolito”. Um inteiro, só para mim. Dito e feito, pedi ajuda ao meu irmão mais velho, que com muita paciência, lá me foi ensinando a perceber os sinais do marisco sob a areia.

Passados alguns dias, levei para a Culatra um punhado de amêijoas, que pus com grande vaidade em cima do velho balcão de madeira. Esperei ansioso pelo prémio… Quando o homem da venda mo deu, nem sei bem explicar o que senti. Corri para a rua e com as duas mãos bebi, bebi, sofregamente, quase engolindo a garrafa!
Estava eu a banquetear-me com tão saboroso troféu quando um colega de minha idade se aproximou e me pediu um golo. Olhei para ele e concluí que ele também podia ir apanhar amêijoas para ganhar o seu “pirolito”. Como neguei, o rapaz jurou ali mesmo que iria contar à minha mãe.

No final do dia, já em casa, ao ajudar-me a tirar o bibe, a minha mãe reparou que eu tinha os dois bolsos sujos de terra. Zangada, questionou -me. Disse lhe a verdade. Levei uma terrível reprimenda e uns puxões de orelha.
Deixei de mariscar, mas a dor de só ter direito a um golinho do tão precioso néctar arrasava-me completamente. Até que se fez luz na minha cabeça: arranjei uma latinha que cabia no bolso, punha lá as amêijoas e já não me sujava. Assim resolvi o problema sem a minha mãe saber.
No dia seguinte, quando íamos para a escola e a maré estava vazia tirei a lata da mala coloquei no bolso e comecei a minha faina. Cheguei à venda, troquei as amêijoas pelo pirolito. Estava a saboreá-lo, todo contente, quando chega outra vez o chato do meu colega a pedir um golito. Olhei para ele e para a garrafa e disse: não! Novamente ele ameaçou fazer queixa à minha mãe. Mas como o tempo foi passando e eu não levava o bibe sujo para casa, nada acontecia. Pensei que o assunto estava esquecido.

Certa manhã, o meu pai foi ter comigo à cama, dizendo que ia mariscar e que queria que o acompanhasse. Nesse dia, quando chegámos ao local certo (mar santo), disse-me que sabia de toda a história e que me queria ver a apanhar amêijoas tal como eu fazia a caminho da escola. Comecei logo a mostrar do que era capaz e ele levou a manhã a ensinar-me todos os truques para melhor capturar o precioso marisco. Deu-me uma verdadeira lição. Mais tarde, já no barco, pediu-me que não mais apanhasse amêijoas no trajecto da escola, acrescentando que o podia fazer sempre fora desse período.

Ainda hoje, passados tantos anos, eu não resisto. Sempre que estou na praia, espalho a vista pela areia, pronto a olhar nos olhos das amêijoas. E a apanhá-las. Um gosto que ficou da infância, com sabor a “pirolito”.
Onde queres que estejas, obrigado querido pai.


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