quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

A Preguiça

Por Maria de Sousa Martins
[Aposentada - Benfarras]

Ora, queres tu que eu te conte histórias de quando eu era moça nova… Eu tenho lá histórias para contar. A minha vida foi sempre a trabalhar. Trabalho. Só trabalho. Bem sabes que o meu pai – o teu avô – era rendeiro nas terras do Morgado de Quarteira. Tínhamos à nossa conta a Preguiça. Assim se chamava o bocado de terra que semeávamos.

[E o que é que lá semeavam, tia?]

Semeávamos trigo, cevada, milho, batata doce…íamos daqui de manhã cedinho, levávamos as vacas que por lá ficavam a pastar e só voltávamos à noite. Eram dias inteiros a regar. Às vezes até noite dentro. Mas, olha, tínhamos pão para comer o ano inteiro. Lembro-me de um ano em que o teu avô semeou um alqueire de trigo e acabou por arranjar 16 alqueires. Naquele tempo, nos anos 40, quando havia racionamento, nunca chegámos a ir para a bicha do pão que se vendia na casa da Ti Teresa Ramexida.

Mas trabalhi muito. Isso é que trabalhi. E não me hei-de esquecer de uma noite em que fiqui lá sozinha, com as vacas. Já era tarde e tínhamos que voltar no dia seguinte. A tua mãe e as outras manas regressaram a casa, mas para fazer o caminho com as vacas era mais demorado. Fiqui eu. Era por ocasião da feira de Quarteira, fins de Outubro. Olha, choveu tanto, mas tanto que repassou todo o abrigo que eu tinha debaixo do carro de mula. Molhou tudo, subiu a água na vala grande. Ai que dilúvio, menina.

[Oh tia, mas a que zona de Vilamoura é que corresponde hoje essa antiga terra da Preguiça?]

Shiiii, já nem deve dar para se reconhecer. Acho que já não existe lá a nora grande, mas parece que ainda lá está a carreira de oliveiras junto às quais passávamos à chegada à Preguiça. Diz a tua prima que é um pouco antes de chegar ao Posto da GNR. Eu cá não sei. Nunca mais para lá fui. Dizem que hoje é só casas para turistas. Às vezes penso por que raio é que se havia de chamar Preguiça a um sítio em que trabalhávamos tanto…Se calhar já lhe adivinhávamos o futuro, que hoje sim, só para lá se vai ao descanso.


Vilamoura

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