sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Voltar às origens

Por Ana Serafim
[Jornalista - Lisboa]

Entre um e outro solavanco, o jipe debate-se com a estrada de terra batida. Baixo Guadiana. Para trás, ficaram Vila Real de Santo António e Castro Marim. Pela frente, em curva e contra-curva, a serra do sotavento algarvio.
Oliveiras de azeitona verde e pinheiros começam por compor o cenário. À sua passagem o veículo põe um pó fininho e avermelhado a dançar no ar. Não se anda muito até surgir a primeira paragem no safari.

Estendendo o braço pela janela, o condutor e guia, o Sr. Merca, apanha um ramo de esteva. É típica do Algarve e muito usada pelas famílias serranas para atear o lume dos fornos de pão. Na palma da mão, exibe as minúsculas sementes, castanhas escuras que podem ser levadas pelo vento e arruinar plantações mais sensíveis.

Mais à frente, apresenta o cacto Agave, outra das plantas características da serra. «Serve para fazer tequila no México. Aqui, usa-se em corda e sisal das redes de pesca», conta.
E ainda uma amendoeira de amêndoa dura, um dos três tipos existentes na região algarvia. «A amendoeira é a neve do Algarve», brinca, explicando que as suas flores só ficam na árvore cerca de 12 dias. Quando caem, pintam o chão de branco.
Agora, o tom é outro. Na paisagem, predomina o castanho, o verde-escuro, a vegetação rasteira. Sente-se a secura da terra ainda que, ao longe, se veja o Guadiana. «Quando está clarinho, pode avistar-se até Huelva, em Espanha», garante o guia, enquanto serpenteia por caminhos já trilhados pelos árabes.
Nova paragem. Há que conhecer o figo de pita, um cacto verde-claro que pode ter várias utilizações. Serve, por exemplo, para reciclar água porque absorve a sujidade. «Diz-se, na brincadeira, que era usado pelas senhoras como batôn. Às vezes, quando estou em passeios com turistas, tiro a tinta e pinto os lábios. Ficam muito vermelhos», confidencia o Sr. Merca.


Seguimos, até chegar a Cerro do Enho. Mais uma pausa. Esta, imposta. Um rebanho de cabras algarvias, salpicadas de branco e castanho, ocupou a estrada. Têm chifres impressionantes, pelo que o melhor é mesmo ceder-lhes passagem. O olhar espraia-se pelo lugarejo, com as suas casas típicas, brancas, com uma barra azul a dar-lhes cor, a cozinha separada das divisões principais, o forno de pão, os currais, as cisternas que substituem a água canalizada. Por cima de uma ainda há vestígios dos figos que, no pino do Verão, ali caramelizaram ao sol.
Além do pastor, ainda não se viu vivalma. «Aqui, só há um autocarro por semana, se houver. No Verão, nem deve haver nenhum. No Inverno vem buscar as crianças para a escola», descreve o condutor, algarvio de gema. E explica que são as carrinhas que andam pela serra vendendo roupa ou alimentos, que abastecem os habitantes.
Ainda que na época estival a população da região aumente, por causa das férias, na maioria dos casos, as famílias serranas e os mais jovens, partem para trabalhar nas cidades e só voltam anos depois, para reconstruir as casas herdadas. Ou quando a reforma lhes reserva tempo para o descanso.
Com o sol a bater no pescoço – por aqui as temperaturas podem chegar aos 50ºC no Verão, devido à proximidade do norte de África -, o safari serrano continua. Ora em alcatrão, ora em terra, o jipe guina para a direita, numa descida acentuada, que faz contrair a barriga. Sacode os passageiros. «Que tal a massagem?», galhofa o Sr. Merca.
De cima, por entre montes e vales, começa a vislumbrar a cama de água da Barragem de Beliche. Romanzeiras, pereiras, amoras silvestres, laranjeiras de laranja amarga acompanham o caminho. Depois de atravessar um pequeno ribeiro, paragem para esticar as pernas. O sr. Merca dá a cheirar raminhos de poejo e menta.

De regresso à estrada, chegamos a Murteira de Baixo, onde a grande estrela é o Sr. António. Faz cestos decorativos. Mantém a tradição da cestaria, que esmoreceu com a utilização do plástico. Dona Idalina, a esposa, sugere a prova de mel de alecrim. E mostra as suas rendas de bilros. «É como escrever à máquina», diz sobre a sua arte. «Gosto muito de estar aqui porque foi aqui que nasci. Logo, o meu filho vem cá jantar. Passa cá o dia de amanhã e depois vai embora», continua. Reformada, intercala estadias na serra com temporadas em Faro, para cuidar do filho mais novo.
Cumpridas as despedidas, percorremos mais um quilómetro até chegar a Murteira de Cima. Aqui, há um forno e um poço comunitários. O telefone também é partilhado: está numa pequena casa, cuja chave está sempre na porta. Atende quem estiver mais perto.
Já calcorreámos cerca de 20 quilómetros. Agora, o alto da serra, de onde se vê Monte Gordo, Vila Real, Ayamonte e a barragem de Odeleite.
«Em Odeleite, os mortos vivem por cima dos vivos. Deve ser o único lugar em que isso acontece», graceja o Sr. Merca, ao chegar ao amontoado de casinhas instalado no fundo de cerro. O cemitério está no ponto mais alto. A igreja, no mais baixo.
«Mas é das zonas mais bonitas do Algarve», assegura, porém, enquanto justifica a opinião. Desculpa-se-lhe a franqueza quando revela que esta é a menina dos seus olhos, a sua terra. É aqui que a sua família ainda vive e é aqui que há-de vir passar a velhice. «Um dia também eu hei-de voltar», promete.


[Adaptação da autora, de texto publicado na Revista Essencial, do Semanário Sol]

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