segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Algarve

Por Turismo do Algarve

[Para concluir a série de histórias que temos vindo a publicar na rubrica "Das Imagens às Palavras", pedimos a um grupo de colegas do Turismo do Algarve para se associarem num jogo literário conhecido como "cadáver esquisito" - cadavre-exquis, na expressão original - que foi inventado por surrealistas franceses em 1925. Trata-se de um texto colectivo, em que cada autor intervém da maneira que deseja, porém dobrando o papel para que os demais colaboradores não tenham conhecimento do que foi escrito. O tema foi obviamente o Algarve e os participantes esperam que os seguidores deste blogue se divirtam tanto a lê-lo como os autores se divertiram a escrevê-lo.]


Quando o Algarve faz parte da nossa vida jamais conseguiremos afastarmo-nos dele. Podemos sair para outras paragens, residir noutros locais, mas voltaremos sempre a ele. É por isso que adoro a ideia! Sempre que posso, volto a repetir e não me canso… É um vício, daqueles que só aqui nos apanham a jeito. Preferia apanhá-las eu, gordas e sumarentas nos galhos, mas com destino mais feliz na minha barriguinha.
Oh, belas laranjas…
Adoro, adoro! Lindas e suculentas, não fossem elas algarvias!
Sem dúvida que as algarvias sempre foram consideradas das mulheres mais bonitas de Portugal. É o sangue dos seus antepassados que se reflecte na beleza destas mulheres. É que tendo o Algarve sido sempre um destino de passagem de diferentes povos que se misturaram com os anteriores, o resultado foi o de uma mulher inigualável em Portugal.
Também, recentemente e devido a novos imigrantes que aqui se fixaram, as algarvias estão de novo a mudar de imagem.
No entanto, mantêm-se algarvias e marafadas. Ai de quem se atreva a contrariá-las. Em algumas zonas, ainda se arrisca a ser alvo das suas divertidas e arrasadoras pragas. Não que eu seja de acreditar nelas, mas que as há… experimentem pisar o risco e aguentem-se à bronca. E não digam que não avisei.
Tantos avisos, só de quem tem sisos! Prefiro a corrida libertina na praia quando já ninguém a pisa, torrar a pele até ao dourado do amendoim, abrir as narinas para os medronheiros e amendoeiras, ser um pouco mais eu no azul do Algarve.
Azul do céu, azul do mar que quando se tocam no horizonte são um só, como um casal de namorados percorrendo a região, descobrem os seus segredos.
Os segredos do Algarve são sem dúvida para descobrir. A Barlavento ou a Sotavento, vá à aventura e descubra esta região rica em belezas naturais.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Sabores do Algarve

Já começámos a abastecer a nossa despensa, já fomos pedir uns conselhos a quem sabe e já começámos a pôr a mesa para receber os Sabores do Algarve a partir do próximo dia 1 de Março.

Deixamos aqui o convite para que se juntem a nós na divulgação da gastronomia e dos vinhos algarvios .

Para isso só têm que começar a enviar-nos as vossas receitas, os vossos conselhos culinários, as vossas histórias de comida algarvia, as vossas dicas de vinhos ou outras bebidas regionais. Ah e não se esqueçam dos doces!

Tal como temos vindo a publicar as vossas histórias do Algarve, vamos publicar as vossas histórias gastronómicas. E não só as vossas. Também vamos contar com a colaboração de enólogos, produtores de vinhos e até vão passar por aqui grandes Chefs que nos farão a demonstração da sua arte.

Que tal? Não estão já com água na boca?

Nós estamos ansiosos por receber as vossas especialidades e começar o repasto.

Enviem, por favor, os vossos contributos para saboresdoalgarve@turismodoalgarve.pt e sempre que possível não se esqueçam de enviar também fotografias.


quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A empreita

Por Luisa Correia
[Documentalista -Turismo do Algarve]

Os ramos de palma eram, primeiro, postos a secar. Pareciam pequenos leques que, depois, haviam de ser rasgados pelos dedos ágeis da avó que, com o polegar, separava cada fina folha da palmeira anã. Com o seu gesto brusco e firme, soltavam-se minúsculas partículas de pó que pousavam sobre a roupa preta que vestia, atenuando-lhe o luto com uma frágil película de cor bege.

Depois ainda era preciso demolhar a palma para que pudesse ser entrançada sem quebrar. Já não sei se era antes ou se era depois mas, na preparação da empreita havia também aquele momento fascinante para mim, criança, quando a avó colocava um pequeno pedaço de enxofre numa lata e lhe deitava fogo. Acho que era uma velha lata de graxa para sapatos. Uma chama azul tremia no ar por breves instantes, só o tempo da avó agarrar na lata com uma tenaz e a fechar num grande saco onde já estavam as folhas de palma para serem branqueadas.

Por fim, os dedos da avó começavam a trabalhar e era algo de mágico ver crescer aquela trança, mais ou menos larga consoante o número de hastes que se cruzavam umas nas outras. As tiras de empreita iam crescendo e ficavam arrumadas em rolos, até ao momento em que viriam a dar forma a uma alcofa. A avó, sentada na pequena cadeira de atabua, com um molho de palma enrolado num trapo velho humedecido, fazia empreita escolhendo com arte cada folha, ripando as mais largas com os dentes para que a tira fosse sempre crescendo certinha.

E a baracinha? Claro. Também havia que fazer a baracinha, o fio que servia para cozer as tiras de empreita.

Também eu fazia baracinha. E tinha jeito para a coisa. Enrolava a folha de palma à vota do dedo que servia de esticador no início do trabalho. Depois de algumas torcidas na folha, já podia soltar o dedo e continuar a torcer, acrescentando as folhas necessárias até a baracinha atingir o comprimento ideal.

Lembro-me também da agulha de cobre que guiava a baracinha por entre as folhas entrançadas da empreita. Era uma agulha gigante e achatada. Pergunto-me se ainda a encontrarei por aí, esquecida numa qualquer gaveta. É que há tanto tempo que ninguém faz empreita lá em casa.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Surf na Praia de Faro

Por Luis Nadkarni
[Monitor de desporto - Faro]

No ano de 1984 o meu amigo António Gago -"Tó Zé"- convidou-me para colaborar na organização de um Campeonato de Surf na Praia de Faro. Como desde sempre considerei o Surf um desporto de virtudes, aceitei e decidi levar a cabo a organização deste evento dando o melhor de mim mesmo.

Tive vários encontros com o Tó Zé e resolvi, com a sua colaboração, compor uma música que seria o cartaz de apresentação deste Campeonato. Assim nasceu o tema "Surfaro", que se tornou bastante conhecido.

Contactei a Câmara de Faro, conseguindo que as instalações da sua antiga Colónia de Férias, na zona nascente da Praia de Faro, fossem disponibilizadas para alojamento dos surfistas que participavam nesta prova a nível nacional.

Tudo correu pelo melhor e durante os dois dias de Campeonato e até as condições de mar e meteorológicas ajudaram, tendo entrado um "mar de fora" que proporcionou momentos de excelente surf.
A componente social foi de extrema importância para o sucesso desta organização, tendo o "quartel-general" sido montado no Restaurante "Zé Maria" na Praia de Faro, realizando-se festas de confraternização na antiga discoteca "Desvio" e entrega de prémios na "Barracuda".

Este evento atraiu a Faro surfistas de renome nacional e internacional como Ratinho, Dapim, Nuno Jonet, entre outros. O melhor surfista algarvio nesta prova foi o atleta farense Rebocho que teve uma excelente prestação.

Viveram-se neste Campeonato momentos de grande satisfação, ficando o evento na memória de todos aqueles que, na altura, e actualmente têm o Surf como desporto de eleição.

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Aulas de Geografia

Por Ana Margarida Rodrigues
[Técnica de Turismo - Quarteira]

Já por aqui lemos histórias que incidem sobre os conhecimentos geográficos – ou sobre a falta deles – dos nossos queridos turistas. Tal como sucedeu com alguns visitantes de Tavira e de Armação de Pêra, também por Quarteira têm passado algumas pessoas a necessitar de orientação geográfica.

Registem-se então dois casos que me aconteceram no Posto de Turismo de Quarteira.

No final do Verão passado atendi uma turista de nacionalidade espanhola que procurava um mapa do Algarve para se situar pois tinha algumas dúvidas. Depois de lhe apresentar o mapa e lhe indicar onde nos encontrávamos a cliente perguntou:
“A ver… entonces de aqui hasta Lisboa és Algarve e arriba de Lisboa és todo Galicia, no?”
Fiquei de tal forma siderada pela pergunta da senhora que gaguejei repetidamente até conseguir finalmente recuperar, mostrar-lhe um mapa de Portugal e dar-lhe, muito resumidamente, uma “aulinha” sobre a Península Ibérica.

Outra situação caricata e deveras divertida foi a da visita de uma idosa de nacionalidade canadiana que se deslocava com a ajuda de duas muletas e levantando uma, apontou para leste e perguntou:
“Quanto tempo para chegar a Espanha?”
Ao que nós indagámos:
“De carro ou de transportes públicos?”
Muito airosa a senhora respondeu:
"Não, não, a pé pela praia!"

Palavras para quê?


Quarteira

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Ilha de Faro (anos 45/54)

Por Lina Vedes
[Escritora algarvia]

Havia só uma possibilidade de chegar à praia, o barco. A partir dos meus oito anos comecei a frequentá-la com alguma assiduidade, perdendo o medo e tirando prazer.
Tenho como recordação negativa, a mãe contratar um banheiro para me mergulhar nas ondas da costa. Nada mais do que sete mergulhos. Era da praxe para dar sorte… não sei se à vida!
Da primeira vez fui apanhada de surpresa, agarrada pelas costas sem possibilidade de me safar. O tal homem, intitulado banheiro, tapou-me a boca e nariz com a manápula, prendeu-me as pernas entre as dele e com o outro braço rodeou-me a cintura. Na água, começou a contagem, 1…2…3…e pumba, mergulho após mergulho, sem espaço para respirar.
Uma experiência de terror absoluto.
A segunda vez, já alertada, apercebi-me de alguém que, sorrateiramente, se aproximava. Mudei de lugar e vi as manobras. Desatei a correr empregando o máximo esforço. Ninguém sabe, o que se sente, quando se verifica que se vai ser apanhado sem salvação possível. Corria, sabendo que seria alcançada, mas corria desesperadamente, na esperança louca de me salvar. O coração a martelar, a boca seca, a cabeça a explodir… e as forças a falharem…

A mãe, ao aperceber-se do meu pânico e pela experiência anterior, salvou-me desse segundo banho.
Uma ida à praia envolvia um grande ritual.
Normalmente era ao sábado ou domingo, ficávamos todo o dia e tínhamos de levar comida.
Levantávamo-nos cedo para fazer o almoço, arroz com choco, bacalhau ou carne, retirado do lume antes de estar completamente cozido para que o arroz, na altura de servir, estivesse mais saboroso. O tacho era embrulhado em papel de jornal para o manter quente e guardado na saca de transporte. Levávamos pão, banha corada e às vezes lá aparecia uma fatia de fiambre ou queijo e uma peça de fruta por pessoa.
Havia que levar pratos, talheres, copos, toalhas e guardanapos (ainda não havia descartáveis). Não faltava um garrafão com vinho e outro com água e nos dias de melancia, era escolhida a maior.
O toldo implicava 4 paus, cada um com um metro e pouco. A dois deles, estava preso o pano, esticado e cosido, tendo cordas penduradas em cada extremidade. Os outros dois eram espetados na areia e suspendiam o pano na parte superior. Era um bom peso a ser transportado aos ombros do meu pai.


Imagem de Augusto Martins- Passatempo Algarve Vintage


Toda a família era envolvida para transportar os sacos até ao barco. Descíamos a rua Baleizão, virávamos no hotel Faro, atravessávamos todo o jardim, a zona do mercado e aí já começávamos a ouvir os apitos do “gasolina” a apressar o pessoal para o embarque. A carga pesava bastante, tornava-se incómoda e precisávamos de nos apressar. Sabíamos que o gasolina só partia quando cheio, mas nós queríamos um lugar sentados. Eu e o meu irmão preferíamos o tejadilho.
A mãe coordenava a concentração dos sacos com o tacho e utensílios correspondentes, dos garrafões e melancia, do toldo, das toalhas e roupa, tudo junto de nós e preparava os trocos para o pagamento, vinte e cinco tostões por pessoa.
Havia que aguardar que o barco enchesse e de que maneira?!
Até transbordar, sacos em cima de sacos, pessoas em cima de pessoas, sentados, de pé, agarrados do lado de fora, valia tudo…
Mais um apito e lá começava a tarefa de desamarrar o barco da ponte. Já em ligeiro andamento, surgiam sempre três ou quatro atrasados que provocam mais uma demora e mais um encaixar de pessoas. Finalmente, o barco arrancava, deitando fumo por todo o lado e cheirando, profundamente, a gasóleo…
Existiram vários barcos fazendo a carreira entre Faro e a Praia.
O primeiro a surgir levava, unicamente, 20 pessoas e pertencia a uma empresa de Vila Real de Santo António. O senhor António Evaristo Santos, proprietário das camionetas Santos, que circulavam entre Faro e S. Brás, adquiriu o barco – “Praia de Faro”.
O “Ria Formosa” administrado pelo senhor Marum, o” Isabel Maria” pertença do senhor conhecido por Cantiguinha, o “Gavião” e o “Alegria” foram mais tarde pertença de Francisco do Carmo, conhecido por Chico Alemão, cujo filho, com o mesmo nome trabalhou com ele (informações colhidas junto do Chico/filho).
Mestre Chico, proprietário, dava as ordens. Homens à proa e à ré e ele ao volante, na sua cabine, procurando encaminhar o barco no rego de água mais fundo. Muitas vezes o barco encalhava, durante a maré baixa, obrigando a uma paragem forçada no meio da ria, e lá ficávamos até a maré encher. Chegámos a estar uma hora e mais, dentro do barco, retardando a chegada à praia ou a casa, se fossemos apanhados no regresso.
Dava uma boa reportagem fotográfica o espectáculo de um barco transbordando de pessoal que dava” palpites”para a resolução do problema. Havia telefonias em altos berros, gente barafustando, crianças chorando… e dores de barriga só aliviadas num buraco, entre tábuas, a encobrirem a intimidade de cada um.

Imagem de Nuno Graça-Passatempo Algarve Vintage


Chegados à praia, havia três locais de desembarque, a ponte do meio, a de cima e a de baixo. Normalmente, as pessoas saíam todas ao meio da praia, porque os extremos eram para quem tinha casa.
O sair do barco, depois de amarrado à ponte, era outro espectáculo. Atropelos, medo de sair e de pôr o pé na ponte, bagagem perdida, pressa de chegar, tudo complicava.
As pessoas dividiam-se. Uns ficavam à beira ria, com areia branca e água maravilhosa, com a possibilidade de dar mergulhos da ponte. Outros iam para a costa, que ficava distante.
Decisão tomada impunham-se mais tarefas até se poder respirar e dizer: - Finalmente!
Havia que montar o toldo no lugar escolhido, colocar os sacos à sombra, enterrar os garrafões na areia, junto à rebentação, para refrescarem os líquidos contidos e por fim o tão desejado banho.
A ria proporcionava às crianças prazer máximo com pouco perigo e naquela altura não havia poluição (nem se sabia o que isso era). Quando não se levava toldo, podíamos ficar debaixo da ponte. Só que, a maré ao subir, reduzia-nos o espaço e ficávamos uns por cima dos outros.
Na costa, havia o perigo das ondas, mas o espaço era grande e podíamos estar à larga, sem implicar com vizinhos indesejáveis.
A distância da ria à costa era feita por um extenso areal, cheio de pitas secas, que se espetavam nos pés. Existiam poucas casas e a língua de areia triplicava o tamanho actual.
À hora do almoço começava nova cena. Mãos limpas, todos sentados na areia, toalha no centro com a panela, pratos e talheres distribuídos. A mãe punha a comida a cada um, mas aconteciam sempre acidentes. Água ou vinho derramados, areia no ar, guerra aos mais pequenos que não sossegavam.
Acabada a refeição os pratos eram lavados na água do mar, esfregados com a areia e os lixos eram enterrados (não existiam caixotes de lixo, nem educação ambiental).
Tudo era guardado com mais arrumação e menos peso. Duas horas infindáveis para a digestão, e de novo o desejado banho.
Perto das 19 horas, o regresso ao barco, com a ponte repleta de pessoas, numa fila infindável.
A viagem de regresso era idêntica, com a mesma confusão e a mesma possibilidade do barco encalhar.
Este era o nosso Mundo, a nossa possibilidade única de ir à praia.
Não conhecíamos outra, não tínhamos escolha, mas a felicidade reinava!!!!!!!!!

Doca de Faro

[Crónica gentilmente cedida pela autora e anteriomente publicada no livro "Pedaços d'Ontem na Cidade de Faro"]

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Sabores do Algarve


Estamos na recta final da iniciativa que ao longo destes meses tem motivado o interesse dos nossos leitores e queremos agradecer a todos os que têm participado activamente com o envio de histórias para divulgação na rubrica "Das Imagens às Palavras".

Como sabem, já só falta uma semana para começarmos a publicar outras histórias... essas queremo-las com os cheiros e os sabores da boa mesa algarvia.

A propósito...
Já começaram a reunir os ingredientes de que vão necessitar para nos fazer crescer a água na boca?
Já escolheram bem que receitas nos vão enviar?
Já anotaram os pormenores imperdíveis daquela odisseia culinária que para sempre ficará na vossa memória?

Preparem já os vossos contributos e comecem a enviá-los para saboresdoalgarve@turismodoalgarve.pt

Vai ser de comer e chorar por mais!






quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Os surfistas da cortiça

Por Sofia Cavaco Silva
[Jornalista - Loulé]

As memórias da minha infância não são feitas apenas do que fiz e do que vivi... são também recheadas de histórias e episódios que me foram contando pais, avós e tios.
Pertenço a uma família que tem uma ligação sólida com o interior algarvio e na qual as tradições foram passando “a olho” e também pelo poder da voz.
Por isso mesmo, há recordações que não sendo minhas me invadem cada vez que visito a terra natal dos meus avós e do meu pai. Estou a falar da antiga freguesia de Querença, que deu origem às actuais freguesias da Tôr e de Querença.
Ao longo da ribeira que atravessa essas freguesias e da Fonte da Benémola até à Ponte Romana da Tôr, quase cada recanto ou pego tem para mim uma recordação de brincadeiras com os meus primos ou de histórias que me contaram.
Foram muitas as vezes que durante o Verão fui com a minha avó Odete tomar banho ao pego junto do chamado “Castelo” da Quinta da Ombria. Águas límpidas onde nos refrescávamos no pico do Verão.
Como ainda não sabia nadar, ficava-me pela zona onde havia pé... mas confesso que sempre invejei a “malta” que se bamboleava numa corda atada a uma árvore como se fossem uns tarzans, atirando-se à água da forma mais “espampanante” possível!

Numa dessas vezes, o meu pai estava comigo e contou-me mais uma história de quando era pequeno e brincava na ribeira com os seus amigos... Contou-me que ele, o meu tio e um amigo arranjavam pedaços de cortiça e se punham a boiar e a nadar com eles pela ribeira fora.
Ainda hoje, de vez em quando, me recordo da frase que um deles disse: “Fomos os primeiros surfistas de Querença!”.
Pois calculo que sim... nunca vi a brincadeira replicada, ainda que a tente recriar mentalmente cada vez que passo nas margens desta ribeira.
Três putos, em tronco nu, nadando em cima de uma folha de cortiça... Uma brincadeira só possível num Algarve interior tão cru quanto deliciosamente genuíno.
Nos dias de hoje, os putos de Querença já não flutuam em folhas de cortiça... Existem outras brincadeiras. Mas ainda podem brincar com os apitos de cana que o Tonico da Ribêra faz com tanta habilidade e dedicação, ali nas proximidades.
A beleza natural deste recanto algarvio continua admirável.
E... quando a noite cai e não deixa perceber mais que o contorno da natureza envolvente... é hora de olhar para cima e deixar que o céu mais estrelado que alguma vez se viu nos espante acompanhado do som dos mochos e dos grilos!

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Espírito da Ria

Por Ana Serafim
[Jornalista - Lisboa]

O cais de Faro está movimentado, com o entra e sai de barcos-carreira e dos táxis marítimos que levam os veraneantes para as praias da Ria Formosa. Passa pouco das 10h da manhã quando a pequena embarcação de passeios turísticos zarpa. Há que aproveitar a maré baixa para poder observar a biodiversidade local. «Quando a maré sobe, as aves escondem-se. Também optamos por canais secundários ou terciários, que são zonas mais calmas porque os barcos maiores não podem passar e é mais fácil ver a natureza», explica o guia Nelson.
Formando um sistema lagunar que se estende por 60 quilómetros no litoral algarvio – desde a península de Cacela, na Manta Rota, até à Península do Ancão, em Loulé – o Parque Nacional da Ria Formosa é um labirinto de sapais, dunas, ilhotas e canais. Servem de casa a moluscos (284 espécies), peixes (79), répteis (15), anfíbios (11), mamíferos (18) e 214 espécies de aves, que não tardam a dar ares da sua graça.
De binóculos em riste, avista-se uma cegonha branca, imponente, do alto das suas pernas cor-de-laranja, da mesma cor do bico. Pouco depois, surgem os colhereiros, com o seu bico em forma de colher. E ainda uma garça branca pequena. No alto, as andorinhas do mar, de penas brancas e cinzento claro, fazem o seu bailado. Usando a força do corpo, uma faz um voo picado e mergulha de cabeça. Traz um peixe, que uma companheira, invejosa, tenta roubar. Sem sucesso, até que, a pescadora habilidosa aterra no sapal. E partilha a refeição com a adversária.

A zona está coberta de morraça, que submerge quando a maré sobe. A sarcocórnia, a cistanca – que só existe no Algarve, Sul de Espanha e Creta – e a sapeira, também conhecida por lavanda do mar devido ao aroma e à cor roxa das suas flores, compõem o quadro. O toque final é dado pela salicórnia, ou espargos do mar. Afirma o guia que é uma especialidade da Ria, que surge nas zonas de salina, muito apreciada pelos franceses, que já a usam em receitas culinárias gourmet.
Entretanto, uma garça real dá cor ao castanho escuro das terras na zona dos viveiros, onde os viveiristas escavam com pequenas pás, cuidando das suas culturas. «É exactamente como a agricultura. Se não tratarem dos viveiros, ficam sem toda a produção», afiança Nelson. E sublinha que no Parque Natural da Ria Formosa concentram-se 80% da produção de amêijoa do país.


Aqui e ali, vislumbram-se pescadores à procura de isco. Numa cabana verde, duas mulheres concertam uma rede de pesca.
Um senhor mantém-se imóvel, imerso com água até ao pescoço. «Provavelmente tem uma rede numa mão e com a outra vai remexendo a terra do fundo da ria, para apanhar caracóis do mar», adivinha o guia.
À medida que nos aproximamos da ilha da Faro, a existência de casebres e pequenas habitações aumenta. A presença humana começa a fazer parte da paisagem. A circulação de barcos faz agitar a calmaria das águas salgadas.
E é já com terra à vista que Nelson explica: «Na verdade, a ilha de Faro é uma península já que está ligada ao continente pelo Ancão. Seguindo a pé, vamos ter à Praia do Gigi, na Quinta do Lago». Aqui, há várias casas de férias e muitas famílias, a pé ou por água, rumam a banhos nas praias das ilhas da ria, de chapéu-de-sol debaixo do braço. Vêem-se também muitos grupos, de cócoras, lenços na cabeça, a apanhar amêijoa. Alguns já têm baldinhos e sacos de rede bem aviados. Seja para consumo próprio ou para venda, há que tratar do almocinho, antes que, daí a pouco tempo, a maré suba e cubra toda a zona de água. Há pais e filhos a jogar futebol na areia. E também quem faça caminhadas, aproveitando o sol. As crianças apanham estrelas-do-mar e as conchinhas brancas que polvilham a areia.
Vêem-se ostraceiros, que parecem pinguins mas com bico laranja. Um maçarico real esgravata na areia, à procura de petisco, usando o seu bico longo e curvado para baixo. Um fuselo, de tons castanho terra e de bico também comprido mas inclinado para cima, faz o mesmo. E uma rola marinha sobrevoa a embarcação.
«Sintam este cheiro», adverte Nelson. Enquanto, o silêncio se entranha, apura-se o nariz para sentir o odor a terra molhada, a crustáceos e a relva húmida. É o espírito da Ria.


[Adaptação da autora, de texto publicado na Revista Essencial, do Semanário Sol]

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

A carroça, os jovens típicos e os turistas

Por Elisabete Rodrigues
[Jornalista, membro do Núcleo do Algarve da Liga Para a Proteção da Natureza]

Há uns 30 anos, já eu estava casada, mas não tínhamos dinheiro para comprar carro, porque ainda estávamos a estudar. Por isso, de vez em quando, o meu marido pedia a carroça emprestada ao avô, atrelava o macho cinzento que se chamava «14» e lá íamos nós acampar, ou à praia ou simplesmente dar uma volta.

Para mim, que sempre tinha andado de automóvel, andar numa carroça era uma experiência divertida, diferente. Mas há 30 anos ainda havia muitas carroças a circular nas estradas algarvias e por isso não era assim nada de muito especial…pensava eu…

Um dia, vínhamos a chegar a Lagoa, montados na carroça, com o «14» no seu passo pachorrento de sempre, quando de repente um carro pára à nossa frente, sai um casal de ingleses, cada um munido da sua máquina fotográfica, e desatam a fotografar-nos, entre gritos de admiração. «So typical!», gritava o homem. «So lovely, a young couple still in touch with tradition!», exclamava a mulher.

Não quisemos estragar a festa aos turistas e lá fizemos uns sorrisos amarelados. Nem valia a pena dizer-lhes que não éramos assim tão, tão tradicionais, nem sequer que um já era formado em engenharia agrícola e o outro estava na faculdade a estudar jornalismo. Isso iria estragar a imagem idílica, de um mundo rural perdido, que o casal de turistas ingleses queria levar para a sua terra.

A estas horas, deve haver algures em Inglaterra, no álbum de férias de alguém, umas fotos de um casal de jovens portugueses muito típicos e muito rústicos. Por acaso tenho pena de não ter uma dessas fotos, porque nunca mais andei de carroça…


segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Dia dos namorados

Porque o Algarve também é um destino romântico, não quisemos deixar passar o dia de hoje sem fazer uma pequena homenagem ao Amor.
Para isso escolhemos um texto do poeta algarvio António Ramos Rosa que aqui deixamos.


Não posso adiar o amor
Não posso adiar o amor para outro século
Não posso
Ainda que o grito sufoque na garganta
Ainda que o ódio estale e crepite e arda
Sob montanhas cinzentas
E montanhas cinzentas
Não posso adiar este abraço
Que é uma arma de dois gumes
Amor e ódio
Não posso adiar
Ainda que a noite pese séculos sobre as costas
E a aurora indecisa demore
Não posso adiar para outro século a minha vida
Nem o meu amor
Nem o meu grito de libertação
Não posso adiar o coração


sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Sabores do Algarve




A nova iniciativa que o Turismo do Algarve vai lançar a partir de 1 de Março começa a ganhar forma!

Já começámos a receber participações dos leitores do Blogue do Turismo do Algarve e já temos confirmadas as participações de alguns dos mais reputados chefs e enólogos.

Preparem-se para o nosso próximo desafio, que está quase a chegar.

E colaborem!

Enviem-nos receitas, sugestões, dicas gastronómicas, histórias de comida, aventuras na cozinha, humor culinário e tudo o que se relacione com sabores algarvios.

Comecem já a procurar nos vossos livros de receitas o prato algarvio a que ninguém resiste.

Pensem comida...

Pensem bebida...

Continuamos a preparar a mesa para receber as vossas dicas.

A festa está quase a começar...



quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Pragas

Por Turismo do Algarve

As pragas algarvias fazem parte de uma tradição oral que, tendo caído em desuso, é hoje lembrada por brincadeira e contada em jeito de anedota. Eram uma espécie de combate verbal, uma “garreia” entre os antigos habitantes de povoações litorais - sobretudo mulheres - como Monte Gordo, Fuzeta ou Alvor.
Irónicas, caricaturais, malévolas, jocosas, mordazes, com laivos de superstição, as pragas algarvias, hoje fazem-nos sorrir. E porque a boa disposição é fundamental, apreciemos aqui algumas das mais conhecidas.

A Febre
Um zaragateiro embriagado provoca tal desordem que obriga a intervenção de um praça da GNR, que acaba por detê-lo. A mulher do zaragateiro, indignada, profere a seguinte praga contra o guarda:
“Permita Deus que tenha uma febre tão grande, tão grande que lhe derreta a fivela do cinto.”

O Cúmulo da magreza
“Permita Deus que fiques tão magro, tão magro, que possas passar pelo fundo de uma agulha de braços abertos.”

Uma grande dor
“Não sabia dar-lhe uma dor tão grande que nunca mais parasse, que quanto mais corresse mais lhe doesse e, se parasse, rebentasse…”

Um bichoco*
“Permita Deus que tenhas um bichoco tão grande e tão ruim que todo o algodão que há no mundo não chegue para o tratamento”

*bichoco é, no falar algarvio, um furúnculo, tumor ou ferida com crosta.

O tampo do pêto
Praga rogada a um avarento:
“Permita Deus que aches uma carteira cheiinha de dinheiro, mas quando te abaixares para a apanhar te caia o tampo do pêto”

E vocês, caros leitores, conhecem alguma praga algarvia?


Fontes:
DOMINGUES, Luciano, “Pragas de Monte Gordo e da Fuseta”, Património e Cultura: revista da Associação para a Defesa e Investigação do Património Cultural e Natural Vila Real de Santo António, nº 3, 1981, p.8-11

FRAQUEZA, Maria José, Pragas algarvias, Faro, Elos Clube, [2006], 70 p.



Fuzeta

quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Banhos de mar

Por Lina Vedes
[Escritora algarvia]

Adorava a praia…
Levava metida na água o dia inteiro…
Não sei como aprendi a nadar, aconteceu… Nadar não direi, mas sim aguentar-me a boiar e esbracejar na água, sem técnica nem ritmo. Toda a aprendizagem foi feita por mim sem qualquer auxílio. A minha especialidade consistia nos mergulhos de toda a maneira, de costas, de lado, de frente, enrolando… enfim, tudo o que me proporcionasse o prazer de estar na água e em actividade.
O primeiro fato de banho que me lembro respeitava não a moda mas as regras da decência e moral daquele tempo. Era azul-escuro, bem descido nas pernas e com uma saia na parte da frente a tentar encobrir vestígios reveladores do que se tinha para esconder. O peito também ficava bem protegido com a roupa subida, tendo pouca cava e pouco decote. O fato era de tecido e, quando molhado, alargava e levava imenso tempo a secar.

Imagem de Maria João Rosa-Passatempo Algarve Vintage


O engraçado, é que aos homens, também eram impostas normas comportamentais, no vestir. Não podiam usar o corpo nu da cintura para cima e eram obrigados ao uso de uma camisola de meia manga ou de alças.

Era uma guerra descarada ao cabo de mar que, vigilante, percorria a praia na expectativa de apanhar algum despido e passar-lhe a multa verbal ou no papel, se o cliente fosse mal-educado ou faltasse ao respeito à autoridade.
Então os homens, seres mais espertos só nesse âmbito, do que as mulheres, uniam-se nessa guerra de perseguição à nudez do tronco. Quando avistavam o cabo de mar davam sinal de alerta e todos se vestiam para se despirem após a passagem do perigo. O “fiscal” bem podia vê-los despidos ao longe mas não lhes chegava perto. Se olhasse para trás verificaria que ninguém respeitava a lei.

Imagem de Nuno Graça-Passatempo Algarve Vintage


Os calções dos homens não podiam ser cavados, tinham de ter um pouco de perna. Como não existia tecido elástico, o sexo ficava tapado mas à solta. O resultado era engraçado e nada estético, ver aquele volume descomposto, através duns calções cuja altura de pernas mais fazia salientar o que era para disfarçar.
Em Setembro depois da apanha dos frutos secos, amêndoa, alfarroba, figos, vinham a banhos, os chamados “montanheiros”. Os sete ou nove banhos desse mês eram óptimos para a saúde, segundo a crença deles.
Essa “fauna” era impar na maneira de frequentar a praia e de dar os tais mergulhos no mar.
Não usavam fato de banho porque era uma vergonha expor o corpo, ou então, não valia a pena gastar dinheiro na compra de um fato apropriado.
As mulheres vinham com grandes vestidos, tipo camisa de dormir, fechados até ao pescoço, compridos até aos pés e largos.
Tinham medo da água, ficavam só na rebentação das ondas, a água pelo joelho. Davam as mãos umas às outras e lá se iam molhando.
As marés vivas de Setembro faziam das suas. Quando o cordão de mulheres se descuidava, ficando em plena rebentação, iam todas ao chão de pernas para o ar, inesperadamente.
Era de promover um espectáculo digno de um filme de apanhados. Mulheres rebolando, levadas pela água, ficando repletas de areia, mais parecendo croquetes para serem fritos… Outras, enroladas nas próprias camisas que subiam e saiam pela cabeça, deixando o rabo de fora… Ainda, as que, meio tontas, tentavam levantar-se e eram de novo derrubadas e enroladas… havia de tudo.
Finalmente, reuniam-se de novo mas não desistiam porque o número de mergulhos tinha de ser respeitado e, heroicamente, voltavam a dar as mãos. Quando terminavam e iam “amalhar-se” onde tinham as “coisas”, eram mulheres que tinham cumprido o seu objectivo, embora mais parecessem seres de outro mundo. A roupa colada ao corpo salientando e contornando todas as curvas e não curvas, a transparência da roupa a permitir observar os peitos, os mamilos e até a negrura dos pêlos púbicos, pois algumas nem cuecas usavam, era um espanto!...
A parte do corpo a descoberto, cheia de areia da grossa e também o cabelo, desalinhado, com melenas para a esquerda, para cima e para baixo, os olhos piscos por causa da água salgada e o andar trôpego, da estafa apanhada, mais lembravam extra terrestres. Chegadas ao local sentavam-se na areia de pernas abertas e para lá ficavam a secar ao sol.

Imagem de José Belchior-Passatempo Algarve Vintage

Quanto aos homens, o espectáculo não era tão cativante e hilariante. Neles, era curioso observar as ceroulas brancas e compridas que vestiam para o banho. Algumas, de tão usadas, estavam encardidas e puídas no rabo e à frente e, às vezes, com falta de botões. Molhadas, revelavam à transparência tudo o que queriam esconder. A falta de botões fazia sair “para a rua” o apêndice, encolhido, revelador do medo que dominava o corpo do dono.
O banho deles era discreto e feito também na rebentação das ondas. Fincavam os pés com as pernas abertas e iam molhando com as mãos, a cabeça, o pescoço, os braços, esfregando-os como se estivessem a lavar-se em casa com sabão e o retirassem do corpo.
Iam juntar-se às esposas e seguia-se o almoço ao qual não faltava o garrafão de vinho e a melancia.
Quando a monotonia da digestão cansava, para distracção, agrupavam-se e jogavam às “abarcas”, cujo objectivo era fazer cair na areia o adversário. Agarravam (abarcavam) o corpo do jogador, passavam rasteiras, lançavam-no ao chão, rebolando na areia e espalhando-a por todos os lados. Muitas vezes os assistentes voluntários ou obrigados, por se encontrarem junto da luta, tinham de fugir do local.
Era curioso observar esses homens quando se levantavam e caminhavam ao longo da praia. O posicionamento corporal já deformado, imposto pelas longas horas de trabalho, debruçado sobre a terra, cavando, semeando ou regando, envelhecia-os antes de tempo. O corpo marcado pelo sol, escurecido nos braços e pescoço como se tivessem uma camisola de meia manga vestida. Todo este conjunto, punha a nu, a vida dura de trabalho de sol a sol, tida por aqueles homens e mulheres a quem chamávamos montanheiros.
A sua maneira de estar na vida, bem diferente da nossa, citadinos e impiedosos para com a diferença, era mais autêntica!!!!!!!!!!!!


[Crónica gentilmente cedida pela autora e anteriomente publicada no livro "Pedaços d'Ontem na Cidade de Faro"]

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Memórias do Cinema em Faro

Por Jorge Carrega
[Docente e Investigador Universitário]

A primeira vez em que assisti a uma sessão de cinema tinha sete anos de idade. Recordo-me dessa tarde solarenga em que eu e os meus colegas da segunda classe saímos da escola do Carmo em Faro, acompanhados pela nossa professora primária, e nos dirigimos ao Teatro Lethes. Foi ali, com o olhar fixo no grande ecrã, que descobri a magia do cinema.
O filme escolhido pelo Cineclube de Faro foi “ A Quimera do Ouro” e mal poderia eu imaginar que naquela mesma sala onde no início dos anos 80 conheci Charlie Chaplin, se havia realizado em 1898 a primeira sessão de cinema no Algarve.

Teatro Lethes - pormenor do interior

Se no início do século XX, o cinematógrafo não era mais do que uma curiosidade, alguns anos depois, em plena Iª Guerra Mundial, a popularidade do cinema na capital algarvia era tão grande que alguns notáveis decidiram constituir uma sociedade com o objectivo de construir e explorar comercialmente o Cine-Teatro Farense, uma moderna sala de espectáculo que permitia aos farenses desfrutarem das “fitas” com todo o conforto.
Por ali passaram os filmes épicos de D.W.Griffith e Cecil B. De Mille, as comédias de Charlie Chaplin e Buster Keaton, as histórias de gangsters de James Cagney e Humphrey Bogart, as aventuras de capa e espada de Errol Flynn, os westerns de John Wayne e os musicais de Fred Astaire e Ginger Rogers.
Após a II Guerra Mundial, esta sala que durante 35 anos constituiu o ponto de encontro de todos os cinéfilos farenses, tornou-se obsoleta, sendo demolida em 1952 para dar lugar a uma sala moderna, que entre outras inovações, apresentava um projector automático. Nascia assim, o Cinema de Santo António, inaugurado com pompa e circunstância no dia 31 de Dezembro de 1953.

Cinema de Santo António - interior


O início da década de 1950 marcou de resto uma era de ouro na história da 7ª arte. Em tempo de paz e recuperação económica e com a massificação da televisão a mais de uma década de distância, o cinema assumia-se como a grande forma de entretenimento de massas, juntamente com o futebol e a rádio.
Prova da importância do cinema na sociedade algarvia dos anos 50 foi a inauguração, com poucas semanas de diferença, de duas salas de cinema no concelho de Faro.
Estávamos no verão de 1950, quando a sociedade que explorava o Cine-Teatro Farense inaugurou o S. Luís Parque, um cine-esplanada que se situava nas imediações do mercado Municipal e proporcionava à população local a possibilidade de assistir a sessões de cinema e a espectáculos de variedades ao ar livre durante os meses de verão.
Igualmente no concelho de Faro, a pitoresca aldeia de Estói inaugurava no dia 13 de Agosto o cinema Ossónoba, iniciativa de um empresário da terra, José de Jesus Zeferino, que deste modo contribuiu decisivamente para a divulgação da 7ª Arte no interior do concelho.
É também neste período que o cinema começa a ser encarado como algo mais do que um mero entretenimento. Nesse mesmo verão de 1950, o artista e intelectual sambrasense, Roberto Nobre, assinava um artigo de opinião no jornal “O Algarve” sobre o importante papel dos cineclubes na promoção da cultura fílmica. Segundo Roberto Nobre, ele próprio autor da primeira obra cinematográfica algarvia, a curta-metragem “Charlotim e Clarinha”, realizada em Olhão em meados dos anos 20:

“No cinema, não há apenas uma distracção fútil, para depois do jantar. Há também, é preciso não o esquecer, uma grande arte como todas as outras. É necessário aprender a vê-lo, a saber escolhe-lo. O Cinema ainda é um grande desconhecido. A missão do cineclube é revelar-lhe essa sua face mais elevada”.
In “O Algarve”, 11 de Julho de 1950


Poucos anos depois, em 1956, num claro sinal da importância da cultura cinematográfica para as elites culturais farenses, nascia o cineclube de Faro, instituição que se mantém em actividade, sendo hoje um dos mais antigos cineclubes portugueses.
Pelo Cinema de Santo António, pela Esplanada S. Luís Parque, pelo Cinema Ossónoba e pelas restantes salas de cinema do Algarve, passavam por esta altura estrelas como Kirk Douglas, Marilyn Monroe, Charlton Heston, Cantiflas e tantos outros que fizeram a história do cinema, em êxitos como “Quanto Mais Quente Melhor”, “Ben-Hur”, “A Volta ao Mundo em 80 Dias“ e “Spartacus”, que fascinaram gerações de algarvios.
Com o final da década de 60, chega a massificação da televisão e com ela uma profunda transformação dos hábitos de lazer dos portugueses que preferem ficar em casa a ver séries como “Bonanza” e “O Santo”, e a partir de 1977, telenovelas brasileiras como “Gabriela” e “A Escrava Isaura”.

A alteração dos hábitos de consumo audiovisual que se verificou ao longo das décadas de 70, 80 e 90 teve como consequência directa o declínio do número de espectadores de cinema, registando-se o encerramento de um grande número salas de cinema por todo o país.
Em Faro, a primeira vítima foi o cine-esplanada S. Luís Parque, no início da década de 90, logo seguido pela sala de cinema do centro comercial Algarb.
Alguns anos depois, seria a vez do Cinema de Santo António, cuja derradeira sessão, promovida pelo Cineclube de Faro em jeito de homenagem, se realizou no dia 31 de Julho de 2001 com a exibição do filme “Cinema Paraíso” de Giuseppe Tornatore, obra que constitui uma das mais belas homenagens alguma vez feitas ao cinema.
São poucas as antigas salas de cinema que sobreviveram no Algarve. Felizmente o Cine Teatro António Pinheiro em Tavira (inaugurado em 1968), o cinema Ossónoba em Estoi (inaugurado em 1950) e o Cine-Teatro Louletano (inaugurado em 1930) foram adquiridos pelas respectivas autarquias, ficando assim salvaguardada uma parte importante da história do cinema no Algarve.

Teatro Lethes - Faro

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

A praia cor-de-rosa


Por Maria João Arcanjo
[Técnica de Turismo - Praia da Rocha]

Esta história aconteceu-me quando comecei a trabalhar no Posto de Turismo da Praia da Rocha, em meados da década de 80. Era então muito jovem e inexperiente. Depois de alguns dias em que trabalhei acompanhada por uma colega que me orientava e me apoiava no atendimento aos turistas, calhou-me finalmente ficar de serviço sozinha.

Estava pois, pela primeira vez, por minha conta e risco quando entrou no Posto de Turismo um casal francês que queria visitar a Praia Cor-de-Rosa. Ora por muito que eu fizesse a revisão mental dos locais de interesse do Algarve e me esforçasse por me lembrar do nome das praias da região, não conseguia imaginar onde pudesse existir essa tal praia.
Já a ficar nervosa por não conseguir responder à solicitação dos clientes, telefonei, aflita, para a minha colega que nesse dia se encontrava de folga.
Ela tranquilizou-me logo afirmando que de facto não existia no Algarve qualquer praia com esse nome.
Voltei a encarar o meu casal de turistas e expliquei-lhes que não existia tal praia. Mas eles insistiram:
“Não é o nome da praia. É mesmo a praia que é toda cor-de-rosa. Tem a areia cor-de-rosa, rochas cor-de-rosa…”
E eu, novamente a perder a confiança em mim própria, lá lhes fui perguntando:
“Mas onde é que os senhores obtiveram essa indicação? Têm a certeza de que é no Algarve?”
E eles que sim, que tinham até visto uma fotografia dessa praia num guia turístico.
“E os senhores ainda têm esse guia?” voltei a perguntar.
“Sim, sim. Temos lá no hotel”.
Lá combinámos então que eles voltariam ao Posto de Turismo com o dito guia turístico, para eu poder identificar a praia e os encaminhar devidamente.

Um pouco mais tarde, regressaram com o”bendito” guia. Pude então verificar que se tratava de um recanto da Praia da Rocha. Só que aquela página do guia tinha, por qualquer motivo insondável, sofrido um problema de impressão e a imagem da praia estava toda rosada.
Consegui explicar ao casal de franceses que se tratava apenas de um problema gráfico e que, por muito curiosa que fosse a existência de uma praia toda cor-de-rosa, em nada ficariam desapontados depois de desfrutarem da beleza multicolor da Praia da Rocha.

E, ao que sei, não ficaram.



Praia da Rocha

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Sabores do Algarve


Preparem-se para o nosso próximo desafio, que está quase a chegar.

É já a partir de 1 de Março que publicaremos receitas, sugestões, dicas gastronómicas, histórias de comida, aventuras na cozinha, humor culinário e tudo o que se relacione com sabores algarvios que, vocês, amigos leitores e seguidores deste blogue nos queiram enviar.

Quinzenalmente convidaremos um chef de reconhecido mérito para que também ele partilhe a sua arte, com o objectivo de promover o que a mesa algarvia tem de melhor. Esta confecção será registada em vídeo para ajudar a criar água na boca a todos os bons garfos do país.

Mas porque a arte de bem comer deve ser bem regada, semanalmente – até 31 de Maio – um produtor de vinhos ou enólogo aconselhará um néctar algarvio aos leitores.

Por isso, comecem já a procurar nos vossos livros de receitas o prato algarvio a que ninguém resiste. Preparem-se para nos contar que alimentos vos tiram do sério. Pensem comida. Pensem bebida.

Já estamos a preparar a mesa para receber as vossas dicas.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A minha lenda da amendoeira em flor

Por Sofia Figueiredo
[Investigadora em Biologia de Sistemas – Berlim]

Guerreiro que não conhecia o sabor da derrota, Ibn-Almundim reinava em Chelb, então capital do país a Ocidente, Al Gharb. Um certo dia aprisionou um barco, crê-se de origem Vândala, que tentava acercar-se das costas de seu território com a clara intenção de saquear seu Reino, hoje, dos Algarves. Fez destes navegantes do Norte seus prisioneiros.

De espada em riste e armadura gasta e batida, o rei Yordok von Prūsa defendia o seu território na costa Báltica com fervor. Numa batalha com povos do Sul, fez seus prisioneiros uma horde de cavaleiros do Deserto, que tentavam conquistar as suas terras. Avistou um cavalo de sangue árabe, galopante, a tentar escapar e logo saíu em seu encalce.

Entre eles, estava Gilda, filha das terras do Norte, de longos cabelos de oiro, a lembrar a Ibn-Almundim searas de trigo sem fim, banhadas pelo sol, de olhos de um azul puro, límpido, onde o rei Árabe mergulhou, como se nos mares da costa de Al Gharb mergulhasse. E fez-se ele prisioneiro de um amor arrebatador, que o avassalou a ele e Gilda. Casaram-se e o Rei árabe, feliz, em todos os seus actos demonstrava o seu amor por Gilda, igualmente correspondido.

Ao confrontar quem tentava escapar, Yordok von Prūsa, não conseguiu escapar aos encantos da beleza de Isra, filha do Mar do Sul. Deixou-se emaranhar nos seus cabelos longos, cor dos castanheiros de suas terras, ondulados como o seu mar, perdeu-se no seu olhar, cor de esmeralda, profundo e misterioso. E perdeu-se Isra também, nos contornos desta armadura, que tanto sangue já vira, mas que escondia um coração de menino, palpitante de amor. Amaram-se, casaram-se e foram felizes.

Um certo dia, Ibn-Almundim olhou a princesa nórdica e viu que o brilho do seu olhar desaparecera, que o seu sorriso já não tinha a luz de outrora... ao questioná-la sobre o que se passava, ela explicou-lhe que um certo vazio, uma nostalgia profunda que não conseguia explicar, dela se apoderara.

Um dia, o Rei Yordok olhou a sua princesa e não a reconheceu. O seu olhar era baço, os seus cabelos perderam o vigor das ondas do mar, a sua pele perdera a cor. As tentativas para perceber o que se passava com o seu amor, foram vãs. Isra não sabia explicar que mal a assolara. "Um manto negro caíu sobre mim", dizia-lhe.

O Rei Ibn-Almundim de tudo tentou para recuperar o sorriso de sua princesa, mas todas as tentativas foram em vão. Decidiu chamar os sábios da corte e expor-lhes o seu problema, à procura de uma solução. Aldir, o mais velho de seus sábios, pensou no que poderia afectar a princesa Gilda e, dias mais tarde, apresentou-se ao Rei. "O que aqui o traz, sábio Aldir?", questionou o Rei, "Trago amêndoas ", respondeu Aldir. O rei pensou que, além de sua amada ter perdido a luz do olhar, o seu sábio tinha agora perdido a luz da razão. Desesperado, perguntou: "Mas para que quero eu amêndoas?????", "Semeie estas amêndoas em todos os campos de sua corte e, no início de uma Primavera, o sorriso de Gilda voltará a iluminar o seu coração, meu Rei".

Desesperado e tendo já de tudo tentado para recuperar a sua princesa, o Rei Yordok von Prūsa chamou os seus sábios à corte. Sem demoras, o sábio Stasdir disse-lhe: "Meu Rei, leva a Princesa a passear nos teus campos no dia mais frio e mais luminoso de Inverno. Mas atenção! Tem que ser um dia de Sol, depois de uma grande tempestade". O Rei, enraivecido, disse ao sábio que estava louco, que as mais caras jóias de todo o território do Leste, as mais preciosas especiarias, nada fizeram, como é que um simples passeio pelos bosques iria devolver a luz à sua princesa?

O Rei, apesar de sem crença, seguiu o conselho de Aldir. Depois de Verões de calor assolante, de Outonos de ventos enraivecidos, de Invernos inundados de temporais, chegou mais uma Primavera. Uma certa manhã, em seus aposentos, tão escuros como a sua alma, Gilda dirigiu-se à janela e abriu-a de par em par, como fazia todas as manhãs.

Passou uma florida primavera, um verão assolante, um outono de folhas esvoaçantes e Isra continuava taciturna, cabisbaixa. Chegou o Inverno, límpido, estéril, branco. Numa manhã de céu azul, sol frio e chão branco, Yordok von Prūsa, sem esperança, seguiu o conselho de Stasdir.

Ilustração de José Maria Oliveira

Mas nesta manhã de Fevereiro, tudo foi diferente. Ao avistar os campos brancos, as árvores nuas, beijadas pela delicada flôr branca de amendoeira, a princesa rejuvenesceu e correu para o Rei, seu amor. Entre beijos e abraços efusivos, não conseguiu encontrar palavras para descrever o que seus olhos de azul límpido viram, ao abrir aquela janela. "Um manto branco cobre todo o teu Reino, meu Rei, tal como todos os campos do meu país estão cobertos por neve! Floquinhos brancos, leves caíram nos ramos das árvores, aqui e ali!! Ah, meu amor, não caibo em mim de felicidade!" E também o Rei não coube em si de felicidade por ter devolvido o sorriso e um pouco das terras do norte à sua Princesa.

Ao sair de seu castelo e avistar os campos brancos, Isra não conteve um grito de excitação! "Meu amor, que avista o meu olhar? Estes campos cobertos de branco, as árvores nuas beijadas de pequenas e brancas flores, são como as amendoeiras em flor do meu Reino a Sul!" O Rei não coube em si de felicidade por ter devolvido o sorriso e um pouco do Sul à sua Princesa, e ainda acrescentou: "E sabes uma coisa, aqui neste manto branco, até podes esquiar!"

Nota: A lenda das amendoeiras em flor de Ibn-Almundim e Gilda foi adaptada, ao sabor da minha imaginação, a partir de uma versão desta lenda contada pela minha mãe. Tudo o resto é pura ficção.