Levava metida na água o dia inteiro…
Não sei como aprendi a nadar, aconteceu… Nadar não direi, mas sim aguentar-me a boiar e esbracejar na água, sem técnica nem ritmo. Toda a aprendizagem foi feita por mim sem qualquer auxílio. A minha especialidade consistia nos mergulhos de toda a maneira, de costas, de lado, de frente, enrolando… enfim, tudo o que me proporcionasse o prazer de estar na água e em actividade.
O primeiro fato de banho que me lembro respeitava não a moda mas as regras da decência e moral daquele tempo. Era azul-escuro, bem descido nas pernas e com uma saia na parte da frente a tentar encobrir vestígios reveladores do que se tinha para esconder. O peito também ficava bem protegido com a roupa subida, tendo pouca cava e pouco decote. O fato era de tecido e, quando molhado, alargava e levava imenso tempo a secar.
Imagem de Maria João Rosa-Passatempo Algarve Vintage
Então os homens, seres mais espertos só nesse âmbito, do que as mulheres, uniam-se nessa guerra de perseguição à nudez do tronco. Quando avistavam o cabo de mar davam sinal de alerta e todos se vestiam para se despirem após a passagem do perigo. O “fiscal” bem podia vê-los despidos ao longe mas não lhes chegava perto. Se olhasse para trás verificaria que ninguém respeitava a lei.

Imagem de Nuno Graça-Passatempo Algarve Vintage
Em Setembro depois da apanha dos frutos secos, amêndoa, alfarroba, figos, vinham a banhos, os chamados “montanheiros”. Os sete ou nove banhos desse mês eram óptimos para a saúde, segundo a crença deles.
Essa “fauna” era impar na maneira de frequentar a praia e de dar os tais mergulhos no mar.
Não usavam fato de banho porque era uma vergonha expor o corpo, ou então, não valia a pena gastar dinheiro na compra de um fato apropriado.
As mulheres vinham com grandes vestidos, tipo camisa de dormir, fechados até ao pescoço, compridos até aos pés e largos.
Tinham medo da água, ficavam só na rebentação das ondas, a água pelo joelho. Davam as mãos umas às outras e lá se iam molhando.
As marés vivas de Setembro faziam das suas. Quando o cordão de mulheres se descuidava, ficando em plena rebentação, iam todas ao chão de pernas para o ar, inesperadamente.
Era de promover um espectáculo digno de um filme de apanhados. Mulheres rebolando, levadas pela água, ficando repletas de areia, mais parecendo croquetes para serem fritos… Outras, enroladas nas próprias camisas que subiam e saiam pela cabeça, deixando o rabo de fora… Ainda, as que, meio tontas, tentavam levantar-se e eram de novo derrubadas e enroladas… havia de tudo.
Finalmente, reuniam-se de novo mas não desistiam porque o número de mergulhos tinha de ser respeitado e, heroicamente, voltavam a dar as mãos. Quando terminavam e iam “amalhar-se” onde tinham as “coisas”, eram mulheres que tinham cumprido o seu objectivo, embora mais parecessem seres de outro mundo. A roupa colada ao corpo salientando e contornando todas as curvas e não curvas, a transparência da roupa a permitir observar os peitos, os mamilos e até a negrura dos pêlos púbicos, pois algumas nem cuecas usavam, era um espanto!...
A parte do corpo a descoberto, cheia de areia da grossa e também o cabelo, desalinhado, com melenas para a esquerda, para cima e para baixo, os olhos piscos por causa da água salgada e o andar trôpego, da estafa apanhada, mais lembravam extra terrestres. Chegadas ao local sentavam-se na areia de pernas abertas e para lá ficavam a secar ao sol.
Imagem de José Belchior-Passatempo Algarve Vintage
Quanto aos homens, o espectáculo não era tão cativante e hilariante. Neles, era curioso observar as ceroulas brancas e compridas que vestiam para o banho. Algumas, de tão usadas, estavam encardidas e puídas no rabo e à frente e, às vezes, com falta de botões. Molhadas, revelavam à transparência tudo o que queriam esconder. A falta de botões fazia sair “para a rua” o apêndice, encolhido, revelador do medo que dominava o corpo do dono.
O banho deles era discreto e feito também na rebentação das ondas. Fincavam os pés com as pernas abertas e iam molhando com as mãos, a cabeça, o pescoço, os braços, esfregando-os como se estivessem a lavar-se em casa com sabão e o retirassem do corpo.
Iam juntar-se às esposas e seguia-se o almoço ao qual não faltava o garrafão de vinho e a melancia.
Quando a monotonia da digestão cansava, para distracção, agrupavam-se e jogavam às “abarcas”, cujo objectivo era fazer cair na areia o adversário. Agarravam (abarcavam) o corpo do jogador, passavam rasteiras, lançavam-no ao chão, rebolando na areia e espalhando-a por todos os lados. Muitas vezes os assistentes voluntários ou obrigados, por se encontrarem junto da luta, tinham de fugir do local.
Era curioso observar esses homens quando se levantavam e caminhavam ao longo da praia. O posicionamento corporal já deformado, imposto pelas longas horas de trabalho, debruçado sobre a terra, cavando, semeando ou regando, envelhecia-os antes de tempo. O corpo marcado pelo sol, escurecido nos braços e pescoço como se tivessem uma camisola de meia manga vestida. Todo este conjunto, punha a nu, a vida dura de trabalho de sol a sol, tida por aqueles homens e mulheres a quem chamávamos montanheiros.
A sua maneira de estar na vida, bem diferente da nossa, citadinos e impiedosos para com a diferença, era mais autêntica!!!!!!!!!!!!

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