quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Espírito da Ria

Por Ana Serafim
[Jornalista - Lisboa]

O cais de Faro está movimentado, com o entra e sai de barcos-carreira e dos táxis marítimos que levam os veraneantes para as praias da Ria Formosa. Passa pouco das 10h da manhã quando a pequena embarcação de passeios turísticos zarpa. Há que aproveitar a maré baixa para poder observar a biodiversidade local. «Quando a maré sobe, as aves escondem-se. Também optamos por canais secundários ou terciários, que são zonas mais calmas porque os barcos maiores não podem passar e é mais fácil ver a natureza», explica o guia Nelson.
Formando um sistema lagunar que se estende por 60 quilómetros no litoral algarvio – desde a península de Cacela, na Manta Rota, até à Península do Ancão, em Loulé – o Parque Nacional da Ria Formosa é um labirinto de sapais, dunas, ilhotas e canais. Servem de casa a moluscos (284 espécies), peixes (79), répteis (15), anfíbios (11), mamíferos (18) e 214 espécies de aves, que não tardam a dar ares da sua graça.
De binóculos em riste, avista-se uma cegonha branca, imponente, do alto das suas pernas cor-de-laranja, da mesma cor do bico. Pouco depois, surgem os colhereiros, com o seu bico em forma de colher. E ainda uma garça branca pequena. No alto, as andorinhas do mar, de penas brancas e cinzento claro, fazem o seu bailado. Usando a força do corpo, uma faz um voo picado e mergulha de cabeça. Traz um peixe, que uma companheira, invejosa, tenta roubar. Sem sucesso, até que, a pescadora habilidosa aterra no sapal. E partilha a refeição com a adversária.

A zona está coberta de morraça, que submerge quando a maré sobe. A sarcocórnia, a cistanca – que só existe no Algarve, Sul de Espanha e Creta – e a sapeira, também conhecida por lavanda do mar devido ao aroma e à cor roxa das suas flores, compõem o quadro. O toque final é dado pela salicórnia, ou espargos do mar. Afirma o guia que é uma especialidade da Ria, que surge nas zonas de salina, muito apreciada pelos franceses, que já a usam em receitas culinárias gourmet.
Entretanto, uma garça real dá cor ao castanho escuro das terras na zona dos viveiros, onde os viveiristas escavam com pequenas pás, cuidando das suas culturas. «É exactamente como a agricultura. Se não tratarem dos viveiros, ficam sem toda a produção», afiança Nelson. E sublinha que no Parque Natural da Ria Formosa concentram-se 80% da produção de amêijoa do país.


Aqui e ali, vislumbram-se pescadores à procura de isco. Numa cabana verde, duas mulheres concertam uma rede de pesca.
Um senhor mantém-se imóvel, imerso com água até ao pescoço. «Provavelmente tem uma rede numa mão e com a outra vai remexendo a terra do fundo da ria, para apanhar caracóis do mar», adivinha o guia.
À medida que nos aproximamos da ilha da Faro, a existência de casebres e pequenas habitações aumenta. A presença humana começa a fazer parte da paisagem. A circulação de barcos faz agitar a calmaria das águas salgadas.
E é já com terra à vista que Nelson explica: «Na verdade, a ilha de Faro é uma península já que está ligada ao continente pelo Ancão. Seguindo a pé, vamos ter à Praia do Gigi, na Quinta do Lago». Aqui, há várias casas de férias e muitas famílias, a pé ou por água, rumam a banhos nas praias das ilhas da ria, de chapéu-de-sol debaixo do braço. Vêem-se também muitos grupos, de cócoras, lenços na cabeça, a apanhar amêijoa. Alguns já têm baldinhos e sacos de rede bem aviados. Seja para consumo próprio ou para venda, há que tratar do almocinho, antes que, daí a pouco tempo, a maré suba e cubra toda a zona de água. Há pais e filhos a jogar futebol na areia. E também quem faça caminhadas, aproveitando o sol. As crianças apanham estrelas-do-mar e as conchinhas brancas que polvilham a areia.
Vêem-se ostraceiros, que parecem pinguins mas com bico laranja. Um maçarico real esgravata na areia, à procura de petisco, usando o seu bico longo e curvado para baixo. Um fuselo, de tons castanho terra e de bico também comprido mas inclinado para cima, faz o mesmo. E uma rola marinha sobrevoa a embarcação.
«Sintam este cheiro», adverte Nelson. Enquanto, o silêncio se entranha, apura-se o nariz para sentir o odor a terra molhada, a crustáceos e a relva húmida. É o espírito da Ria.


[Adaptação da autora, de texto publicado na Revista Essencial, do Semanário Sol]

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