segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Ilha de Faro (anos 45/54)

Por Lina Vedes
[Escritora algarvia]

Havia só uma possibilidade de chegar à praia, o barco. A partir dos meus oito anos comecei a frequentá-la com alguma assiduidade, perdendo o medo e tirando prazer.
Tenho como recordação negativa, a mãe contratar um banheiro para me mergulhar nas ondas da costa. Nada mais do que sete mergulhos. Era da praxe para dar sorte… não sei se à vida!
Da primeira vez fui apanhada de surpresa, agarrada pelas costas sem possibilidade de me safar. O tal homem, intitulado banheiro, tapou-me a boca e nariz com a manápula, prendeu-me as pernas entre as dele e com o outro braço rodeou-me a cintura. Na água, começou a contagem, 1…2…3…e pumba, mergulho após mergulho, sem espaço para respirar.
Uma experiência de terror absoluto.
A segunda vez, já alertada, apercebi-me de alguém que, sorrateiramente, se aproximava. Mudei de lugar e vi as manobras. Desatei a correr empregando o máximo esforço. Ninguém sabe, o que se sente, quando se verifica que se vai ser apanhado sem salvação possível. Corria, sabendo que seria alcançada, mas corria desesperadamente, na esperança louca de me salvar. O coração a martelar, a boca seca, a cabeça a explodir… e as forças a falharem…

A mãe, ao aperceber-se do meu pânico e pela experiência anterior, salvou-me desse segundo banho.
Uma ida à praia envolvia um grande ritual.
Normalmente era ao sábado ou domingo, ficávamos todo o dia e tínhamos de levar comida.
Levantávamo-nos cedo para fazer o almoço, arroz com choco, bacalhau ou carne, retirado do lume antes de estar completamente cozido para que o arroz, na altura de servir, estivesse mais saboroso. O tacho era embrulhado em papel de jornal para o manter quente e guardado na saca de transporte. Levávamos pão, banha corada e às vezes lá aparecia uma fatia de fiambre ou queijo e uma peça de fruta por pessoa.
Havia que levar pratos, talheres, copos, toalhas e guardanapos (ainda não havia descartáveis). Não faltava um garrafão com vinho e outro com água e nos dias de melancia, era escolhida a maior.
O toldo implicava 4 paus, cada um com um metro e pouco. A dois deles, estava preso o pano, esticado e cosido, tendo cordas penduradas em cada extremidade. Os outros dois eram espetados na areia e suspendiam o pano na parte superior. Era um bom peso a ser transportado aos ombros do meu pai.


Imagem de Augusto Martins- Passatempo Algarve Vintage


Toda a família era envolvida para transportar os sacos até ao barco. Descíamos a rua Baleizão, virávamos no hotel Faro, atravessávamos todo o jardim, a zona do mercado e aí já começávamos a ouvir os apitos do “gasolina” a apressar o pessoal para o embarque. A carga pesava bastante, tornava-se incómoda e precisávamos de nos apressar. Sabíamos que o gasolina só partia quando cheio, mas nós queríamos um lugar sentados. Eu e o meu irmão preferíamos o tejadilho.
A mãe coordenava a concentração dos sacos com o tacho e utensílios correspondentes, dos garrafões e melancia, do toldo, das toalhas e roupa, tudo junto de nós e preparava os trocos para o pagamento, vinte e cinco tostões por pessoa.
Havia que aguardar que o barco enchesse e de que maneira?!
Até transbordar, sacos em cima de sacos, pessoas em cima de pessoas, sentados, de pé, agarrados do lado de fora, valia tudo…
Mais um apito e lá começava a tarefa de desamarrar o barco da ponte. Já em ligeiro andamento, surgiam sempre três ou quatro atrasados que provocam mais uma demora e mais um encaixar de pessoas. Finalmente, o barco arrancava, deitando fumo por todo o lado e cheirando, profundamente, a gasóleo…
Existiram vários barcos fazendo a carreira entre Faro e a Praia.
O primeiro a surgir levava, unicamente, 20 pessoas e pertencia a uma empresa de Vila Real de Santo António. O senhor António Evaristo Santos, proprietário das camionetas Santos, que circulavam entre Faro e S. Brás, adquiriu o barco – “Praia de Faro”.
O “Ria Formosa” administrado pelo senhor Marum, o” Isabel Maria” pertença do senhor conhecido por Cantiguinha, o “Gavião” e o “Alegria” foram mais tarde pertença de Francisco do Carmo, conhecido por Chico Alemão, cujo filho, com o mesmo nome trabalhou com ele (informações colhidas junto do Chico/filho).
Mestre Chico, proprietário, dava as ordens. Homens à proa e à ré e ele ao volante, na sua cabine, procurando encaminhar o barco no rego de água mais fundo. Muitas vezes o barco encalhava, durante a maré baixa, obrigando a uma paragem forçada no meio da ria, e lá ficávamos até a maré encher. Chegámos a estar uma hora e mais, dentro do barco, retardando a chegada à praia ou a casa, se fossemos apanhados no regresso.
Dava uma boa reportagem fotográfica o espectáculo de um barco transbordando de pessoal que dava” palpites”para a resolução do problema. Havia telefonias em altos berros, gente barafustando, crianças chorando… e dores de barriga só aliviadas num buraco, entre tábuas, a encobrirem a intimidade de cada um.

Imagem de Nuno Graça-Passatempo Algarve Vintage


Chegados à praia, havia três locais de desembarque, a ponte do meio, a de cima e a de baixo. Normalmente, as pessoas saíam todas ao meio da praia, porque os extremos eram para quem tinha casa.
O sair do barco, depois de amarrado à ponte, era outro espectáculo. Atropelos, medo de sair e de pôr o pé na ponte, bagagem perdida, pressa de chegar, tudo complicava.
As pessoas dividiam-se. Uns ficavam à beira ria, com areia branca e água maravilhosa, com a possibilidade de dar mergulhos da ponte. Outros iam para a costa, que ficava distante.
Decisão tomada impunham-se mais tarefas até se poder respirar e dizer: - Finalmente!
Havia que montar o toldo no lugar escolhido, colocar os sacos à sombra, enterrar os garrafões na areia, junto à rebentação, para refrescarem os líquidos contidos e por fim o tão desejado banho.
A ria proporcionava às crianças prazer máximo com pouco perigo e naquela altura não havia poluição (nem se sabia o que isso era). Quando não se levava toldo, podíamos ficar debaixo da ponte. Só que, a maré ao subir, reduzia-nos o espaço e ficávamos uns por cima dos outros.
Na costa, havia o perigo das ondas, mas o espaço era grande e podíamos estar à larga, sem implicar com vizinhos indesejáveis.
A distância da ria à costa era feita por um extenso areal, cheio de pitas secas, que se espetavam nos pés. Existiam poucas casas e a língua de areia triplicava o tamanho actual.
À hora do almoço começava nova cena. Mãos limpas, todos sentados na areia, toalha no centro com a panela, pratos e talheres distribuídos. A mãe punha a comida a cada um, mas aconteciam sempre acidentes. Água ou vinho derramados, areia no ar, guerra aos mais pequenos que não sossegavam.
Acabada a refeição os pratos eram lavados na água do mar, esfregados com a areia e os lixos eram enterrados (não existiam caixotes de lixo, nem educação ambiental).
Tudo era guardado com mais arrumação e menos peso. Duas horas infindáveis para a digestão, e de novo o desejado banho.
Perto das 19 horas, o regresso ao barco, com a ponte repleta de pessoas, numa fila infindável.
A viagem de regresso era idêntica, com a mesma confusão e a mesma possibilidade do barco encalhar.
Este era o nosso Mundo, a nossa possibilidade única de ir à praia.
Não conhecíamos outra, não tínhamos escolha, mas a felicidade reinava!!!!!!!!!

Doca de Faro

[Crónica gentilmente cedida pela autora e anteriomente publicada no livro "Pedaços d'Ontem na Cidade de Faro"]

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