terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Memórias do Cinema em Faro

Por Jorge Carrega
[Docente e Investigador Universitário]

A primeira vez em que assisti a uma sessão de cinema tinha sete anos de idade. Recordo-me dessa tarde solarenga em que eu e os meus colegas da segunda classe saímos da escola do Carmo em Faro, acompanhados pela nossa professora primária, e nos dirigimos ao Teatro Lethes. Foi ali, com o olhar fixo no grande ecrã, que descobri a magia do cinema.
O filme escolhido pelo Cineclube de Faro foi “ A Quimera do Ouro” e mal poderia eu imaginar que naquela mesma sala onde no início dos anos 80 conheci Charlie Chaplin, se havia realizado em 1898 a primeira sessão de cinema no Algarve.

Teatro Lethes - pormenor do interior

Se no início do século XX, o cinematógrafo não era mais do que uma curiosidade, alguns anos depois, em plena Iª Guerra Mundial, a popularidade do cinema na capital algarvia era tão grande que alguns notáveis decidiram constituir uma sociedade com o objectivo de construir e explorar comercialmente o Cine-Teatro Farense, uma moderna sala de espectáculo que permitia aos farenses desfrutarem das “fitas” com todo o conforto.
Por ali passaram os filmes épicos de D.W.Griffith e Cecil B. De Mille, as comédias de Charlie Chaplin e Buster Keaton, as histórias de gangsters de James Cagney e Humphrey Bogart, as aventuras de capa e espada de Errol Flynn, os westerns de John Wayne e os musicais de Fred Astaire e Ginger Rogers.
Após a II Guerra Mundial, esta sala que durante 35 anos constituiu o ponto de encontro de todos os cinéfilos farenses, tornou-se obsoleta, sendo demolida em 1952 para dar lugar a uma sala moderna, que entre outras inovações, apresentava um projector automático. Nascia assim, o Cinema de Santo António, inaugurado com pompa e circunstância no dia 31 de Dezembro de 1953.

Cinema de Santo António - interior


O início da década de 1950 marcou de resto uma era de ouro na história da 7ª arte. Em tempo de paz e recuperação económica e com a massificação da televisão a mais de uma década de distância, o cinema assumia-se como a grande forma de entretenimento de massas, juntamente com o futebol e a rádio.
Prova da importância do cinema na sociedade algarvia dos anos 50 foi a inauguração, com poucas semanas de diferença, de duas salas de cinema no concelho de Faro.
Estávamos no verão de 1950, quando a sociedade que explorava o Cine-Teatro Farense inaugurou o S. Luís Parque, um cine-esplanada que se situava nas imediações do mercado Municipal e proporcionava à população local a possibilidade de assistir a sessões de cinema e a espectáculos de variedades ao ar livre durante os meses de verão.
Igualmente no concelho de Faro, a pitoresca aldeia de Estói inaugurava no dia 13 de Agosto o cinema Ossónoba, iniciativa de um empresário da terra, José de Jesus Zeferino, que deste modo contribuiu decisivamente para a divulgação da 7ª Arte no interior do concelho.
É também neste período que o cinema começa a ser encarado como algo mais do que um mero entretenimento. Nesse mesmo verão de 1950, o artista e intelectual sambrasense, Roberto Nobre, assinava um artigo de opinião no jornal “O Algarve” sobre o importante papel dos cineclubes na promoção da cultura fílmica. Segundo Roberto Nobre, ele próprio autor da primeira obra cinematográfica algarvia, a curta-metragem “Charlotim e Clarinha”, realizada em Olhão em meados dos anos 20:

“No cinema, não há apenas uma distracção fútil, para depois do jantar. Há também, é preciso não o esquecer, uma grande arte como todas as outras. É necessário aprender a vê-lo, a saber escolhe-lo. O Cinema ainda é um grande desconhecido. A missão do cineclube é revelar-lhe essa sua face mais elevada”.
In “O Algarve”, 11 de Julho de 1950


Poucos anos depois, em 1956, num claro sinal da importância da cultura cinematográfica para as elites culturais farenses, nascia o cineclube de Faro, instituição que se mantém em actividade, sendo hoje um dos mais antigos cineclubes portugueses.
Pelo Cinema de Santo António, pela Esplanada S. Luís Parque, pelo Cinema Ossónoba e pelas restantes salas de cinema do Algarve, passavam por esta altura estrelas como Kirk Douglas, Marilyn Monroe, Charlton Heston, Cantiflas e tantos outros que fizeram a história do cinema, em êxitos como “Quanto Mais Quente Melhor”, “Ben-Hur”, “A Volta ao Mundo em 80 Dias“ e “Spartacus”, que fascinaram gerações de algarvios.
Com o final da década de 60, chega a massificação da televisão e com ela uma profunda transformação dos hábitos de lazer dos portugueses que preferem ficar em casa a ver séries como “Bonanza” e “O Santo”, e a partir de 1977, telenovelas brasileiras como “Gabriela” e “A Escrava Isaura”.

A alteração dos hábitos de consumo audiovisual que se verificou ao longo das décadas de 70, 80 e 90 teve como consequência directa o declínio do número de espectadores de cinema, registando-se o encerramento de um grande número salas de cinema por todo o país.
Em Faro, a primeira vítima foi o cine-esplanada S. Luís Parque, no início da década de 90, logo seguido pela sala de cinema do centro comercial Algarb.
Alguns anos depois, seria a vez do Cinema de Santo António, cuja derradeira sessão, promovida pelo Cineclube de Faro em jeito de homenagem, se realizou no dia 31 de Julho de 2001 com a exibição do filme “Cinema Paraíso” de Giuseppe Tornatore, obra que constitui uma das mais belas homenagens alguma vez feitas ao cinema.
São poucas as antigas salas de cinema que sobreviveram no Algarve. Felizmente o Cine Teatro António Pinheiro em Tavira (inaugurado em 1968), o cinema Ossónoba em Estoi (inaugurado em 1950) e o Cine-Teatro Louletano (inaugurado em 1930) foram adquiridos pelas respectivas autarquias, ficando assim salvaguardada uma parte importante da história do cinema no Algarve.

Teatro Lethes - Faro

2 comentários:

  1. Excelente artigo! Uma belíssima «viagem» pela história dos cinemas em Faro, especialmente. Interessantíssimo do ponto de vista dos conteúdos (da história e da história do cinema).
    Parabéns!

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  2. Muito interessante. É raro encontrar informação sobre a história cultural do cinema.

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