quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

A minha lenda da amendoeira em flor

Por Sofia Figueiredo
[Investigadora em Biologia de Sistemas – Berlim]

Guerreiro que não conhecia o sabor da derrota, Ibn-Almundim reinava em Chelb, então capital do país a Ocidente, Al Gharb. Um certo dia aprisionou um barco, crê-se de origem Vândala, que tentava acercar-se das costas de seu território com a clara intenção de saquear seu Reino, hoje, dos Algarves. Fez destes navegantes do Norte seus prisioneiros.

De espada em riste e armadura gasta e batida, o rei Yordok von Prūsa defendia o seu território na costa Báltica com fervor. Numa batalha com povos do Sul, fez seus prisioneiros uma horde de cavaleiros do Deserto, que tentavam conquistar as suas terras. Avistou um cavalo de sangue árabe, galopante, a tentar escapar e logo saíu em seu encalce.

Entre eles, estava Gilda, filha das terras do Norte, de longos cabelos de oiro, a lembrar a Ibn-Almundim searas de trigo sem fim, banhadas pelo sol, de olhos de um azul puro, límpido, onde o rei Árabe mergulhou, como se nos mares da costa de Al Gharb mergulhasse. E fez-se ele prisioneiro de um amor arrebatador, que o avassalou a ele e Gilda. Casaram-se e o Rei árabe, feliz, em todos os seus actos demonstrava o seu amor por Gilda, igualmente correspondido.

Ao confrontar quem tentava escapar, Yordok von Prūsa, não conseguiu escapar aos encantos da beleza de Isra, filha do Mar do Sul. Deixou-se emaranhar nos seus cabelos longos, cor dos castanheiros de suas terras, ondulados como o seu mar, perdeu-se no seu olhar, cor de esmeralda, profundo e misterioso. E perdeu-se Isra também, nos contornos desta armadura, que tanto sangue já vira, mas que escondia um coração de menino, palpitante de amor. Amaram-se, casaram-se e foram felizes.

Um certo dia, Ibn-Almundim olhou a princesa nórdica e viu que o brilho do seu olhar desaparecera, que o seu sorriso já não tinha a luz de outrora... ao questioná-la sobre o que se passava, ela explicou-lhe que um certo vazio, uma nostalgia profunda que não conseguia explicar, dela se apoderara.

Um dia, o Rei Yordok olhou a sua princesa e não a reconheceu. O seu olhar era baço, os seus cabelos perderam o vigor das ondas do mar, a sua pele perdera a cor. As tentativas para perceber o que se passava com o seu amor, foram vãs. Isra não sabia explicar que mal a assolara. "Um manto negro caíu sobre mim", dizia-lhe.

O Rei Ibn-Almundim de tudo tentou para recuperar o sorriso de sua princesa, mas todas as tentativas foram em vão. Decidiu chamar os sábios da corte e expor-lhes o seu problema, à procura de uma solução. Aldir, o mais velho de seus sábios, pensou no que poderia afectar a princesa Gilda e, dias mais tarde, apresentou-se ao Rei. "O que aqui o traz, sábio Aldir?", questionou o Rei, "Trago amêndoas ", respondeu Aldir. O rei pensou que, além de sua amada ter perdido a luz do olhar, o seu sábio tinha agora perdido a luz da razão. Desesperado, perguntou: "Mas para que quero eu amêndoas?????", "Semeie estas amêndoas em todos os campos de sua corte e, no início de uma Primavera, o sorriso de Gilda voltará a iluminar o seu coração, meu Rei".

Desesperado e tendo já de tudo tentado para recuperar a sua princesa, o Rei Yordok von Prūsa chamou os seus sábios à corte. Sem demoras, o sábio Stasdir disse-lhe: "Meu Rei, leva a Princesa a passear nos teus campos no dia mais frio e mais luminoso de Inverno. Mas atenção! Tem que ser um dia de Sol, depois de uma grande tempestade". O Rei, enraivecido, disse ao sábio que estava louco, que as mais caras jóias de todo o território do Leste, as mais preciosas especiarias, nada fizeram, como é que um simples passeio pelos bosques iria devolver a luz à sua princesa?

O Rei, apesar de sem crença, seguiu o conselho de Aldir. Depois de Verões de calor assolante, de Outonos de ventos enraivecidos, de Invernos inundados de temporais, chegou mais uma Primavera. Uma certa manhã, em seus aposentos, tão escuros como a sua alma, Gilda dirigiu-se à janela e abriu-a de par em par, como fazia todas as manhãs.

Passou uma florida primavera, um verão assolante, um outono de folhas esvoaçantes e Isra continuava taciturna, cabisbaixa. Chegou o Inverno, límpido, estéril, branco. Numa manhã de céu azul, sol frio e chão branco, Yordok von Prūsa, sem esperança, seguiu o conselho de Stasdir.

Ilustração de José Maria Oliveira

Mas nesta manhã de Fevereiro, tudo foi diferente. Ao avistar os campos brancos, as árvores nuas, beijadas pela delicada flôr branca de amendoeira, a princesa rejuvenesceu e correu para o Rei, seu amor. Entre beijos e abraços efusivos, não conseguiu encontrar palavras para descrever o que seus olhos de azul límpido viram, ao abrir aquela janela. "Um manto branco cobre todo o teu Reino, meu Rei, tal como todos os campos do meu país estão cobertos por neve! Floquinhos brancos, leves caíram nos ramos das árvores, aqui e ali!! Ah, meu amor, não caibo em mim de felicidade!" E também o Rei não coube em si de felicidade por ter devolvido o sorriso e um pouco das terras do norte à sua Princesa.

Ao sair de seu castelo e avistar os campos brancos, Isra não conteve um grito de excitação! "Meu amor, que avista o meu olhar? Estes campos cobertos de branco, as árvores nuas beijadas de pequenas e brancas flores, são como as amendoeiras em flor do meu Reino a Sul!" O Rei não coube em si de felicidade por ter devolvido o sorriso e um pouco do Sul à sua Princesa, e ainda acrescentou: "E sabes uma coisa, aqui neste manto branco, até podes esquiar!"

Nota: A lenda das amendoeiras em flor de Ibn-Almundim e Gilda foi adaptada, ao sabor da minha imaginação, a partir de uma versão desta lenda contada pela minha mãe. Tudo o resto é pura ficção.

3 comentários:

  1. Sensibilidade e bom gosto. Muito bom, este olhar sobre os dois lados que toda a lenda (moeda) tem.

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  2. Olá.
    Reparei que no teu blogue tens alguns guias para o que Algarve tem de melhor e aprovo plenamente a tua iniciativa. Por isso gostava de deixar aqui uma sugestão, porque não incluir também um guia com os melhores restaurantes no Algarve.
    Teno um a sugerir.
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  3. obrigada pelo simpatico comentario! :)
    sofia

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