terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O mestre Diogo Tavares


Por Daniel Santana
[Historiador de Arte - Faro]

Foi há 11 anos. A recém-concluída licenciatura em História da Arte suscitava um interesse e um olhar renovado sobre o património da região. Lembro-me de contemplar a magnífica e monumental fachada da Igreja do Carmo de Faro, com os seus ricos vãos decorados com molduras de sabor romano, e de se desvanecer a ideia de escala gigantesca ao entrar no templo. O interior tinha afinal dimensões bem medianas que não correspondiam à monumentalidade sugerida pela fachada. “Típico ilusionismo barroco”, pensei eu.
O átrio da igreja era e continua a ser um espaço acolhedor, distinto e dinâmico, em grande medida devido ao subtil encurvamento das paredes que suavizam o trânsito até à nave. No coro alto apreciei, por fim, a exuberante decoração das portas, composta de flores, fénix, putti, golfinhos e leões em pedra, seguindo um vocabulário que se assemelha ao gosto reflectido na talha do interior das igrejas. Espaços dinâmicos, tendência para a monumentalidade e um decorativismo arrebatador. “Estamos, claramente, na presença de um arquitecto do barroco”, voltei a pensar.



Interior da Igreja do Carmo - Faro


Os estudos do Professor Francisco Lameira forneceram-me, entretanto, o nome do autor de tão imponente obra: Diogo Tavares e Ataíde, mestre-canteiro, nome identificado no arquivo da Ordem Terceira do Carmo de Faro e que foi responsável pela campanha de reconstrução da fachada da igreja durante os anos 40 do século XVIII. A sua actividade era também associada a outras obras nas cidades de Faro e de Tavira.
Pouco tempo depois, numa incursão ao Arquivo Distrital, vários manuscritos empoeirados do século XVIII brindaram-nos com surpreendentes revelações. Uma série de documentação inédita informava sobre as responsabilidades daquele artista na origem de obras emblemáticas do património arquitectónico do Algarve. A continuação da investigação permitiu conhecer a fundo a vida e obra de Diogo Tavares, o mais notável arquitecto algarvio do século XVIII, motivando inclusive uma dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Letras de Lisboa em 2006.
O mestre nasceu em Faro em 1711, aprendeu o ofício com seu pai, entalhador. Terá evoluído num grande estaleiro de obras – Mafra? – e regressado ao Algarve. Casou em Tavira, faleceu em Lagoa. Enriqueceu, ganhou fama no Sotavento e morreu na miséria no Barlavento. Construiu e reconstruiu obras de relevo na região, como por exemplo, em Faro, o referido corpo da fachada do Carmo, a capela da Horta do Ourives, a inusitada torre octogonal da Horta dos Cães próximo da esquadra da PSP, a Igreja de São Francisco e a Ermida de Santo António do Alto. Em Tavira interveio na Ermida de São Sebastião, no Convento da Graça, no Palácio da Galeria, nas igrejas de São José e de São Pedro Gonçalves Telmo. Trabalhou ainda em Castro Marim e Monte Gordo.
Não só ajudou a introduzir no Algarve uma arquitectura sensível ao Barroco internacional, como também restaurou e recuperou, com os critérios do seu tempo, muitos edifícios notáveis que já existiam na região. Ou seja, produziu cultura do seu tempo e simultaneamente preservou a herança do passado. Óptima lição para os nossos dias.

Não posso deixar de pensar no muito que o Algarve, e o turismo em particular, pode beneficiar através da preservação e valorização do seu património histórico-cultural. O passado foi negligente neste aspecto, inclusive para as obras do mestre Diogo, e o que é feito no presente ainda não satisfaz. É o património que distingue, identifica e fixa a memória de uma região, potenciando a sua atractividade.
Preservar a herança do passado seria hoje o melhor presente para Diogo Tavares que, se por milagre fosse vivo, celebraria este ano o seu trecentésimo aniversário.


Igreja do Carmo-Faro

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