quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Os surfistas da cortiça

Por Sofia Cavaco Silva
[Jornalista - Loulé]

As memórias da minha infância não são feitas apenas do que fiz e do que vivi... são também recheadas de histórias e episódios que me foram contando pais, avós e tios.
Pertenço a uma família que tem uma ligação sólida com o interior algarvio e na qual as tradições foram passando “a olho” e também pelo poder da voz.
Por isso mesmo, há recordações que não sendo minhas me invadem cada vez que visito a terra natal dos meus avós e do meu pai. Estou a falar da antiga freguesia de Querença, que deu origem às actuais freguesias da Tôr e de Querença.
Ao longo da ribeira que atravessa essas freguesias e da Fonte da Benémola até à Ponte Romana da Tôr, quase cada recanto ou pego tem para mim uma recordação de brincadeiras com os meus primos ou de histórias que me contaram.
Foram muitas as vezes que durante o Verão fui com a minha avó Odete tomar banho ao pego junto do chamado “Castelo” da Quinta da Ombria. Águas límpidas onde nos refrescávamos no pico do Verão.
Como ainda não sabia nadar, ficava-me pela zona onde havia pé... mas confesso que sempre invejei a “malta” que se bamboleava numa corda atada a uma árvore como se fossem uns tarzans, atirando-se à água da forma mais “espampanante” possível!

Numa dessas vezes, o meu pai estava comigo e contou-me mais uma história de quando era pequeno e brincava na ribeira com os seus amigos... Contou-me que ele, o meu tio e um amigo arranjavam pedaços de cortiça e se punham a boiar e a nadar com eles pela ribeira fora.
Ainda hoje, de vez em quando, me recordo da frase que um deles disse: “Fomos os primeiros surfistas de Querença!”.
Pois calculo que sim... nunca vi a brincadeira replicada, ainda que a tente recriar mentalmente cada vez que passo nas margens desta ribeira.
Três putos, em tronco nu, nadando em cima de uma folha de cortiça... Uma brincadeira só possível num Algarve interior tão cru quanto deliciosamente genuíno.
Nos dias de hoje, os putos de Querença já não flutuam em folhas de cortiça... Existem outras brincadeiras. Mas ainda podem brincar com os apitos de cana que o Tonico da Ribêra faz com tanta habilidade e dedicação, ali nas proximidades.
A beleza natural deste recanto algarvio continua admirável.
E... quando a noite cai e não deixa perceber mais que o contorno da natureza envolvente... é hora de olhar para cima e deixar que o céu mais estrelado que alguma vez se viu nos espante acompanhado do som dos mochos e dos grilos!

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