quarta-feira, 9 de março de 2011

O corpo e a alma

A Sofia Figueiredo que nos acompanha desde Berlim e que já nos brindou com deliciosas histórias anteriormente publicadas na nossa rubrica "Das Imagens às Palavras", vem mais uma vez encantar-nos com a magia dos seus textos e da alma algarvia que sai de um arroz de bacalhau com coentros.

Será que os objectos têm alma? Um poeta disse que sim, que basta acordá-la. E outro poeta disse que esta alma se pode perder, esvair, basta ter um passo no corpo mais rápido que o da alma.
Eu concordo com os dois poetas, mas digo também que a nossa alma não está só em nós, temos também um bocadinho da nossa alma nos que amamos, na nossa terra, na casa a que chamamos casa. E há bocadinhos da nossa alma que vão acordando, outros adormecendo, despertados pelas sensações de que os nossos sentidos são portadores, como o cheiro da terra molhada, o sabor da laranja acabada de apanhar, o sentir o sol quente na pele… Podia continuar a divagar até chegar ao arroz de marisco com muitos coentros, que sabe mesmo a casa. Que foi o que eu tentei fazer, versão arroz de bacalhau fresco, usando a técnica milenar que o povo algarvio usa e que passou da minha avó para a minha mãe e para mim.

Cortei duas cebolas aos cubinhos, um dente de alho, uma folha de louro e fritei em azeite importado directamente do Algarve. Quando a cebola começou a guinchar, juntei uma lata de tomate inteiro pelado, mexi, juntei um copo de vinho branco, mexi e tapei.
Deixei o calor do fogo brando exercer a sua função durante 10 minutos. Voltei a mexer e juntei os filetes de bacalhau fresco e flor de sal de Olhão.
Dez minutos depois, retirei e reservei o peixe. Juntei o arroz (que convém ser de bago gordo) e fui acrescentando água a ferver conforme o arroz a ia pedindo. Até o arroz já estar cozido. Entretanto já tinha picado um molho de coentros e descascado mais um dente de alho. Primeiro foi o peixe que voltou para a panela, depois foram os coentros e finalmente acrescentei um dente de alho picado com um gole do resto do tal azeite. Mexi tudo muito bem e os cheiros que emanaram da panela e a visão do “verde-coentro” e “vermelho-tomate” teletransportaram-me a casa por instantes.


Com os pés dois palmos acima do chão, a panela levou-me à mesa. Brindámos, comemos e deliciámo-nos.

Mas não sabe ao mesmo, mesmo que seja a réplica daquele maravilhoso arroz que se come na tasca do Zé Maria (aquela na Praia de Faro), ou em casa, na “casa-terra”, “casa-mãe”. Lá, tem outro sabor.

A este meu arroz, que levou todos os ingredientes faltou algo e os especialistas podem divagar sobre as diferenças de temperatura, de pressão, sobre as diferenças entre fogões e cozinheiros que explicam o sabor diferente que a mesma receita pode ter quando cozinhada em sítios diferentes e por pessoas diferentes, mas a mim não me enganam. O que acontece é que não se pode transportar a alma dos nossos objectos animados assim, na mala do avião, sem mais nem menos.





Por Sofia Figueiredo

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