sexta-feira, 1 de julho de 2011
O que é que o Algarve tem?
A Maria Álvaro Mendonça escreve...
ALGARVE
Quero em meus olhos o prazer da dor
dos fortes aguilhões da intensa claridade
e o mágico exagero de azul, branco e luz
p'ra sarar no peito a chaga da saudade.
Nos campos a suavidade da doce neve em flor,
nas praias o calor dos corpos semi-nus,
e na areia bordada de artes rochosas
quero ondas dengosas p'ra me acariciar.
E quero as carroças... e os burros chorões,
que em minha terrinha já não vejo andar;
e a montanhêra e o pescador
eu vou lá na fêra ouvir conversar
em meio ao chilreio cheio de humor
das notas melosas que a gente produz.
E logo à tardinha, vendo o sol se pôr,
aldeias branquinhas de casas mimosas
parecem conchinhas brilhando aos montões...
Conversam varandas com malvas viçosas,
que sobem escadinhas, trocam posições
- são templos, sacrários de imagens airosas,
que escutam ditosas sensuais confissões.
E as mil chaminés de rendas ímpar,
incensam virtuosas com o odor dos menus,
são dedos que calam tristeza e horror
e apontam p'ro céu com o vigor de uma cruz.
E em horas gulosas vou saborear
sardinhas nos pães, uvas e melões,
manjares de amêndoa a que o céu faz jus,
e com todo o fervor os dedos chupar.
E então nas pracinhas, à noite, ao luar,
quero asas nos pés, feitiços, condões
para esvoaçar em mil rotações
louco corridinho de saias fogosas...
E enfim ao deitar, apagada a luz,
silêncios e grilos eu quero escutar.
E embalando sonhos, tal suaves canções,
murmúrios das belas mouras de encantar...
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