segunda-feira, 11 de julho de 2011

O que é que o Algarve tem?

O Vítor Barros conta...

Bem…O que é que o Algarve tem?

Tem tudo quanto preciso para todos os anos regressar.
O sol, o mar, os doces, o vinho, os figos lampos…
E tem as pessoas. Principalmente as pessoas e entre elas os pescadores de Monte Gordo.
Para eles a minha homenagem e a esse bar onde todos os anos nos juntamos….
Bem…O que é que o Algarve tem? Tem:

O Bar dos Pescadores de Monte Gordo


Ao fundo do areal, onde a praia dos turistas acaba, existe um bar. Nesse bar, com cancelas pintadas de branco e de azul, reúnem-se os homens que lidam o mar. São pescadores que, logo pela manhã, tossem, fumam, bebem cerveja, copinhos de aguardente, de brandy e de vinho.
Hoje passei por lá. Cedinho. Manhãzinha ainda o sol estava em sonhos. É sempre cedo naquele bar e mesmo em pleno inverno, pelas sete da manhã já está aberto. Fica no areal, plantado mesmo ao lado das casas em madeira onde os pescadores guardam os seus apetrechos e atrás dos barcos onde os usam.
Está rodeado por pequenas palmeiras e no interior tem uma decoração colorida e variada. Galhardetes de clubes de futebol, garrafas antigas, fotografias de barcos e azulejos com quadras de António Aleixo. Entre a parafernália colorida e o recato do preto e branco, descobri, mesmo ao lado do balcão e suspenso do tecto, pendurado nas brancas paredes, um quadro em vidro onde está emoldurada uma folha já acinzentada que descreve os “cuicos” de Monte Gordo e alguns dos seus dizeres traduzidos para a nossa linguagem comum. Lembro-me imediatamente do nosso grande Zeca Afonso que os imortalizou na sua canção: “Os Índios da Meia Praia”.



Continuo, sossegado, a beber o meu café, sentado a uma das mesas e ouvindo as conversas. Pescadores cansados do mar, gastos, calejados, olham-no pela porta aberta e dizem que hoje não vai deixar ninguém trabalhar. Bebem. Fumam. As conversas são salgadas. Falam do Toino que se reformou há dias, do filho do Bernardino que foi para Marrocos e do barco do Zacarias que parece que afinal sempre tem o motor partido. Bebo com eles, ouço-os, falo com eles.
À porta um cão de focinho rente ao chão parece farejar o vento que a maré empurra. Rosna-me. Um gato mira-me debaixo de uma das mesas e mia-me de olhar agreste. Está vento. Por cima do bar, meia dúzia de bandeiras esvoaçam já em parte gastas pela maresia e pelo olhar do gato. O dono do bar atarefa-se no seu interior. Ouço a frigideira chiar e começa a cheirar a fritos. Apetece-me. Os pescadores espreitam e esfregam as mãos. Falam do alemão que no outro dia esteve lá e que durante toda a tarde pagou cerveja e vinho para todos…Devia de aparecer cá hoje outra vez!
Mando vir vinho para toda a gente. Um jarro de cor rosada aparece na mesa e é despejado pelos copos. Aquece a garganta. Sabe bem. As conversas aquecem. A frigideira chega fumegando. Ovos, chouriço, presunto. Aparece mais vinho. Aparecem mais pescadores. Sentam-se. Provam. Na rádio, música antiga. Há quem comece a cantar. Alguns turistas matinais espreitam e entram. O cão rosna-lhes olhando-os de lado. O gato esconde-se debaixo da mesa. Não tenho jeito para cantar nem sequer quase para falar. Ouço. Reparo em mim: Barba grande, cabelo despenteado pelo vento, casaco salpicado de um branco seco feito de água salgada. Estou no meio deles comendo, bebendo, ouvindo. Aparentemente sou um deles. Ninguém dirá o contrário. Por ali fico mais um bocado. A conversa vai esmorecendo. A frigideira está vazia. O jarro. Os copos também. Despeço-me de todos. Prometo voltar à tarde. Quando saio o cão olha-me suavemente e abana-me a cauda num sussurro amistoso. O gato sai debaixo da mesa espreguiça-se e vem ronronando na minha direcção, deitando-se de barriga para cima.
Uma tarde eu voltarei. Quem sabe….talvez o alemão esteja ainda por lá!

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