segunda-feira, 8 de agosto de 2011

O que é que o Algarve tem?

A Fernanda Belchior Marques despede-se...




Pois é...
Uma das coisas que o Algarve tem é isto: A nostalgia da partida...


A NOSTALGIA DO FIM DAS FÉRIAS

E pronto, terminaram as férias.
Nas últimas semanas de Julho, o Algarve recebe-me sempre de braços abertos. Este ano estas duas semanas voaram como que levadas pelas cinzentas nuvens que o mar ao fundo engole.
Está calor e o mar visto aqui de cima, deste sexto andar onde estou, parece colorido por milhares de fios de prata que o vento faz oscilar formando depois pequenas ondas de saudade que se desfazem acariciando o branco da areia. Ao fundo, algumas nuvens, carregadas de uma macia lã acinzentada, acariciam as mansas águas e sorriem bocejando para os últimos raios de um sol já entardecido. Em breve irá anoitecer. Os últimos e resistentes veraneantes arrumam as toalhas e quais pardais chilreando alegremente, regressam felizes de mais um dia de nada fazer.
Famílias inteiras com filhos, tios e sogros, casais sozinhos, gente com cara de estrangeira, novos e idosos tagarelam pelas esquinas e dão animação a uma terra que em breve irá ficar praticamente deserta.



Em breve vou partir também!
Entretanto aqui de cima, do sexto andar nº 603, observo as redondezas.
A pastelaria Gostosa, o Bar do Karaoke, os pardais esvoaçando e chilreando procurando os ramos onde irão passar a noite.
O sol a esconder-se, o mar ficando triste.
No parque de estacionamento, um casal arruma nostalgicamente as malas no carro. Duas vermelhas e uma mais pequena amarela. Ao lado, o filho, pequeno de mais para perceber porquê, teima em perguntar porque se vão embora e puxa pelas calças do pai choramingando. Este desespera apoquentado com o arrumar das malas dado não conseguir arrumar a mala amarela. (Já experimentou duas ou três posições).
Acho que a mala amarela só tem brinquedos.
Em breve vou partir também!
Observo ainda o enorme passeio marítimo onde milhares de pessoas se acotovelam e misturam conversas, sons, cores e feitios. Gordos, magros, feios, feias, magras, bonitas, vistosas...
No fim do passeio, mesmo sem ver, vejo as barracas dos pescadores, os seus apetrechos coloridos, as suas caras tisnadas do sal, do sol, do frio e da noite. Vejo as suas mãos sulcando as redes, semeando o mar. (Lá em baixo o pai continua às voltas com a mala amarela onde um ursinho de peluche já tem o nariz de fora). Vejo os seus barcos, o "Duas Filhas" o "Ana Lúcia", cruzando o mar, semeando a vida com as suas redes. Vejo-os rezar, vejo-os chorar lágrimas grossas e sólidas de emoção, vejo-os orgulhosos caminhando em procissão abrindo alas para o andor passar. Vejo a imagem da padroeira, Nossa Senhoras das Dores, sorrindo sobre os seus ombros e ouço o cantor cantando à sua passagem, perante um povo ajoelhado, em silêncio sepulcral, diante de pescadores duros e negros do mar, ajoelhados chorando...





(Lá em baixo o pai finalmente conseguiu arrumar a mala amarela).
Vou partir também...
Continuo a ver e continuo a ouvir e a sentir o peso das imagens a força dos cheiros e dos sons. Está tudo pronto...Sou a última a descer.
Deixo cair uma lágrima e pego na mala. Uma pequena mala amarela que de certeza vai ser difícil de arrumar.
De um dos seus cantos um narizinho de peluche espreita. Pergunto-lhe porque tenho de me ir embora e agarro-me às calças choramingando...Para o ano cá estarei…Se Deus quiser!

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