segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Aqui nasceu o "Trovante"

Que o Algarve é uma região inspiradora já o sabemos e, nestas “memórias do turismo”, já tivemos a oportunidade de contar como inspirou músicas de grandes bandas: dos Beatles aos Barclay James Harvest.

Hoje recordamos como é que o Algarve viu nascer a já mítica banda portuguesa “Trovante”. Fazemo-lo através das palavras de Luís Represas, tal como ele as ofereceu ao Turismo do Algarve no livro “Algarve, 40 anos, 40 olhares”.


Luis Represas com os seus amigos, em Sagres, anos 1970


“Tenho com o Algarve uma relação no mínimo curiosa. Até aos meus dezanove anos as viagens ao Algarve contavam-se por um dedo de uma mão. Em 72 uma expedição espeleológica tinha-me levado a Estombar e à Mexilhoeira da Carregação.
Ficava longe esse Algarve. Longe demais para quem tinha a sua base de férias, os tais quatro meses de praia, na maravilhosa Costa da Caparica de então.
Volta não volta, chegavam-me notícias desse distante território através dos poucos colegas que frequentavam o Sul de Portugal. Notícias de águas quentes e cristalinas, falésias que mergulhavam no mar abrindo bocarras profundas de luz mágica e irreal.
Em 76 lá fui País abaixo, arrastado pelos amigos e pela paixão. Era então Sagres o destino. Poucos eram os que lá arribavam. Os nativos, os veraneantes que havia anos tinham adoptado a Ponta como segunda casa, e os “pés descalços”, fossem eles alemães, holandeses, ingleses ou portugueses, que de tenda e mochila à costas protagonizavam um primeiro género de Low Cost.
“Liberdade. Liberdade” gritava-se então. E em nome dessa Liberdade plantávamos as tendas junto à linha de maré-cheia num cantinho da Mareta onde não atrapalhássemos ninguém. Fogueiras para cozinhar, fogueiras para aquecer, fogueiras para namorar, fogueiras para tocar. Mas a praia sempre impecável, coisa que hoje em dia com todas as restrições e regras não acontece. Nem em Sagres nem no Céu. Mas nós éramos assim. Amávamos demais essa liberdade para deixar marcas indesejáveis naquele palmo de paraíso. Cinquenta metros acima, o Mar à Vista oferecia as melhores Lulas recheadas do planeta, o medronho mais selvagem do sistema solar e a simpatia mais quente do Universo. Aí, todas as noites, cinco rapazes juntavam-se de guitarras, flautas e bongós em punho, esgrimindo canções, desfazendo o stock de medronho e cerveja suportado pelos proprietários, que rapidamente tinham compreendido o sentido da palavra simbiose. Sem qualquer tipo de compromisso ou contrato, a gente abancava, bebia e tocava, os clientes animavam-se e eles viam a sua casa composta e a transbordar de freguesia.
E assim, neste remoto e desconhecido Algarve, rampa de lançamento da Glória Marítima Nacional, nasceu o Trovante, de onde nasci eu e todos os outros que o inventaram.
Tantos anos passaram. Já perdi a conta aos dedos necessários para contar as vezes que voltei desde então, maioritariamente para tocar, ao Algarve que ficou mais perto, muito mais perto, mas que, mesmo assim, ainda consegue guardar os seus maravilhosos segredos mais escondidos.
E podem ter a certeza que não serei eu que os vou revelar.”



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