quinta-feira, 21 de junho de 2012

Santos Populares


São João p’ra ver as moças
Fez uma fonte n’areia
Mas as moças não vão à fonte
E São João todo ele se anseia

São João divertido, maganão e o-la-ré,
Deixa-me este verão passare
E dá-me noivo São João, dá-me noivo,
Dá-me noivo que eu me quero casare.

São João p’ra ver as moças
Fez uma fonte de prata
Mas as moças não vão à fonte
E são João todo ele se mata.


Imagem daqui

Nos tradicionais festejos dos Santos Populares, com os seus arraiais e fogueiras de alecrim e rosmaninho, era comum ouvir-se cantar este tema e é com ele que aqui evocamos a forma como antigamente se celebrava no Algarve esta época festiva.

No mês de junho, nas noites de Santo António, São João e São Pedro, era costume armarem-se mastros que se enfeitavam com murta e rosmaninho e à volta dos quais se tocava e dançava alegremente. O cheiro do alecrim queimado identificava essas festas tradicionais em que não se deixava de acender uma fogueira por cima da qual se saltava dando vivas ao Santo.


As raparigas “casadoiras” divertiam-se tirando as “sortes”. Essas brincadeiras que relevam do supersticioso consistiam num jogo de adivinhação e interpretação do futuro através de uma variedade de situações que elas experimentavam. Muitas dessas “sortes” são referidas em trabalhos de recolha etnográfica como o “Livro do Alportel” de Estanco Louro, ou como “Um Algarve outro…” de Glória Marreiros. A sorte das favas, por exemplo,  permitia avaliar se o ano ia ser de abundância ou de miséria. Arranjavam-se três favas, uma sem casca, outra com metade da casca e uma outra com a casca toda. Passadas nove vezes pela fogueira eram colocadas debaixo do travesseiro, de onde, na manhã seguinte, ao acordar, seria apenas retirada uma. Se fosse retirada a fava toda descascada o significado atribuído era que os próximos tempos seriam de miséria. Ao contrário a fava toda “vestida” significava riqueza.

O cardo, ou alcachofra, usado nas "sortes"

Muitas das “sortes” estavam associadas ao casamento e as raparigas encontravam nelas as respostas que queriam sobre quando e com quem casariam. A queima dos cardos, o derretimento do chumbo ou a sorte da bacia de água são algumas das versões possíveis para estas brincadeiras onde o divertimento era mais importante do que a própria crença no resultado.

Quem quiser recordar ou descobrir como se celebravam os santos populares de antigamente, poderá rumar até Alte, no próximo dia 27 de junho, onde, no Polo Museológico Cândido Guerreiro e Condes de Alte, decorrerá um serão no qual as conversas girarão precisamente à volta das “sortes”.

Entretanto, já este sábado dia 23, há marchas populares para ver desfilar em Quarteira, num espetáculo grandioso que se tem vindo a impor no calendário de animação do Algarve e que promete fazer-nos passar uma alegre noite de São João.



Imagem daqui



Bibliografia

Algarve : tradições musicais. Faro : Grupo Musical de Santa Maria ; S. Brás de Alportel : Casa da Cultura António Bentes, 1995-2002

LOURO, Estanco. O livro de Alportel. 3ªed. S. Brás de Alportel : Câmara Municipal 1996.

MARREIROS, Glória. Um Algarve outro contado de boca em boca : estórias, ditos, mézinhas, adivinhas e o mais.... Lisboa : Livros Horizonte1991


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