terça-feira, 23 de abril de 2013

Há mais Algarve em Alcoutim

Vista de Alcoutim a partir do castelo

Um dia é pouco para percorrer Alcoutim. O concelho não é gigantesco em tamanho (apesar dos seus 577 quilómetros quadrados de área para desbravar) mas tem proporções enormes de tradição, cultura e silêncio que exigem mais tempo ao visitante desprevenido. Quem entra em Alcoutim encontra o vagar do interior algarvio, um ritmo feito à medida dos que sabem que a vida é ar puro. Boa gastronomia. E rio. E terra forrada de pinheiros-mansos, sobreiros, estevas e rosmaninhos. 

O desafio da viagem é desde logo abrandar a mente mantendo contudo um passo apressado que permita alargar os pontos de visita: é porque há muito para ver e outro tanto para ouvir da boca dos alcoutenejos, essa gente «simples e humilde que se abre com o coração», adjetiva o presidente da autarquia, Francisco Amaral.


Museu do Rio, em Guerreiros do Rio

Por isso mesmo o nosso ponto de partida será uma história, a de José Murta Pereira. Nasceu em Guerreiros do Rio, localidade situada a 8 quilómetros da vila de Alcoutim e que hoje junta num espaço museológico perto de 28 réplicas dos barcos que navegaram no Guadiana até meados da década de 60 do século XX. Dizíamos nós que íamos contar a história de José Pereira e acabamos a falar do acervo do Museu do Rio? Pois bem, as duas misturam-se. As miniaturas expostas no museu de Guerreiros do Rio, que funcionou em tempos como escola primária, saíram das mãos de José. A primeira que construiu foi a «Lucília», uma lancha de pesca que ofereceu à sua mulher e que acabaria por ficar com o nome dela. Daí seguiram-se outras embarcações – o Zé Marujo, o Rafa ou a Maria Alexandrina – que explicam ao turista como funcionava o transporte fluvial em Alcoutim. Todas para ver das 09h30 às 13h00 e das 14h30 às 18h00, diariamente.

Corre, corre Guadiana


Passeio pelo rio Guadiana

Mas para sentirmos o rio, há que sair de terra firme. As águas do Guadiana beliscam a nossa atenção e a empresa de animação turística Fun River acede ao capricho de quem deseja um passeio retemperante nas correntes tranquilas de um dos rios menos poluídos da Europa. Do cais de Guerreiros do Rio em direção à vila de Alcoutim, a navegação faz-se entre a margem portuguesa e a espanhola (Sanlúcar de Guadiana) deste curso de água natural. De um lado ou de outro, os olhos dos «marinheiros turísticos» a bordo encontram sempre verde. Muito verde. Sobretudo nesta altura do ano, depois das chuvas de março e da chegada do primeiro bafo de calor primaveril. 

O trajeto é fotogénico. Os leves desvios das curvas do rio, as casas dispersas na paisagem que pertencem, na maioria, a estrangeiros que não resistiram ao chamamento de terem as águas plácidas do Guadiana defronte do nariz e os veleiros ancorados ao longo do percurso com bandeiras de diferentes nacionalidades hasteadas exigem fotografias para recordar mais tarde o momento em que conseguimos estar no meio de dois territórios de países europeus. 

Desembarcar é preciso 

Para ver o resto. Tudo o que falta e que não é pouco. Com pés novamente assentes no solo, somos recebidos no velho cais de Alcoutim pelo contrabandista. Desfaça-se o equívoco, pois referimo-nos a uma estátua ali colocada em 2008 para cumprimentar quem desembarca. Consta que o contrabando foi um importante meio de subsistência para os alcoutenejos, que viviam principalmente da pastorícia e da agricultura. Assim, e para honrar a história (mais ou menos lícita) da vila, ergueu-se esta obra da autoria dos escultores Teresa Paulino e Pedro Félix. 

Pelas ruelas da vila, e ainda antes de chegarmos ao castelo, cruzamo-nos com outras duas estátuas criadas pelos mesmos artistas: o pescador e o guarda-fiscal, este último situado no miradouro do quiosque para vigiar em permanência o rio.


As estátuas «Contrabandista» e «Guarda-fiscal» da vila

Finalmente o castelo. Construído no século XIV para proteger esta região fronteiriça, ele mantém ainda hoje o seu grande pano de muralha com torres defensivas. No interior, traça o passado de Alcoutim (que remonta há 5 mil anos) através de várias peças em exibição no núcleo museológico de arqueologia. Entre elas está uma ara votiva com inscrição funerária consagrada aos Deuses Manes. Se subirmos ao topo do castelo, podemos espreitar do alto o rio e a povoação de Sanlúcar de Guadiana. E como as surpresas abundam, falta ainda registar a possibilidade de organizar refeições para grupos neste ponto ermo. Sabe sempre bem um festim de comida tradicional num castelo… ou não?


O castelo de Alcoutim recebe cerca de 20 mil visitantes por ano

Próxima paragem: praia fluvial do Pego Fundo. Como entrámos em Alcoutim via rio, só a caminho da única praia fluvial do Algarve é que conseguimos apreciar o mural de azulejos à entrada poente da vila. São 31 painéis da autoria de Carlos Luz que mais parecem quadrados de tiras de banda desenhada, pintalgados a azul para contar os saberes e modos de fazer do concelho.


Painéis de azulejos de Carlos Luz, à entrada da vila

Descemos até à praia mas ainda não dá para pormos os pezinhos na areia – estão a decorrer obras de melhoramento na zona para que no início do verão esteja tudo preparado para os banhistas, muitos dos quais espanhóis, que preferem mergulhar no bonito pego da ribeira de Cadavais (afluente do Guadiana). 

As vozes da tradição


No atelier onde se criam as bonecas de juta ou serapilheira

Pegamos no carro rumo a Martim Longo circundados por campos floridos, viçosos, e o aroma intenso a rosmaninho. É aqui, a cerca de 30 quilómetros de Alcoutim, que descobrimos o atelier Flor da Agulha e duas das artesãs que produzem há 27 anos as famosas bonecas de juta. Otília e Hermínia não parecem incomodar-se com os visitantes que irrompem porta adentro para conhecer as peças que já conquistaram um prémio nacional de artesanato: são agulhas do ofício, neste caso. Estas bonecas que «não têm olhos mas têm expressão», contam as artesãs, representam pessoas e profissões de antigamente. 

Não é então de estranhar que nas prateleiras nos deparemos com a ceifeira Feliciana, a Chica que foi à ribeira lavar a lã, a Joaquina a varejar ou a Felismina a sarilhar. «Não sabe o que é? É como antes se fazia a meada da lã», decifra Otília. Os preços variam consoante o tamanho das peças, entre os 15 e os 35 euros.


Maria Antónia fabrica queijos de cabra algarvia há 13 anos

De Martim Longo partimos para Vaqueiros, outra das cinco freguesias do concelho, para um programa inusitado: visitar uma pequena queijaria no monte dos Bentos. Os queijos frescos João Teixeira Gonçalves são um projeto de família. Maria Antónia, 65 anos, produz os queijos a partir do leite extraído do seu próprio rebanho de cabras de raça algarvia que pastam nas imediações, além de terem uma alimentação cuidada à base de cereais. «Uma panela leva cerca de 30 litros de leite de cabra. Isto dá para fazer 40 queijos», diz Maria Antónia. De sabor único e suave, eles custam 1,10 euros e são escoados apenas por encomenda, para o número 281 495 134. 

O lugar ideal para carregar… barrigas


A ribeira de Odeleite, em Vaqueiros

Ainda estamos em Vaqueiros, agora diretamente virados para a ribeira de Odeleite, o sítio ideal para um piquenique de final de tarde e para carregar as barrigas, perdão, as baterias. Com os raios de Sol já enfraquecidos mas ainda assim a emanarem calor suficiente para uma manga curta, lanchamos com a sorte de ter por companhia o artesão António Ramos, natural do concelho de Alcoutim, e a doceira Maria Almerinda. 

À mesa temos vinho, pão e chouriço de produção caseira, filhós fora do tempo – as melhores continuam a ser as inesperadas que nos oferecem –, mel de rosmaninho e de outras flores fabricado em Taipas (Vaqueiros) e outras iguarias que não identificamos para não espicaçar a gula alheia.


Maria Almerinda e os seus produtos caseiros (exceto o mel)

Enquanto mordiscamos os petiscos, ouvimos António Ramos, 73 anos, a contar peripécias de quando participava em feiras com a sua cestaria: «Cheguei a vender 80 cestos de um dia para o outro», exprime com o entusiasmo de uma criança de 12 anos, idade com que começou a fazer trabalhos em cana. Um cesto pequeno leva em média três horas e meia a ser construído e custa apenas 4 euros, diz-nos António, fazendo-nos acreditar que é possível acrescentar outra vida ao artesanato algarvio.


António Ramos, o artesão de cestaria em cana

As cores estão esbatidas pelo (parece) súbito desaparecimento do Sol. Não há dúvida de que este é o epílogo perfeito para um dia num concelho recôndito do Algarve que se tenta abrir aos jovens, contrariando a sua baixa densidade populacional (tem somente 2917 habitantes, segundo os números de 2011), com projetos inovadores. Tal é o caso da aposta recente num slide que ligará Alcoutim a Sanlúcar através de um cabo com uma extensão de 720 metros que serão percorridos em 40 segundos, a uma velocidade de 80 Km/hora. O projeto é do inglês David Jarman e deverá estar ativo em maio. Esta é a prova de que Alcoutim continua a ser um segredo apetecível de descobrir. Por muito mais tempo.

2 comentários:

  1. Uma pergunta não há unidades hoteleiras em Alcoutim?

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  2. Bom dia!
    Pode pesquisar alojamento em Alcoutim nos links abaixo:

    http://www.cm-alcoutim.pt/portal_autarquico/alcoutim/v_pt-PT/menu_turista/turismo/alojamento/

    http://www.visitalgarve.pt/visitalgarve/vPT/GuiaServicos/?categoria=1

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