terça-feira, 8 de julho de 2014

Monchique, o topo (verde) do Algarve

Quando pensarmos em subir ao ponto mais alto do Algarve há que ter uma coisa em mente: levar casaco ou uma camisola fina para nos abrigarmos do fresco das alturas, mesmo no verão, porque a aragem não escolhe friorentos ou encalmadiços. Ainda são 902 metros de altitude, o suficiente para nos proporcionar uma paisagem assombrosa em frente ao nariz mas também suaves arrepios quando o vento sopra. Pois é precisamente aqui, na Fóia, que começa o nosso percurso por Monchique, esse concelho ajardinado que é um exemplo de “crescimento verde”. 


Fóia: o ponto mais alto do Algarve, com 902 metros de altitude

Quem o diz é o presidente da câmara Rui André, mas nós somos forçados a concordar porque se há natureza (o dito verde) no Algarve, ela está aqui. E as boas práticas turísticas também. Sem perdermos o fio à meada, voltamos à Fóia, o ponto mais alto da serra de Monchique e do Algarve. Excluindo a serra de São Mamede, a Fóia é a maior elevação a sul do rio Tejo, sabiam? E tem um amplo ângulo de paisagem que abrange desde o cabo de São Vicente até à serra da Arrábida: sim, podemos mesmo ver isto tudo de uma só, e prolongada, vez. 


Trilho que liga à Via Algarviana e que integra a rede "Veredas de Monchique"

Encosta abaixo, segue-se uma curta caminhada de um quilómetro e meio por um trilho que integra a rede “Veredas de Monchique” e que se faz por cima das reservas de água do concelho. Perde-se altitude, mas o verde, sempre ele, mantém-se neste breve troço da rota das cascatas – é nas redondezas que se encontra a do Barbelote – que desce rumo a um souto. 


Parque Aventura da Fóia

No entanto, não é nele – souto – que desembocamos. Porque o momento agora é de aventura. E é daí, da adrenalina de um suposto risco que se corre (é mesmo hipotético, já que tudo se faz em total segurança), que vem o nome do espaço seguinte: o Parque Aventura da Fóia. Arborismo, tiro com arco, escalada-rappel-slide e paintball são algumas atividades do parque criado para os afoitos. E aqueles que julgam ser corajosos e não sofrer de vertigens, não se espantem se as pernas fraquejarem quando estiverem a alguns metros do chão, presos por uma corda enquanto avançam sobre outra, num exercício de equilíbrio que nos faz parecer verdadeiros funâmbulos. É que é bem provável que isso aconteça, até aos mais valentes. 

Boa notícia é o preço deste espaço que concentra as maiores árvores do concelho – trata-se de um conjunto de pinheiros da Califórnia, com cerca de 30 anos. Pois entre 5 e 15 euros é possível experimentar uma das emocionantes propostas do parque. 


Fábrica de enchidos tradicionais "Evangelista de Oliveira"

Ainda antes de almoço, espicaçamos o apetite passando pela fábrica de enchidos Evangelista de Oliveira. É visitável, como já deu para perceber, e explica como se preparam os saborosos chouriços e presuntos. De ciência, têm pouco, mas de sabor… Mmmm!, esse é divinal. A Idália Sousa, 55 anos, e a Fernanda Florêncio, 48 anos, conseguem preparar 300 chouriços por dia, confidenciam-nos orgulhosas. Depois de passarem pelo fumeiro, vão para distribuição e venda em vários lugares. Um deles é a mercearia Sabores da Quinta, no Patacão (Faro). Mas o melhor deste sítio de fabrico tradicional é mesmo podermos provar tudo antes de arredarmos os pés para outro lugar monchiquense. 


Restaurante "Jardim das Oliveiras"

Se pensam que após esta petiscada não temos espaço no estômago para mais nada, estão redondamente enganados. Até porque o ponto de paragem que se segue pede-nos ainda mais vontade de comer. Estamos no restaurante Jardim das Oliveiras, onde nos espera uma refeição cheia de tradição. Papas de milho, chouriça assada, cozido de couve à Monchique e sobremesas típicas: isto chega para vos convencer? Além da mesa, aqui também agrada o ambiente envolvente. O nome Jardim das Oliveiras não foi escolhido por acaso – jardim, porque há verde (continua a haver verde) e flores à volta do restaurante; oliveiras, porque são estas as árvores que dão sombra ao recanto em que os clientes podem descansar para fazer a digestão e ler um livro. Até há camas de rede penduradas, como que desafiando a nossa preguiça… 




Mas não cedemos. Resolvemos continuar o passeio, que nos leva agora ao centro da vila para espiolharmos janelas, vielas, lojas de comércio local, chaminés de saia, pessoas e a bela igreja matriz cujo pórtico principal é um dos mais originais do Algarve. Pois tudo isto cativa o visitante atento. E só este poderá apreciar verdadeiramente uma conversa com as gentes da terra, com tantas histórias para contar quantas as rugas que ostentam na cara. 


António Martins, sapateiro

Ouça-se o senhor António Martins, 82 anos, da sapataria Martins. Tem porta aberta há 40 anos e só a mantém assim por teimosia e para cortar o tempo dos dias que, nesta idade, já são longos. Foi sapateiro e chegou a fazer botas para os ranchos folclóricos (algumas ainda se encontram por aqui, nas prateleiras poeirentas pelas quais já não passam dedos de clientes). 


Celina Pereira, padeira

Ouça-se também a Celina Pereira, 52 anos, que consegue amassar mais de 150 pães num dia. A padeira do complexo termal das Caldas de Monchique – sim, estamos na famosa villa termal – fala-nos alegre das fornadas que enche: cabem 75 num forno, e 30 noutro. De uma assentada ficam 105 pães caseiros prontos a comer, quentinhos, juntamente com azeite e alho. E assim se degusta uma boa tiborna ao final da tarde...

Para acompanhar, bebemos o que preferirmos, mas não podemos recusar a água. Afinal ela é a mais famosa da região. "Miraculosa", ouvimos dizer por aqui. É sabido que tem propriedades medicinais: é indicada para tratar afeções das vias respiratórias e musculo-esqueléticas. E já os romanos, que descobriram estas águas há dois mil anos, as consideravam "sagradas". Pelo sim, pelo não, enchemos uns copitos para ganhar saúde e para matar a sede antes de nos fazermos novamente à estrada. Desta vez, em direção a casa.

Sem comentários:

Enviar um comentário