sexta-feira, 13 de novembro de 2015

Há passeios que nos inspiram. E este é um deles.

Hoje partimos de uma ponte medieval (sim, medieval e não romana) à redescoberta de uma das mais bonitas cidades do Algarve. Uma ponte sob a qual convergem dois rios. Ou melhor, um rio e uma ribeira. Confusos? Ainda não sabem de que cidade falamos? E se vos dissermos que esta cidade tem 21 igrejas e 6 conventos? Claro que sim, é de Tavira que vos vamos falar.

Estamos no coração da cidade, no centro da Praça da República. Numa volta rápida de 360º a girar sobre nós próprios, sentimos o pulsar da história, marcado em cada recanto pela presença de fenícios, romanos, árabes e cristãos.


Aqui encontramos o edifício dos Paços do Concelho, o imponente monumento aos combatentes da I Grande Guerra Mundial, o Núcleo Museológico Islâmico, onde se pode ver o famoso Vaso de Tavira”, célebre pela sua forma peculiar e riqueza iconográfica, e a Porta de D. Manuel I que nos guia “Vila a Dentro” e nos leva à imponente Igreja da Misericórdia, a mais valiosa obra renascentista do Algarve
Para nossa surpresa, ali mesmo ao lado há Fado com História. Num ambiente intimista assistimos a um pequeno espetáculo de Fado, único no Algarve, e a uma breve história do fado em Portugal.


Levamos o fado no ouvido escadaria acima até ao Palácio da Galeria para um breve encontro com a história do património de Tavira. Ganhamos fôlego na A.S.T.A. (Associação de Artes e Sabores de Tavira) com uma Delícia de Tavira que reúne os três sabores típicos algarvios – figo, alfarroba e amêndoa - num doce feito com a mestria dos artesãos da região, e continuamos a subir até ao Largo Abu Otmane. As badaladas do relógio da torre da Igreja de Santa Maria do Castelo aceleram-nos o passo e acompanham-nos até ao castelo medieval.


A partir deste ponto a vista panorâmica de Tavira é magnífica, com os característicos telhados de tesoura ou de quatro águas a recortarem o céu, as cúpulas de várias igrejas, o rio e as imaculadas salinas mais ao fundo.


Ali mesmo ao lado, o Convento de Nossa Senhora da Graça, faustoso na sua fachada ocre, outrora convento quinhentista hoje convertido em Pousada de Portugal, é um dos edifícios mais imponentes do centro histórico da cidade. O seu interior, rico em pórticos e cantarias, abriga um claustro emoldurado por colunas e lajes de pedra, e vestígios de um bairro muçulmano de 13 casas conhecido como Bairro Almóada.


Descemos a calçada que nos leva ao Largo das Portas de Postigo e admiramos os finos entrelaçados de madeira nas portas e janelas das casas. São as portas de reixa, uma herança árabe bem visível no concelho nas 157 portas de reixa atualmente existentes. Outro pormenor curioso são as “mãos de Fátma” nos batentes das portas, cuja particularidade recai sobre o facto de serem de tamanhos diferentes, representando uma mão feminina e outra masculina, e que permitiam, pelo som diferente que produzem, distinguir quem estava do outro lado.


O almoço espera por nós nas margens do Rio Gilão, mais precisamente no antigo Mercado da Ribeira, hoje recuperado e transformado em espaço de lazer, comércio e restauração. À mesa do restaurante Gilão chegam paladares algarvios ricos em sabor e criatividade na apresentação e confeção dos ingredientes típicos: chamuça de cavala em molho de caril e gengibre, polvo no barro com azeite e alhos e batata a murro e uma doce laranja com calda de canela para terminar.  

A temperatura quente que se faz sentir no outono algarvio convida a um passeio de barco pela Ria Formosa. Seguimos rio abaixo com a Séqua Tours até Cabanas, uma pequena vila que se dedica à pesca e ao turismo e onde se encontram alguns dos restaurantes típicos do concelho.


Nas margens da ria erguem-se zonas de sapal e salinas que servem de porto de abrigo e alimento a dezenas de espécies de aves. Fazemos uma curta paragem para observar a mancha rosa de flamingos que dá cor a uma salina desativada.
Aportamos em Cabanas, frente às esplanadas que acompanham a ria ao longo de toda a marginal e que se enchem de turistas que recuperam energias após uma volta de golfe nos campos de golfe circundantes.


Seguimos por terra até à freguesia mais pequena do concelho, Santa Luzia, conhecida hoje como a capital do polvo. Desde sempre ligada ao mar e à história da pesca do atum e das armações no Algarve, voltou-se mais tarde para a pesca do polvo com recurso a alcatruzes e covos. Os despojos da pesca do atum são visíveis na Praia do Barril no imponente "cemitério das âncoras" e no casario que albergou as famílias da antiga armação do atum em 1842, hoje transformado em espaço comercial.

Estas memórias estendem-se até ao Arraial Ferreira Neto, antiga armação da pesca do atum, que foi recuperada e deu origem ao Hotel Vila Galé Albacora. Tudo foi mantido para eternizar a história desta importante atividade económica algarvia no séc. XIX: os armazéns foram transformados em quartos, a escola deu lugar a um kids club, a capela foi restaurada e continua a celebrar missas quinzenais abertas à comunidade e a padaria reabriu portas como museu público onde vários registos documentais, fotografias, barcos e redes, e até uma maqueta da armação do atum contam a história desta pesca e deste complexo.

Tudo isto em perfeita harmonia com a natureza, no coração da Ria e junto à paradisíaca Ilha de Tavira onde é possível, para além de fazer praia, acampar no parque de campismo, fazer um piquenique no parque de merendas ou apreciar pratos de marisco e peixe fresco nos diversos restaurantes de apoio.
Tavira inspirou-nos e levou-nos a redescobrir os segredos e encantos únicos desta cidade que respira história, cultura e tradição. Esperamos que vos inspire também! 

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