[Escritora - Boliqueime]
Por vezes, porém, as regras eram outras. Assim, o ouriço era mais pequeno do que o cão mas defendia-se, espetando todas aquelas armas. Os gatos eram corpulentos mas fugiam quando em Junho aparecia a cobra. Até o porco redondo e sujo subia pelas paredes quando ela se lhe enrolava na pia. Mas essa era venenosa. Por isso o medo provinha não só do peso do grande mas também do pequeno e venenoso.
Aliás, também entre as pessoas a harmonia era absoluta. A bisavó, que não via, andava devagarinho pela casa e esperava o dia inteiro pela hora em que lhe dessem a pelar os legumes. O marido dela ainda via e mandava nela, fazendo-a calar. Ela obedecia e tinha medo dele. A mãe e as tias tinham medo do pai e dos tios. Todos eles andavam apressados pela casa, muito mais do que os avós, pois esses, a meio da tarde, ficavam pensativos. Assim sendo, era a bisavó que tinha medo de todos, inclusive do cão, da cobra e do peru, e até mesmo do gato quando o abraçávamos e espremíamos. Sentada, imóvel, ela tinha medo de nós mesmos.
Certo dia, porém, essa relação mudou, pois o pai ofereceu à mãe uma toalha de plástico. Esse ainda era um tecido desconhecido. Não tinha fio, não amarrotava e limpava-se com um pano, embora derretesse com o fogo. Foi estendida para que todos pudessem admirar o tecido novo. A toalha era branca e em cada canto tinha um cacho de uvas vermelhas e umas parras enormes cor de prata. Um bem tão particular deveria ser usufruído por todos. A toalha deveria ficar exposta num local privilegiado da casa. Ora no corredor havia uma mesa onde ela brilhava e fosforescia. As pontas da toalha quase rojavam o chão. O cão, vagueando pela casa, logo aí encontrou um abrigo. Fui atrás do cão e para meu espanto, aquele era o recinto há tanto procurado. O tampo da mesa constituía um tecto, e cada uma das abas da toalha era uma parede. O quarto de dormir das minhas bonecas, a partir daquele instante, tinha pois quatro paredes. Abri-lhe as camas, coloquei-lhes as mesas sob a mesa do corredor. Era pena que nenhuma das paredes tivesse janela. Só que dentro da caixa da costura havia uma tesoura e com ela se abria uma verdadeira janela numa das paredes. A janela ficou larga e o tecido retirado era a medida da toalha que tapava a mesa das bonecas posta sob a mesa. Alguém podia imaginar maior perfeição? Brincando debaixo da mesa, com um buraco na toalha, via-se as pessoas passarem como se fosse uma verdadeira janela.
Mas alguém, de repente, estacou em frente da pequena janela. A mãe começou aos gritos, o cão saiu ladrando como se alguém arrombasse a casa, quem estava em casa apareceu num instante com água e panos. Um dos tios não tinha mas era como se tivesse pegado na caçadeira. Aquele iria ser o meu último instante. Alguém me iria matar, eu não teria mais salvação. Também a bisavó avançava devagarinho perguntando que é, que é. E o que é, que é, era eu que havia feito uma horrível imperfeição. Não chorava a mãe, sentada na cadeira? Não a abraçava a tia? O meu castigo iria ser grande, tão grande como aquele que a cobra infligia ao rato. Por isso mesmo só a bisavó, que tinha medo de todos, me levava pela mão. O que iria ser de mim, protegida apenas pela mão da bisavó que não via? Ah! Mas ela ajeitou a minha cabeça no seu colo, protegeu-me dos puxões da minha tia, das invectivas da minha mãe. Ela não me largou enquanto não chegou a noite, e mesmo assim, ela levou-me consigo e deitou-me ao seu lado, e a força da sua protecção foi tão forte que eu percebi que ela era mais forte do que o pai, o avô que era seu filho, os tios todos juntos, a cobra, o cavalo, o cão e o peru. Próximo da sua cabeça que não via, o próprio dia desapareceu sem receio da noite e as suas mãos mostraram um poder desconhecido. Foi, pois, assim. Uma força fez estremecer a harmonia do mundo em Boliqueime, mas uma outra, feita de outra força, aparecia. Para sempre aparecia.
[Texto do desdobrável da exposição "O Dia dos Prodígios. Lídia Jorge. 30 anos de Escrita Publicada", patente no Convento de Santo António em Loulé, até 31 de Março 2011]