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quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Reinventando a empreita…



A empreita é um tipo de artesanato típico do Barrocal algarvio.

Tradicionalmente era feita pelas mulheres, com palma apanhada no mato, em autênticas “empreitadas” (daí a designação de empreita). De facto, as mulheres juntavam-se e faziam serões a produzir um entrançado que, depois de unido com uma agulha de cobre, dava origem a objetos diversos de uso doméstico, como vassouras, capachos, fruteiras, sacos e até berços para os bebés!



Para produzir as peças são necessárias várias fases importantes. A palma é apanhada e colocada a secar ao sol. Seguidamente é rachada (que significa separar cada fina folha). Depois é demolhada e colocada junto ao enxofre de forma a ficar mais clara. Nesta fase pode ser necessário tingir alguma palma para enfeitar as peças que serão produzidas. Segue-se a execução de um entrançado, que será depois unido com a baracinha (espécie de fio que servirá para coser as tiras de empreita).



Atualmente esta é uma atividade que se está a perder… Mas a Junta de Freguesia de Boliqueime e a artesã Irene Joaquim decidiram reinventar esta tradição dando usos especiais e artísticos à empreita. No Verão de 2011 realizaram um desfile de moda em empreita que deliciou os algarvios e os turistas.
De momento estão já a ser produzidas pela Irene novas peças que esperamos poder ver num novo desfile!






Nota: Imagens do desfile cedidas pela Junta de Freguesia de Boliqueime

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

A empreita

Por Luisa Correia
[Documentalista -Turismo do Algarve]

Os ramos de palma eram, primeiro, postos a secar. Pareciam pequenos leques que, depois, haviam de ser rasgados pelos dedos ágeis da avó que, com o polegar, separava cada fina folha da palmeira anã. Com o seu gesto brusco e firme, soltavam-se minúsculas partículas de pó que pousavam sobre a roupa preta que vestia, atenuando-lhe o luto com uma frágil película de cor bege.

Depois ainda era preciso demolhar a palma para que pudesse ser entrançada sem quebrar. Já não sei se era antes ou se era depois mas, na preparação da empreita havia também aquele momento fascinante para mim, criança, quando a avó colocava um pequeno pedaço de enxofre numa lata e lhe deitava fogo. Acho que era uma velha lata de graxa para sapatos. Uma chama azul tremia no ar por breves instantes, só o tempo da avó agarrar na lata com uma tenaz e a fechar num grande saco onde já estavam as folhas de palma para serem branqueadas.

Por fim, os dedos da avó começavam a trabalhar e era algo de mágico ver crescer aquela trança, mais ou menos larga consoante o número de hastes que se cruzavam umas nas outras. As tiras de empreita iam crescendo e ficavam arrumadas em rolos, até ao momento em que viriam a dar forma a uma alcofa. A avó, sentada na pequena cadeira de atabua, com um molho de palma enrolado num trapo velho humedecido, fazia empreita escolhendo com arte cada folha, ripando as mais largas com os dentes para que a tira fosse sempre crescendo certinha.

E a baracinha? Claro. Também havia que fazer a baracinha, o fio que servia para cozer as tiras de empreita.

Também eu fazia baracinha. E tinha jeito para a coisa. Enrolava a folha de palma à vota do dedo que servia de esticador no início do trabalho. Depois de algumas torcidas na folha, já podia soltar o dedo e continuar a torcer, acrescentando as folhas necessárias até a baracinha atingir o comprimento ideal.

Lembro-me também da agulha de cobre que guiava a baracinha por entre as folhas entrançadas da empreita. Era uma agulha gigante e achatada. Pergunto-me se ainda a encontrarei por aí, esquecida numa qualquer gaveta. É que há tanto tempo que ninguém faz empreita lá em casa.