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terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Memórias do Cinema em Faro

Por Jorge Carrega
[Docente e Investigador Universitário]

A primeira vez em que assisti a uma sessão de cinema tinha sete anos de idade. Recordo-me dessa tarde solarenga em que eu e os meus colegas da segunda classe saímos da escola do Carmo em Faro, acompanhados pela nossa professora primária, e nos dirigimos ao Teatro Lethes. Foi ali, com o olhar fixo no grande ecrã, que descobri a magia do cinema.
O filme escolhido pelo Cineclube de Faro foi “ A Quimera do Ouro” e mal poderia eu imaginar que naquela mesma sala onde no início dos anos 80 conheci Charlie Chaplin, se havia realizado em 1898 a primeira sessão de cinema no Algarve.

Teatro Lethes - pormenor do interior

Se no início do século XX, o cinematógrafo não era mais do que uma curiosidade, alguns anos depois, em plena Iª Guerra Mundial, a popularidade do cinema na capital algarvia era tão grande que alguns notáveis decidiram constituir uma sociedade com o objectivo de construir e explorar comercialmente o Cine-Teatro Farense, uma moderna sala de espectáculo que permitia aos farenses desfrutarem das “fitas” com todo o conforto.
Por ali passaram os filmes épicos de D.W.Griffith e Cecil B. De Mille, as comédias de Charlie Chaplin e Buster Keaton, as histórias de gangsters de James Cagney e Humphrey Bogart, as aventuras de capa e espada de Errol Flynn, os westerns de John Wayne e os musicais de Fred Astaire e Ginger Rogers.
Após a II Guerra Mundial, esta sala que durante 35 anos constituiu o ponto de encontro de todos os cinéfilos farenses, tornou-se obsoleta, sendo demolida em 1952 para dar lugar a uma sala moderna, que entre outras inovações, apresentava um projector automático. Nascia assim, o Cinema de Santo António, inaugurado com pompa e circunstância no dia 31 de Dezembro de 1953.

Cinema de Santo António - interior


O início da década de 1950 marcou de resto uma era de ouro na história da 7ª arte. Em tempo de paz e recuperação económica e com a massificação da televisão a mais de uma década de distância, o cinema assumia-se como a grande forma de entretenimento de massas, juntamente com o futebol e a rádio.
Prova da importância do cinema na sociedade algarvia dos anos 50 foi a inauguração, com poucas semanas de diferença, de duas salas de cinema no concelho de Faro.
Estávamos no verão de 1950, quando a sociedade que explorava o Cine-Teatro Farense inaugurou o S. Luís Parque, um cine-esplanada que se situava nas imediações do mercado Municipal e proporcionava à população local a possibilidade de assistir a sessões de cinema e a espectáculos de variedades ao ar livre durante os meses de verão.
Igualmente no concelho de Faro, a pitoresca aldeia de Estói inaugurava no dia 13 de Agosto o cinema Ossónoba, iniciativa de um empresário da terra, José de Jesus Zeferino, que deste modo contribuiu decisivamente para a divulgação da 7ª Arte no interior do concelho.
É também neste período que o cinema começa a ser encarado como algo mais do que um mero entretenimento. Nesse mesmo verão de 1950, o artista e intelectual sambrasense, Roberto Nobre, assinava um artigo de opinião no jornal “O Algarve” sobre o importante papel dos cineclubes na promoção da cultura fílmica. Segundo Roberto Nobre, ele próprio autor da primeira obra cinematográfica algarvia, a curta-metragem “Charlotim e Clarinha”, realizada em Olhão em meados dos anos 20:

“No cinema, não há apenas uma distracção fútil, para depois do jantar. Há também, é preciso não o esquecer, uma grande arte como todas as outras. É necessário aprender a vê-lo, a saber escolhe-lo. O Cinema ainda é um grande desconhecido. A missão do cineclube é revelar-lhe essa sua face mais elevada”.
In “O Algarve”, 11 de Julho de 1950


Poucos anos depois, em 1956, num claro sinal da importância da cultura cinematográfica para as elites culturais farenses, nascia o cineclube de Faro, instituição que se mantém em actividade, sendo hoje um dos mais antigos cineclubes portugueses.
Pelo Cinema de Santo António, pela Esplanada S. Luís Parque, pelo Cinema Ossónoba e pelas restantes salas de cinema do Algarve, passavam por esta altura estrelas como Kirk Douglas, Marilyn Monroe, Charlton Heston, Cantiflas e tantos outros que fizeram a história do cinema, em êxitos como “Quanto Mais Quente Melhor”, “Ben-Hur”, “A Volta ao Mundo em 80 Dias“ e “Spartacus”, que fascinaram gerações de algarvios.
Com o final da década de 60, chega a massificação da televisão e com ela uma profunda transformação dos hábitos de lazer dos portugueses que preferem ficar em casa a ver séries como “Bonanza” e “O Santo”, e a partir de 1977, telenovelas brasileiras como “Gabriela” e “A Escrava Isaura”.

A alteração dos hábitos de consumo audiovisual que se verificou ao longo das décadas de 70, 80 e 90 teve como consequência directa o declínio do número de espectadores de cinema, registando-se o encerramento de um grande número salas de cinema por todo o país.
Em Faro, a primeira vítima foi o cine-esplanada S. Luís Parque, no início da década de 90, logo seguido pela sala de cinema do centro comercial Algarb.
Alguns anos depois, seria a vez do Cinema de Santo António, cuja derradeira sessão, promovida pelo Cineclube de Faro em jeito de homenagem, se realizou no dia 31 de Julho de 2001 com a exibição do filme “Cinema Paraíso” de Giuseppe Tornatore, obra que constitui uma das mais belas homenagens alguma vez feitas ao cinema.
São poucas as antigas salas de cinema que sobreviveram no Algarve. Felizmente o Cine Teatro António Pinheiro em Tavira (inaugurado em 1968), o cinema Ossónoba em Estoi (inaugurado em 1950) e o Cine-Teatro Louletano (inaugurado em 1930) foram adquiridos pelas respectivas autarquias, ficando assim salvaguardada uma parte importante da história do cinema no Algarve.

Teatro Lethes - Faro

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

O mestre Diogo Tavares


Por Daniel Santana
[Historiador de Arte - Faro]

Foi há 11 anos. A recém-concluída licenciatura em História da Arte suscitava um interesse e um olhar renovado sobre o património da região. Lembro-me de contemplar a magnífica e monumental fachada da Igreja do Carmo de Faro, com os seus ricos vãos decorados com molduras de sabor romano, e de se desvanecer a ideia de escala gigantesca ao entrar no templo. O interior tinha afinal dimensões bem medianas que não correspondiam à monumentalidade sugerida pela fachada. “Típico ilusionismo barroco”, pensei eu.
O átrio da igreja era e continua a ser um espaço acolhedor, distinto e dinâmico, em grande medida devido ao subtil encurvamento das paredes que suavizam o trânsito até à nave. No coro alto apreciei, por fim, a exuberante decoração das portas, composta de flores, fénix, putti, golfinhos e leões em pedra, seguindo um vocabulário que se assemelha ao gosto reflectido na talha do interior das igrejas. Espaços dinâmicos, tendência para a monumentalidade e um decorativismo arrebatador. “Estamos, claramente, na presença de um arquitecto do barroco”, voltei a pensar.



Interior da Igreja do Carmo - Faro


Os estudos do Professor Francisco Lameira forneceram-me, entretanto, o nome do autor de tão imponente obra: Diogo Tavares e Ataíde, mestre-canteiro, nome identificado no arquivo da Ordem Terceira do Carmo de Faro e que foi responsável pela campanha de reconstrução da fachada da igreja durante os anos 40 do século XVIII. A sua actividade era também associada a outras obras nas cidades de Faro e de Tavira.
Pouco tempo depois, numa incursão ao Arquivo Distrital, vários manuscritos empoeirados do século XVIII brindaram-nos com surpreendentes revelações. Uma série de documentação inédita informava sobre as responsabilidades daquele artista na origem de obras emblemáticas do património arquitectónico do Algarve. A continuação da investigação permitiu conhecer a fundo a vida e obra de Diogo Tavares, o mais notável arquitecto algarvio do século XVIII, motivando inclusive uma dissertação de mestrado apresentada à Faculdade de Letras de Lisboa em 2006.
O mestre nasceu em Faro em 1711, aprendeu o ofício com seu pai, entalhador. Terá evoluído num grande estaleiro de obras – Mafra? – e regressado ao Algarve. Casou em Tavira, faleceu em Lagoa. Enriqueceu, ganhou fama no Sotavento e morreu na miséria no Barlavento. Construiu e reconstruiu obras de relevo na região, como por exemplo, em Faro, o referido corpo da fachada do Carmo, a capela da Horta do Ourives, a inusitada torre octogonal da Horta dos Cães próximo da esquadra da PSP, a Igreja de São Francisco e a Ermida de Santo António do Alto. Em Tavira interveio na Ermida de São Sebastião, no Convento da Graça, no Palácio da Galeria, nas igrejas de São José e de São Pedro Gonçalves Telmo. Trabalhou ainda em Castro Marim e Monte Gordo.
Não só ajudou a introduzir no Algarve uma arquitectura sensível ao Barroco internacional, como também restaurou e recuperou, com os critérios do seu tempo, muitos edifícios notáveis que já existiam na região. Ou seja, produziu cultura do seu tempo e simultaneamente preservou a herança do passado. Óptima lição para os nossos dias.

Não posso deixar de pensar no muito que o Algarve, e o turismo em particular, pode beneficiar através da preservação e valorização do seu património histórico-cultural. O passado foi negligente neste aspecto, inclusive para as obras do mestre Diogo, e o que é feito no presente ainda não satisfaz. É o património que distingue, identifica e fixa a memória de uma região, potenciando a sua atractividade.
Preservar a herança do passado seria hoje o melhor presente para Diogo Tavares que, se por milagre fosse vivo, celebraria este ano o seu trecentésimo aniversário.


Igreja do Carmo-Faro

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O Tio Galinho


Por Ilídia Sério
[Empresária - Restaurante Casa Algarvia, Faro]

Nasci e vivi até à adolescência, na Rua Dr. Rodrigues Davim, uma das ruas adjacentes ao bairro do Alto Rodes. Lembro-me que a rua não era asfaltada e quando chovia - e se chovia naquele tempo - a água que escorria pela rua, abria grandes sulcos no chão, que dificultavam a passagem.
Costumo dizer que era uma rua abençoada porque ficava exactamente entre a adega do Abel Pereira da Fonseca e a adega do João Pires.
Era uma daquelas ruas típicas em que todos os moradores se conheciam, eram como família, ajudavam-se uns aos outros e principalmente, conviviam.
Desse convívio fazia parte o juntarmo-nos na rua, sentados cada um à sua porta, após o jantar, a apanhar o fresquinho da noite. E, como é óbvio, contavam-se estórias.
Lembro-me de todos os meus vizinhos, dos nomes, das fisionomias, de algumas características - as mais evidentes claro - pois era ainda muito nova para esmiuçar o feitio de cada um.
Desses vizinhos destaco o Tio Galinho, um pescador baixinho que à noite juntava à sua volta todos os miúdos da rua. Contava que uma vez estava a dormir dentro do barco e que tinha vindo uma bruxa que o levara pelo ar, até à Índia. Sim, ele tinha ido à Índia e voltara nessa noite e contava o que vira por lá. E nós, crianças, ouvíamos crédulas, deliciadas e de boca aberta, esta e outras aventuras narradas pelo bom contador de estórias que era o Tio Galinho.

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

O meu Natal

Por Angela Reis
[Técnica de Comunicação e Imagem no Turismo do Algarve]

Eu adoro o Natal. Não pelas prendas, não pelos doces, que também adoro, nem propriamente só pela noite da Consoada, mas por toda a preparação e envolvente que antecede os dias 24 e 25 de Dezembro.
Desde miúda que a minha mãe sempre me incutiu este gosto. Tudo começava no dia 8 de Dezembro, não sei porque razão mas, na minha casa, a árvore de Natal só se montava no dia 8 e retirava-se a 8 de Janeiro. Já tinha lugar cativo na sala, mesmo ao lado do presépio que também era feito por nós, em família. Eu fazia os caminhos em cartolina e colocava sinais de trânsito. Na minha inocência, sem perceber muito bem porque razão não havia carros naquela altura, colocava os sinais para as vaquinhas e para as ovelhas, colocava a estrelinha que guiava os Reis magos e punha areia em volta. Só não havia musgo, porque morávamos na cidade.
Nunca participei nas compras de Natal, nem me chamava a atenção - até hoje é uma das partes que mais me aborrece - mas adorava ver a minha mãe chegar a casa com aqueles embrulhos todos e colocá-los debaixo da árvore, sem nomes, para me baralhar, e levava os serões de volta da árvore a pegar nos presentes e a perguntar:
“É este que é para mim, mãe?”
A resposta, sempre negativa, era como uma facada no meu pequeno coração…
“As prendas dos meninos, são entregues pelo Pai Natal, que só vêm no dia 24 porque até lá está à espreita para ver quem se porta bem e merece o presente, essas que estão na nossa árvore são para os adultos”.
E eu acreditava, até porque nas histórias que via na TV, o Pai Natal só levava prendas para as crianças. E então lá ficava, com aquela ansiedade, a ver a árvore a aumentar e a suspirar para saber se o Pai Natal achava que eu me tinha portado bem…



Chegava então o dia 24. Logo pela manhã, lembro-me de acordar em êxtase para ajudar (ou atrapalhar) a minha mãe na cozinha. O meu pai tratava da comida (isso não me interessava) e a minha mãe tratava dos doces (essa sim, era a parte que me entusiasmava) – as rabanadas, os sonhos, as filhós, o tronco! Eram horas que me enchiam a alma de alegria. Depois começava a chegar a família, sempre sem crianças - eu era a única até aos nove anos, altura em que nasceu a minha irmã - e os adultos começavam com aquelas conversetas de “gente grande” que me aborreciam. Então eu ia ver os filmes de Natal até que me deixava dormir. Raramente ficava acordada até à meia-noite. Às vezes os meus pais acordavam-me, outras nem por isso e a alegria de abrir os presentes durava um pequeno instante do dia seguinte, até porque não recebíamos nem um terço do que os miúdos recebem hoje em dia, mas dávamos muito mais valor ao que recebíamos.
O dia de Natal era passado na casa da minha avó paterna e era como reviver tudo outra vez, mas com outras caras. Boa! Mais presentes, mais doces, mais alegria. E na casa da minha avó era sempre eu quem distribuía os presentes que o Pai Natal tinha lá deixado na noite anterior. Que grande honra!
Depois do almoço e durante muitos anos, o ritual era sempre o mesmo: quer chovesse ou fizesse sol íamos ver o Presépio dos Bombeiros Municipais de Faro e deitávamos uma moedinha para dar sorte para o novo ano e ajudar os mais carenciados. E eu adorava ver as figurinhas e pensar como seria viver ali. Só não percebia porque razão não tinham sinais de trânsito.
Hoje, e já adulta, tento não perder o verdadeiro espírito do Natal e tento que o consumismo não se apodere de mim, pois afinal o que importa é a comemoração desta época tão especial!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Gente real ao vivo e a cores


Por Maria João Santos
[Técnica Superior - Direcção Regional de Economia do Algarve]

Era uma vez uma escola secundária cheia de alunos felizes que não usavam computadores, nem tinham dinheiro para comprar roupas de marca e iam a pé, ou à boleia, para a praia de Faro, quando o bom tempo o permitia.
Eram rapazes e raparigas que viviam amizades reais, juntavam-se sem pedir para ser adicionados, surgiam naturalmente e naturalmente iam ficando nas vidas uns dos outros. Tinham em comum a vontade e a alegria de viver. Eu pertenci a esse mundo colorido em que ser igual ou diferente não nos preocupava. Na época, os alunos dessa escola não eram totalmente livres, mas como não se apercebiam dessa situação, brincavam, namoravam e conviviam de forma saudável e feliz. Não… não era o paraíso na terra, nem nós éramos tolos ou santos, mas ninguém naquela idade e principalmente naquele meio, tinha perfeita noção da aparente liberdade.

Perto dessa escola havia a Alameda João de Deus, onde vivi um episódio que sempre recordarei com uma sonora gargalhada. Teria os meus doze ou treze anos e, sempre que não havia aulas, lá estava eu a andar de patins de rodinhas, a jogar minigolfe ou a brincar às escondidas (nessa época a malta brincava até tarde…aliás eu ainda brinco). Em Faro, a Alameda, mesmo em frente à PSP, era o local ideal para tudo isso, incluindo estudar e namorar.

Uma tarde, em que a professora de uma aula de duas horas faltou, a Alameda rodeada por grades verdes serviu mais uma vez para descomprimir. Assim, durante um jogo de escondidas com colegas da minha turma, escolhi o local perfeito para me esconder: o famoso caracol. Era uma zona tranquila, muito bem adornada por árvores e arbustos altos, em que se ouvia o som harmonioso de água a correr e uns bancos de pedra em forma de troncos, quase sempre ocupados por jovens namorados entretidos nos seus afazeres, decoravam o espaço. Escondi-me tão bem que os meus colegas nunca mais me encontravam…e eu fui ficando, ficando…até que chegou um casal de namorados de tal modo entusiasmado que, sem me ver, foi dando asas ao amor …e que asas. Indecisa sobre o que fazer, calei-me muito bem caladinha na esperança que eles se fossem embora e eu pudesse discretamente abandonar o meu esconderijo. O tempo nunca mais passava. Nem eles nem eu, por motivos diferentes, renunciámos ao caracol. Nisto, uma bola, vinda não sei de onde, bateu-me violentamente no rosto e eu, sem querer, gritei de dor. De imediato fui descoberta. O casal interrompeu o beijo que já durava havia largos minutos e, ao afastar os arbustos, deparou-se comigo. Olharam para mim estupefactos e, sem me ajudarem, censuraram o facto de eu estar a espreitar, embora eu não estivesse a espreitar, eu só me tinha escondido dos meus colegas. Bem expliquei, mas o casal já crescido, aí nos seus 18 anos, não foi na minha conversa. Tive que desaparecer a correr, envergonhada e furiosa comigo, com eles e principalmente com os desgraçados dos meus colegas que não me tinham conseguido achar. Ainda por cima levei uma “falta” por ter chegado atrasada à aula seguinte. Amarrei a cara e durante dias não contei nada à malta da turma.
Depois não resisti. Rimos todos à gargalhada!

Algumas semanas após aquele incidente, num domingo, fui levar o meu irmão mais novo à catequese. A aula era numa pequena sala que ficava nos jardins traseiros da igreja da Sé. Qual não foi o meu espanto quando reparei que a catequista era a tal jovem que estava naquele dia, na Alameda João de Deus, toda enrolada com o namorado. Ela reconheceu-me mas não deu parte de fraca, nem eu… Só que nunca mais fui levar o meu irmão à catequese.

Voltei à minha rotina da escola, mas evitei esconder-me no caracol da Alameda. Mais tarde começámos a frequentar a Gardy, na Rua de Santo António, ponto de encontro para amizades mais coloridas e longas conversas divertidas, ao vivo e a cores, com apenas uma bica na mesa do café. Uns anos depois, tal como a catequista, também eu passei a ver o caracol da Alameda com outros olhos…

Jardim da Alameda João de Deus - Faro

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Las Palomitas


Por Ilídia Sério
[Empresária - Restaurante Casa Algarvia, Faro]

Decorriam os loucos anos sessenta… Faro, a capital do Algarve, não passava de uma pacata cidade de província ainda sem Universidade, mas já com uma notável vida estudantil, dado que só aqui havia Liceu e os jovens de quase todo o Algarve e Baixo Alentejo vinham completar os estudos, antes de alguns seguirem para Lisboa ou Coimbra onde iriam frequentar as universidades.

Entre outras figuras típicas, vivia em Faro um artista pintor chamado Sidónio Almeida, qual personagem saída de um romance qualquer.
Sidónio era um artista. Sem dúvida alguma, quem conhece a sua obra pode atestá-lo. Muita gente ainda se deve lembrar das suas estórias, algumas incontáveis. Eu conheço esta que me foi contada por um amigo:

Quatro ou cinco amigos, também amigos da boa disposição, juntaram-se em casa do Sidónio para mais uma paródia. Conversa, puxa conversa, a tertúlia decidiu que o Sidónio deveria pintar um quadro, no qual estaria um deles, sentado num cadeirão, todo nu, com dois pombos que viviam em casa do Sidónio, pousados nos ombros. Resta acrescentar que o “modelo” escolhido para posar tinha um corpo pouco vulgar, completamente coberto de pelos. A obra iria chamar-se “Las Palomitas”.

Não consta que o quadro tenha sido alguma vez pintado. Sabe-se é que os pobres pombos acabaram, nessa noite, dentro da única e velha panela que existia no meio de toda aquela grande confusão que era a casa do pintor Sidónio Almeida.


Óleo sobre tela - Sidónio

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

O Teatro Lethes

Por Leitor devidamente identificado

Se é de Faro, se reside nesta cidade ou se simplesmente a visitou, certamente conhece ou ouviu falar do Teatro Lethes. Contudo, é possível que não conheça a sua história ou pelo menos, que não conheça as estórias que deram origem ao que é hoje o Teatro Lethes.

Vamos viajar no tempo...

Estamos em 1599. São restauradas em Faro umas casas antigas, que vão servir para instalar um Colégio e uma Igreja da Companhia de Jesus. Esta ordem religiosa vai permanecer neste local até 1773, ano em que é extinta.
A partir de 1779 serve de habitação aos Padres Marianos ou Carmelitas Descalços que ocupam o edifício até 1834. Nesse ano, são extintas as ordens religiosas em Portugal e os seus bens arrolados, pelo que o edifício passa para as mãos do Estado.

Voltemos, no entanto, um pouco atrás, quando por volta de 1804, numa terrível noite de tempestade, naufraga ao largo da costa algarvia um navio veneziano que transportava Lázaro Doglioni, jovem médico de Veneza, que se deslocava a Inglaterra para aprofundar os seus estudos.

Os náufragos vêm para Faro e são entregues ao cuidado do Cônsul de Veneza nesta cidade.

Durante a sua convalescença, o jovem Lázaro Doglioni torna-se amigo dos mais ilustres habitantes da cidade, entre eles Guilherme de Barr Crispin, por cuja filha, Maria, se terá interessado, tanto mais que esta jovem era herdeira de uma das maiores fortunas do Reino…
Apesar da discordância da família da noiva, e, depois de várias peripécias, o casamento foi consentido.

De um momento para o outro, Lázaro Doglioni passa a dispor desta enorme fortuna, o que lhe permite dedicar-se ao fomento das artes.
Amante de música e de ópera, decide criar em Faro um teatro destinado principalmente a esse fim, de modo a poder rodear-se do ambiente boémio da sua Veneza natal.

Assim, em 1843 adquire, em hasta pública, o Colégio e Igreja da Companhia de Jesus. De imediato começam as obras de transformação e restauro destes edifícios, que duram até 1845, ano em que é inaugurado o Teatro Lethes.


Interior do Teatro Lethes


Tendo como modelos o Scala em Milão e o São Carlos em Lisboa, a capela passa a sala de espectáculos, para estranheza da população local que não esperaria tal transformação, algo sacrílega.

No entanto, o resultado final é encantador e Faro ganhou um teatro com um palco e uma plateia delicadamente trabalhados, com capacidade para quinhentos espectadores e com duas ordens de camarotes.

O seu promotor quis ainda deixar à vista de todos a máxima latina Monet Oblectando – Instruir Divertindo, que mandou inscrever no frontão exterior do edifício.

Teatro Lethes - Faro

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Ninhos de cegonhas


Por Fernanda Alegria
[Guia-intérprete, empresária - Recortes d' Alegria, Tavira]

Em 1994, eu estava a acompanhar um grupo de austríacos seniores em férias no Algarve, estando prevista a realização de várias excursões no país.
Os membros do grupo já se conheciam bem uns aos outros e também já me iam conhecendo quando se realizou um passeio a Faro.

Chegámos à cidade e depois de cumprida uma apresentação geral da capital algarvia, dirigimo-nos até ao Arco da Vila, onde lhes chamei a atenção para os ninhos das cegonhas no cimo da torre sineira. Um elemento do grupo interrompeu-me argumentando que aquilo só podia ser uma fantasia de guias turísticos.
“Como?”, inquiri, perfeitamente indignada.
“Sim, aquilo só pode ser uma trapalhice vossa para enrolar os turistas. Seguramente é feito de barro”.
“Claro que não”, retorqui. “Repare que uma das cegonhas até mudou agora de posição”.
“Ah ah...tretas… Aquilo não é mais do que um mecanismo que vai alternando a posição”.
Eu nem queria acreditar no que ouvia e alguns elementos do grupo até vieram em meu auxílio, dizendo-me que não ligasse porque aquele senhor era muito céptico e fazia sempre reparos daquele género.
Continuámos a visita até à Sé e regressámos de novo ao Arco da Vila. Ainda referi um pouco a medo:
“Olhe, agora já lá está outra cegonha. Vê como são reais?”
“Ah ah...pff...outra treta. É apenas um automatismo que faz uma e outra andar para cima e para baixo e levantar ou baixar a pata.”
Imaginem a minha cara ao ouvir aquilo. Mais uma vez alguns elementos do grupo me consolaram:
“Não faça caso ele é mesmo assim...”
No dia seguinte, o passeio era até Lisboa. Quando passámos pela zona de Alcácer do Sal, ainda pela estrada antiga, havia dúzias de ninhos de cegonhas perto dos arrozais. Voltei a referi-los. Nem me deixaram terminar a descrição. Vários elementos do grupo começaram logo a elogiar as capacidades artísticas dos portugueses... que criavam aquelas belas aves em barro e em posições tão variadas... e mesmo até em voo…
E animadamente brincavam entre si, perguntando-se como é que os portugueses fariam aquilo. Por longos minutos continuaram gozando com o tal senhor de tal modo que, no regresso, já ninguém lhe ouviu a voz.

Penso que para ele terá sido um grande sacrifício. Acreditou finalmente que nós tínhamos mesmo cegonhas vivas e não estatuetas de barro para enganar os turistas!
Ermida de Nossa Senhora do Pé da Cruz - Faro

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Que grande imbróglio...


Por Luis Nadkarni
[Monitor de desporto ]

Quando criança, no ano de 1968 acompanhei os meus pais numa viagem a Fátima por altura das celebrações do 13 de Maio. Na comitiva de peregrinos algarvios destacava-se o Bispo do Algarve, entre outros sacerdotes e leigos.
Assisti às cerimónias e, no Domingo de manhã, durante a Eucaristia, resolvi deambular pelas arcadas do Santuário. Quando dei por mim estava no meio de um grupo de espanhóis que, vendo ali uma criança sozinha, ficaram naturalmente preocupados e um deles perguntou-me onde estava o meu “padre". Apontei imediatamente para o Bispo do Algarve e disse: "o meu padre está ali!"

Paço Episcopal - Faro
Os espanhóis repetiram várias vezes a pergunta à qual eu respondia, com uma tremenda convicção, apontando na direcção do Bispo. Não sei o que terá passado pela cabeça dos espanhóis mas provavelmente questionaram o celibato de tão ilustre personagem...
Entretanto, chegaram os meus pais que andavam, havia já largos minutos, à minha procura e tudo ficou finalmente esclarecido. “Padre" em espanhol é “pai" em português.

O imbróglio tinha terminado.

Paço Episcopal - Faro