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terça-feira, 21 de dezembro de 2010

O Tio Galinho


Por Ilídia Sério
[Empresária - Restaurante Casa Algarvia, Faro]

Nasci e vivi até à adolescência, na Rua Dr. Rodrigues Davim, uma das ruas adjacentes ao bairro do Alto Rodes. Lembro-me que a rua não era asfaltada e quando chovia - e se chovia naquele tempo - a água que escorria pela rua, abria grandes sulcos no chão, que dificultavam a passagem.
Costumo dizer que era uma rua abençoada porque ficava exactamente entre a adega do Abel Pereira da Fonseca e a adega do João Pires.
Era uma daquelas ruas típicas em que todos os moradores se conheciam, eram como família, ajudavam-se uns aos outros e principalmente, conviviam.
Desse convívio fazia parte o juntarmo-nos na rua, sentados cada um à sua porta, após o jantar, a apanhar o fresquinho da noite. E, como é óbvio, contavam-se estórias.
Lembro-me de todos os meus vizinhos, dos nomes, das fisionomias, de algumas características - as mais evidentes claro - pois era ainda muito nova para esmiuçar o feitio de cada um.
Desses vizinhos destaco o Tio Galinho, um pescador baixinho que à noite juntava à sua volta todos os miúdos da rua. Contava que uma vez estava a dormir dentro do barco e que tinha vindo uma bruxa que o levara pelo ar, até à Índia. Sim, ele tinha ido à Índia e voltara nessa noite e contava o que vira por lá. E nós, crianças, ouvíamos crédulas, deliciadas e de boca aberta, esta e outras aventuras narradas pelo bom contador de estórias que era o Tio Galinho.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

O Algarve está com a selecção

Por Pedro Bartilotti
[Programador Allgarve - Faro]

Esta história remonta ao Europeu de Futebol 2004 realizado em Portugal.

Tudo começou com o meu desencanto ao perceber que as iniciativas que estavam a ser realizadas em torno deste evento não continham os ingredientes à altura. Faltava festa, alegria, descontracção, cor… Perante este cenário, lembrei-me então de criar uma personagem baseada num artista que eu na altura representava: o Beto Kalulú.

O primeiro desafio que lhe fiz teve como base a sua imagem de marca. Estou a falar da sua farta cabeleira. Expliquei-lhe a ideia que tinha em mente e perguntei-lhe se tinha algum problema em pintar essa mesma cabeleira com a bandeira de Portugal, ao que ele respondeu sem hesitar que estava 100% disponível.

Seguidamente fui ressuscitar uma música que ele tinha gravado em Londres (estilo remix) e adaptei-a, com uma letra simples e patriótica, ao tema em questão.

Tinha de dar um nome à personagem. Betuga foi o nome que escolhi, uma mistura de Beto com Tuga. O cenário estava a criar forma.

O passo seguinte foi conseguir o apoio de um cabeleireiro e fazer a experiência da pintura da cabeleira. O Cabeleireiro Saint Karl situado no Fórum Algarve foi o escolhido.



Depois de encontrada a personagem, a música e o cabeleireiro, restava arranjar uma forma de dar a conhecer este projecto. Telefonei na altura para a SIC e esta acedeu prontamente a registar todo o processo de transformação do Betuga. A reportagem, com cerca de quatro minutos, passou em horário nobre no jornal da noite e a partir daí foram dois meses sem parar. Televisões, rádios, jornais, etc.

Recordo-me de um dia, quando ao regressarmos de uma ida a Lisboa acompanhados pelas “nossas” cabeleireiras, a dado momento, o Betuga resolve descalçar as suas sapatilhas e colocar os pés no tablier do carro. Até aí tudo bem, não fosse passado poucos segundos começar a sentir-se um odor nada agradável dentro da viatura. Pensei então no que haveria de fazer. Ganhei coragem e disse:
“ Desculpa Beto, mas calça por favor as sapatilhas…”, ao que ele respondeu:
“ O quê? Não pode ser. É impossível… Eu nunca cheirei mal dos pés…”.
Eu disse novamente:
“ Desculpa lá, mas assim que tiraste as sapatilhas sentiu-se logo o cheiro…”.
Betuga aproximou os pés do seu nariz e continuou a afirmar que os seus pés não cheiravam mal. Foi então que abrimos as janelas e realmente o homem tinha razão. Afinal o cheiro vinha da fábrica de celulose… Foi uma risota para todos, incluindo as cabeleireiras que viajavam connosco. Afinal as coincidências acontecem quando menos esperamos e neste caso deu para a boa disposição e alegria.

Teria dezenas de histórias passadas com esta personagem para contar. Talvez as escreva, um dia. Entretanto, fiquem com estas fotos e imaginem o que quiserem…

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Las Palomitas


Por Ilídia Sério
[Empresária - Restaurante Casa Algarvia, Faro]

Decorriam os loucos anos sessenta… Faro, a capital do Algarve, não passava de uma pacata cidade de província ainda sem Universidade, mas já com uma notável vida estudantil, dado que só aqui havia Liceu e os jovens de quase todo o Algarve e Baixo Alentejo vinham completar os estudos, antes de alguns seguirem para Lisboa ou Coimbra onde iriam frequentar as universidades.

Entre outras figuras típicas, vivia em Faro um artista pintor chamado Sidónio Almeida, qual personagem saída de um romance qualquer.
Sidónio era um artista. Sem dúvida alguma, quem conhece a sua obra pode atestá-lo. Muita gente ainda se deve lembrar das suas estórias, algumas incontáveis. Eu conheço esta que me foi contada por um amigo:

Quatro ou cinco amigos, também amigos da boa disposição, juntaram-se em casa do Sidónio para mais uma paródia. Conversa, puxa conversa, a tertúlia decidiu que o Sidónio deveria pintar um quadro, no qual estaria um deles, sentado num cadeirão, todo nu, com dois pombos que viviam em casa do Sidónio, pousados nos ombros. Resta acrescentar que o “modelo” escolhido para posar tinha um corpo pouco vulgar, completamente coberto de pelos. A obra iria chamar-se “Las Palomitas”.

Não consta que o quadro tenha sido alguma vez pintado. Sabe-se é que os pobres pombos acabaram, nessa noite, dentro da única e velha panela que existia no meio de toda aquela grande confusão que era a casa do pintor Sidónio Almeida.


Óleo sobre tela - Sidónio

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

O Luis Kadó

Por Corina Justo
[Técnica de turismo - São Brás de Alportel]

Figura bem conhecida dos São-brasenses, o Luís Kadó, já falecido, costumava deambular pelas ruas de S. Brás não passando despercebido por causa da tosse característica que o afligia, devido ao tabaco. Era uma presença assídua em qualquer evento mais ou menos importante, fosse no cinema, nas noites de verão no jardim da Verbena, nos jogos de futebol disputados entre os clubes locais, nas palestras na biblioteca, nos bailaricos, na missa e o posto de turismo não era excepção. Às vezes entrava só para me cumprimentar:

“Bom dia Corina! Amanhã faço anos. 47. Não pareço, pois não? Diz lá Corina se não sou bonito? Não sou parecido com o Alain Delon?”
Eu respondia:
“Sim, Luís és lindo”.
Ele insistia que fazia anos no dia seguinte perguntando-me o que eu lhe iria oferecer.
E eu tentava saber se ele gostaria de alguma coisa em particular. Então ele enumerava o que os amigos já lhe tinham dado:
“A D. Cidália (Directora da Santa Casa da Misericórdia, em S. Brás) ofereceu-me um pulôver; o meu amigo Leonel (ex-piloto da TAP e actual piloto da Royal Air Maroc) trouxe-me de Marrocos um belo casaco de cabedal…Tinha uma televisão mas está avariada!”

A dica tinha ficado no ar. O Luís ganhou um televisor que já não era usado lá em casa mas que funcionava perfeitamente. E eu fiquei com direito a uma fatia de bolo que ele fez questão de trazer embrulhado numa folha de papel de alumínio.

Noutra ocasião, desta vez pelo Natal, também queria receber uma prenda. Olhava para a vitrina do posto dando a entender que poderia ser o que eu quisesse dar-lhe.
Voltou no dia seguinte e lembro-me de lhe ter oferecido um chapéu de palha.

Um dia entrou de rompante no posto de turismo, muito aflito, para averiguar se eu não teria uma fotografia dele tirada num Domingo de Páscoa, porque queria aparecer na revista Algarve Mais.
E eu tinha, de facto, essa fotografia das Tochas Floridas que a Câmara Municipal me tinha reencaminhado. Mostrei-lha e ele ficou encantado revendo-se no Alain Delon em pessoa.

E assim ficou o Luís Kadó imortalizado.