[Auditor de Segurança - Faro]
Lembro-me como se fosse hoje das brincadeiras, dos namoricos, das traquinices, da sensação de ser livre! Mas daquilo que me lembro melhor, e que até hoje me acompanha, é a minha enorme paixão pela pesca.
Com os meus sete anos, via os pescadores com as suas grandes canas e material de primeira e perguntava ao meu avô se me podia comprar... Ele, após muita insistência minha, lá acabou por ceder e deu-me uma cana, um carreto e chumbinhos para pôr na ponta do fio. Parecia que me tinha dado o mundo!
Certo dia, bem cedo (como qualquer pescador que se preze), peguei no meu material e fui para a beira de água e com toda a força atirei o fio para longe e esperei. Esperei… Esperei horas a fio. De vez em quando lá puxava a linha na esperança de que tivesse apanhado o almoço e... nada!
Triste mas não menos honrado pensei: “O problema é do sítio, os pescadores pescam no molhe e eu estou a tentar na ria!”
Ora bem, descoberto o problema e sem avisar a minha avó dirigi-me com toda a coragem para o molhe do farol e uma vez lá instalado lancei a minha cana e... nada! Todos os outros pescadores apanhavam peixe e eu não. Nisto passou-se um dia inteiro e nem me lembrei de comer. O vício era tão grande que lá fiquei até ser noite.
Quando me apercebi que as horas tinham passado, voltei para casa muito triste e desiludido: afinal de contas o peixe não gostava de mim.
Ao chegar ao início da praia já conseguia ouvir os gritos de desespero da minha avó que durante um dia inteirinho não soubera de mim. E eu nem sequer um peixe lhe trazia para apaziguar a situação…
Ao perceber a aflição da minha avó, e antes que ela me avistasse, decidi esconder-me no quintal do vizinho a chorar. Ele lá me viu:
“Rapaz, a tua avó busca-te como se não houvesse amanhã. Vais levá-las com o cinto!”
“Ajude-me Ti Felipe! - pedi eu - Fui pescar para o molhe mas a minha avó ainda estava a dormir e eu não a avisei, e ainda por cima não apanhei nada e ela agora vai-me bater”.
“Mas acha que isto tem graça?!” - perguntei eu muito ofendido.
“Claro que tem! Atão tu querias pescar sem anzol e sem isco?”
Resultado: o meu avô, conhecendo a peste que eu era, não me deu anzóis nem me ensinou a iscar para que não me magoasse ou magoasse alguém. E eu tinha andado aquele tempo todo literalmente “a dar banho à linha” e a servir de diversão para os pescadores da Ilha do Farol.
Resolvido o mistério, o Ti Felipe foi comigo a casa da minha avó.
“Vitória, encontrei este filhe de Fare a tentar pescar na praia ma nã derem anzol nem isco ao moço...”
“Ai moço dum cabreste quê mate-te, fizeste-me andar com o coração nas mãos todo o dia, desorientada à tua precura e tavas na praia!! Anda cá que eu já te canto.”
E assim foi, levei uns valentes açoites para aprender a dizer sempre onde ia, mas principalmente aprendi que para apanhar peixe, para além de uma cana e de um carreto, é preciso anzol e isco! Esta paixão acompanha-me até hoje.
