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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Dar banho à linha

Por Patrick Guerreiro
[Auditor de Segurança - Faro]


Desde muito pequeno que me lembro dos verões passados na Ilha do Farol. O meu avô, pescador nato, tinha uma pequena casa nessa ilha e eu ia para lá passar as férias grandes da escola (na altura eram quase três meses) com ele e com a minha avó.

Lembro-me como se fosse hoje das brincadeiras, dos namoricos, das traquinices, da sensação de ser livre! Mas daquilo que me lembro melhor, e que até hoje me acompanha, é a minha enorme paixão pela pesca.

Com os meus sete anos, via os pescadores com as suas grandes canas e material de primeira e perguntava ao meu avô se me podia comprar... Ele, após muita insistência minha, lá acabou por ceder e deu-me uma cana, um carreto e chumbinhos para pôr na ponta do fio. Parecia que me tinha dado o mundo!

Certo dia, bem cedo (como qualquer pescador que se preze), peguei no meu material e fui para a beira de água e com toda a força atirei o fio para longe e esperei. Esperei… Esperei horas a fio. De vez em quando lá puxava a linha na esperança de que tivesse apanhado o almoço e... nada!

Triste mas não menos honrado pensei: “O problema é do sítio, os pescadores pescam no molhe e eu estou a tentar na ria!”

Ora bem, descoberto o problema e sem avisar a minha avó dirigi-me com toda a coragem para o molhe do farol e uma vez lá instalado lancei a minha cana e... nada! Todos os outros pescadores apanhavam peixe e eu não. Nisto passou-se um dia inteiro e nem me lembrei de comer. O vício era tão grande que lá fiquei até ser noite.

Quando me apercebi que as horas tinham passado, voltei para casa muito triste e desiludido: afinal de contas o peixe não gostava de mim.

Ao chegar ao início da praia já conseguia ouvir os gritos de desespero da minha avó que durante um dia inteirinho não soubera de mim. E eu nem sequer um peixe lhe trazia para apaziguar a situação…

Ao perceber a aflição da minha avó, e antes que ela me avistasse, decidi esconder-me no quintal do vizinho a chorar. Ele lá me viu:

“Rapaz, a tua avó busca-te como se não houvesse amanhã. Vais levá-las com o cinto!”
“Ajude-me Ti Felipe!
- pedi eu - Fui pescar para o molhe mas a minha avó ainda estava a dormir e eu não a avisei, e ainda por cima não apanhei nada e ela agora vai-me bater”.

O Ti Felipe desatou a rir.

“Mas acha que isto tem graça?!” - perguntei eu muito ofendido.
“Claro que tem! Atão tu querias pescar sem anzol e sem isco?”

Resultado: o meu avô, conhecendo a peste que eu era, não me deu anzóis nem me ensinou a iscar para que não me magoasse ou magoasse alguém. E eu tinha andado aquele tempo todo literalmente “a dar banho à linha” e a servir de diversão para os pescadores da Ilha do Farol.
Resolvido o mistério, o Ti Felipe foi comigo a casa da minha avó.

“Vitória, encontrei este filhe de Fare a tentar pescar na praia ma nã derem anzol nem isco ao moço...”
“Ai moço dum cabreste quê mate-te, fizeste-me andar com o coração nas mãos todo o dia, desorientada à tua precura e tavas na praia!! Anda cá que eu já te canto.”

E assim foi, levei uns valentes açoites para aprender a dizer sempre onde ia, mas principalmente aprendi que para apanhar peixe, para além de uma cana e de um carreto, é preciso anzol e isco! Esta paixão acompanha-me até hoje.


Créditos: Restaurante O Estaminé

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

Estátua a uma mulher conserveira

Por Custódio Arménio
[Aposentado - Olhão]

Passo um milhão de vezes pela doca antiga onde há anos a prata viva, em forma de peixe, foi manipulada, descarregada e estivada por gerações de olhanenses, que fizeram do mar a sua vida e do molhe a sua casa.
Devagar, andando, misturo o som surdo do meus passos com o ténue murmúrio da Ria Formosa e, andando, passo pelo porto onde estão os barcos da carreira, quando o sol vai caindo pesaroso no anil do horizonte. Ao largo já se vê a luz do farol da Ilha. Sigo andando, sentindo o cheiro da maré, pensando no dia que já passou, no bulício provocado pela chegada da pescaria dos poucos barcos ainda resistentes neste lugar de pescadores que vivem da sua salgada mercadoria…



Fecho os olhos e imagino toda a azáfama entre caixas de peixe, gritos e alguns eternos protestos pelo preço do pescado “tive tode o dia no mar pá agora ganhar treseuro por caixa. Uns trabalham pa que os ôtres encham o cu”.
Deixo a pescaria e a sua memorável cantilena e sigo pensando que estes homens mereciam um monumento à sua grandeza, tantas vezes ignorada. Também as mulheres deste povo do mar mereciam uma estátua. Uma estátua de uma mulher magra, de mãos calejadas, sentada num banquinho, com sardinhas entre as suas mãos. Seria um símbolo de grandes obreiras.
A minha mente voa até um passado longínquo feito de grande azáfama, de um cais onde entravam e saíam barcos atrás de barcos e as sirenes das fábricas enchiam o ar com o seu apito. Imagino aqueles escravos do mar que eram os pobres marinheiros. E as filas de mulheres entrando nas fábricas. Tudo bulia, tudo era movimento de caixas, de montanhas de peixe, de filas de banquinhos povoados de mulheres, fêmeas pobres cuja única forma de levar um bocado de pão aos seus filhos era trabalhar, horas a fio, nas fábricas de conserva.
Fábricas que eram templos dos senhores que mandavam na pesca, que eram donos dos barcos, das redes, e algumas vezes, senhores do triste destino daquelas pobres mulheres, que à custa de suor e dores nas costas iam enchendo latas de mar.
Senhores que em nada se importavam com seguros ou benefícios sociais que nunca tiveram a bondade de assegurar a nenhum empregado. Muito menos a uma mulher… “era só o que faltava, dar direitos a essa cambada, que nem sabe ler”.
Senhores que à custa de costas doídas, quase quebradas, iam fazendo fortuna, comprando mais e mais casas na vila e na serra, pelos bons ares, e em Lisboa como gente da sociedade. Senhores que compravam propriedades para caçar, fazendo disso desporto, como os nobres.
Penso pois que essa gente humilde e verdadeiramente nobre merecia uma estátua, um monumento. Quantos homens não tiveram de se rebaixar para alimentar a avareza daqueles “senhores feudais”? Quantas casas ficaram sem filhos e quantas mulheres ficaram viúvas, para que os flamantes apelidos dessa classe duvidosa seguissem passando de geração em geração?
Uma escultura seria uma homenagem em forma de monumento, um pedido de perdão pelos pais que deixaram tantos meninos órfãos e sem a mínima ajuda dos armadores desses barcos que os levaram para o fundo do mar sem fim.
Deveria edificar-se uma estátua de uma mulher, sentada num banquinho, voltada de costas para as fábricas, com os olhos postos no horizonte a ver o esplendor do sol mergulhar nas águas da Ria Formosa, por onde correram sangue e lágrimas de tantas e tantas mulheres, que foram por ali secando a saúde, em busca de pão.

Olhão - vista aérea