quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Insólitos turísticos


Por Antónia Farinha
[Técnica de Turismo - Loulé]

Há cerca de oito anos, ainda o Posto de Turismo de Loulé funcionava no interior do Castelo, onde actualmente está localizado o Museu Municipal, chegou ao local um casal americano com três filhos tendo a mais nova cerca de três ou quatro anos e sendo transportada numa cadeirinha de bebé empurrada pela mãe. O senhor dirigiu-se a mim solicitando informações sobre a cidade.

Até aqui tudo normal …

Ora bem, estava eu concentrada prestando informações sobre a cidade, quando começo a sentir um cheiro menos agradável, que se foi acentuando e que provocou a saída repentina dos outros dois filhos do casal e de outros turistas que esperavam a sua vez de ser atendidos.

“Será que alguém se descuidou?”, pensei.
E para meu espanto, vejo que no meio da sala se encontrava a criancinha mais nova, sentada a fazer as suas necessidades… A nossa pequena turista resolveu transformar o P.T. em W.C.
E se o cheiro já era insuportável, imaginem depois da menina se ter levantado… quando se pôs em posição da mãe lhe fazer a higiene, tal e qual como quando a “Alemanha perdeu a guerra”- na expressão dos antigos. Em seguida, a mãe deu um nó no saco de plástico transparente que continha o “presente” e a toalhita Dodot, enrolou-o no braço do carrinho com outro nó, desmontou o suporte do penico e saiu dali como se nada se tivesse passado….

Entretanto, o pai, que eu acabara de atender, agradeceu-me e abandonou o Posto de Turismo com votos de um bom dia de trabalho.

E eu ali fiquei, sozinha, incrédula, inerte, sem palavras, respirando aquele ar e pensando na descontracção necessária para ter semelhante atitude.

É caso para dizer: “E esta hein?”

Muralhas do Castelo de Loulé

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Ninhos de cegonhas


Por Fernanda Alegria
[Guia-intérprete, empresária - Recortes d' Alegria, Tavira]

Em 1994, eu estava a acompanhar um grupo de austríacos seniores em férias no Algarve, estando prevista a realização de várias excursões no país.
Os membros do grupo já se conheciam bem uns aos outros e também já me iam conhecendo quando se realizou um passeio a Faro.

Chegámos à cidade e depois de cumprida uma apresentação geral da capital algarvia, dirigimo-nos até ao Arco da Vila, onde lhes chamei a atenção para os ninhos das cegonhas no cimo da torre sineira. Um elemento do grupo interrompeu-me argumentando que aquilo só podia ser uma fantasia de guias turísticos.
“Como?”, inquiri, perfeitamente indignada.
“Sim, aquilo só pode ser uma trapalhice vossa para enrolar os turistas. Seguramente é feito de barro”.
“Claro que não”, retorqui. “Repare que uma das cegonhas até mudou agora de posição”.
“Ah ah...tretas… Aquilo não é mais do que um mecanismo que vai alternando a posição”.
Eu nem queria acreditar no que ouvia e alguns elementos do grupo até vieram em meu auxílio, dizendo-me que não ligasse porque aquele senhor era muito céptico e fazia sempre reparos daquele género.
Continuámos a visita até à Sé e regressámos de novo ao Arco da Vila. Ainda referi um pouco a medo:
“Olhe, agora já lá está outra cegonha. Vê como são reais?”
“Ah ah...pff...outra treta. É apenas um automatismo que faz uma e outra andar para cima e para baixo e levantar ou baixar a pata.”
Imaginem a minha cara ao ouvir aquilo. Mais uma vez alguns elementos do grupo me consolaram:
“Não faça caso ele é mesmo assim...”
No dia seguinte, o passeio era até Lisboa. Quando passámos pela zona de Alcácer do Sal, ainda pela estrada antiga, havia dúzias de ninhos de cegonhas perto dos arrozais. Voltei a referi-los. Nem me deixaram terminar a descrição. Vários elementos do grupo começaram logo a elogiar as capacidades artísticas dos portugueses... que criavam aquelas belas aves em barro e em posições tão variadas... e mesmo até em voo…
E animadamente brincavam entre si, perguntando-se como é que os portugueses fariam aquilo. Por longos minutos continuaram gozando com o tal senhor de tal modo que, no regresso, já ninguém lhe ouviu a voz.

Penso que para ele terá sido um grande sacrifício. Acreditou finalmente que nós tínhamos mesmo cegonhas vivas e não estatuetas de barro para enganar os turistas!
Ermida de Nossa Senhora do Pé da Cruz - Faro

terça-feira, 16 de novembro de 2010

Andar a pé sem comer, não!


Por Elisabete Rodrigues
[Jornalista, membro do Núcleo do Algarve da Liga Para a Proteção da Natureza]

Há mais de 20 anos que o Núcleo do Algarve da Liga para a Proteção da Natureza promove, todos os meses, passeios a pé, à descoberta dos tesouros naturais da nossa região.
Ao longo destas mais de duas décadas, já se têm passado situações estranhas.

Os passeios, embora não seja essa a sua principal faceta, acabam por ter uma vertente turística, até porque a LPN Algarve foi a primeira instituição a promover, na região, percursos de Natureza de forma organizada e regular. Mas, tendo em conta que somos uma Organização Não-Governamental de Ambiente, o enfoque nos nossos passeios é sempre nas questões ambientais, de conservação da Natureza e de educação ambiental. Os guias são, por isso, pessoas que gostam de andar a pé, que percebem (muito ou só um bocadinho) sobre as questões ambientais em causa num determinado percurso. Não são guias turísticos, nem a LPN Algarve tem vocação para o turismo!

No entanto, gostamos sempre de dar a conhecer, além do património natural, outras riquezas do local onde vamos passear a pé. Nomeadamente o seu artesanato ou a sua gastronomia. É que a LPN Algarve considera que o Turismo de Natureza é muito mais do que ir passear para um local e não deixar lá nada. Devemos contribuir sempre para a economia local, nem que seja apenas aconselhando ao grupo os restaurantes da terra.
E foi precisamente numa desta situações que sucedeu um dos casos mais estranhos em duas décadas de passeios.

Aqui há uns 10 anos, organizámos um passeio na zona de Querença, que terminava com um almoço no saudoso Moinho do Ti Casinhas, da D. Maria de Jesus. Como o restaurante era pequeno, limitámos as inscrições para o almoço às primeiras 12 pessoas. E avisámos os restantes inscritos que teriam que procurar outro restaurante na zona ou que levar merenda. Claro que as inscrições para o passeio mais almoço se esgotaram rapidamente.
No sábado em causa, lá fomos nós fazer o percurso, confiantes de que, depois de andarmos uns quilómetrozitos a pé, teríamos um excelente repasto à nossa espera no Moinho do Ti Casinhas.
Eu, que era a guia daquele passeio, estranhei que aí por volta do meio dia e meia alguns dos participantes tivessem resolvido voltar para trás. Na altura, não percebi porquê…

Quando a esfomeada dúzia de inscritos no passeio mais almoço chegou ao Moinho do Ti Casinhas, foi a surpresa total: é que, nas mesas que haviam de ser nossas e a comer a comida que tinha sido preparada para nós, já lá estavam as tais pessoas que tinham deixado o passeio a meio…
É que esse grupinho, que se tinha inscrito mais tarde e por isso já não tinha podido ficar no rol de felizes comensais, tinha simplesmente resolvido passar-nos à frente.

A D. Jesus, a quem o grupinho tinha dito que pertencia ao passeio da LPN Algarve, ficou atrapalhada com a situação, embora a culpa não fosse, de forma alguma, dela.
E nós, a tal dúzia de esfomeados caminhantes, tivemos que nos contentar com uns queijos e chouriços…divinais. Não ficámos nada mal servidos, mas não foi o almoço que estávamos à espera e que tínhamos marcado…

Resultado: aquele grupinho nunca mais foi aceite nos passeios da LPN Algarve.

E A LPN nunca mais se responsabilizou por marcar almoços para os passeios! Sugerimos restaurantes e depois logo se vê!

É que isto de andar muito a pé e no fim não ter o que comer não é agradável!
Fonte da Benémola - Querença

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Um Algarve sentido


Por José Zambujal
[Jornalista, agente artístico - Faro]

Há uns tempos o João Lima convidou-me para escrever um texto para o Blogue do Turismo do Algarve. Única "obrigação": a histórinha teria, naturalmente, que estar relacionada com o Algarve.
Está bom, pensei eu, vivo cá, nasci cá, há-de sair alguma coisa... O tempo foi passando e nada. Não saía nada. É que não me ocorria nada que pudesse dar uma história, zero, népia... Que raio, tantos anos de praia e nada?! Achei então que o erro era estar a pensar no Algarve como sol, areia e mar. Quero dizer... erro, não sei, afinal é um pensamento comum e partilhado durante anos a fio - gerações, talvez - por quem tem a responsabilidade de gerir o destino desta terra à beira mar plantada. À beira-mar, lá está... Mas não, o Algarve não pode resumir-se a mar, areia e sol. Há mais. Tem que haver mais. Claro! Há, agora, o Allgarve! Há animação, há espectáculos, há um "tudo" numa terra só. Ganhámos visibilidade nacional e internacional... e ganhámos mais um "l"! Fantástico! Pois...mas quando daqui a uns anitos os turistas falarem do "Allgarve" com dois "l" como falam do "Oporto" com "o", não vou achar graça nenhuma. Não, também não era aqui que me apetecia encontrar uma histórinha. E lá fui parar outra vez à praia, às memórias de praia. Memórias "escritas" em línguas estrangeiras, memórias, enfim, partilhadas com mocitas altas e loiras vindas de terras mais frias e com costumes bem mais quentes que os nossos naquela época... Também não. Também não são histórias que interessem a ninguém - acho que já nem às protagonistas ! - e sobretudo não são coisas para um blogue que se quer sério.

Tinha que descobrir coisas mais sérias e ligadas ao Algarve... As portagens na Via do Infante, a tal que nunca teria portagens? Fraco. Uma história banal, parte do dia a dia deste País. Os pinos "plantados" na avenida onde moro, em Faro, limitando drasticamente o estacionamento sem escutar ninguém nem dar alternativas válidas a quem aqui vive? Fraquito, nada que dê história, daqui a uns tempos já ninguém se lembra nem dos pinos nem de quem os plantou... As decisões prepotentes e absurdas que todos os dias nos afectam? Cá vamos seguindo em frente e baixando as orelhitas... O despedimento dos 336 trabalhadores da Groundforce no Aeroporto de Faro, de uma forma miserável e sem o mínimo respeito pelas pessoas? Não... não é propriamente algo que se passe só no Algarve, é diário e acontece no País inteiro. Ok. Estava visto que com a mentira, a incompetência e a corrupção de quem nos governa, por muito que afectasse o meu Algarve, não me governava eu...
Mas onde é que raio havia eu de ir buscar uma história minha, ligada ao Algarve?! Respirei fundo, despejei mais um bocadinho de Jack Daniels - devia ser medronho, para ser mais algarvio, mas não vou mentir a bem da história ... - e disse de mim para mim: organiza-te, pá! Vamos lá por partes: nasci aqui, fui-me embora para Lisboa com 19 anos, fiquei por lá uns vinte e tal e voltei ao Algarve há 11 anos. Voltei porquê? Voltei porque descobri que afinal a lenda da Moura Encantada era verdadeira. Encontrei uma moura farense, que me encantou e me fez deixar a cidade grande sem olhar para trás. Com ela redescobri o Algarve. Vi que aqui se pode ter paz, se pode ter alegria, se pode ter uma qualidade de vida que nenhum slogan é capaz de promover com justiça. Percebi que a Barrinha ao fim da tarde é mais bela que a mais bela praia das Caraíbas, que uma tarde de temporal vivida na Ilha do Farol é fascinante, que olhar o horizonte lá de cima, do alto da Serra, é um espectáculo de cortar a respiração. Comi ostras em Cacela, ouvi música do mundo em Loulé, ganhei amigos que dizem "mósse débe" e são para a vida.
No Algarve amei e fui amado. Um dia a moura encantada que se chamava Lena partiu, para sempre. Deixou-me a história deste Algarve que agora vos conto e a esperança de que aqui as amendoeiras hão-de sempre dar flor e o mar há-de continuar a ter brisa. É uma história feita muito mais de sentimentos do que de palavras, talvez por isso, João, sem interesse para o blogue. Mas é, podes crer, a história mais bonita que tenho do Algarve.

Lena

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Os cavalos-marinhos da Ria Formosa


Por Fátima Catarina
[Adjunta do Gabinete da Direcção do Turismo do Algarve]

Os cavalos-marinhos estiveram sempre presentes nos meus sonhos de infância, exercendo sobre mim uma grande curiosidade e atracção. A sua beleza fazia-me sonhar e imaginar histórias lindas…

Os cavalos-marinhos são de facto uns animais fantásticos! Mudam de cor e movimentam os olhos independentemente um do outro. Reproduzem-se na primavera através de ovos postos pela fêmea, os quais são fertilizados pelo macho que os guarda, durante cerca de dois meses, numa bolsa que tem na base da sua cauda. Para expelir os filhos dessa bolsa, o macho efectua enérgicos movimentos. Os recém-nascidos são minúsculos e transparentes…

Fiquei encantada quando soube que a Ria Formosa já albergou uma das maiores comunidades de cavalos-marinhos do mundo! Apesar dessa população ter diminuído, há indícios de que está, de novo em crescimento.

Devemos ter orgulho do nosso mar do Algarve alimentar tão lindas criaturas… Por isso, temos o dever de as proteger!

É lindo o nosso Algarve… até no seu fundo marinho!

Cavalo-marinho - Ria Formosa
[Créditos fotográficos: Miguel Correia – CCMAR/Project Seahorse ]

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

A sentença da costureira


Por Corina Justo
[Técnica de turismo - São Brás de Alportel]

No interior algarvio, as populações mais envelhecidas são muito supersticiosas e não faltam histórias de agoiros e de almas penadas, que passam de geração em geração.

Muitas pessoas nascidas em S.Brás de Alportel conhecem certamente “a sentença da costureira”. A minha avó materna era ainda solteira e já tinha ouvido esta história, que, por sua vez, não se cansava de contar.

Consta que uma costureira tinha prometido confeccionar um vestido bordado a ouro para a Nossa Senhora de Fátima, se esta curasse a sua filha da doença muito grave de que padecia.
Concedida a cura, a costureira não pôde, no entanto, cumprir a promessa, pois era muito pobre.
Diz o povo que a costureira depois de falecer começou a vaguear pelo mundo e, ainda hoje, anda de casa em casa, continuando a costurar. Em São Brás de Alportel, muitas pessoas dizem ouvir uma máquina de costura em funcionamento, com o seu ruído característico, o abrandamento do pedal quando está prestes a parar e o pousar das tesouras no tampo.

São inúmeros os testemunhos e são relatados por muitas gerações.

Conta-se que a assombração também aconteceu na casa da nora do Tio Marcelino, condutor reformado de carros de praça. Ele, não acreditando em histórias de almas penadas, pensou que o antigo relógio de corda, que estava na sala, era o causador daquele barulho estranho. Retirou o relógio da parede para não suscitar mais dúvidas. Passado pouco tempo, ouviu novamente o barulho da máquina de costura, tal e qual como se estivesse ali perto dela.

Superstição ou realidade?

Os que contam ter vivido a mesma experiência não têm quaisquer dúvidas: “Quem promete, em dívida se mete”.

Calçadinha Romana - São Brás de Alportel

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Que grande imbróglio...


Por Luis Nadkarni
[Monitor de desporto ]

Quando criança, no ano de 1968 acompanhei os meus pais numa viagem a Fátima por altura das celebrações do 13 de Maio. Na comitiva de peregrinos algarvios destacava-se o Bispo do Algarve, entre outros sacerdotes e leigos.
Assisti às cerimónias e, no Domingo de manhã, durante a Eucaristia, resolvi deambular pelas arcadas do Santuário. Quando dei por mim estava no meio de um grupo de espanhóis que, vendo ali uma criança sozinha, ficaram naturalmente preocupados e um deles perguntou-me onde estava o meu “padre". Apontei imediatamente para o Bispo do Algarve e disse: "o meu padre está ali!"

Paço Episcopal - Faro
Os espanhóis repetiram várias vezes a pergunta à qual eu respondia, com uma tremenda convicção, apontando na direcção do Bispo. Não sei o que terá passado pela cabeça dos espanhóis mas provavelmente questionaram o celibato de tão ilustre personagem...
Entretanto, chegaram os meus pais que andavam, havia já largos minutos, à minha procura e tudo ficou finalmente esclarecido. “Padre" em espanhol é “pai" em português.

O imbróglio tinha terminado.

Paço Episcopal - Faro

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Raul, o sacristão


Por Filomena Serol
[Técnica de turismo - Armação de Pêra]

As gentes de Alvor e arredores conhecem provavelmente muitas histórias do Raul, uma figura típica da terra nos anos 30/40 do século passado. Eu própria, não sendo de Alvor, ouvi muitas vezes o meu avô contar histórias deste pescador que, além disso, também era sacristão.

Raul era um daqueles homens inofensivos e simplórios que, pela sua inocência, despertava muitas vezes as traquinices dos jovens, sempre prontos a pregar-lhe partidas e a desafiá-lo para que perdesse as estribeiras.

Numa ocasião em que na terra se celebrava a festa de Nosso Senhor dos Passos, Raul, o sacristão, ia na frente da procissão segurando a cruz de Cristo. A rapaziada ia desafiando o Raul com palavras e pequenos toques. Tanto o picaram que, quase ao recolher da procissão, o Raul perdeu a paciência e desatou numa corrida atrás deles. Na fúria da perseguição, nem deu pelo crucifixo ter caído do seu suporte e acabou por regressar à igreja já sem o Cristo no topo.

O pároco, ao aperceber-se da situação, questiona o Raul, que de imediato exclama:

“Ah mãe… Sô Prior! Atão na querem ver qu’o amaldçoade foi correndo atrás dos môces!”


Igreja Matriz de Alvor

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Algarve para viver


Por João Juma
[Estudante de Economia na Universidade do Algarve]

Quando decidi colocar Universidade do Algarve – Curso de Economia na ficha ENES, nunca poderia imaginar que o meu destino passasse por caminhos tão paralelos ao que pensei ser o “ideal”.
Sendo de Lisboa, sempre olhei para o Algarve como um local impecável, para férias, tal como muitas outras pessoas o fazem.

Em três anos de vivência entre Faro, Albufeira e Tavira, apaixonei-me pelas pessoas, pelos locais, pelo clima e pela qualidade de vida.
Conhecendo um pouco o mundo empresarial e integrando-me na realidade local, fiquei triste com alguns aspectos que penso que poderiam ser alterados se houvesse vontade para tal…

Em primeiro lugar e começando pelo ensino há que referir as excelentes infra-estruturas da Universidade do Algarve. Na linda região em que vivemos, podemos cativar os melhores professores, políticos e empresários de modo a partilharem a sua experiência com os alunos, contribuindo para o desenvolvimento do nosso pequeno paraíso. Quem não quer trabalhar a cinco minutos da praia e sem hora de ponta? Porque não apostar na atracção de profissionais que elevem o nome da instituição para que através da formação prestada se vejam frutos a médio e longo prazo?
Infelizmente os alunos que a Universidade integra são, na sua maioria, guiados pelo canudo e não pelo desejo de aprendizagem, o que causa uma reacção desfavorável em qualquer entidade empregadora em Portugal. A maior parte dos alunos olha para o número de cadeiras com o tédio de ter que as passar em vez da excitação de poder aprender. Mentalidade algarvia ou falta de formação?

Em segundo lugar o que nós apelidamos Inverno, que na verdade é apenas uma “brisa” agradável, causa-nos sempre uma agonia indevida designada por sazonalidade, mas que é perfeitamente evitável.
Arrepia-me andar nas cidades do Algarve durante as noites de Inverno, não devido à temperatura mas à solidão. Sendo um dos locais mais quentes na Europa durante todo o ano, não se vê no entanto vivalma senão na estação alta.

Faltam pessoas no Algarve durante o Inverno…

Quantos lares de luxo para idosos existem no Algarve? Se eu não fosse um miúdo com 22 anos garanto-vos que realizava um investimento desse género e tinha retorno financeiro garantido para não falar da felicidade na cara das pessoas que tivessem o privilégio de lá ficarem. O Algarve é bom para as merecidas “férias” finais de qualquer vida.

Outro ponto que me ocorre refere-se às empresas de e-business. São empresas que, pela sua natureza online, podem estar sediadas em qualquer parte do mundo. Já temos algumas no Algarve, que curiosamente tiveram bastantes dificuldades em instalar-se. Um dos obstáculos que tiveram foi, por exemplo, dizerem-lhes que não queriam empresas que não tivessem interesse em recrutar Portugueses. Poderão não ter esse interesse mas terão outros para quererem instalar-se na região. Há que perceber essas razões e promover a sua fixação no Algarve, demonstrando-lhes todas as vantagens que por cá existem para viver.

Temos uma região turística que deveria também ser promovida e projectada como um local para se viver e para se trabalhar.

Hoje estou a estudar na Republica Checa e já contagiei estudantes para continuarem o seu percurso académico no nosso paraíso. Não foi necessário mais do que o vídeo promocional da nossa região e palavras sentidas.

Cabe-nos a nós decidir o que queremos fazer, de que forma e com que dedicação.
Temos todos a ganhar, temos todos o dever de partilhar.

Algarve

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

O Palácio das Lágrimas


Por Leitor devidamente identificado

Nos meus tempos de infância os passeios com a Avó Gertrudes faziam parte dos rituais da manhã. Pela mão dela fui descobrindo as ruas da cidade, as praças, as casas, os palácios e fui descobrindo as histórias ligadas a cada rua, a cada casa, a cada palácio.

Ficaram-me para sempre na memória as estórias que ela me contava…

Lembro-me de passar na Praça Alexandre Herculano e de ela me dizer:
“Não olhes para o Palácio das Lágrimas, filho, é uma casa triste…”
Na altura, limitei-me a olhar por cima do ombro, fazendo de contas que não olhava.

Anos mais tarde, já mais “crescidito”, quando de noite nos sentávamos na sala, ela bordando ou fazendo renda e eu entretido com os meus livros dos “Cinco” ou dos “Sete”, cheios de mistérios e de aventuras, todas aquelas estórias que antes me contara voltavam à memória e era rara a noite em que não lhe pedia que me explicasse bem.

Foi assim que fui descobrindo os segredos da cidade.

Uma das histórias mais curiosas, a meu ver, é a do Palácio das Lágrimas, casa senhorial que foi mandada construir no século XIX e onde nasceu o Deputado e Par do Reino José Bento Ferreira de Almeida. Este edifício, designado por Palacete Ferreira de Almeida, foi também lar de um musicólogo e compositor, de seu nome Militão Coelho, que, como qualquer artista que se preze, tanto tinha de génio como de louco ou de boémio. Por vezes ficava dias sem sair à rua, outras vezes saía e só aparecia passados largos meses. Para além desses “atributos” não era dado a quaisquer compromissos e muito menos matrimoniais….

No entanto, por obrigação da família ficou noivo de uma senhora de Faro, com a qual casou.
Logo o casamento se revelou um enorme fracasso, para desespero de todos e particularmente da recém-casada, que para sempre ficou conhecida como a “eterna noiva” pelo facto do casamento nunca se ter consumado.

Um dia o musicólogo Militão Coelho saiu de casa e nunca mais voltou. Segundo dizem, terá ido para Lisboa à procura de algo que o fizesse feliz…

Numa cidade de província o escândalo foi enorme… tanto mais que a “eterna noiva” passava as noites à janela, por detrás das cortinas, chorando a sua solidão…

Por causa disto ou talvez não, este belíssimo palácio ficou para sempre conhecido do povo como o Palácio das Lágrimas.


Palacete Ferreira de Almeida - Praça Alexandre Herculano, Faro

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Os "cornos" do Infante


Por Eduarda Madeira
[Técnica de Turismo aposentada - Faro]

O Infante D. Henrique, figura maior da História dos Descobrimentos, ficou intimamente ligado ao Algarve, onde viveu durante largas temporadas e de onde promoveu diversas expedições marítimas. Apelidado de Infante de Sagres, localidade onde edificou uma vila e onde viria a morrer em 1460, a figura deste grande senhor da Idade Média encontra-se representada também em Faro, com um busto colocado no alto da cidade, frente à Escola Secundária João de Deus.

Para além de desfrutar do sol e da praia, os turistas também procuram por cá a história e a cultura do país e querem-na levar consigo fixando imagens para mais tarde recordar.

Pois nas minhas recordações profissionais ficará para sempre a história de um casal de turistas ingleses que, num Domingo de Julho, nos idos anos 80, esperava de manhã pela abertura do Posto de Turismo de Faro, com um problema para resolver.

Ainda eu mal tinha passado a porta do Posto e já eles me abordavam:
“Minha Senhora, estivemos a passar férias em Albufeira e estamos desde ontem em Faro. Ontem à tarde, passeando pela Rua de Santo António, acabámos por prosseguir ao longo da Avenida 5 de Outubro e chegámos a uma grande escola que tem em frente uma estátua do Infante D. Henrique. Quisemos tirar uma fotografia, mas o Infante tem uns cornos na cabeça! Já lá fomos hoje e continua na mesma.”
Eu não queria acreditar no que ouvia. Eles falavam inglês mas, para se assegurarem de que eu os entendia, até tinham ido ver ao dicionário como se dizia em português. E então, falavam alto e bom som que o Infante tinha “uns cornos”.

Ocorreu-me que talvez se tratasse de alguma diabrura dos estudantes do Liceu, em tempo de final de aulas.

Lá sosseguei os meus turistas telefonando aos Bombeiros para que tentassem resolver o caso. Pouco depois passavam eles apitando e rindo da tarefa que os esperava e que cumpriram devidamente, permitindo que o casal de ingleses fizesse a desejada fotografia do Infante para levar de volta para Inglaterra.

Na Segunda-feira de manhã foi a risota geral para o pessoal da Câmara Municipal de Faro, quando os Bombeiros Municipais apresentaram o relatório da ocorrência do dia anterior, no qual constava, preto no branco, o serviço prestado pelas 9 horas da manhã de Domingo, a pedido da funcionária do Posto de Turismo: “Tirar os cornos do Infante”.

Praceta do Infante - Faro

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Férias no Algarve


Por Raul Carrajola Araújo
[Assistente Director de Vendas - Hotéis Real]

Este ano, vou de férias para o Algarve! Até aqui nada de novo.
Mas este ano apetece-me ter um espírito de aventura e de descoberta, apetece-me algo diferente, encontrar-me com o meu espírito simples e descobrir o que a natureza tem para nos dar!

Comecei por olhar para o mapa do Algarve, olhei para as zonas verdes demarcadas no mapa, parques naturais… Parque Natural da Ria Formosa hummmm… não conheço… ilhas? Deserta?

É isso. Quero ir à descoberta deste parque com uma extensão de cerca de 60 quilómetros. Vou mas é já à internet fazer uma pesquisa.

Na mala que este ano vou levar de férias para o Algarve também quero coisas diferentes, quero levar coisas simples, umas havaianas, uns calções para ir andar de barco, umas t-shirts, uns binóculos e claro não me vou esquecer da máquina fotográfica. Afinal quero registar tudo o que vir de novo e quero partilhá-lo com os meus amigos no Facebook! Quero sentir-me saudável, quero fazer passeios a pé e de bicicleta. Vou fazer todos os passeios de barco disponíveis na Ria Formosa.
Na minha mala para além dos fatos de banho, levo também o meu Moleskine para registar algumas ideias, rabiscar e escrever os endereços dos novos amigos que vou fazer este ano.
Quero subir ao Farol do Cabo de Santa Maria e ver coisas que nunca vi. Quero ver o Algarve cá do alto e sentir-me pequenino como o coração de uma criança cheia de alegria.

“Raul! Raul! Acorda… olha as horas!”

“O quê? Ai que maravilha… vivo no Algarve e mesmo assim sonho em passar cá as férias. E não é uma boa ideia?”

Porphyrio porphyrio ou galinha sultana - Ria Formosa

terça-feira, 2 de novembro de 2010

Môce má linde


Por Célia Arménio
[Chefe de Gabinete no Turismo do Algarve, algarvia de coração]

Desde miúda que vinha todos os anos passar as férias grandes ao Algarve e os anos 70 não foram excepção. Ficávamos na casa da avó Laura, que tinha um monte onde havia galinhas, patos e gatos, alfarrobeiras, amendoeiras e um pinheiro manso secular e espectacular. Existia também uma “ardoiça” – baloiço em algarvio – que fazia parte do “circo”, onde tudo era possível. Para mim, aquele era um mundo à parte, tão diferente de Lisboa onde nasci e vivi até já ser adulta e rumei então ao Algarve de armas e bagagens.

Os Verões eram passados entre o monte e a praia, sendo a Ilha da Armona o nosso local favorito. Adorava a travessia de barco, o roncar do motor, o cheiro a gasóleo e o facto de ir pendurada na balaustrada do navio, com o vento a bater-me na cara, enrolada na toalha, porque as manhãs eram sempre fresquinhas.

Na praia era uma alegria. A “moçanhada” - grupo de jovens em algarvio - agrupava-se junto ao velho restaurante Tolinhas. Só mais tarde vim a descobrir que o paraíso ficava na costa, no outro lado da ilha. Armávamos uma espécie de acampamento feito de toalhas e mochilas. Nada de chapéu-de-sol ou protector solar. O creme Nívea, passo a publicidade, era só para depois do banho. Nós gostávamos mesmo de ficar bronzeados, de tal forma que até usávamos uma mistela inventada por alguém pouco fiável, feita com óleo de coco e tintura de iodo… aquilo fazia um bem… ui!

Ao que parece, o pessoal de Lisboa devia ter um ar diferente da malta da terra, pois os “môces” de Olhão, não se cansavam de rondar o acampamento exibindo o corpinho bem feito e lançando olhares lancinantes, facto que para nós era alvo de galhofa. As nossas risadas incentivavam ou excitavam de tal maneira os rapazes, que eles faziam tudo o que aprendemos no National Geografic sobre os rituais de acasalamento e os esforços que o macho faz para chamar a atenção da fêmea.

Não havia nada que não fizessem desde poses alegadamente sensuais ao sacudir do cabelo molhado, qual “modelito” do anúncio da Sunsilk. O ponto alto dos ditos “rituais de acasalamento” chegava com os saltos encarpados, que eles faziam a partir da ponte e do cais de atracagem do barco da carreira.

O certo, é que realmente os saltos eram impressionantes, dignos de qualquer campeão olímpico da modalidade. Aqueles “mecinhos podiem ter future”!

Mas certo dia, em que a maré está vaza, um dos galãs do grupo de pseudo-admiradores das miúdas da capital, depois de uma breve exibição do seu corpo atlético e do lançar do mais perfeito dos sorrisos, tipo Pepsodent, dirige-se confiante para a ponta do cais, abre os braços como que dando sinal ao júri, e lança-se sobre as águas cristalinas da Ria Formosa. Por azar embate com um banco de areia e sai da água cambaleando, com um ninho de areia na cabeça, e um ar um pouco assarapantado. E nós, longe de perceber então o real perigo e as possíveis consequências do seu pressuposto feito glorioso, rimo-nos que nem umas tontas.

O “môce má linde” naquele dia podia ter ficado paraplégico ou tetraplégico, como a personagem do memorável filme “Mar Adentro”. Mas a partir desse dia nunca mais tentou impressionar-nos daquele modo, e foi muito mais bem acolhido quando nos convidou para beber um Spurcola, refrigerante que já não existe.

Hoje somos amigos.


Ilha da Armona

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Vidas retalhadas


Por Lina Vedes
[Escritora algarvia]

Tinha uma colega, Alexandra, que morava na Rua da Misericórdia, que andava comigo na explicação da D. Gracinda, empregada nos Correios. A porta do quintal desta amiga servia várias casas, era o nº 13 e ficava na Rua Manuel Belmarço. Todas as casas que faziam canto com a Rua da Misericórdia tinham quintais ao fundo que se conjugavam e todos os moradores os partilhavam como um bem comum.
A Alexandra tinha uma particularidade que me espantava. Assumia diferentes personalidades sendo uma colega como as outras, conversando normalmente, ou parecendo viver longe da normalidade.
Quando eu ia para a explicação passava pelo quintal dela, chamava-a e se não respondesse ia à porta da rua. Normalmente estava em casa ou no quintal, tinha uma vida solitária, nunca senti a presença de um pai, e a mãe levava os dias na igreja, rezando, esquecida da filha.
Abria-me a porta, punha o indicador direito junto dos lábios, a pedir silêncio, com a mão esquerda puxava-me para dentro de casa e com voz surda, confidenciava-me:
"Anda comigo, vamos pelo quintal, devagarinho, eles estão à nossa espera. Vem atrás de mim e faz o que eu faço. Não tenhas medo, são demónios bons e amigos".
Eu entrava no jogo, era diferente e divertido.
Ela avançava e eu seguia-a, mais parecíamos um gato perseguindo a presa, olhando à esquerda e à direita, agachadas ou levantadas até atingirmos a porta para sair. Pegava nos livros que tinha escondido num muro e íamos, tranquilamente, para a explicação que ficava numa casa encostada à parede da muralha, no Largo de S. Francisco. Eram 3 ou 4 casas, à entrada e à direita, que haviam sido construídas aproveitando a parede do castelo e que hoje já não existem. A da explicadora ficava na do meio.

Acontecia estarmos a trabalhar e ouvirmos a porta da rua bater e, o marido da D. Gracinda, com aspecto de grande felicidade estampada no rosto entrar na casa de jantar, onde nos encontrávamos.
A explicadora tinha uma cara encarniçada, com muitas “espinhas”, mais parecendo uma adolescente, uma pele bastante oleosa e a boca sempre pintada de vermelho vivo. Quando falava com as pessoas, gesticulava, batia, empurrava, e quando a conversa a entusiasmava, abusava de tal maneira, que uma vez espalmou a minha mãe contra a parede.
Ao encarar o marido, nessas ocasiões, ficava branca, transbordava de raiva e começava a descarregá-la esmurrando-o no peito, nos braços, na barriga volumosa e blasfemando:
"Continuas na mesma. Trabalhar não é contigo. Chegas às tantas da madrugada, dormes toda a manhã, almoças e desapareces. Não arrumas a louça que sujas nem a cama onde dormes. Farto-me de trabalhar para te sustentar, grande malandro. Tenho de dar explicações para pagar as tuas dívidas. Isto tem de ter um fim. Ou trabalhas, ou rua…."
Ia batendo num desabafo de revolta contida, enquanto ele, agarrado à cadeira de braços que em parte o protegia dos arremessos, continuava com a expressão de felicidade, olhando-a com olhos de “carneiro mal morto”…
Cansada de tantas palavras e gestos, a D. Gracinda começava a ceder e a amansar com o olhar que ele lhe “jogava”, um olhar que era um pedido, utilizando um código gestual que para nós era indecifrável.
Aos poucos, ela suavizava, ele pegava-lhe na mão, puxava-a suavemente, todo ternura. Ela ainda, num último estertor, clamava:
"Não!"
Ele não desistia, insistia, os olhos brilhantes, a boca com um sorriso “sacana”, a mão a avançar pelo braço, a chegar-lhe à cintura, a puxá-la, com uma insistência sábia…
" Meninas vão brincar para o Largo de S. Francisco que eu já as chamo."

Saíamos felizes e contentes, correndo em direcção ao apeadeiro, pisando a terra, as pedras, as covas. Atravessávamos a linha do caminho-de-ferro e ficávamos donas das salinas!
Aqui, a Alexandra não queria silêncio. Era um cavaleiro andante que corria pelo labirinto de caminhos que ladeavam os tanques de água salgada. Esses caminhos eram estreitos e altos com comportas de madeira maciça e grossa que serviam para conter as águas. A água em baixo fazia remoinhos bastante fortes, tornando o local perigoso mas nós, qual cavaleiros corajosos galgávamos todos os obstáculos, brincando no nosso mundo de “faz de conta”.
Já não existem essas salinas!
Voltávamos para o trabalho, para a explicação da D. Gracinda e verificávamos que o clima, entre o casal, tinha mudado.
O senhor marido sentado na cadeira de braços da explicadora, rodeado de almofadas, com uma mesa pequena na frente, coberta com uma toalha, dava a sensação que havia acabado de saborear um bom petisco, daqueles que os homens gostam, com bastante gordura e um bom vinhito a acompanhar…
Estava saciado a digerir prazer!!!!!
A D. Gracinda olha para o nosso trabalho, passa-nos outro e diz:
"Já volto."
Volta com um prato cheio de comida fumegante, coloca-o na mesinha, na frente do marido.
"Come, meu amor!"
Olhámos uma para a outra, espantadas, sem perceber nada…
Ainda tem fome??!!

Faro
(créditos fotográficos: Antonio Sacchetti)

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

O mistério das lulas desaparecidas


Por Francisco Freire
[Técnico de Turismo - Faro]

O Algarve é actualmente o principal solar do cão de água português, uma raça que bem recentemente andou nas bocas do mundo por ter sido a escolha do Presidente dos Estados Unidos da América, Barack Obama, para animal de companhia das suas filhas. O cão de água português foi durante muitos séculos usado como auxiliar na faina da pesca.

Nadador, mergulhador exímio e resistente é inseparável companheiro do pescador a quem presta inúmeros serviços, tanto na pesca como na guarda e defesa do seu barco e propriedade. Durante a faina da pesca, atira-se voluntariamente ao mar para apanhar e trazer o peixe escapado das redes, mergulhando se for necessário, e procedendo da mesma forma se alguma rede se parte ou algum cabo se solta.

Há mais de vinte anos quando se verificava um reduzido número de exemplares da raça, o Guiness Book of Records chegou a considerar o cão de água português como o mais raro do mundo, chamando a atenção de muita gente para esta raça extraordinária de cães pescadores, corajosos e dóceis, inteligentes e combativos, afectuosos e alegres.

Pessoalmente tenho em casa o vivo testemunho de todos estes atributos. Se há cão inteligente é sem dúvida o meu cão de água, o Marujo.

Há dois ou três anos atrás a minha mãe foi fazer umas compras ao mercado e quando regressou a casa, entre outras coisas trazia um saco de lulas que colocou na bancada da cozinha. Passados alguns minutos deu pela falta do saco e pensou logo que teria sido o Marujo que sorrateiramente as teria roubado. Procurámos por toda a casa algum vestígio das lulas e perguntámos ao Marujo para onde as teria levado. Ele abanava muito o rabo e dirigia-se para a cozinha. À vista não estavam.
A minha mãe insistia que as tinha deixado em cima da bancada e que elas não estavam lá. O Marujo insistia em abanar o rabo e em apontar caminho para a cozinha.

Depois de várias e inúteis voltas pela casa, lembrei-me de repente de abrir a arca congeladora existente na cozinha e lá estava o saco das lulas.
Confronto a minha mãe com a situação que teima que as deixou em cima da bancada.

Fantasmas?

Amnésia?

Querem ver que foi o Marujo que as guardou na arca?

É que o Marujo, de verdade, costuma acender e apagar as luzes de casa e até abre e fecha portas.
O certo é que a minha mãe nunca reconheceu ter sido eventualmente ela a colocar as lulas na arca congeladora e o Marujo, até hoje, não confirma nem desmente qualquer proeza que pudesse ter feito.
Marujo (cão de água português)

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Mais uma história de Olhão


Por António Pina
[Ex-Governador Civil de Faro, ex-Presidente do Turismo do Algarve, cidadão algarvio]

Como em qualquer boa terra de pescadores que se preze, contam-se em Olhão um número infindável de histórias e de dizeres. Quase todas revelam alguma ingenuidade, aliada a um certo sentido de humor a que o próprio sotaque da terra, muitas vezes incompreensível para os que não labutam no mar, dá um carácter próprio.

Ora bem… em tempos que já lá vão, vivia em Olhão um pescador, de seu nome Balé, que além da pesca gostava de uma boa pinga. O bom do Balé assim que abria os olhos, agarrava-se à sua inseparável garrafinha de bagaço, que só largava quando, ao fim do dia, já de rastos se atirava para a cama.

Uma manhã, acorda o Balé pelo lusco-fusco, toma o seu pequeno-almoço de bagaço e ainda em fraqueza repete mais um copo e outro ainda, porque um homem tem que estar bem alimentado antes de ir pró mar…

E lá vai ele a caminho do barco… Um grande bom dia à Nossa Senhora do Rosário da Igreja Matriz: “Bom dia, Patroa…a bênçaa” . Mais meia dúzia de vénias à Nossa Senhora da Soledade: “A bênçaa…amiga…” E continuando por ali fora, cantarolando, chega ao cais onde na véspera tinha ancorado um iate inglês.

Pois por essa hora o dono do iate estava justamente nas suas lides e ao ouvi-lo cantarolar põe a cabeça por fora da vigia, a fim de ver o que se passava.

Espanto total do Balé ao ver a cabeça do inglês vigia fora, mas sem perder a compostura, porque os homens são para as ocasiões, logo lhe diz: “Moçe…mane englêse antão tense o barque ao pescôçe?”

Porto de recreio - Olhão

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A caixa de moedas romanas


Por Luís Pinto
[Ex-Vogal da Comissão Executiva do Turismo do Algarve]

Passados dez anos, esta é hoje uma história que me faz rir, mas vontade de rir foi o que menos tive quando tudo aconteceu.

Na qualidade de vogal da então Comissão Executiva da Região de Turismo do Algarve e responsável pela área da promoção turística desloquei-me à Islândia para participar na cerimónia de assinatura de um acordo de voos charters que passariam a operar entre Reiquiavique e Faro. Da comitiva algarvia faziam igualmente parte o meu colega de Executivo, Fernando Rocha, o presidente da AHETA Elidérico Viegas e Fernando Hipólito em representação da Agência de Viagens Presidente, que hoje já não existe.

Naquela época uma das peças de prestígio que o Turismo do Algarve tinha para oferecer, em ocasiões especiais como esta, era uma bonita caixa de madeira com uma colecção de moedas romanas. Eram reproduções realizadas em estanho, a partir do original em chumbo, daquelas que foram cunhadas no Algarve, no século I antes de Cristo, atestando a importância desta região durante a ocupação do sudoeste da Península Ibérica pelo Império Romano.

Dias antes da partida, pedi aos serviços do Turismo do Algarve que preparassem cinco destas caixas de moedas, fazendo-lhes o respectivo embrulho com um magnífico papel de presente e laço de fita a condizer.

Fomos então para Reiquiavique e no dia da cerimónia oficial lá nos encontrámos todos com o Ministro de Turismo da Islândia, os operadores turísticos locais, as televisões islandesas e restante imprensa do país.

Chegado o momento de fazer as nossas ofertas comecei por entregar a primeira ao Ministro que, ao abri-la para mostrar publicamente o seu conteúdo, apresenta uma linda caixa forrada a veludo vermelho mas sem nada lá dentro. Vermelho fiquei eu, pedindo de imediato uma segunda caixa e explicando que teria havido um lapso dos meus serviços. A segunda caixa apresentou-se da mesma forma: vazia. Cheio de calor e mais vermelho ainda, pedi a terceira caixa. E claro, o resultado foi o mesmo. E assim, até à quinta, fui oferecendo caixas vazias perante uma delegação portuguesa estupefacta e uma audiência islandesa que, graças a Deus, revelou assinalável sentido de humor e se ria às bandeiras despregadas.


Caixa de moedas romanas (give-away do Turismo do Algarve)

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

O Santo Sacrifício


Por Ilídia Sério
[Empresária - Restaurante Casa Algarvia, Faro]

Ao domingo íamos à missa. Fazia parte das nossas obrigações. Vestíamos a melhor roupa, a que só se usava aos domingos ou em dias de festa, calçávamos os sapatos que não podíamos levar para a escola durante a semana e íamos à missa a S. Pedro.
Havia a missa das nove e meia, aquela a que as mães mais gostavam de ir, mas nós, as raparigas, preferíamos ir à missa do meio-dia.
Essa sim era a missa que nos enchia de alegria e entusiasmo, mas não pelo fervor religioso…
E lá íamos nós, chilreando como passarinhos, saltitando pelo caminho. Atravessávamos o Largo do Carmo, que nesse tempo não tinha sequer um automóvel estacionado, e entrávamos na Igreja de S. Pedro.
Percorríamos a nave central e sentávamo-nos no lado direito, o mais atrás possível (quando as mães deixavam), para podermos dar uma espreitadela, pelo canto do olho e por cima do ombro, aos rapazes que se encostavam à porta da igreja, de pé, para poderem ver todas as raparigas lá à frente.
E o fim da missa era o momento mais esperado…
Os rapazes eram os primeiros a sair e colocavam-se estrategicamente do lado de fora, para verem “de camarote” todas as raparigas a sair da igreja.
Era o Santo Sacrifício da Saída.

Igreja de São Pedro - Faro

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Curiosidade satisfeita


Por Dina Sacramento
[Técnica de turismo - Loulé]

Há relativamente pouco tempo, apareceu um senhor, à porta do Posto de Turismo de Loulé, de aparência absolutamente anódina que, um bocadinho receoso, se assomou e foi perguntando:

“Desculpe minha senhora mas pode-me dizer qual é mesmo o «promenor» disto aqui?”

Eu, sem me desmanchar, respondi-lhe:

“Então o «pormenor» disto aqui é essencialmente dar informações aos turistas. Temos também alguns produtos regionais para venda”.

“Ah!!! Pensei que fosse uma farmácia - respondeu o senhor - mas ao mesmo tempo estava-me a fazer espécie ver tanta gente estrangeira entrar e sair daqui com um papelinho na mão, assim já percebo. Obrigado e tenha uma boa tarde.”

Claro que desejei uma boa tarde ao senhor também, e com uma amiga, que aqui estava por coincidência a visitar-me, rimo-nos achando graça à maneira peculiar como o senhor satisfez a sua curiosidade.

Largo de São Francisco - Loulé

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A Medalha do Investidor


Por Jorge Felner da Costa
[Ex-Director de Centros de Turismo de Portugal em Londres, Paris, Nova-Iorque, entre outros.]

Nos anos 80 em Londres, no mandato do Secretário de Estado do Turismo, Nandim de Carvalho, em plena campanha de relançamento do Algarve como destino turístico ideal para desportistas, ressurgia o interesse dos investidores em projectos parados devido às consequências do 25 de Abril, nomeadamente nos grandes resorts como Vilamoura, Vale do Lobo e Quinta do Lago.

Um deles, um tal John Beri, apresentou um plano para um projecto de grande qualidade, no valor de 1 milhão de libras e destinado a uma classe alta do mercado britânico.
Apoiado pelas autoridades portuguesas, o projecto foi divulgado com grande publicidade tanto no nosso país como no Reino Unido.
A fim de o apresentar às melhores classes deste sofisticado mercado, foi organizada uma recepção para a qual foram convidados de honra os Duques de Kent e o Secretário de Estado Nandim de Carvalho, que para o efeito se deslocou a Londres.

Na véspera da cerimónia, nos excelentes escritórios do Centro de Turismo de Portugal, em plena New Bond St, no coração de Mayfair, no mesmo local onde se encontra hoje a elegante loja Ralph Lauren, o Secretário de Estado do Turismo constatou a inexistência de qualquer peça que possibilitasse a realização de uma homenagem especial ou reconhecimento aos investidores e decidiu criar ali mesmo um “Diploma de Honra” e uma “Medalha de Mérito do Investidor”, a fim de os poder entregar durante a cerimónia do dia seguinte.

De imediato foi incumbido o nosso colaborador Jorge de Paiva Raposo, responsável pela campanha publicitária do Sportugal, de criar um diploma apropriado e vistoso, sendo-me pedido a mim que inventasse ou descobrisse uma medalha para entregar ao John Beri.
Na ausência de qualquer alternativa e por falta de tempo para solicitar alguma ajuda a Lisboa, entreguei uma bonita e antiga medalha do extinto SNI -Secretariado Nacional de Informação, onde se mandou gravar as palavras “Mérito do Investidor”.
E lá partimos com os diploma e medalha forjados, satisfeitos por conseguir uma solução para impressionar o próprio John Beri, assim como a assistência e a imprensa presentes.

Claro que a bela medalha de mérito foi o único exemplar desta “trapalhada”, mas a satisfação do SET em poder representar a encenação foi justificação suficiente para que o assunto ficasse devidamente “congelado”, como prometido, durante 30 anos.
Mas que foi verdade, isso garanto que foi.
Quinta do Lago