sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Iscas com elas


Por Ilídia Sério
[Empresária - Restaurante Casa Algarvia, Faro]

Eram os anos áureos do turismo, no nosso Algarve, anos 70 ou 80, não consigo recordar exactamente. O Aeroporto de Faro ainda funcionava nas antigas instalações, um barracão, pomposamente apelidado de Aeroporto Internacional, sem condições quase nenhumas para se poder trabalhar e receber condignamente os turistas, nessa altura maioritariamente ingleses.
A maior parte das empresas de carros de aluguer sem condutor e até das agências de viagens, não tinham balcão próprio no edifício do aeroporto, e como tal, os respectivos funcionários tinham que trabalhar em cima do joelho. E nas longas esperas impostas pelos atrasos dos voos tudo se fazia, tudo se conversava. Contávamos anedotas, falávamos dos amigos, das tricas, enfim, tentávamos ocupar o tempo da melhor maneira….
Desse grupo dos “sem abrigo” do aeroporto faziam parte alguns rapazes e raparigas ingleses que tinham vindo para Portugal trabalhar, na maior parte representantes das empresas que transportavam os turistas para o Algarve.
Inevitavelmente, não falavam português. E um dos maiores divertimentos que nós tínhamos era “ensiná-los” a falar a nossa língua, trocando as palavras certas, por outras, não muito recomendáveis…
Mas o episódio mais engraçado a que eu assisti foi passado com uma inglesinha loirinha, a June. Um dia fomos almoçar todos juntos e ela, ao tentar decifrar o menu, esbarrou com um prato chamado ISCAS. Lá lhe explicámos que "iscas" era "fígado", e ela ficou muito feliz por ter aprendido mais uma palavra em Português.
Passados dias, a boa da June, depois de uma noite bem regada com o nosso bom vinho, andava pelo aeroporto, agarrada à barriga, a queixar-se que estava com uma crise de “iscas”.
Bons velhos tempos!!!
Aeroporto de Faro, anos 60

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O lobisomem da Franqueada


Por Dina Sacramento
[Tecnica de Turismo - Loulé]


Contava um tio-avô meu que quando ia namorar, às quartas-feiras e aos sábados, únicos dias autorizados naquela época (anos 20), acontecia-lhe quase sempre coisas esquisitas ao passar por uma encruzilhada sita na Franqueada, onde hoje há uma ponte sobre a ribeira de Carcavai, na velha estrada para Quarteira. Desculpem-me os detalhes mas, como pessoalmente gosto sempre de poder identificar locais e pessoas, penso que poderá interessar a outros também.

Então passando à estória: contava ele, muito convencido e sem qualquer lugar a dúvidas, que certa noite, passando por esse sítio, encontrou um cordeirinho que ao vê-lo se pôs a balir. Estranhando por não ver a mãe por perto e ser tão tarde para o animal estar naquele lugar, agarrou nele pondo-o às cavalitas. Mal o tinha posto sobre os ombros ouviu uma voz sussurrar: “quando me puseres no chão põe-me devagarinho”.
"Ai caramba… agarrei no bicho e espetei com ele no valado!" Eram essas as palavras do tio Blé Anica, pois assim se chamava esse meu tio-avô.

Nos dias seguintes andou intrigado, mas não contou nada a ninguém. Só observava para ver se conseguia saber quem era o lobisomem, até que por fim encontrou alguém seu conhecido com um grande galo na testa e um braço pendurado ao pescoço… perguntou-lhe imediatamente o que lhe tinha acontecido, ao que o outro respondeu: “porque perguntas? Não sabes o que foi?"

Claro que eu com 5, 6, ou 7 anos acreditava em cada uma destas palavras, ainda por cima vindas de alguém tão respeitoso como era aquele senhor … Passado algum tempo comecei a questionar-me sobre a veracidade desta e de outras estórias que ouvi na minha infância.
Não consigo acreditar que há bruxas “mas que as há, há...”


Castelo de Loulé

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Sportugal



Por Jorge Felner da Costa
[Ex-Director de Centros de Turismo de Portugal em Londres, Paris, Nova-Iorque, entre outros.]


Na sequência e em resultado da agitação provocada pelo golpe do 25 de Abril 1974, foi vertiginosa a quebra sentida na procura turística para os nossos destinos, de todos os mercados tradicionais, sendo notório nomeadamente no Algarve um cenário de penúria, pelo estado de abandono dos novos e velhos projectos turísticos, sem o movimento turístico habitual, mesmo em pleno Verão.
Urgia fazer qualquer coisa para relançar a confiança nos turistas, preocupados com as notícias que inundavam a imprensa internacional e as imagens de manifestações com bandeiras vermelhas visíveis nos noticiários televisivos dos seus respectivos países.
No Centro de Turismo de Portugal em Londres, no decurso de 1979, analisavam-se várias soluções acompanhando as compreensíveis preocupações dos responsáveis das regiões turísticas e finalmente foi decidido optar por um sector apolítico, que mostrasse um potencial para férias em Portugal, em qualquer altura do ano, e abstraísse dos inconvenientes da agitação que se vivia no País.
Foi decidido lançar o DESPORTO como alternativa para atrair os turistas provenientes do norte da Europa e fazer uma experiência forte no Algarve.
Foi contactada a nossa agência de publicidade para apresentar um slogan que fosse simultâneamente curto, forte e incisivo, com impacto suficiente para chamar a atenção dos potenciais turistas, num mundo carregado de ofertas de viagens.
A proposta que nos foi entregue, em telefonema feito num domingo tal a excitação da descoberta, foi aceite de imediato.
Disseram-nos que escrevêssemos a palavra Portugal num papel… e que lhe acrescentássemos a letra S no seu início: SPORTUGAL.
Pareceu-nos um ovo de Colombo, uma marca inimitável já que não podia ser utilizada por nenhum outro concorrente, incluindo as 5 letras duma palavra forte - SPORT, sem deixar qualquer dúvida sobre o objectivo e o sentido do nome: Desporto em Portugal.
No dia seguinte, em reunião com o director da nossa agência de publicidade, avançámos com o desenvolvimento de um slogan e foram aprovados dois:

Sportugal, for every sport under the Sun
Sportugal, the sportsman’s paradise

Desenhou-se uma proposta de folheto, um A4 dobrado em 3, que apresentava na capa um desportista equipado com uma série de apetrechos desportivos: 1 raquete de ténis, 1 saco de golfe, calçado com uma bota de cavaleiro e uma palma de nadador, 1 cana de pesca, espingarda e uma prancha de surf ao lado, etc.
Marcada uma viagem a Lisboa, fomos rapidamente apresentar o projecto à sede da Direcção Geral de Turismo, que mereceu o apoio imediato da direcção da Promoção Turística, nessa altura chefiada por José Carrasco e sua excelente equipa, que deu luz verde para que se desenvolvesse a ideia e nos assegurou verbas, pela Secretaria de Estado do Turismo, para a divulgar e promover.
Foram idealizados materiais com aquela marca e diversos anúncios para a imprensa especializada e generalizada, preparando-se ainda uma campanha publicitária, nesse primeiro ano, apenas no Reino Unido.
No entanto, o problema consistia em que, na realidade, Portugal não estava nessa altura equipado para ser um destino para desportistas devido à escassez de equipamentos e de variedade de actividades. No Algarve havia apenas 5 campos de golfe, e poucos cortes de ténis. O surf estava pouco e mal desenvolvido ou explorado e apenas em Vilamoura se começava a pensar em fazer mais investimento no sector.
Entrou-se no eterno ciclo vicioso. Os investidores nacionais não se interessariam no desporto por falta desse tipo de procura e os operadores estrangeiros não vendiam pacotes turísticos especializados por inexistência de facilidades desportivas no nosso destino.
Correu-se o risco, com total aprovação superior e a total colaboração da Região de Turismo do Algarve, de sacrificar os primeiros viajantes na busca da nova Meca desportiva para que finalmente os investidores compreendessem o potencial da procura, os projectos arrancassem… e arrancaram mesmo e em força.
Para maior e mais rápida divulgação, combinou-se com a RTA e outros Centros de Turismo, que de imediato aderiram à nossa sugestão, organizar uma série de viagens educacionais, separadas para agentes de viagens e jornalistas, com um formato inédito.
Convidavam-se grupos em número par de cada mercado, para formarem equipas de 2, e num briefing à chegada ao Algarve, entregava-se um carro de aluguer a cada uma, e as instruções para um género de “rally paper”.
Nestas visitas de estudo, tínhamos como objectivo mostrar o que havia de melhor em novas facilidades para a prática de desportos, como golfe, natação, ténis, equitação, surf e tiro aos pratos, mas também os novos desenvolvimentos e complexos turísticos, só que em vez de os levar de autocarro, como habitualmente, cada equipa iria procurar os locais seleccionados para recolha de um objecto ou tomar parte numa prova desportiva entre si.
A animação era enorme. As refeições de convívio eram palco para troca de experiências e episódios de cada prova ou percurso. Realizavam-se mini-torneios de 4 a 6 buracos de golfe, rod robins de ténis, pequenos concursos hípicos, iniciação ao surf em piscinas ou no mar, provas de tiro aos pratos, utilizando vários percursos e equipamentos em hotéis, complexos e sobretudo nas áreas de Alvor, Vilamoura e Vale do Lobo.
Os resultados surpreenderam pela positiva. O facto de muitos jornalistas terem a possibilidade de se iniciarem em modalidades que nunca tinham experimentado antes, os divertidos episódios e a comicidade de situações criadas, a confraternização e sã competitividade e finalmente a distribuição de prémios a todos num jantar de encerramento, deram azo a inúmeros artigos favoráveis nas revistas de turismo e de público aderentes a esta iniciativa.
Nos anos seguintes, as viagens educacionais SPORTUGAL reuniram participantes também de França, Espanha, Suíça, Bélgica, Holanda, Alemanha, Itália e Escandinávia, e muitos directores de CTP’s passaram a acompanhar os seus melhores jornalistas de turismo ou operadores/agentes de viagem, contribuindo empenhadamente para a internacionalização e o sucesso deste projecto.
Após a experiência de vários anos com excelentes resultados no Algarve, foi a vez de subirmos até à Costa do Estoril, que aderiu com grande entusiasmo e onde se realizaram algumas viagens educacionais idênticas, quer para a imprensa quer para os agentes, durante dois a três anos.
Produziram-se inúmeras peças desportivas, merchandising de apoio promocional como sacos, chapéus, palas, t-shirts, sweat shirts, capas para raquetes de ténis e squash, todos com fundo branco e com a marca SPORTUGAL, marca esta que foi mais tarde abandonada por ser considerada uma ideia “passada” e nunca mais os responsáveis do Turismo se interessaram em retomar a ideia que proporcionou tantos e bons resultados.Na altura merecera um louvor do Secretário de Estado do Turismo, Nandim de Carvalho e uma homenagem pela RTA.
Foi pena.

Nota do Turismo do Algarve:

Em complemento ao que nos conta o Jorge Felner da Costa, permitimo-nos lembrar que, embora de forma esporádica, o Turismo do Algarve, retomou em algumas ocasiões a ideia do SPORTUGAL. Abaixo publicamos uma fotografia de uma das últimas edições, em 2000.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Das Imagens às palavras...

Agora que o passatempo fotográfico "Algarve Vintage" chegou ao fim, desejamos manter a ligação com o público que nos tem acompanhado e alargar esta rede de amigos do Algarve.

Para isso, decidimos promover um novo desafio que consiste em passar “Das imagens às palavras” e, a partir do próximo mês de Outubro, iremos publicar regularmente as estórias que esses amigos queiram partilhar connosco.

Publicaremos histórias pessoais, lendas, anedotas, dizeres. Será uma forma de apresentarmos uma região do Algarve contada por todos.

Acreditamos que todos têm muitas histórias para contar e por isso aqui deixamos um apelo à vossa colaboração nesta iniciativa.

Participem! Enviem-nos os vossos textos contando-nos o “vosso Algarve”.

dasimagensaspalavras@turismodoalgarve.pt

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Fotografia das Salinas do Ludo Ganha Passatempo


Uma fotografia a preto e branco das salinas do Ludo, em Faro, tal como eram em 1968 deu o primeiro lugar a Ilídia Sério no passatempo «Algarve Vintage – Desafio Fotográfico», que terminou no dia 31 de Agosto. O prémio é entregue a 11 de Outubro no Grande Real Santa Eulália Hotel & Spa, em Albufeira, e há mais um vencedor apurado.

O segundo lugar também foi atribuído à algarvia Ilídia Sério, numa imagem que retrata uma aula de ginástica no Colégio Farense em 1956.

Em terceiro ficou Teresa Fontinha e o curso de bordado e costura em São Brás de Alportel, na década de 20 do século passado. «Na foto [está] a minha avó paterna, Isabel do Carmo Rosa Fontinha, quando foi aprender costura e bordado nas famosas máquinas Singer. Na altura, costurar e bordar eram competências importantes de qualquer moça casadoira», explica a concorrente na legenda da imagem.

Em 40 finalistas, estas foram as três fotografias mais votadas pelo júri, composto pelo artista José de Guimarães, pela directora do Centro Cultural São Lourenço de Almancil, Marie Huber, pelo realizador Miguel Gonçalves Mendes, pela fotógrafa Telma Veríssimo e pelo presidente do Turismo do Algarve, Nuno Aires.

Os prémios serão entregues às 14h30 do próximo dia 11 e são aliciantes: viagem e estada para duas pessoas nos Hotéis Real do Algarve durante cinco ou três noites (1.º e 2.º lugares) ou apenas estada (3.º lugar). Mas como as vencedoras são algarvias, podem trocar a oferta das «mini-férias» na região por uma viagem para duas pessoas – só deslocação – para um dos destinos internacionais operados pela companhia Ryanair a partir de Faro.

O passatempo permitiu a publicação neste blogue de cerca de 200 fotografias tiradas no Algarve há mais de 40 anos.

A iniciativa inseriu-se nas comemorações dos 40 anos de existência do Turismo do Algarve e contou com o alto patrocínio do Grupo Hotéis Real e da Ryanair.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

ÚLTIMAS

O Júri do passatempo "Algarve Vintage" já tem em seu poder as 40 fotografias seleccionadas para a fase final deste desafio fotográfico. Da sua avaliação e votação sairão as três fotografias vencedoras.

Enquanto o júri vota, este blogue irá publicando aleatoriamente, a partir da próxima Segunda-feira dia 13 de Setembro, as 40 fotografias finalistas.

Não deixe, por isso, de espreitar diariamente por esta janela...

Desde já agradecemos aos membros do júri a sua preciosa ajuda na difícil missão que lhes cabe de eleger apenas três imagens deste Algarve de outros tempos.

Júri constituído por:

José de Guimarães - artista plástico
Marie Huber - directora do Centro Cultural São Lourenço de Almancil
Miguel Gonçalves Mendes - realizador cinematográfico
Nuno Aires - presidente do Turismo do Algarve
Telma Veríssimo - fotógrafa

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Mensagem aos seguidores deste Blogue

Caros e fiéis seguidores deste blogue.

Chegados ao dia 31 de Agosto, damos por terminada a recepção e publicação das fotografias que nos foram enviadas pelos nossos estimados concorrentes. São retratos de épocas que dão corpo à galeria virtual do "Algarve Vintage" do Turismo do Algarve.

A partir desta data, o grupo de trabalho do Algarve Vintage irá seleccionar aquelas que julgar melhor ilustrarem os usos e costumes do Algarve de outros tempos, as quais remeterá para apreciação do júri nacional, conforme previsto no regulamento.

À medida que formos seleccionando os 40 retratos de época, começaremos a publicá-los no blogue, sendo certo que apenas no dia 27 de Setembro serão reveladas as 3 fotografias vencedoras, às quais serão atribuídos os prémios anunciados em regulamento.

Mantenha-se atento à evolução deste Passatempo, que teve uma notável adesão graças a todos os que partilharam connosco um pouco das suas lembranças do Algarve de antigamente.

A todos, concorrentes, bloguistas e seguidores, o nosso obrigado.


O Grupo de Trabalho Algarve Vintage

Primeiro dia de aulas


Primeiro dia de aulas em S. Brás de Alportel, em 1958.
Nesta foto, a minha tia Aida e a minha mãe Maria José (no primeiro dia de aulas da minha mãe), orgulhosamente a caminho da escola.
Ontem, tal como hoje, o começo das aulas marca o fim das brincadeiras de Verão e o começo de novos dias de estudo, na viagem da vida...
Foto enviada por Clara Mourinho